I. BÖLÜM
2.2. Sermaye Yapısıyla Ġlgili Kuramsal YaklaĢımlar
2.2.2. Modigliani ve Miller Sonrası Güncel YaklaĢımlar
2.2.2.3. Temsilci Maliyetleri Teorisi (Agency Theory)
As eleições presidenciais em 2002 e a vitória do governo Lula, novamente reacenderam as discussões sobre a estrutura sindical corporativa. Era a primeira vez que um presidente, cuja base de sustentação ascendia dos movimentos populares, estava disposto a, efetivamente, levar a cabo a reforma do sindicalismo brasileiro. Os discursos apontavam para a necessidade de renovar as instituições do trabalho, fortalecendo os sindicatos, tornando-os mais representativos para defenderem os interesses dos trabalhadores em um cenário de acirrada competitividade global.
A impressão era que, depois de muitas décadas e de várias tentativas de reforma, a estrutura sindical corporativa estava com seus dias contados. Integrantes do governo mostravam um certo entusiasmo em superar o corporativismo nas relações de trabalho. Em artigo publicado pela Folha de São Paulo de 23 de fevereiro de 2003, o então Ministro do Trabalho e Emprego do Governo Lula, Jaques Wagner, assinalava:
É curioso que, nos últimos dez anos, a despeito do crescimento econômico modesto, o número de sindicatos teve aumento expressivo, chegando a 16 mil agremiações. Mais curioso é o fato de que a taxa de sindicalização entre ocupados se tenha mantido nos mesmos patamares do início dos anos 90 – em torno de 26%. [...]. O crescimento quantitativo dos sindicatos parece, portanto, ter resultado menos do avanço da organização sindical [...] e mais da fragmentação das entidades já
existentes. Essa pulverização sinaliza necessidade de rever os problemas enfrentados na representação de trabalhadores e empregadores. [...]. Somos a favor de uma revisão do imposto sindical. A cobrança deste imposto é um dos maiores incentivos à formação de “sindicatos cartoriais”. [...]. É evidente, portanto, a
necessidade de superar o atual modelo de organização sindical, sempre criticado por sua origem autoritária e corporativista. É preciso passar das idéias luminosas para a concretização de uma reforma verdadeiramente democrática. Isso exigirá não só grande disposição para buscar soluções
negociadas, mas o compromisso de sintonizar a reforma sindical e trabalhista com as novas exigências do desenvolvimento econômico e social e com a necessidade de geração de emprego e renda (Wagner, 2003) [grifos nossos].
Para a reforma da estrutura corporativa, o governo Lula instituiu o Fórum Nacional do Trabalho, que contava com representantes dos trabalhadores, do governo e dos empresários, criando um espaço onde as discussões seriam encaminhadas, segundo os integrantes do Fórum, de forma democrática, evitando decisões unilaterais. Diante de um cenário de forte ofensiva sobre os trabalhadores, a organização de um Fórum Tripartite, destinado a elaborar reformas que, como proclamavam representantes do governo, iriam fortalecer os sindicatos e torná-los mais representativos soava, no mínimo, com um grande avanço. Em seu programa de governo, Lula já apontava a necessidade de organizar um Fórum de discussões onde se pudesse elaborar um novo projeto de reforma da estrutura sindical:
Com o objetivo de promover a mais ampla reforma da legislação trabalhista, o governo convocará todas as entidades sindicais representativas dos trabalhadores e empregadores a constituírem um Fórum Nacional do Trabalho, estruturado de forma tripartite. Sua finalidade imediata será a de preparar, democraticamente, as propostas da legislação atual (Coligação Lula Presidente, 2002 p. 23).
A opção por um Fórum Tripartite, mais do que um exercício de cautela consistiu numa tática específica adotada pelo governo para viabilizar uma reforma de difícil execução. Em documentos e pronunciamentos oficiais, explicitou-se repetidamente que só o diálogo e a negociação poderiam favorecer a elaboração de projetos legislativos sobre a reforma sindical e trabalhista que teriam chances de serem aprovados no Congresso Nacional. Foi assim que o governo Lula estruturou o FNT e convocou os principais agentes diretamente envolvidos para dar uma maior legitimidade ao projeto de reforma e às inovações pretendidas.
A criação do Fórum Nacional do Trabalho seria, portanto, o primeiro passo do novo governo em encampar e fomentar as discussões em torno da temática sindical/trabalhista. Criado para “modernizar as instituições de regulação do trabalho” o Fórum definia-se como um espaço de articulação de propostas, definidas em comum por trabalhadores, patrões e o governo, para uma reforma sindical e trabalhista, a qual seria, portanto, fruto do diálogo e da negociação entre todos os atores sociais, e tinha como principais objetivos:
[...] promover a democratização das relações de trabalho por meio da adoção de um modelo de organização sindical baseado na liberdade e autonomia; atualizar a
legislação do trabalho e torná-la mais compatível com as novas exigências do desenvolvimento nacional, de maneira a criar um ambiente propício à geração de emprego e renda; modernizar as instituições de regulação do trabalho,
especialmente a Justiça do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego; estimular o diálogo e o tripartismo e assegurar a justiça social no âmbito das leis trabalhistas, da solução de conflitos e das garantias sindicais9.
Todavia, ao afirmar que a urgência da reforma decorreria das necessidades em se adequar as leis e as instituições do trabalho às novas exigências de concorrência do capitalismo mundial, deixa claro que, muito mais do que fortalecer o movimento sindical, a intenção do governo era atender, principalmente, os interesses do capital em seu estágio globalizado, criando uma série de mecanismos cerceadores para impedir a constituição de um sindicalismo realmente “livre” e democrático. Ou seja, a preocupação do governo não era conduzir o movimento operário a um novo patamar de força, e sim adequar as instituições de regulação do trabalho às necessidades de acumulação em um cenário de acirrada competitividade global. Ademais, definitivamente, não é no campo das reformas que serão encontradas as respostas exigidas pela classe trabalhadora brasileira, mesmo em relação às suas lutas cotidianas mais imediatas. Em matéria publicada na Folha de são Paulo em 27 de agosto de 2003, o ex-ministro do trabalho, Jaques Wagner, declara:
Não vamos vender ilusão. Reforma sindical e trabalhista não gera emprego [...] as pessoas ficam achando que quando fizer a reforma trabalhista, aí, sim, virão mais empregos. Não é verdade. Pode facilitar. Se puder ter alguma forma para deixar a folha de pagamento totalmente liberada, é salutar. Agora não vamos dizer que isso gerará empregos. Isso pode trazer parte dos informais para a formalidade. O que gera emprego é crescimento econômico.
Essa declaração feita pelo ex-Ministro do Trabalho deixa claro que, à despeito da afirmação do governo de que a reforma sindical e trabalhista estimularia a geração de emprego e renda (adequando a legislação do trabalho às novas determinações do capitalismo mundial), o aumento do emprego estaria atrelado, principalmente, ao crescimento da economia brasileira, ou seja, a reforma em si não seria capaz de resolver o problema do desemprego, sendo apenas um mecanismo para adequar as leis trabalhistas em um cenário de crescimento econômico facilitando a contratação e dispensa de trabalhadores. Por outro lado, mesmo que sob o leque da “modernidade” ou da “justiça social”, o campo das reformas na medida em que não aponte para um projeto societal de maior envergadura, já nasce essencialmente conservador, pois, ao se apresentar como uma reforma restrita às
9 Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em <http://www.mte.gov.br/fnt/objetivos/asp. Acesso em :
institucionalidades do mundo burguês não contribui para a defesa dos interesses históricos da classe trabalhadora, mesmo que se trate de uma reforma necessária do ponto de vista das lutas contingentes dos trabalhadores.