3. ÇağdaĢ öğrenme yaklaĢımlarından dizgeli eğitim modelinin kullanımı ile, 4 Bulguları, araĢtırmada kullanılan veri toplama araçlarının kullanımı ile
2.1. Kuramsal Bilgiler 1 Dizgeli Eğitim Model
2.1.1.1. Eğitim Dizgesinin Girdiler
99Ibidem, p. 12.
100BRAIT. Ironia em perspectiva polifônica, p. 6. 101Ibidem, p. 178.
Um dos aspectos mais importantes do grotesco diz respeito às imagens do corpo. A estrutura física do organismo humano, tanto a parte concreta quanto suas funções fisiológicas, se constitui no veículo para a manifestação do grotesco. O chamado princípio da vida material e corporal, descrito por Bakhtin, a propósito da obra de Rabelais, tem como base as imagens do corpo, da bebida, da comida, da satisfação de necessidades naturais, e da vida sexual, elementos imprescindíveis para se compreender o chamado realismo grotesco. O teórico russo salienta que, neste tipo de realismo, o elemento material e corporal não se encontra à parte de outros aspectos da vida; antes, é um constituinte positivo, percebido como universal e popular. Por esta última característica, apresenta-se em oposição à separação das raízes materiais e corporais do mundo e ao confinamento em si mesmo, já que não aparece sob uma forma isolada como em nossa época. O corpo e a vida corporal não se encontram, deste modo, singularizados nem separados do resto do mundo.102
Esse voltar-se para o que é corpóreo pode ser fácil e erroneamente encarado como uma simples negação do que é superior, altivo, eminente. Bakhtin, ao contextualizar tais parâmetros, impede que essa carnalidade seja vista como um simplório “decaimento”. Ele ressalta que a característica essencial do realismo grotesco é o rebaixamento, isto é, o deslocamento ao plano material e corporal, o da terra e do corpo na sua indivisível unidade, de tudo que é elevado, espiritual, ideal e abstrato. O trecho abaixo ilustra o valor topográfico do alto e do baixo:
No realismo grotesco, a degradação do sublime não tem um caráter formal ou relativo. O “alto” e o “baixo” possuem aí um sentido absoluta e rigorosamente topográfico. O “alto” é o céu; o “baixo” é a terra; a terra é o princípio da absorção (o túmulo, o ventre) e, ao
mesmo tempo, de nascimento e ressurreição (o seio materno). Este é o
valor topográfico do alto e do baixo no seu aspecto cósmico. No seu aspecto corporal, que não está nunca separado com rigor do seu aspecto cósmico, o alto é representado pelo rosto (a cabeça), e o baixo pelos órgãos genitais, o ventre e o traseiro. [...] quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente, mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor.103
Portanto, o rebaixamento consiste em aproximar da terra, estabelecer uma comunhão com a terra concebida como um princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de
102BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.
17.
103BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.
nascimento.104 Essa simultaneidade é recorrente, por exemplo, em imagens, cenas e descrições nas quais o mesmo organismo que está vivenciando uma excessiva longevidade e, por consequência, a esterilidade e a morte, é também aquele que abriga sementes ou proles, ou seja, é um inacreditável veículo para a vida.
Este processo de morte e renovação pode ser ricamente ilustrado ao se tomar as figuras das “velhas grávidas”105 que, conforme demonstra Bakhtin, trazem em si os aspectos contraditórios contidos nas imagens do corpo grotesco. O teórico russo está se referindo às figuras de terracota de Kertch que se encontram no Museu L’Ermitage, de Leningrado, na Rússia. Entre elas, há as que representam velhas risonhas e cuja gravidez aparece grotescamente acentuada, em que a ambivalência – a morte, a velhice, o corpo deformado convivendo com a gravidez e a nova vida – é bem característica do que ele denomina “concepção do corpo grotesco”. Esta combinação ambivalente e contraditória é a expressão do processo da vida como um todo.
Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: é a morte prenhe, a morte que dá à luz. Não há nada perfeito, nada estável ou calmo no corpo dessas velhas. Combinam-se ali o corpo decomposto e disforme da velhice e o corpo ainda embrionário da nova vida.106
João Carlos Rodrigues também destaca a importância desta representação. Segundo o teórico, a figura da idosa grávida é exemplar na cultura medieval, por reunir, a um só tempo, os “signos da decrepitude e da decadência e uma barriga prestes a dar à luz”.107 Imageticamente, a velha em gestação expressa a não-aceitação da antinomia entre vida e morte, vida e decrepidez, pois o corpo é o espaço que abriga todas estas características e manifestações simultaneamente. Além disso, esse autor realça o efeito de comicidade desta convivência de contrários em que o embrião da nova vida tem lugar no corpo decrépito.
Por este prisma, o corpo arruinado das mulheres engendraria harmonicamente a vida (a gravidez) e, ao mesmo tempo, a morte (a velhice), sem que
104Ibidem, p. 19.
105Como se verá adiante, essas figuras são especialmente importantes para a análise do capítulo “As
idosas profanadoras”, do romance Terra Sonâmbula. Foi esta passagem, inclusive, que inspirou o estudo do grotesco no romance de Mia Couto.
106BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.
22-23.
estes polos se excluam mutuamente. Afinal, “este tempo do riso é uma época em que se acredita sinceramente na ressurreição da carne”.108
Em seu propósito de abordar a conexão entre abjeção, marginalidade e grotesco sob o viés do feminino, Mary Russo traça um perfil dos territórios que abarcam “criaturas limítrofes”, as quais inspiraram escritores, artistas performáticos e visuais, além de cineastas contemporâneos. Analisando imagens que contêm em si o exagero, a deformidade, a aberração, a loucura e a diferença incômoda, a autora sustenta que o corpo feminino é frequentemente associado ao grotesco:
A própria palavra, como quase todos os que escrevem sobre o assunto acabam um dia se sentindo obrigados a mencionar, evoca a caverna – a grota-esco (sic). Baixa, escondida, terrena, escura, material, imanente, visceral. Como metáfora do corpo, a caverna109 grotesca
tende a se parecer (e, no sentido metafórico mais grosseiro, identificar) com o corpo feminino anatomicamente cavernoso.110
Essas associações com o grotesco, que a autora qualifica ainda como “terreno, material e arcaico”, indicam, para muitos autores e artistas, sejam eles homens ou mulheres, uma representação vigorosa e positiva de cultura e feminilidade. Ela aponta que, mais que apenas constar na importante obra de Mikhail Bakhtin, com sua “expressão mais forte do grotesco” na imagem da “bruxa senil, grávida”, o tema irrompe “numa certa visão arquetípica destes materiais que ainda prevalecem numa corrente de ‘feminismo cultural’ não-acadêmico”,111 cuja concepção estabelece uma natural aproximação entre o corpo feminino (ele mesmo naturalizado) e os elementos “primordiais”, especialmente a terra, numa perspectiva que valoriza as tradicionais imagens da mãe terra, da bruaca, da feiticeira e da vampira.
Entretanto, Russo alerta para o fato de ser fácil e perigoso deslizar destes “tropos arcaicos para a misoginia que identifica este espaço interior oculto com o visceral”.112 Ainda que de maneira predominante, mas não exclusiva, todos os detritos
108RODRIGUES. Higiene e ilusão: o lixo como invento social, p. 33.
109Corroborando em parte esta perspectiva, a “caverna” possui uma rica e complexa significação
simbólica. Em um destes sentidos, é “o arquétipo do útero materno” e “figura nos mitos de origem, de renascimento e de iniciação de numerosos povos”. Cf. CHEVALIER; GHEERBRANT. Dicionário de símbolos, p. 212-217.
110RUSSO. O grotesco feminino: risco, excesso e modernidade, p. 13. 111RUSSO. O grotesco feminino: risco, excesso e modernidade , p. 13. 112Ibidem, p. 14.
do corpo (sangue, lágrimas, vômito e excremento) estão ali embaixo, “naquela caverna de abjeção” associados “com terror e repugnância [...] ao lado do feminino”.113
Neste sentido, haveria uma insistência na cultura ocidental dessas codificações limitadas do corpo associadas ao grotesco: a Medusa, a Bruaca, a Mulher Barbada, a Dona Gorda, a Mulher Tatuada, a Mulher Indisciplinada, a Vênus Hotentote, a Mulher Faminta, a Histérica, a Vampira, a Personificação da Mulher, as Gêmeas Siamesas, a Anã.114 Persistência essa que, como tivemos oportunidade de defender até aqui, não é emblemática da pluralidade que o corpo grotesco, como um todo, representa e possibilita.