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2.1 ­ A Fábrica de Calçados Sul­Riograndense 

Neste  capítulo  vamos  tratar  dos  seguintes  aspectos  relativos  a  Pedro  Adams  Filho:  suas  empresas,  a  Fábrica  de  Calçados  Sul­Riograndense  e  o  Curtume  Hamburguez,  o  design  de  calçados,  as  exposições  industriais,  as  questões de trabalho na cidade e de energia elétrica. 

A busca sobre a  criação da indústria  por Pedro Adams Filho,  levou­nos a  fazer uma análise historiográfica sobre a história do setor coureiro­calçadista para  situarmos  o  caráter  de  empreendedorismo  presente  nas  iniciativas  de  nosso  personagem. 

A narrativa começou com a análise de um livro chamado O Rio Grande do  Sul Colonial, publicado em 1918 pela Societé de Publicité Sud­Americaine Monte  Domecq  & Cia. 142 , empresa franco­espanhola. De forma laudatória, o livro conta a  história  do  Estado  através  de  fatos  municipais  e  biografias  de  seus  principais  empresários  e  políticos.  As  empresas  de  Pedro  Adams  Filho  são  descritas  com 

142 SOCIETÉ DE PUBLICITÉ SUD­AMERICAINE MONTE DOMECQ & CIA. O Rio Grande do Sul  Colonial. Paris/Barcelona: Estabelecimento Gráfico Thomas, 1918.

detalhes  nessa  obra,  e  as  informações  ali  contidas  foram  de  grande  valia  para  este trabalho. 

Encontramos  também  uma  obra  sobre  a  história  dos  curtumes  e  seu  funcionamento, de autoria de E. Belavsky, 143 publicada nos anos 1960, e que nos 

ajudou a compreender a história do curtimento do couro. 

Foi somente a partir dos anos 1990 que o setor coureiro­calçadista do Vale  do Sinos começou a ser estudado com mais profundidade. Desse período temos  as obras de Brenner 144 e Fensterseifer 145 que analisam a indústria de calçados no  Brasil  e  no  Vale.  Mais  recentemente,  há  as  obras  de  Rupenthal 146 ,  Costa  &  Passos 147 , que organizam um livro com vários artigos específicos sobre o tema, e 

Motta 148 que faz uma pesquisa integrando o calçado e a moda no Brasil. 

Sobre a indústria calçadista de Novo Hamburgo, a obra mais recente está  vinculada a um projeto desenvolvido pelo Centro Universitário Feevale através de  seu grupo de pesquisa Memória e História da Comunidade e do Museu Nacional  do  Calçado  intitulado  Memória  do  Setor  Coureiro­Calçadista:  Pioneiros  e  Empreendedores do Vale do Rio dos Sinos 149 , em que foram narradas, através de 

143 BELAVSKY, E. O curtume no Brasil. Porto Alegre: Globo, 1965. 

144  BRENNER,  G.  A  indústria  de  calçados  no  Brasil:  trabalho,  competição  e  produtividade. 

Dissertação Mestrado, PPGA, UFRGS, 1990. 

145  FENSTERSEIFER,  Jaime  E.  (org.)  O  Complexo  Calçadista  em  Perspectiva:  Tecnologia  e  Competitividade. Porto Alegre: Ortiz, 1995. 

146 RUPENTHAL, Janis Elisa. Perspectivas do Setor Couro do Estado do Rio Grande do Sul. Tese 

de doutorado. UFSC. PPG Engenharia de Produção. Florianópolis, 2001. 

147 COSTA, Achyles Barcelos da & PASSOS, Maria Cristina (orgs.) A indústria calçadista no Rio  Grande do Sul. São Leopoldo: Editora Unisinos.2004. 

148  MOTTA,  Eduardo.  O  Calçado  e  a  Moda  no  Brasil:  um  olhar  histórico.  Porto  Alegre: 

Litokromia/Magno, 2005. 

149 SCHEMES, Claudia et alii. Memória do Setor Coureiro­Calçadista: Pioneiros e Empreendedores 

depoimentos orais, as histórias dessas pessoas que tiveram alguma participação  na formação desse setor. 

O  CD­ROM  Memória  do  Setor  Coureiro­Calçadista:  Pioneiros  e  Empreendedores do Vale do Rio dos Sinos, que contém fotografias relacionadas à  história  da  cidade  de  Novo  Hamburgo  e sua  indústria,  e  cuja  elaboração  teve  a  participação  da  autora  desta  tese,  foi  outra  obra  muito  importante  para  esta  pesquisa. 150 

Para analisar o contexto de criação  da empresa  de  Pedro  Adams Filho, é  preciso  apontar  a forte tradição  pecuária do Estado que  remonta ao século XVII  com  a  introdução  do  gado  pelos  jesuítas  no  Rio  Grande  do  Sul,  pois  essa  atividade representou sua primeira força econômica, e foi a responsável pela sua  integração  ao  restante  do  país.  Inclusive  o  período  que  vai  do  século  XVII  a  meados do XIX  ficou conhecido  por parte  da  historiografia  brasileira  como  Idade  do  Couro.  Foram  os  produtos  derivados  do  setor  primário  os  responsáveis  pelo  início da industrialização gaúcha (tecidos, lãs, couro, calçados, entre outros). 

Desde  o  século  XVIII,  o  gado  era  abatido,  principalmente,  para  o  aproveitamento  das peles que  eram exportadas para  fora do Estado, já que  não  existia  mercado  consumidor  para  uma  grande  quantidade  de  carne.  O  couro,  nessa conjuntura, era utilizado de maneira bruta, mais tarde é que passou a ser 

entrevistas  com  mais  de  50  horas  de  gravação  e  12  meses  de  pesquisa.  As  categorias  representadas nessa pesquisa foram: empresários e trabalhadores, caixeiros­viajantes, transporte  rodoviário,  imprensa  e  raid  do  calçado,  FENAC  (Feira  Nacional  do  Calçado),  prefeitos,  exportadores e estilistas. 

150 SCHEMES, Claudia & PRODANOV, Cleber. Memórias do setor coureiro­calçadista: um acervo 

curtido.  Com  o  desenvolvimento  das  charqueadas,  essa  produção,  mesmo  perdendo o valor, aumentou  e  continuou sendo vendida  para  o exterior. Apenas  com o desenvolvimento da indústria frigorífica na primeira década do século XX é  que as peles passaram a ter um uso mais racional através de seu processamento  industrial. 151 A economia gaúcha então centrava­se em três produtos: o gado vivo,  o charque e o couro. 

Segundo  Belavsky 152 ,  as  técnicas  relacionadas  ao  curtimento  do  couro 

desenvolveram­se  vagarosamente,  uma  vez  que  a  arte  de  curtir  as  peles  foi  introduzida pelos árabes na Europa já no século VIII, mas apenas no século XVIII,  quando houve a instalação do primeiro curtume na Europa, é que se iniciaram as  pesquisas nessa área. 153 Até esse momento, o trabalho artesanal e os segredos 

do  curtimento  eram  passados  de  pai  para  filho,  baseados,  principalmente,  na  observação e experiência. 

Acredita­se que o primeiro curtume do Brasil foi fundado no início do século  XIX,  no  Rio Grande do Sul, 154 e prosperou rapidamente  no Vale do Sinos, uma 

vez que havia poucos produtos de couro no mercado. Entretanto, ele era utilizado  em quase todos os artigos que o gaúcho possuía: “na construção de sua moradia, 

151  Para  conhecer  o  histórico  da  pecuária  e  curtumes  do  RS  ver:  RUPENTHAL,  Janis  Elisa.  Perspectivas  do  Setor  Couro do  Estado  do Rio  Grande  do  Sul.  Tese  de  doutorado.  UFSC.PPG  Engenharia de Produção. Florianópolis, 2001 e SANTOS, André Maurício. A Indústria de Curtumes  do  Rio  Grande  do  Sul.  In:  COSTA,  Achyles  Barcelos  da  &  PASSOS,  Maria  Cristina  (orgs)  A  Indústria Calçadista no Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004. 

152 BELAVSKY, E. O curtume no Brasil. Porto Alegre: Globo, 1965. 

153 Foi apenas por volta de 1800 que iniciaram as experiências com o tanino (extrato vegetal de 

árvores) para o curtimento do couro e  introduzidas as máquinas nos curtumes. RUPENTHAL op  cit.p.73,74. 

154 Segundo BRENNER, G. A indústria de calçados no Brasil: trabalho, competição e produtividade. 

Dissertação Mestrado, PPGA, UFRGS, 1990. O autor ainda diz que no Rio de Janeiro, em 1816,  85%  da  população  andava  descalça  e  as  mulheres  usavam  sapatos  de  seda  que  duravam  aproximadamente dois dias.

no  mobiliário  rústico,  no  transporte,  no  armamento,  no  vestuário  e  em  outros  utensílios.” 155  O  couro  era  uma  mercadoria  de  grande  valor  que,  em  alguns 

momentos,  chegou  a  ser  moeda  corrente,  todavia,  essa  importância  não  foi  sempre a mesma. 

Segundo Selbach, 

[...] foi Nicolau Becker [...] no final do século XVIII, o primeiro a trabalhar  com curtume e selaria. Instalado na Estrada das Tropas, na altura do que  viria a ser Hamburgo Velho, via passar a sua frente os tropeiros vindos  das  estâncias  localizadas  na  parte  sul  do  Estado  rumo  ao  mercado  principal de Sorocaba, em São Paulo. Além do ponto privilegiado, pouco  valia a matéria­prima utilizada no fabrico dos artigos de montaria [...] Para  os estancieiros, o que importava no boi era a carne e não o couro; este  era  tão  somente  utilizado  na  própria  estância.  Desta  forma  o  negócio  prosperou. [...] 156 

Mas  mesmo  a  indústria  de  couro  tendo  prosperado  no Vale  do  Sinos,  os  colonos alemães não foram os primeiros a se dedicarem a esse tipo de atividade,  pois  os  portugueses  já  haviam  instalado  curtumes  na  região  de  Pelotas  e  Rio  Grande. Mesmo assim, colonos alemães tornaram­se os principais produtores de  artigos de couro, como arreios, guaiacas, perneiras, botinas, chinelos, tamancas,  sapatos, etc., criando as primeiras sapatarias. 

155 SANTOS, André Maurício. A Indústria de Curtumes do Rio Grande do Sul. In:COSTA, Achyles 

Barcelos da & PASSOS, Maria Cristina (orgs) A Indústria Calçadista no Rio Grande do Sul. São  Leopoldo: Editora Unisinos, 2004. p. 99 

156 SELBACH, Jeferson. Pegadas Urbanas – Novo Hamburgo como palco do flâneur. Cachoeira do 

O pioneirismo dos colonos na indústria de calçados surgiu principalmente  pela necessidade de proteção dos pés, não só por causa do frio, mas também por  causa dos bichos e arbustos existentes em profusão nas zonas de colonização. 157 

O trabalho na agricultura, nas roças, também exigia o uso do calçado que  não  era  comercializado  em  lojas.  Os  sapateiros  faziam­nos  sob  medida  e  por  encomenda. 

É bom lembrar que o imigrante alemão trouxe o hábito de andar calçado e  tinha  mais  condições  financeiras  de  adquirir  esse  produto  que  a  maioria  da  população brasileira, portanto, mesmo que a utilização do calçado fosse bastante  restrita em  todo o país,  no Vale  do  Sinos   era  muito  utilizado desde meados do  século XIX. 

Segundo Santos 158 , no século XVIII a média de exportação anual girava em 

torno de 120 mil couros, e os impostos excessivos cobrados pelo governo imperial  juntamente com o contrabando eram motivos de descontentamento e de protesto  por parte dos produtores. 

A  Idade  do  Couro  terminou  em  meados  do  século  XIX,  mas  a  sua  importância na economia perdurou e lançou as bases do setor coureiro­calçadista,  que impulsiona até hoje a economia do Estado. 

Dentro desse contexto de abundância de peles e de inserção do colono no  uso  e  produção  de  calçados,  encontramos  Pedro  Adams  Filho,  então  com  18 

157 COPETTI, Américo. Monografia da Indústria de Calçados do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 

CORAG, 1976. 

anos, que vai trabalhar como aprendiz de seleiro com o mestre Jacob Bossle dono  de  uma  selaria  e  uma  sapataria  na  colônia  de  Taquara  do  Mundo  Novo,  atual  cidade de Taquara por volta de 1886­87. 159 

Não  foram  preservados  documentos  que  explicassem  a  ida  de  Adams  a  cidade  de  Taquara,  nem  como  foi  sua  estada  naquele  local.  Provavelmente,  ele  passou  alguns  meses  por  lá  apenas  para  aprender  um  ofício,  já  que  possuía  dinheiro  para  investir  em  um  negócio  próprio,  e  ainda  não  tinha  uma  formação  profissional. 160 

Ao  lado  desse  desenvolvimento  dos  curtumes,  a  produção  de  calçados  havia tomado um impulso bastante grande na segunda metade do século XIX com  a Guerra do Paraguai, que aumentou a demanda de calçado, e com a urbanização  e  a  conseqüente  diminuição  dos  produtos  de  montaria  no  mercado.  Nesse  período,  os  artigos  de  montaria,  por  exemplo,  ainda  eram  produzidos  de  forma  artesanal  enquanto  na  fabricação  do  calçado  já  eram  utilizadas  algumas  máquinas. 

Vimos que a instalação da fábrica de Pedro Adams Filho está intimamente  ligada ao estabelecimento, no Estado, dos primeiros curtumes, que impulsionaram  a produção de artigos de couro. 

Depois  de  aprender  seu  ofício  de  seleiro,  Adams  mudou­se  para  Dois  Irmãos onde trabalhou como empregado numa fábrica de couros curtidos e numa 

159 Segundo suplemento especial da Cia. Jornalística Caldas Junior, 1974. 

160 Entramos em contato com a família Bossle de Taquara que não tinha informações a respeito de 

correaria,  com  salário  inicial  de  oito  mil  réis  mensais  e,  rapidamente,  passou  a  contra­mestre, ganhando 22$000. 

Segundo Monte Domecq, 

Por  muito  modesta  que  pareça  essa  situação,  ela  bastou  ao  jovem  trabalhador  para  incutir­lhe  no  espírito  a  esperança  de  um  futuro  mais  risonho  para  o  qual  sua  energia  e  seu  modo  econômico  de  viver  se  encaminhava,  resolutamente,  embora  aos  poucos,  constituindo,  assim,  um pequeno capital inicial. 

Pedro Adams [...] conheceu, na sua mocidade, todas as dificuldades que  o strugle for life  reserva aos que devem conquistar o seu lugar na vida,  contando, apenas, com a sua inteligência, o seu amor ao trabalho e a sua  vontade de vencer. 161 

Não  tardou  muito  para  o  jovem  Adams,  em  1888,  então  com  18  anos  de  idade,  estabelecer­se  em  Dois  Irmãos  como  sapateiro  e  seleiro  usando  seus  próprios  recursos,  como  nos  informa  Monte  Domecq.  Esses  recursos,  como  vimos 162 , não provinham apenas de seu trabalho, mas também do dinheiro juntado  por seu pai na casa de comércio que a família possuiu em Santa Clara.  Essa cidade, mesmo estando voltada para a agricultura colonial, conheceu  a criação de vários tipos de manufaturas e agroindústrias de gêneros alimentícios,  pois os colonos possuíam famílias numerosas, uma média de sete a dez filhos, e  tinham de sobreviver de qualquer maneira. Essas atividades artesanais abrangiam  uma  série  de  artigos,  utensílios  e  alimentos  que  eram  consumidos  localmente  e  vendidos para outras cidades. 163 

161 MONTE DOMECQ, 1918, p.242  162 Conforme capítulo 1 desta tese. 

163 VIER,  Justino  Antonio.  História  de  Dois  Irmãos  –  RS  –  passado  e  presente.  São  Leopoldo: 

Normalmente  as  sapatarias  funcionavam  em  uma  peça  da  casa  do  sapateiro, e os calçados fabricados, mesmo não sendo sofisticados, eram de boa  qualidade. 164 

Os  produtos  mais  procurados  na  oficina  de  Adams  eram  os  arreios  de  montaria  e  tração,  dado  que  o  cavalo  era  o  principal  meio  de  transporte  da  época. 165 

A produção de arreios  acabou  influenciando a fabricação dos calçados, já  que havia muita sobra de couro, principalmente das pernas e virilhas dos animais  que  não  eram  aproveitáveis  para  o  material  de  montaria,  mas  serviam  para  a  fabricação dos tamancos, chinelos, solas e saltos. 

Além dos chinelos, a produção da sandália iniciou no final do século XIX e  teve como um dos seus primeiros fabricantes Paulo Triebses, que constatou, pela  análise técnica, que esse produto era mais leve, cômodo e de baixo custo. Assim,  logo teve ampla aceitação no mercado. 166 

Adams  notou  que  o  mercado  era  amplamente  favorável  e  que  alguns  fregueses faziam pedidos específicos de alguns produtos. Começou então a fazer  chinelos e botinas que eram produzidos em pequena quantidade e, na maioria das  vezes, segundo o gosto do comprador.  Dentre as atividades citadas pelo autor estão: alambiques, atafonas, moinhos de grãos, serrarias,  carpintarias, olarias,ferrarias, selarias, alfaiatarias, matadouros, cantarias, bebidas.  164 Ibidem, p.120.  165 Ibidem, p.120. 

166 SCHÜTZ,  Liene  M.Martins.  Novo  Hamburgo:  Sua  História,  Sua  Gente.  Porto  Alegre:  Palotti, 

Nessa  época,  as  oficinas  empregavam,  no  máximo,  dois  funcionários:  os  aprendizes,  que  em  geral  não  recebiam  salários  pelo  seu  trabalho,  exceto  a  comida.  Esses  aprendizes  eram,  normalmente,  da  própria  família,  e/ou  tinham  relações de amizade ou de vizinhança com o dono da oficina. 167 

Segundo depoimento de J.A. Wirth, as oficinas tinham instalações simples e  precárias:  apenas  algumas  mesas,  cavaletes  e  bancos.  Os  instrumentos  e  ferramentas  de  trabalho  eram  rudimentares  e  pertenciam  ao  dono  do  estabelecimento.  A  oficina  de  Adams  era  um  pouco  maior  que  a  média  das  oficinas da cidade e tinha doze pessoas trabalhando na fabricação de chinelos. 168 

Os  produtos  da  oficina  de  Adams  foram  assim  anunciados  em  jornal  da  época: 

Em  nenhum  outro  negócio  se  compra  tão  barato  como  na  fábrica  de  calçados de Pedro Adams Filho,  em Dois Irmãos. Todos os artigos são  feitos à mão e são de 25 a 30% mais baratos do que toda a concorrência,  como,  por  exemplo:  um par de  botas para  cavalgar  somente 28$000 e  um par de calçado masculino (botina) somente 12$000. 169 

Não havia, nesse final de século XIX, uma estrutura organizada de vendas  como  vai  ocorrer  mais tarde. As vendas  dos  produtos eram  feitas  pessoalmente  por Pedro Adams Filho,  que  se  embrenhava  nas picadas 170 pelo  interior  apenas  com uma carreta e o desafio de colocar no mercado o maior número possível de  mercadorias.  A  maioria  dessa  produção  artesanal  era  comprada  pelas  casas 

167 Depoimento de WIRTH, J. A., empresário do setor calçadista da cidade de Dois Irmãos, em 

novembro de 2004. 

168 Ibidem 

169 Jornal Deutsches Volksblatt, 17/07/1900. 

comerciais  locais,  chamadas  de  vendas,  e  pelo  comércio  da  capital,  Porto  Alegre. 171 

Segundo  relato  de  J.A. Wirth,  em  Dois  Irmãos  “tinha  a  família  Adams,  do  Pedro Adams Filho, que tinha uma pequena selaria e sapataria.” Diz o depoente,  que com a ida do trem a Novo Hamburgo a família decidiu abrir uma fábrica maior  naquela cidade, “eles enxergaram longe por causa do trem”. 172 Portanto, além da 

prosperidade alcançada nos negócios o que o incentivou a transferir­se para Novo  Hamburgo em 1898, foi a facilidade do transporte ferroviário, que poderia significar  um  aprimoramento  da  rede  de  distribuição  de  seus  produtos  para  fora  da  área  colonial, especialmente para Porto Alegre. 

Na nova cidade, Adams instalou sua oficina no mesmo local da sua futura  indústria, e logo teve de aumentar o seu número de funcionários. 

Entretanto, Pedro Adams Filho tinha planos de aumentar seus negócios e,  assim, em 1901 resolveu associar­se a José Frederico Gerhardt para instalar uma  fábrica  de  calçados  em  moldes  mais  modernos,  com  um  maior  número  de  máquinas e funcionários, a Fábrica de Calçados Sul Rio­Grandense. 

A  análise  das  condições  da  selaria  de  Adams,  sua  preocupação  com  anúncios  nos  jornais  e  até  mesmo  sua  transferência  para  Novo  Hamburgo,  denotam uma preocupação em fazer seu negócio prosperar e ganhar um mercado  maior  do  que  aquele  proporcionado  pelo  artesanato.  Tinha,  pois,  uma  visão 

171 Jornal NH, 05/04/1977. 

industrial,  como  tantos  outros  empreendedores  que  estavam  surgindo  nas  diversas colônias do Estado. 

Figura 9 ­ Primeira foto tirada em frente a fabrica em 1901. (AFA) 173 

Essa  foto,  segundo  informação  de  Carmen  Mosmann 174 ,  foi  a  primeira  a  ser tirada da fábrica logo após sua instalação no centro da cidade, na Rua Júlio de  Castilhos,  e  mostra­nos  o  numeroso  grupo  de  trabalhadores  que  a  empresa  empregava  (mais  de  100)  e,  dentre  eles,  um  número  considerável  de  mulheres  (20%). Adams, como um típico capitão da indústria colocou­se no centro e à frente  de todos. 

173 Para a análise das fotos neste trabalho utilizamos como referencial as obras: KOSSOY, Boris.  Fotografia  e  História.  São  Paulo:  Ática,  1989  e  BORGES,  Maria  Elisa  Linhares.  História  &  Fotografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 

Para  Lagemann  175 ,  a  expressão  “indústria  de  calçados”  pode  ser 

empregada  somente  a  partir  do  início  do  século  XX,  quando,  em  1907,  no  levantamento  realizado  pelo  Centro  Industrial  do  Brasil,  foram  registradas  nove  indústrias  calçadistas.  Baseados  nesse  autor,  podemos  conferir  à  empresa  de  Adams o título de primeira indústria de calçados nos moldes modernos em Novo  Hamburgo. 

Segundo  Rupenthal 176 ,  um  fator  conjuntural  importante  a  ser  lembrado  é 

que as altas taxas de importação criadas pelo governo republicano incentivavam a  criação  de  indústrias.  Mesmo  assim,  havia  apenas  duas  empresas  calçadistas  com  mais  de  100  empregados no  ano  de  1900  (Pelotas  e Porto  Alegre)  e,  pelo  censo de 1907,  metade  da  produção  de calçados  estava concentrada  no Rio de  Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, e supria 90% do mercado interno  (a  taxação  sobre  os  calçados  importados  era  de  115%  e  o  governo  estadual  incentivava as vendas para outros Estados). 177 

O  capital  investido  inicialmente  pelos  sócios,  Adams  e  Gerhardt,  foi  de  22:000$000 e o início  das atividades  apresentou uma série  de  problemas,  como  acontece  com  qualquer  negócio.  A  fabricação  dos  produtos  requeria  muito  trabalho, e a colocação de novos produtos no mercado, juntamente com a criação  de um mercado consumidor, apresentava uma série de dificuldades. 

175  LAGEMANN,  Eugenio.  O  setor  coureiro­calçadista  na  história  do  Rio  Grande  do  Sul. 

Indicadores Econômicos. Ensaios FEE, Porto Alegre, ano 7, n.2, p.69­82, 1986. 

176 Op cit. p. 76,77. 

177  O  censo  industrial  de  1907  atribuía  ao  Estado  9  indústrias  calçadistas  e,  em  1912, 

contabilizando também as indústrias de pequeno porte, somavam­se 699 fábricas de calçados que  se concentravam na região de Porto Alegre e Vale do Sinos.

Em 1912, Adams já era agente do Banco da Província em Novo Hamburgo,  o que certamente lhe facilitou a obtenção de créditos para suas empresas. 

Logo  que  abriu  sua  empresa,  Pedro  Adams  Filho  contratou  seu  irmão  Alberto  para  gerente  técnico,  e  dedicou­se  integralmente  às  questões  administrativas. 178 

Figura 10 ­ Vista externa do depósito da empresa de Pedro Adams Filho em 1918 179