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O éthos é algo que está relacionado ao próprio ato de comunicação, pois, como

explica Amossy (2005, p. 9), “todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si”. Já dissemos anteriormente que o éthos está ligado ao enunciador, actante

da enunciação. Como o enunciador é parte de um nível enunciativo implícito, pressuposto pelo discurso-enunciado, o éthos não está relacionado a um dizer explícito, a um falar de si no enunciado (embora isso possa ocorrer), mas a uma imagem conotada por ele, apreendida mais no nível da enunciação (FIORIN, 2004a, p. 120). Como afirma Maingueneau (2008c, p. 57), o “éthos não age no primeiro plano, mas de forma lateral”.

Nisso parece consistir grande parte da força persuasiva do éthos, considerado por Aristóteles, no âmbito das provas retóricas, como o principal meio de persuasão. Acreditamos mais prontamente nos que se dizem mais dignos de confiança não porque o dizem diretamente, mas pelo fato de seu discurso ser apresentado de tal forma que torna o orador/enunciador digno de fé. Assim, na prova retórica do éthos em Aristóteles, o enunciador, pela forma como constrói seu discurso, apresenta uma imagem de si capaz de conquistar a confiança do público/auditório.

Na Retórica de Aristóteles, são três as características que tornam os oradores persuasivos, dignos de confiança: a prudência, a virtude e a benevolência (II, 1378a), respectivamente, phrónesis, areté e eúnoia, segundo os comentadores de Aristóteles. Eggs (2005, p. 32; grifos do autor) explica, de forma bastante clara, a construção dessas três dimensões do éthos ou desses três éthé, afirmando que “os oradores inspiram confiança (a) se seus argumentos e conselhos são sábios e razoáveis, (b) se argumentam honesta e sinceramente e (c) se são solidários e amáveis com seus ouvintes”.

Cada uma dessas dimensões do éthos está relacionada a uma das provas retóricas, podendo o orador, nos diferentes discursos, valer-se ora mais de uma, ora mais de outra, o que remete a diferentes formas de adaptação ao público. A phrónesis relaciona-se ao uso mais acentuado da prova do logos, correspondendo a uma imagem ligada à ponderação, sensatez, racionalidade; a areté, por sua vez, se constrói, sobretudo, pela ênfase sobre o próprio éthos, correspondendo a uma imagem de alguém franco, sincero, ou mesmo “desbocado”; por fim, eúnoia ocorre quando o orador se vale mais do páthos, mostrando-se solidário e benevolente para com o público (FIORIN, 2004a, p. 121).

Em Meyer (2010), a noção de éthos é interpretada a partir de sua visão problematológica do exercício da fala e da argumentação. Como toda enunciação é suscitada por uma questão (em sentido amplo), o éthos está ligado necessariamente a um princípio de autoridade e responsabilidade a que se submete o enunciador, que se põe como uma fonte de respostas (op. cit., p. 152 e 155-156). Como enunciar é responder – em sentido amplo – a alguma questão, a um problema, o orador, se quiser convencer, deve demonstrar autoridade e inspirar confiança (op. cit., p. 153).

Para Maingueneau, a função persuasiva do éthos está relacionada à confiança transmitida pelo tom do discurso, termo com o qual ele busca abarcar elementos da produção tanto oral quanto escrita. O autor vê na noção de éthos ainda uma articulação entre corpo e discurso. Defende que todo discurso apresenta uma vocalidade própria que remete não apenas a um caráter, mas ainda a um corpo comunicante, ao corpo do enunciador (MAINGUENEAU, 2008c, p. 64). Para ele, o tom do discurso (entonação, seleção vocabular etc.) faz emergir os traços da fonte enunciativa: os traços psicológicos, isto é, o caráter do enunciador, mas também seus traços físicos ou sua corporalidade, elementos que, somados, conferem ao éthos a sua função persuasiva de

“fiador”, atestando o que se diz (MAINGUENEAU, 2005, p. 64 e 72).

Cabe frisar que, na interpretação de Maingueneau, a corporalidade não se refere ao corpo do locutor extradiscursivo, mas a representações de tipos físicos, formas de se vestir e de se mover no espaço social. O corpo comunicante é, com efeito, uma inscrição do enunciador em formas mais ou menos estereotipadas de corporalidade, que são reconhecidas e avaliadas pelo enunciatário. Isso tem a ver, assim, com o que Maingueneau (2008c, p. 65) chama de mundos éticos: representações que relacionam o

éthos a formas estereotipadas de estar no mundo e de dizer35, as quais se ligam ainda à cenografia, como explicamos na descrição das cenas da enunciação propostas pelo autor.

Além dessas reflexões, considerando uma distinção entre éthos visado (perspectiva do enunciador) e éthos efetivo (perspectiva do enunciatário), Maingueneau amplia sua abordagem, distinguindo um éthos pré-discursivo (ou prévio), que corresponderia à imagem que o enunciatário tem do enunciador antes de ter acesso ao seu discurso, e um éthos discursivo, que se divide em éthos dito (nível do enunciado) e éthos mostrado (nível da enunciação) (MAINGUENEAU, 2008c, p. 71). Assim, além do tom que o locutor confere ao seu discurso (éthos mostrado), o éthos discursivo, na visão do autor, compreende as informações que esse locutor dá de si mesmo ao outro (éthos dito), o que entra na problemática do éthos efetivo.

Na análise do corpus, buscaremos levar em consideração a convergência entre as ideias apresentadas nesta seção. Ou seja: compreender o éthos não como estando relacionado a traços de seres fora da linguagem, mas como efeito de sentido do discurso, discurso esse que, pela autoridade que manifesta e pela confiança que

transmite, constrói uma espécie de “fiador” (garant, em francês), uma imagem

associada a um caráter e a uma corporalidade que sustentam o dizer.

Interessa-nos, principalmente, no que se refere ao discurso messiânico, apreender a forma como, nos diferentes textos, emergem características do enunciador que apontam para uma inscrição em alguma forma de mundo ético estereotipado. A nosso ver, compreender um discurso como messiânico, tal como no exemplo dado por Fiorin (2004a) sobre as gerações românticas (ver nota 35), é apreender, em alguma medida, uma forma de constituição do éthos que aponta para uma representação mais ou menos cristalizada do enunciador de mover-se no mundo, um estereótipo. Em suma, nosso objetivo no exame do éthos é menos explicitar a imagem do enunciador em cada caso do que apreender aquela que, atravessando os textos que compõem o corpus, pode- se mostrar como a imagem de enunciador própria ao discurso messiânico.

35

Fiorin (2004a, p. 130 -132) nos dá um claro exemplo disso ao confrontar as produções da segunda geração romântica e as da terceira. Segundo ele, na segunda geração, o éthos apresenta um corpo jovem, magro, pálido e um caráter oscilante, ora melancólico, ora apaixonado. Na terceira geração, o éthos apresenta um caráter lutador, ativo e um corpo vigoroso.