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Comecemos pelo poema Terceiro, que faz parte da primeira parte do livro, Brasão, e que, portanto, explicita um estado caracterizado pela afirmação dos termos eufóricos das oposições /sacralidade/ versus /profanidade/ e /liberdade/ versus /opressão/.

TERCEIRO

O CONDE D. HENRIQUE Todo começo é involuntário. Deus é o agente,

O herói a si assiste, vário E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada Teu olhar desce.

“Que farei eu com esta espada?”

Ergueste-a, e fez-se. (PESSOA, 2010, p. 28)

Nesse poema, a afirmação da /sacralidade/ é concretizada pela atuação divina, da qual é instrumento o ator destacado, o Conde de Portucale, pai do primeiro Rei de Portugal, Afonso Henriques. Essa atuação divina pode ser mais bem compreendida com uma análise que considere a estrutura do acontecimento, no quadro da Semiótica Tensiva de Zilberberg (vide Capítulo 1, seção 1.2.2.2).

Ambos os atores, Deus e o Conde, são agentes, caracterizados pelo fazer (“Deus é o agente” / “Ergueste-a, e fez-se”), mas, nos termos da semiótica tensiva de Zilberberg, o primeiro é um sujeito da focalização, marcado pela intencionalidade, ao passo que o segundo é o sujeito do sofrer, marcado pela não intencionalidade (“involuntário”; “o herói a si assiste, vário / E inconsciente”; “Que farei eu com esta

espada?”), já que é determinado pelo primeiro e tomado pelo acontecimento que é a

constituição de Portugal, tal como é tematizada no poema e na obra como um todo. A apreensão do sujeito pelo acontecimento é dramatizada graças ao recurso da debreagem de segundo grau. O personagem histórico é convertido aqui em interlocutor, a quem o narrador dá voz, após a sua descrição: “À espada em tuas mãos achada/ Teu olhar desce / Que farei eu com esta espada?”. Observando esse recurso, vemos que o sujeito não governa seu corpo; é como se fosse possuído pela instância divina, o que explica sua admiração em relação aos seus próprios movimentos.

Essa caracterização dá ao sujeito a condição de instrumento54 do propósito divino, observada ainda pelo aspecto pontual das ações do ator humano (“Ergueste-a, e fez-se”), ações condensadas no último verso. Essa condensação parece ser um recurso formal que, do ponto de vista da transformação, dá às ações um caráter mítico, mágico, ao mesmo tempo em que, do ponto de vista da competência modal do sujeito, enfatiza o caráter mecânico de suas ações, ações que se impõem a ele e das quais esse ator não é senão um executor inconsciente e admirado.

Em Mensagem, a origem de Portugal – seu surgimento como nação – concretiza, portanto, a afirmação da /sacralidade/, pela atuação de uma instância divina, que de certo modo se apossa dos (encarna nos) agentes terrenos: os fundadores do Estado nacional e os promotores de suas conquistas. Isso é o que lhes confere o traço /sagrado/

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Como defendem Pietroforte & Lopes (2003, p. 120), um instrumento ocupa uma posição intermediária entre a categoria dos objetos e a dos sujeitos, o que permite vê-lo ora mais como objeto, ora mais como sujeito, dependendo do discurso que o põe em cena. Destacam, no entanto, que o instrumento, ao ser tomado como um meio para fazer algo, adquire uma agentividade que o inscreve na categoria dos sujeitos, visto que, culturalmente, o fazer é visto como atributo dos sujeitos. No caso, o instrumento/sujeito seria, no mínimo, um adjuvante da ação.

e caracteriza a existência de Portugal e suas conquistas como um plano divino, como se pode ver ainda no poema que segue:

SÉTIMO (I)

D. JOÃO O PRIMEIRO O homem e a hora são um só Quando Deus faz e a história é feita. O mais é carne, cujo pó

A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a glória e deste o exemplo De o defender,

Teu nome, eleito em sua fama, É, na ara da nossa alma interna, A que repele, eterna chama, A sombra eterna.

(PESSOA, 2010, p. 29)

Esse poema apresenta a mesma visão do anterior, na medida em que, sendo o ator destacado (D. João o Primeiro) e Deus ambos agentes, a intencionalidade é uma característica apenas do segundo. A história se faz graças à intervenção divina (“Quando Deus faz e a história é feita”), condutor do projeto que eleva Portugal. A nação é paciente no seu próprio processo de constituição e de consolidação (“foi feito ser”) realizado pela instância divina, o que lhe confere o traço /sagrado/.

Essa condição é reiterada ainda pelas figuras da isotopia religiosa: o Templo, na metáfora que define Portugal a partir de uma comparação implícita com o espaço divino, e a ara (o altar), na metáfora religiosa que define especificamente a alma portuguesa (“na ara da nossa alma interna”). Assim, no projeto divino que constitui Portugal, o ator D. João Primeiro55 é um agente inconsciente e governado pela intenção divina: “Mestre, sem o saber, do Templo/ Que Portugal foi feito ser/ Que houveste a glória e deste o exemplo / De o defender”.

O texto apresenta ainda o que pode ser considerada uma síntese de como a origem e as conquistas de Portugal são recriadas de forma mítica em Mensagem. Os atores evocados, reverenciados ou mesmo invocados (como instâncias sagradas) aí são os construtores da base do Estado e da identidade de Portugal, mas o fazem como agentes do projeto divino. A glória deles reside em ser instrumento divino, não raro sem

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D. João Primeiro foi o décimo Rei de Portugal e se notabilizou pela resistência e vitória frente à invasão castelhana e por ter reinado durante a descoberta portuguesa das ilhas dos Açores, de Porto Santo e da Madeira (cf. Notas da edição de PESSOA, 2010, p. 49).

consciência e sem intenção em relação ao que edificam. Eles são sacralizados porque esvaziados de humanidade e tomados, possuídos pela divindade.

Isso tem relação com aquilo que é a tônica do livro Mensagem. Os poemas como um todo compõem uma rejeição ao humano, ao físico, ao real, em proveito do espiritual/divino, transcendente, do mítico e eventualmente do onírico e do imaginário. Os primeiros, não raro, são relacionados à efemeridade, à esterilidade, articulando /profanidade/ e /morte/. Já os demais são associados à perenidade e ao fecundo numa relação entre /sacralidade/ e /vida/. A rejeição a tudo aquilo que remete, em última instância, ao /profano/ pode ser entendida ainda como a aplicação da categoria da /foria/: a /sacralidade/ é marcada pelo traço da euforia e a /profanidade/, pelo da disforia, como vimos nos demais textos analisados.

O poema anterior expõe essa visão graças a uma série de oposições temáticas e figurativas caras ao discurso religioso, como corpo/alma; claro/escuro (chama/sombra); eterno/passageiro; divino/humano. Sem a divindade, o homem se reduz à “carne”, que figurativiza a /profanidade/, e sua condição é efêmera e passageira (“carne, cujo pó / A terra espreita”), em articulação com a /morte/ (“A sombra eterna”).

Aquilo que dura e vive, por outro lado, está ligado à /sacralidade/. É o caso da história – aquilo que permanece no tempo –, história essa que, no poema, é produto da ação divina (vide o segundo verso). Também dura, permanece o ator destacado no poema, porque destituído da matéria, do corpo (ficando “nome” e “fama”), sendo espiritualizado, sacralizado (“É, na ara da nossa alma interna”) pelo fato de ter sido instrumento da ação divina (“eleito em sua fama”). É por participar do /sagrado/, tornando-se uma instância sacralizada, alvo de devoção “na ara da nossa alma interna”, que esse ator contribui com a /vida/ e com a glória – “eterna chama” –, repelindo ao mesmo tempo a /morte/ e o esquecimento/ostracismo – a “sombra eterna” –, elementos próprios da /profanidade/ e que ainda estão ligados à /opressão/ no presente, como se verá mais adiante.

No subgrupo de poemas que compõem Os castelos, ainda na primeira parte do livro (Brasão), a sacralização dos atores destacados revela-se igualmente na interlocução. Prevalece aí uma invocação lírica em que o narrador, em primeira pessoa, dirige-se aos personagens da história de Portugal, constituídos assim como narratários de uma interlocução espiritual, religiosa, à maneira da oração e/ou da louvação. É o caso dos dois poemas já analisados.

Em outros, porém, o narrador é o próprio personagem histórico, lembrando o fenômeno da heteronímia pessoana, como é o caso dos poemas que compõem o subgrupo As Quinas56. Entre eles, analisaremos o poema a seguir, salientando especificamente como ele representa um passado português marcado pela /sacralidade/ como nos poemas anteriores.

SEGUNDA

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça A sua santa guerra.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça, Às horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome, E este querer grandeza são seu nome Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma. (PESSOA, 2010, p. 34)

Nesse poema, a afirmação da /sacralidade/ corresponde no nível narrativo à doação modal e à aquisição da competência que habilitam o actante a agir como instrumento divino (“... faça / A sua santa guerra”). A modalidade do /poder/ é figurativizada pelo “gládio” (espada), doado pela divindade ao sujeito, e pela expressão metafórica “Cheio de Deus”, que de certa forma reatualiza a oposição figurativa corpo/alma (espírito) já observada. Quesado (1999, p. 56) explica que a espada, na simbologia cristã, está ligada a um duplo estatuto: de guerreiro e de santo, o que guarda relação com a missão do ator de fazer a “santa guerra”.

O /querer/ é figurativizado, sobretudo, pela “febre de além”, que, com o verbo

“consumir-se” – metaforicamente indicando um desejo intenso (uma forma de /querer/) – revela também a paixão da ambição (“E este querer grandeza são seu nome”), aqui

ligada ao projeto divino para Portugal. A aquisição da competência modal pelo sujeito

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Nesse caso, os diferentes poemas reafirmam as ideias de base dos poemas de Mensagem tais como apontamos anteriormente. Algumas serão destacadas aqui em outros momentos, como é o caso da relação entre sofrimento e glória no nacionalismo religioso português, marca de uma eleição divina ou, em termos semióticos, de um simulacro de contrato entre o povo português e a instância divina.

é, por sua vez, figurativizada como ritual religioso (“Sagrou-me... / “Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me / A fronte com o olhar”)57.

O poema analisado apresenta, assim, outro exemplo de sacralização de personagens da constituição de Portugal na reconstrução histórica de Mensagem. Nesse caso, inclusive, o ator/narrador é elevado à condição de mártir na “santa guerra” (“Sagrou-me seu em honra e em desgraça”). Sabe-se que D. Fernando, infante de Portugal, também chamado de Infante Santo, morreu durante combate contra os árabes, após ser feito prisioneiro em Fez58, onde teria se mantido resignado e tranquilo. Esses são os elementos históricos aos quais o poema alude (“E eu vou, e a luz do gládio erguido dá / Em minha face calma / Cheio de Deus, não temo o que virá”). Ressalte-se, assim, que o sofrimento dos personagens da história de Portugal não está relacionado à afirmação da /opressão/, termo disfórico de uma das oposições de base do discurso messiânico, mas sim associado à glória na afirmação da /sacralidade/.

A afirmação desse termo é, aliás, a tônica da primeira parte, afirmação manifestada na proximidade da instância divina com diferentes personagens em destaque. No poema Nunálvares Pereira (PESSOA, 2010, p. 41), a /sacralidade/ é concretizada como auréola que se forma sobre o ator pelo movimento da espada ungida; em Viriato (PESSOA, 2010, p. 24), ela ocorre pela comparação entre o personagem, da época das tribos lusitanas, e o Cristo (“Nação porque reencarnaste / Povo porque ressuscitou / Ou tu, ou o de que eras haste – / Assim se Portugal formou”); em D. Felipa de Lencastre (PESSOA, 2010, p. 30), louvada como “Princesa do Santo Gral”, a /sacralidade/ se revela pela sua associação com a Virgem Maria (“Que arcanjos teus sonhos veio / Velar, maternos, um dia?”).