I. BÖLÜM
2.2. Sermaye Yapısıyla Ġlgili Kuramsal YaklaĢımlar
2.2.2. Modigliani ve Miller Sonrası Güncel YaklaĢımlar
2.2.2.2. Ġflas Maliyetleri YaklaĢımı (Bankruptcy Costs)
Um primeiro ensaio de reforma da estrutura sindical durante os anos 90 foi feito pelo governo Collor. A iniciativa de Collor não visava à extinção da estrutura sindical, mas apenas sua reforma. Esse projeto propunha abolir o imposto sindical, condicionar a cobrança da taxa assistencial à prévia autorização de cada trabalhador e, o ponto mais polêmico, autorizar comissões de empresa a negociarem salários e condições de trabalho com a direção da empresa. Na estrutura sindical brasileira essa prerrogativa é atribuída exclusivamente aos sindicatos oficiais, pois, através da unicidade, detêm o monopólio da representação sindical. Ao que parece, a intenção dos autores do projeto era enfraquecer financeiramente os sindicatos e impulsionar a flexibilização das leis trabalhista, através da negociação direta entre os empresários e as comissões de empresa.
Tratava-se de uma reforma da estrutura corporativa que mantinha o artigo oitavo da Constituição (que versa sobre o monopólio da representação sindical), embora procurasse, através da atribuição de prerrogativas sindicais às comissões de empresa, contornar, na prática, o sindicato de categoria e o estatuto da unicidade sindical, que atribui apenas aos sindicatos oficiais o poder de negociação e contratação coletiva. Esta proposta de reforma foi, no entanto, abandonada rapidamente. O governo não demonstrou determinação em levá-la adiante e, tanto a CUT como a Força Sindical, posicionaram-se contra o projeto.
A CUT saiu em defesa da unicidade sindical e das contribuições sindicais compulsórias. Além disso, posicionou-se contra o direito de organizar comissões de empresa nos locais de trabalho. A CUT, que sempre discursou a favor da organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, recusou a proposta do governo Collor, pois concedia, às comissões de empresa, o direito de representar os trabalhadores nas negociações de salários e condições de trabalho. A CUT defende a organização nos locais de trabalho desde que suas decisões estejam integradas (e subordinadas) às decisões dos sindicatos, e estes com as decisões das instâncias superiores,
de acordo com sua concepção de sindicato orgânico. No que diz respeito ao artigo do projeto que previa o fim do imposto sindical, alguém poderia imaginar que ele teria provocado comemorações nos meios cutista, o que não ocorreu. Não obstante os discursos favoráveis à extinção do imposto sindical, muitos setores dentro da CUT se mostram reticentes quanto à eliminação desse imposto.
No final da década de 1990, a discussão sobre a estrutura sindical brasileira voltou à cena, graças a uma iniciativa do governo FHC, que enviou ao Congresso Nacional, em outubro de 1998, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 623/98) que altera os artigos oitavo, 111 e 114 da Constituição, artigos que versam sobre a organização sindical e a Justiça do Trabalho. O governo apresentou tal proposta como uma medida democrática e modernizadora, capaz de adequar as instituições do trabalho às novas regras de competição internacional. A maioria dos sindicalistas (principalmente a CUT) saiu em defesa da estrutura sindical corporativa, vendo na proposta apresentada pelo governo como um golpe mortal contra o sindicalismo brasileiro.
No que se refere à Justiça do Trabalho, a medida buscava facilitar o acesso à arbitragem facultativa. Estabelecia a conciliação extrajudicial como condição para que o trabalhador pudesse ingressar com ações individuais na Justiça. Assim, caso o trabalhador fosse entrar com um processo individual na Justiça do Trabalho ele teria que, primeiramente, recorrer à tentativa de conciliação extrajudicial. A proposta do governo também reduzia o poder normativo da Justiça do Trabalho, que só poderia julgar dissídios coletivos de natureza econômica a pedido de ambas as partes ou unilateralmente e pelo Ministério Público do Trabalho, em caso de lesão ao interesse público; e limitava a sentença normativa à escolha entre uma das propostas em discussão ou a uma proposta intermediária. Tais mudanças, todavia, provocaram diversas críticas por grande parte das organizações sindicais, pois restringiam a possibilidade dos sindicatos acionarem a Justiça do Trabalho e, em caso de conflitos individuais, obrigava o trabalhador a se submeter à mediação e conciliação extrajudiciais antes de acionar o Judiciário.
Quanto à estrutura sindical, a PEC 623/98 eliminava o inciso II do artigo oitavo da Constituição Federal (desconstitucionalizando o princípio da unicidade sindical), e alterava a redação do inciso IV do mesmo artigo, possibilitando a extinção do imposto sindical e da contribuição confederativa, pois eliminava, do texto Constitucional, a norma que atribui aos sindicatos o poder de cobrar a taxa confederativa, que é uma das principais contribuições sindicais obrigatórias que os sindicatos impõem aos trabalhadores (sócios e não-sócios), e eliminava também a referência que a Constituição faz a outras contribuições sindicais
obrigatórias previstas em leis ordinárias. Todavia, como destaca Boito Jr (2002 p.77), a PEC não suprimia e nem inviabilizava a manutenção dessas contribuições tanto na legislação ordinária quanto na vida prática do sindicalismo, pois, na proposta apresentada pelo governo, a responsabilidade pela sustentação financeira do aparelho sindical era atribuída à figura imprecisa dos representados (e não dos associados) e impunha o desconto das contribuições em folha de pagamento, o que, de certa forma, abria espaço para a tributação compulsória dos trabalhadores (sócios e não-sócios dos sindicatos)8.
Segundo Galvão, a PEC 623/98 embora ataquasse de frente os pilares do corporativismo, para que a unicidade e o imposto sindicais fossem definitivamente banidos da legislação brasileira seria preciso suprimir, concomitantemente, a legislação ordinária, o que o governo FHC não se propôs a fazer. Conforme a autora, para que não houvesse a menor sombra de dúvidas quanto à extinção da unicidade e do imposto, seria preciso elaborar um novo projeto de lei revogando o artigo 516 e o capítulo III da CLT, de modo que esses princípios não subsistissem na legislação ordinária (Galvão, 2003 p.283-284).
Contudo, o governo FHC não optou por esse caminho, preferindo deixar em suspenso a sobrevivência da estrutura sindical em legislação ordinária. Mesmo assim, muitos afirmavam que a PEC 623/98 suprimiria, se aprovada, a estrutura sindical corporativa herdada do período Vargas. Na verdade, a proposta de emenda constitucional do governo desconstitucionalizava as normas básicas da estrutura sindical corporativa (unicidade e imposto sindicais), mas ao fazê-lo, deixava que tais normas continuassem a subsistir na legislação ordinária, tornando mais fácil a aprovação de medidas legais que visassem reformar ou suprimir tal estrutura.
É evidente, portanto, o contraste entre a parte da reforma que trata da organização sindical e a que trata especificamente da Justiça do Trabalho. Como destaca Boito Jr, no tocante à organização sindical, tudo fica em aberto, deixando o campo livre para a negociação com os sindicalistas. No tocante à Justiça do Trabalho, o texto é afirmativo e detalhado, não deixando dúvida sobre a restrição do acesso do trabalhador ao judiciário trabalhista e a redução do poder normativo desse ramo do judiciário. Conforme Boito Jr, a Justiça do Trabalho é um obstáculo à política desregulamentadora dos governos neoliberais, daí a pressa em alterá-la. O autor levanta a hipótese de que o governo teria chantageado os sindicalistas com sua proposta de mudança, ameaçando-os de suprimir definitivamente a estrutura sindical caso não aceitassem as restrições ao judiciário trabalhista (Boito Jr, 2002 p.78).
8 A PEC 623/98 estabelecia que “a assembléia geral, observado o princípio da razoabilidade, fixará a
De qualquer forma, o governo hesitou em romper com os pilares da estrutura sindical corporativa. Alguns setores do sindicalismo brasileiro, em especial a CUT, associavam as tentativas de reforma do governo Fernando Henrique ao conjunto de suas políticas neoliberais, visando ao enfraquecimento do movimento sindical e a retirada de direitos dos trabalhadores. A intenção do governo era, principalmente, eliminar os dispositivos que, de um certo modo, dificultavam a flexibilização das leis trabalhistas, mantendo, ao mesmo tempo, a estrutura dos sindicatos oficiais. O discurso neoliberal sempre se apresentou como um crítico do “estatismo” e da “era Vargas”. Porém, os governos neoliberais não demonstraram interesse efetivo em desmontar o aparelho sindical, convivendo pacificamente com o corporativismo de Estado e, ao mesmo tempo, rechaçando os direitos sociais consolidados durante o período Vargas. Os mesmos governos neoliberais que implementaram grandes esforços em desregulamentar o mercado de trabalho via eliminação de direitos consolidados na Constituição e na CLT, preservaram intocada a estrutura sindical corporativa.
2.3 O GOVERNO LULA E A CRIAÇÃO DO FÓRUM NACIONAL DO