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3.5. Verilerin Analizi

3.5.1. Nicel Veri Analizi

oposição /identidade/ versus /alteridade/. Como dissemos no início da presente análise, a dimensão religiosa (mais especificamente, cristã e católica) da obra na abordagem do

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Esses elementos não parecem suficientemente explorados nos demais textos, mas, de modo geral, todos eles expressam uma rejeição ao outro em favor de uma identidade. Vamos abordar melhor essa questão ao examinarmos a sintaxe extensiva, no Capítulo 3, exame esse que explicita operações de triagem na base dos ideais messiânicos.

Sacralidade Liberdade [Identidade] [futuro] [Teocracia/ Unidade política e religiosa] Profanidade Opressão [Alteridade] [presente] [Múltiplos governos humanos] Não sacralidade Não Liberdade [Não Identidade] [não futuro] Não profanidade Não opressão [não alteridade] [não presente]

destino humano imbrica-se com a dimensão política relativa ao destino da nação portuguesa.

A imbricação de que falamos está relacionada à reiteração de um aspecto que se

revela importante no discurso messiânico: a representação mítica ou “mitizada” (para

usar o termo de Eliade) do passado, tido como marcado pela afirmação da /sacralidade/ e da /liberdade/, condição que se busca reaver no futuro, na perspectiva da história como circularidade. Isso se atualiza na História do futuro como um duplo retorno (redenção): o da humanidade, pela volta a uma condição análoga à edênica; o de Portugal, pela volta a uma condição de elevação, de proeminência no mundo.

O narrador da História do futuro defende uma origem divina de Portugal, fazendo para isso referência, mais de uma vez, ao mítico aparecimento do Cristo quando da fundação do império pela entronização de D. Afonso Henriques (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 38)51. Ele defende, assim, sobretudo na tentativa de dissuadir Castela de sua guerra contra Portugal52, que a nação portuguesa constitui-se em Estado como parte do projeto

divino para a humanidade: “[...] Bem sabe Castela (digo) que Portugal com

singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado, feito e levantado por

Deus” (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 45).

O texto constrói, assim, uma representação mítica do passado de Portugal, passado esse caracterizado pela afirmação da /sacralidade/ e da /liberdade/. Isso se dá tanto pela fundação singular e sagrada atribuída ao império português como pela condição de proeminência de Portugal quando das navegações e das descobertas, condição essa perdida no presente. É esse passado perdido que seria recuperado por Portugal, de acordo com a História do futuro, paralelamente à recuperação da condição

“original” pela humanidade, como se pode observar no trecho a seguir:

Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) [tempos das descobertas] nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Esta história era o silêncio de todas as histórias. Os inimigos liam nela suas ruínas, os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. Tal é a História, Portugueses, que vos presento, e por isso na língua vossa. Se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura, não se poderá consertar um corpo tão grande, sem dor nem

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O episódio é conhecido como o “milagre de Ourique”, que expressa bem o que Eliade (1969) explica sobre a relação entre mito e arquétipos, isto é, os modelos exemplares que, ligados ao sagrado, dão sentido ao que ocorre no âmbito do profano. A vitória de Afonso Henriques numa expedição ao outro lado do rio Tejo, no âmbito da Reconquista, enseja sua proclamação como rei de Portugal. Anos depois, como explicam Emery & Pereira (2015, p. 18-19), esse episódio converte-se numa intervenção divina, dando início ao messianismo português.

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Uma das utilidades da História do futuro, nas palavras do narrador, era mostrar que Castela tentava em vão lutar contra Portugal, pois lutava contra as disposições divinas (cf. VIEIRA, s.d., vol. I, p. 29-30)

sentimento dos membros, que estão fora de seu lugar. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos, mas também estes fazem harmonia. Se são dos inimigos, para os inimigos será a dor, para os êmulos a inveja, para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória, e, entretanto, as esperanças (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 8-9)

Esse trecho demonstra bem o que está ligado ao advento do Quinto Império. Em primeiro lugar, para o mundo (a humanidade), ele representa a restituição da sua condição primitiva (“há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura”). Em outros trechos, sugere-se uma volta à condição edênica, marcada pela /liberdade/ em relação a toda e qualquer tirania exercida pelos governos humanos. A negação desse termo e a posterior afirmação da /opressão/ (e da /profanidade/) chegam a ser datada pelo narrador, que se refere a um primeiro império humano responsável por introduzir a primeira forma de tirania que levou a uma “sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. [...] Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todos a natureza”, conclui Vieira (s.d., vol. II, p. 2).

A /opressão/, como se vê, é afirmada paralelamente à afirmação da /profanidade/, na medida em que o início dos governos humanos altera a ordem natural, que, no discurso religioso católico, é a condição paradisíaca, edênica, aquela condição determinada originalmente pela divindade criadora. Nesse sentido, o advento do Quinto Império é uma volta ao passado, pela instituição da Teocracia e pela liberação do homem do domínio dos opressores governos humanos. Do ponto de vista das estruturas fundamentais, nosso foco de análise aqui, trata-se, para o mundo, de uma nova afirmação dos termos eufóricos /sacralidade/ e /liberdade/ numa (nova) condição que recupera aquela perdida no passado.

Em segundo lugar, para Portugal, o advento do Quinto Império significa reaver a proeminência dos tempos míticos de sua fundação e das descobertas. Com efeito, Portugal é um dos destinatários do texto de Vieira, ao qual se faz referência expressamente no Capítulo II do livro Anteprimeiro. É ali que o autor assegura uma futura proeminência a Portugal no reino teocrático que será instalado no mundo, uma condição de liderança análoga àquela observada no passado das descobertas. No mesmo capítulo, diz-se que: “Portugal será o assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e fim destas maravilhas; e os instrumentos prodigiosos delas os

Isso tem a ver com o nacionalismo messiânico de Portugal, que o texto de Vieira atualiza e se esforça por fundamentar dentro da racionalidade do discurso de sua época e em conformidade com a tradição da Igreja, o que explica por que, além de História do futuro, o narrador se refere ao texto como Esperanças de Portugal, nação destinada, segundo ele, a ser o líder do Quinto Império com sede em Lisboa (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 68)53. Essa crença, atualizada no texto, confere a Portugal uma messianidade, ou melhor, uma missão messiânica, tomando-o como instrumento da vontade divina e, desse modo, diretamente ligado à instância messiânica propriamente dita, que é o Cristo, como se viu aqui na própria forma mítica como a fundação de Portugal é recontada.

Desse modo, do ponto de vista político, a futura negação dos termos disfóricos /profanidade/ e /opressão/ e a posterior afirmação da /sacralidade/ e da /liberdade/ são concretizadas como fim do ostracismo de Portugal e sua posterior elevação à condição de proeminência política pela sua ação como instrumento divino na consumação do Quinto Império. Esse futuro é paralelamente uma volta ao passado, que também é marcado pela afirmação dos termos eufóricos (quando da proeminência da nação portuguesa nas descobertas, o que manifesta sua condição de nação eleita para um projeto divino).

Já do ponto de vista religioso, a futura negação dos termos disfóricos /profanidade/ e /opressão/ e a posterior afirmação da /sacralidade/ e da /liberdade/ são concretizadas como fim dos múltiplos e tiranos governos humanos e a consequente consumação do império marcado pela unidade política e religiosa (império cristão). Ao mesmo tempo, o advento do Quinto Império é o que restitui ao mundo sua condição primitiva marcada pela afirmação dos termos eufóricos /sacralidade/, /liberdade/ e /identidade/, termos concretizados na pressuposta unidade religiosa e na ausência de reinos humanos.

Essa organização fundamental da História do futuro pode ser representada no quadrado semiótico a seguir, que complementa a primeira representação feita anteriormente (esquema 6):

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Essa ideia de Portugal como instrumento da ação divina faz parte do imaginário messiânico português, aparecendo também na obra de Fernando Pessoa, como se verá na próxima seção.

Esquema 7

Estruturas do nível fundamental de História do futuro

Fonte: Elaboração própria

Em suma, os dados observados revelam que a História do futuro, de Vieira, apresenta um discurso messiânico que mescla uma dimensão mítico-religiosa e uma dimensão política explícita. O destino do ser humano – sob a ótica católica, cabe frisar – imbrica-se com o destino do cidadão português, de tal forma que a espera messiânica atualizada no texto em foco liga-se, como dissemos, a uma dupla redenção, que expõe não apenas uma forma de desejo imperialista português, mas também católico-cristão.