3. Her bir faktöre yüklenen maddelerin anlam ve içerik açısından birbiri ile tutarlı olması (Çeçen, 2006).
3.4. Veri Toplama Araçlarının Uygulanması
À esta altura duas vertentes que se integram na obra de Mia Couto, o grotesco e o sagrado, mais uma vez se conectam. A cena de “As idosas profanadoras”, que foi tomada exemplarmente para desvendar o grotesco, será, em linhas gerais, objeto de análise de alguns aspectos do sagrado explicitados até o momento.
Interessante assinalar que a mistura dos corpos idosos ao do jovem Muidinga ilustra o papel da orgia e da reintegração como propõe Mircea Eliade na obra Tratado de história das religiões. Nesse livro, o autor afirma que a orgia, para além de ser considerada apenas no quadro das cerimônias agrárias, deve ser vista dentro da perfeita analogia entre o fenômeno agrícola e a mística agrária, de um lado, e, de outro, como modalidade da vida coletiva. Deste modo,
Como as sementes que perdem o seu contorno na grande fusão subterrânea, desagregando-se e tornando-se outra coisa (germinação), os homens perdem a sua individualidade na orgia, fundindo-se numa única unidade viva.304
A cena das profanadoras é, neste contexto, uma manifestação sagrada, pois assinala a regressão a um estado primordial em que não havia forma nem lei, correspondendo ao estado de indiferenciação caótica anterior à criação do mundo. Isto é detectável no momento em que há o seguinte encontro:
[...] – O que aconteceu?, pergunta Muidinga.
Tuahir sorri. E lhe explica com modos paternos. O que aconteceu foi que aquelas mulheres estavam em sagrada cerimônia, afastando os gafanhotos que assaltaram as plantações. Elas estavam a enxotá-los, a esconjurar a maldição. A chegada de um intruso quebrou os mandamentos da tradição. Nenhum homem pode assistir a esta cerimônia. Nenhum, nunca.
– É que esses não são gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir fala apontando os campos onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias, mastigavam o mundo. Aquele escasso verde desaparece dentada por dentada.
(TS, 2007, p. 101, grifo meu).
Algo que pode ser acrescido a este ponto de vista é que o conjunto de ações levado a cabo pelas idosas é algo dotado de uma força extremada, porque vital, uma vez
que o rito de esconjurar os feitiços ou espíritos causadores da seca e convidar a chuva transforma o rapaz Muidinga, que é um elemento inesperado, estranho e, portanto, é uma possibilidade desestabilizadora, em matéria sacralizável. Isso é compreensível ao se considerar que Muidinga ainda é criança – logo virgem, puro, indefinido sexualmente – com toda uma potencialidade da qual as velhas sabem usufruir em sua cerimônia.
O convite é para que vejamos essas idosas não apenas como mulheres capazes de espantar, com a deterioração de seus corpos – enfim com uma feiura que adentra o patamar do que é grotesco – até os espíritos. Mais que “megeras”, elas são mulheres que apelam para a terra, seja por gestos de bater com ramos o chão, cantar um tempo vindouro ou dançar invocatoriamente. E o que veem? Uma primeira resposta em carne e osso: Muidinga. A forma de lidar com a terra que lhe responde é bater nela (o menino), xingá-la, arrancar dela, no ápice da celebração, o viço de seu corpo. O comportamento agressivo é o tom do diálogo nesse ritual: com as obscenidades e os xingamentos, as mulheres tentam insultar um poder celeste e obter uma resposta encolerizada.
Após o intenso ataque, Muidinga tem a impressão de que talvez o mundo tenha rodado mais rápido, e aqui podemos entender que é justamente essa a consequência de ter contactado uma até então dimensão diferente – e riquíssima – de tempo, pois este é o tempo sagrado.
A segunda resposta que as velhas profanadores obtêm é ainda mais sutil. É que aquilo que espera Muidinga, fora de toda essa estonteante escuridade, é que “luzes pirilampejam, abrindo soluços no céu” (TS, 2007, p. 101). Estes podem ser lidos como simples efeitos óticos ou como indícios de que a tão desejada chuva está de fato se anunciando numa associação metafórica entre vaga-lumes e relâmpagos. Indo mais além, os soluços na abóbada celeste podem ser tanto um mero reflexo do próprio estado emocional do rapaz, que quer se traduzir em choro, quanto a ideia de que Muidinga foi a terra virgem de quem as velhas arrancaram a chave das chuvas; Muidinga deste modo é o Cosmos. Ele é a virgindade morta e é o homem renascido. E o rapaz, antes menino, não poderá se livrar destas gigantescas forças míticas (de ser terra, território, de abrigar os ciclos de vida-morte-vida). Dito de outra maneira, ao mirar para cima, Muidinga cogita chorar, assim como a terra agora cogita chover. Este personagem por um efêmero momento experimenta ser céu, ou este sagrado céu experimenta adentrar o personagem.
Como vimos no capítulo do grotesco, inicialmente as carnes das idosas parecem assinalar uma antítese especial na qual aquilo que poderia ser considerado
como excessivamente longevo e, por isso, improdutivo, é justamente o que está a cargo de chamar ritualisticamente a chuva (a fonte da fertilidade). Afinal, como corpos ressequidos e desviçosos podem fazer a ponte com o úmido, o fresco, o fecundo? No entanto, as velhas, apesar de não estarem grávidas, a exemplo das figuras de terracota, guardam a força geratriz, a chave para a transformação de uma realidade: o infecundo que pode vir a ser fecundo, pois é por meio de suas danças e seus cantos – enfim, de um ritual – que a terra pode voltar a ser a matéria que nutre as sementes para que se transformem em brotos e daí vinguem as plantações.
Aqui se tem não só uma ruptura entre limites, um desconhecimento de extremos entre mundos e cosmos – que são ideias contidas no fenômeno grotesco – mas há uma superposição, a nosso ver intencional, por parte de Mia Couto, do sagrado ao grotesco, e do grotesco ao sagrado. Com um pouco mais de fé ainda é possível ver, no firmamento e suas luzes piscantes no céu de Muidinga, espelhada a própria esperança como algo a ser perseguido eternamente.