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As estruturas narrativas são compreendidas, no escopo da teoria semiótica, como uma organização de mediação entre as estruturas fundamentais e as discursivas, o que quer dizer que ela é anterior à manifestação e às restrições impostas pela substância da expressão envolvida (verbal, visual, sincrética etc.). Nessa perspectiva, as narrativas, tal como as compreende o senso comum, são apenas realizações específicas (figurativas) de tais estruturas, as quais presidem a organização dos discursos de modo geral (GREIMAS & COURTÉS, 2008, p. 328). O nível narrativo apresenta-se, por isso, como uma organização abstrata (embora em menor grau que o nível fundamental), mais ou

menos previsível no que diz respeito às transformações passíveis de ocorrer nos discursos, bem como suas motivações e desdobramentos.

A dinâmica observada no nível fundamental pelas operações sintáxicas, que permitem a passagem de um determinado estado ao seu contrário, é atualizada no nível narrativo. A passagem de um polo a outro, no nível fundamental, corresponde, no nível narrativo, à passagem da falta à posse de um dado objeto de valor por um sujeito ou o contrário, a passagem da posse à falta (HÉNAULT, 2012, p. 90-91). Tais relações podem, evidentemente, manifestar-se no discurso de diferentes formas: pobreza versus riqueza; ignorância versus saber etc.

A relação do sujeito com o objeto é chamada de junção, sendo a posse uma forma de conjunção e a falta, de disjunção (GREIMAS 1983, p. 69-70). A mudança no

estado do sujeito na sua relação com o objeto (conjunção disjunção ou disjunção

conjunção), por sua vez, configura um programa narrativo do ponto de vista lógico ou paradigmático. Porém, para que haja uma transformação do estado inicial, configurando uma inversão de estados, é preciso que determinadas etapas ocorram e que determinados actantes entrem em jogo, questão de que trata a sintaxe narrativa.

As etapas narrativas propostas pela Semiótica são uma síntese greimasiana das funções de Propp, que deu impulso à narratologia. Propp (2006) demonstrou haver, sob a variabilidade manifestada num extenso corpus de exemplares do conto maravilhoso russo, regularidades em relação ao que ele chamou de “funções”, 31 no total, que constituiriam, em resumo, a morfologia (estrutura formal invariante) desses contos. A

Semiótica viu nos estudos de Propp “um modelo perfectivo, capaz de servir de ponto de

partida para a compreensão dos princípios de organização de todos os discursos

narrativos” (GREIMAS & COURTÉS, 2008, p. 330).

As etapas narrativas na proposta greimasiana são quatro, sendo cada uma delas um tipo de transformação tecnicamente chamada de programa narrativo (PN). A primeira é a manipulação, fase de estabelecimento de um contrato entre um destinador (manipulador) e um destinatário-sujeito; a segunda, a competência, fase em que o sujeito se habilita para a ação implicada no contrato; a terceira, a performance, fase da realização da transformação principal, o que pode dar-se pelo confronto com o oponente/antissujeito; a quarta e última etapa é a sanção, na qual o destinador

(julgador)24 reconhece (sanção cognitiva) a atuação do sujeito, podendo ainda este ser alvo de uma retribuição (sanção pragmática).

Essas quatro etapas, como se pode ver, formam um conjunto que dá à narrativa o aspecto de um todo organizado e finito, razão pela qual essa sequência é considerada canônica. Veja-se que o contrato25, noção importante neste trabalho, configura uma espécie de proposta do destinador para que o destinatário faça algo, destinatário que, por isso, espera do primeiro o reconhecimento e a retribuição (a sanção) ao fazer o que foi sugerido, proposto (GREIMAS & COURTÉS, 2008, p. 100-101).

É importante compreender essa relação para efeito de análise, já que, na prática, as fases que formam esse conjunto podem não aparecer de forma organizada ou podem ainda ficar implícitas (FIORIN, 2006, p. 32). A sequência narrativa canônica deve ser compreendida, assim, nas palavras de Bertrand (2003, p. 41), como uma “cadeia de

pressuposições lógicas” que “permite dar conta facilmente do contexto extenso”.

Do ponto de vista prospectivo, isso significa uma previsibilidade em relação aos desdobramentos passíveis de ocorrer: uma manipulação faz prever uma performance, que pode resultar, por sua vez, em uma sanção. Do ponto de vista retrospectivo, por outro lado, significa uma ocorrência necessária: se houve sanção, é porque (entende-se que) houve performance, o que, por sua vez, implica competência e manipulação. Essas relações podem ser representadas como se vê no esquema 3.

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Lembramos que os percursos da manipulação e da sanção enquadram o da ação (percurso do destinatário- sujeito) e que destinador-manipulador e destinador-julgador podem (ou não) coincidir. Nos textos do corpus, como veremos no Capítulo 3, esses papéis actanciais são assumidos pela mesma instância (divina), que, pode, no entanto, delegá-los a outros sujeitos (ditos, por isso, destinadores- manipuladores/julgadores delegados).

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Eventualmente podemos fazer referência a um simulacro de contrato, ressaltando com isso que o contrato não é necessariamente real, mas sim baseado em imagens e valores que os sujeitos atribuem uns aos outros, o que abre a possibilidade para que, por exemplo, o contrato seja tomado como existente para o sujeito e não para aquele que se tem como destinador.

Esquema 3

Encadeamento das etapas narrativas

MANIPULAÇÃO COMPETÊNCIA PERFORMANCE SANÇÃO

Fonte: Elaboração própria

Para que as etapas apontadas se sucedam, por sua vez, é preciso que haja uma relação entre sujeito e objeto – relação que dá existência semiótica (ser) ao primeiro – e que haja determinadas qualificações por parte daquele que é responsável pela transformação (fazer) básica da narrativa (GREIMAS, 1983, p. 97). Isso é examinado, no âmbito da semântica narrativa, em termos de modalizações (/dever/, /querer/, /poder/ e /saber/) pelo ser e pelo fazer.

As modalizações pelo fazer dizem respeito às qualificações do sujeito em relação à ação, sujeito que apenas agirá se for modalizado por um /querer/ e/ou um /dever fazer/ (nesse caso, dizemos que o sujeito é virtual ou virtualizado) e se for competente para agir, isto é, se for modalizado pelo /saber/ e pelo /poder fazer/ (sujeito atualizado). É quando dispõe tanto das modalidades virtualizantes quanto das atualizantes que o sujeito pode realizar a transformação (sendo, um sujeito operador ou sujeito de fazer), tornando-se, pois, realizado. A aquisição dessas qualificações pode ser explorada em dada narrativa, mas a competência do sujeito para a ação, em sintonia com o que dissemos anteriormente, pode se revelar simplesmente por pressuposição em função da performance, por isso tida como pressuponente em relação à competência, que se diz pressuposta.

Já a modalização pelo /ser/ incide sobre a relação entre sujeito26 e objeto27, dizendo-a desejável, possível, necessária, proibida e assim por diante, o que desemboca

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Nesse caso, dizemos que se trata de um sujeito de estado, aquele que entra em conjunção ou em disjunção com um dado objeto de valor pela ação de um outro sujeito, responsável pela transformação principal da narrativa: o sujeito de fazer. Esses dois actantes podem (ou não) estar sincretizados num mesmo ator do nível discursivo.

27 Lembramos que “não se pode confundir sujeito com pessoa e objeto com coisa. Sujeito e objeto são

papéis narrativos que podem ser representados num nível mais superficial por coisas, pessoas ou animais”

(cf. FIORIN, 2006, p 29).

PREVISIBILIDADE

em estados passionais. Assim, as paixões, em Semiótica, referem-se a “efeitos de

sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado” (BARROS, 1990,

p. 47). Elas podem ser simples, resultantes de um único arranjo modal, ou complexas, quando formam, por definição, um dado percurso.

Além do arranjo modal, que, como explica Bertrand (2003), mostra-se insuficiente para dar conta da dimensão passional, recorre-se a noções como a aspectualidade e a moralização. O semioticista francês explica, por exemplo, que a impulsividade é a paixão do sujeito cuja relação com o objeto de valor é marcada do ponto de vista modal pelo /dever ser/ e ainda por um aspecto incoativo, pois o impulsivo é aquele que começa sempre, ao passo que o obstinado detém um /querer ser/ durativo (op. cit., p. 371). O autor fala ainda em graus de intensidade de um mesmo arranjo modal, o que determina diferentes parassinônimos de uma dada paixão; no caso da obstinação, os diferentes graus de intensidade permitiriam a diferenciação entre esta e a constância, a perseverança, a insistência, a tenacidade, o afinco, a contumácia, a teimosia, por exemplo (op. cit., p. 372).

Bertrand (2003) alude, por fim, a “um crivo de moralização”, isto é, uma “regulação social que estabelece a medida, entre excesso e insuficiência, da circulação dos valores” e que “torna a paixão nomeável e lhe assegura, de certo modo, o fechamento” (op. cit., p. 372-373 e 426). Trata-se, com efeito, de uma necessária “inserção do passional na práxis enunciativa das comunidades linguísticas e culturais”, o que, por sua vez, evidencia “o caráter fundamentalmente intersubjetivo das paixões”

(op. cit., p. 373).

Já Lara & Matte (2009, p. 58-59) explicam que, havendo um sincretismo do sujeito de estado com o sujeito de fazer, “o estado passional pode ser também detectado pela incongruência no fazer: o sujeito quer, sabe e pode fazer, mas não age (timidez, por exemplo) em função de alguma crença: que não pode (não consigo!) ou que não sabe

(“não sei como fazer!”).

As autoras explicam ainda que há a questão do crer, da fidúcia, responsável por um desfecho imaginado (positivo ou negativo) pelo sujeito para a sua relação de junção com um dado objeto. Esse desfecho imaginado ou essa imagem-fim afeta o sujeito, que

nisso se baseia ao agir. “A cólera, por exemplo,” que pode desencadear a vingança, “é o

resultado de uma ruptura da imagem-fim do sujeito com o percurso realizado”. Já a imagem-fim hiperbólica e inatingível leva o avarento a buscar acumular indefinidamente (op. cit., p. 63).

Cabe explicar que, apesar de a Semiótica apresentar categorias para o exame da dimensão passional do discurso, categorias essas apresentadas brevemente nas linhas anteriores, o problema dos elementos passionais do discurso messiânico será abordado por meio da noção de páthos no âmbito do componente argumentativo. Como procuraremos explicar mais adiante, as disposições afetivas do enunciatário integram o que vislumbramos ser uma retórica do discurso messiânico, isto é, um conjunto de procedimentos ligados ao fazer crer que deriva de uma análise integrada de páthos, éthos e logos. A nosso ver, os elementos passionais do discurso messiânico ligados a recursos retóricos são os que respondem, em certa medida, pela identidade desse discurso, o que pode tornar a análise mais produtiva.