No âmbito privado, o que se vê é a mercantilização da saúde e seus serviços. Obviamente, produtos, serviços e remédios são produzidos em escala industrial e demandam altos valores de investimento, o que no setor privado implica um valor a ser resgatado como lucro. Por um lado, a concorrência, o livre mercado e os altos investimentos da indústria farmacêutica e do mercado de saúde como um todo proporcionam desenvolvimento tecnológico e científico gerando como resultado cura e tratamento para doenças antes consideradas epidemias ou sem tratamento como a tuberculose, a AIDS, alguns vírus da gripe, entre outros. Por outro lado os interesses comerciais e a busca do lucro (objetivo natural de toda empresa privada) exigem do poder público uma atuação visando a segurança dos produtos oferecidos no mercado. Em verdade, a quantidade de produtos que aparecem todos os dias para a saúde trazem consigo o risco real de dano e necessitam passar por procedimentos de teste, aprovação e registro junto às autoridades sanitárias.
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O desafio das agências reguladoras, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária no caso dos medicamentos, é realizar uma fiscalização eficiente ao mesmo tempo em que se reduzam os processos burocráticos e o tempo de aprovação de novas substâncias para resguardar o interesse dos cidadãos que, no caso da saúde, são sempre urgentes.
Isso porque na busca do lucro e muitas vezes usando de meios publicitários, midiáticos e ainda do sofrimento e fragilidade dos doentes esperançosos em busca de cura e, por que não dizer de um milagre, as empresas e laboratórios promovem substâncias que não possuem eficácia comprovada. Dallari (2003) destaca que a busca do lucro, tratando a saúde apenas como um mercado, afastando a questão ética transforma o próprio ser humano em simples mercadoria sob a qual vigora somente as leis de mercado e compromete sua integridade física e mental40.
Para o autor, a ética sanitária não constitui um corpo de regras formais prontas e criadas somente para que sejam cumpridas suas disposições, mas a convicção de que a prioridade do direito sanitário é a pessoa humana exigindo do agente sanitário uma reflexão permanente uma vez que as ações sanitárias implicam diretamente na vida, na saúde e bem- estar das pessoas, o que requer uma harmonização dos serviços e interesses, sem que se olvide a pessoa humana em sua dignidade.
A ética sanitária atua como freio nessa mercantilização da saúde, dos direitos e do ser humano. Afinal, as regras de comércio, a normatização, o direito sanitário como norma positivada, todos são posteriores ao direito à saúde, inerente ao ser humano. Portanto, a ética sanitária pautada por um controle e filtragem daquilo que chega à população se faz necessária e é irrenunciável num estado social democrático onde se tem por meta a proteção e promoção da saúde de seus cidadãos.
Nesse contexto, não se pode olvidar das substâncias promissoras no combate a doenças ainda não testadas devidamente. De fato, são somente promessas. Ainda que questões emocionais e psicológicas estejam envolvidas, a atuação estatal deve estar pautada pela racionalidade e prudência na liberação de novos produtos. O Estado brasileiro agiria com imensa irresponsabilidade se permitisse o livre comércio de substâncias sem a certificação necessária. Além disso, seria uma afronta à Constituição Federal que confia à atuação estatal a redução do risco de doenças (art.196) e veda a aplicação de tortura, tratamentos desumanos e
40 DALLARI, Dalmo de Abreu. Ética sanitária. In BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Direito sanitário e
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qualquer outra situação que agrida a integridade física e viole a dignidade humana como a venda de órgãos ou sangue.
Em todo caso, nas relações de saúde a ética sanitária é exercida pelo Estado sempre como uma ação positiva e com poder de polícia. Mesmo nos casos levados ao Poder Judiciário, em rigor se pede que o estado realize, forneça, libere ou compre algo. Todavia, em algumas situações o indivíduo exige do estado uma prestação negativa ou ainda positiva contrária à legislação sanitária. Nesse sentido alguns exemplos a serem citados são a liberação do uso da cannabis41 no Brasil, o fornecimento de fosfoetanolamina42 sem registro pela Anvisa a pacientes com câncer, e a aprovação da lenalidomida43 pela Anvisa.
Como autarquia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária 44deve sempre agir com responsabilidade, buscando conferir a segurança e eficácia dos medicamentos. A falta de um desses requisitos atenta também contra a dignidade humana e a saúde. A liberação de uma substância sem comprovada segurança implicaria na exposição das pessoas a riscos de doenças e outros efeitos o que se opõe diretamente à função das normas sanitárias e confere ao indivíduo doente a situação imprópria de experimento científico. Os remédios experimentais em fase de testes possuem protocolo próprio, e seguem critérios científicos cujo foco é a pesquisa e o fornecimento restrito aos voluntários.
No mesmo sentido, a liberação de uma substância segura à utilização, mas sem eficácia representaria charlatanismo e ofensa à dignidade. Válido lembrar que o conceito de saúde aborda também a dimensão do bem-estar mental. Dessa forma é necessário considerar os danos psicológicos ao doente e sua família diante dos falsos tratamentos, inúteis nas funções de proteção, prevenção e restauração da saúde.
Cumpre à ética sanitária por suas normas promover o maior bem possível aos cidadãos sem, contudo, expor aos riscos, agindo para proteger a vida e dignidade humana.
41 Espécie de planta com efeitos psicotrópicos devido ao THC (tetraidrocanabinol) e potencial viciante,
conhecida popularmente como “maconha” de uso, produção e comercialização proibidos no Brasil. A planta teria efeitos benéficos no tratamento de doenças o que tem ocasionado a procura do Poder Judiciário para a liberação da utilização. Não confundir com o canabidiol, substância componente da planta sem efeito tóxico ou psicoativo, retirada da lista de substâncias proibidas pela Anvisa em 2015 e de importação permitida mediante requerimento médico.
42 Sobre a fosfoetanolamina, ver o capítulo 4 deste trabalho.
43 Substância indicada a pacientes com mieloma múltiplo (câncer da medula) que não respondem aos dois
principais medicamentos registrados para a doença: a talidomida e o bortezomide. A droga já foi aprovada em mais de 70 países, mas ainda assim foi negado o registro no Brasil por não restar provada a eficácia e segurança segundo os padrões adotados pela Anvisa.
44 A lei nº 8.080/90 em seu artigo 6º§1º define Vigilância Sanitária como “um conjunto de ações capaz de
eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde”.
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