Na História do futuro, observamos que os termos positivos /sacralidade/ e /liberdade/, das mesmas oposições explicitadas na análise anterior, são afirmados no futuro, configurando a espera messiânica. Isso pode ser observado no trecho a seguir, assim como nos elementos que concretizam os termos eufóricos na obra:
Hão-se de ler nesta História [do futuro], para exaltação da Fé, para triunfo da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal do Mundo, altos conselhos, animosas resoluções, religiosas empresas, heróicas façanhas, maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças de estados, de tempos, de gentes, de costumes, de governos, de leis; mas leis novas, governos novos, costumes novos, gentes novas, tempos novos, estados novos, conselhos e resoluções novas, empresas e façanhas novas, conquistas, vitórias, paz, triunfos e felicidades novas; e não só novas, porque são futuras, mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 4-5)
Nesse excerto, observamos que o narrador49 trata como história, isto é, algo da ordem do factual, o futuro que ele próprio dá a ver. Nessa apresentação da História do futuro, é possível depreender o futuro como afirmação da /liberdade/, pela referência a uma paz universal, e da /sacralidade/, por expressões como “exaltação da Fé”, “triunfo da Igreja” e “glória do Cristo”. Nela (trata-se do chamado livro Anteprimeiro, isto é, a apresentação da obra) pode-se depreender ainda uma anterior negação dos termos disfóricos nas transformações tidas como futuras, mas factuais, as “[...] maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças de estado [...]”.
Essas transformações que antecedem e asseguram no futuro a afirmação da /sacralidade/ e da /liberdade/ correspondem à consumação do Quinto Império, um império mundial cristão em torno do qual se harmonizam as nações e se assegura a paz, como se vê no trecho que segue:
Tudo o que abraça o mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Sol, será sujeito a este Quinto Império; não por nome ou título fantástico, como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo, senão por domínio e sujeição verdadeira. Todos os reinos se unirão em um centro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma (sic) só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo. [...] a paz lhe tirará o receio, a união lhe desfará a inveja, e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 11)
Cabe lembrar que o Quinto Império é tido como sucessão e, ao mesmo tempo, substituição dos impérios anteriores: o Romano, o Grego, o Persa e o Assírio (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 3). A base da crença no Quinto Império, Vieira a tira, sobretudo, do livro do profeta Daniel, profeta que, revelando o conteúdo e o sentido do sonho do Rei da antiga Babilônia, Nabucodonosor, durante o cativeiro dos judeus nessa cidade, fala de
49 Lembramos que, de acordo com a hierarquia enunciativa, apresentada no Capítulo 1, por “narrador”
entendemos o “eu” instalado no texto-enunciado, enquanto por “enunciador”, o “eu” que se inscreve no
nível da enunciação (tomada como ato sempre pressuposto pela própria existência do enunciado). O
narrador é, assim, uma projeção do enunciador (no caso, o “autor implícito” Vieira, enquanto fonte de
uma estátua cujas partes eram de diferentes compostos (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 5-6). Essa estátua, que simbolizaria os diferentes e sucessivos impérios humanos no mundo (do Assírio ao Romano), é derrubada e destruída por uma pedra que se solta de um monte, o que representaria o Quinto Império, tido como o reino do Cristo.
Essa interpretação está em conformidade com a tradição e a exegese da Igreja, como justifica o próprio narrador. O que distingue suas ideias daquelas assumidas (impostas) pela Igreja – e explica, em parte, a investigação da obra pelo Santo Ofício – é o fato de se defender que o Quinto Império seria, simultaneamente, um reino espiritual e temporal do Cristo, reino que se realizaria na Terra em vez de no céu (“Da Terra é logo este Império, e na Terra é que há de ser servido e obedecido e reconhecida de todos os reis dela”) e cuja consumação se daria em breve. Trata-se, no dizer profético do
narrador, de “esperanças que hão-de ver os que vivem, ainda que não vivam muitos anos, mas viverão muitos anos os que as virem” (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 8).
Para defender a sua interpretação dos fatos, o narrador explica o que seria o futuro reino do Cristo na Terra:
Quando chamamos Império temporal ao de Cristo, não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo, nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo, a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades; e isto é só o que negam as Escrituras, isto o que não admitem os Padres, e isto o que explicou o mesmo Cristo, quando disse: Regnum
meum non est de hoc mundo.
O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal, é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens, sobre todos os reis, sobre todas as cousas criadas, com poder de dispor delas a seu arbítrio, dando e tirando reinos, fazendo e desfazendo leis castigando e premiando, com jurisdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos, antes com muito maior, mais perfeito e mais excelente domínio, não dependente como eles das criaturas, mas absoluto soberano, sublime e independente de todos (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 27).
As grandezas e realizações desse Quinto Império seriam apontadas no livro III da História do futuro, livro a partir do qual o texto não avançou ou se perdeu em função inclusive do processo sofrido por Vieira junto ao Santo Ofício. Desse livro, assim como dos demais não concluídos/encontrados, há apenas uma espécie de esboço na forma de tópicos sobre as questões e respostas que seriam desenvolvidas. De todo modo, nesse esboço, o Quinto Império é descrito como marcado por um estado de perfeição, completude: a paz seria universal e a justiça alcançaria todos os povos de todos os lugares da terra (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 64-65).
Essas condições trazidas pelo Quinto Império – justiça e paz universais – realizam, em termos de estruturas profundas, a afirmação da /liberdade/. Ao mesmo tempo, como se trata de um reino teocrático, dirigido pelo Cristo, esse reino concretiza, no futuro, a afirmação do termo /sacralidade/. A projeção dessas operações num futuro breve é o que parece corresponder à espera messiânica, o que o texto em exame reforça.
2.2.2 O negativo presente: conflitos na Europa
A noção de espera, no entanto, implica representar o presente de forma negativa, concretizando a afirmação dos termos disfóricos das oposições com as quais temos trabalhado. Na abertura da História do Futuro, afirma-se que uma das utilidades do texto é trazer, na exposição do que se verá em breve, consolo e paciência aos leitores cristãos (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 18), o que pressupõe a existência de uma realidade negativa no presente.
Além disso, se, como vimos, o futuro reserva uma afirmação dos termos eufóricos pelo advento do Quinto Império, isto é, o reino do Cristo que substituirá os diferentes e sucessivos impérios humanos, estabelecendo a unificação política e religiosa do mundo, podemos supor que o presente se caracteriza justamente por uma afirmação dos termos disfóricos /profanidade/ e /opressão/, concretizados pela existência de múltiplos e opressores impérios humanos e pela falta de unidade religiosa. Isso é confirmado em vários trechos da História do futuro. A afirmação da /opressão/ e da /profanidade/ se concretiza, mais especificamente, como guerras entre nações europeias, em especial as movidas por Castela contra Portugal, e como o cruel avanço do império turco, como mostra o trecho a seguir:
Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente, com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria, e quase, batendo às portas de Praga, corte do Império, os campos talados, as cidades destruídas, os homens barbaramente mortos a sangue-frio, as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia, os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados, e, depois de profanados, abrasados e feitos em cinzas; e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império, vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal [...]! (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 9)