D. Konya’nın Kısa Tarihçesi
I. BÖLÜM
1.3. Şer’iye Sicillerinin İçindeki Belgelerin Sınıflandırılması
1.3.1. Kadı tarafından Kaleme Alınan Belgeler
Sinclair (2005) explora a base do poder das agências de rating de crédito, bem como a natureza de sua autoridade nos mercados financeiros e as implicações de seus julgame ntos para as corporações, governos municipais e estados soberanos. Na visão do autor, as agências refletem o estoque de conhecimento e autoridade intelectual que possuem. Os governos e atores de mercado levam-nas em consideração porque são vistas como fontes legítimas de autoridade e de julgamentos, o que faz delas organizações-chave para o controle e o acesso ao mercado de capitais, em congruência ao que é afirmado por Kerwer (2005). Isso ocorre não apenas em razão de sua capacidade técnica, mas também em decorrência de interesses sociais e políticos. Não se deve ignorar o caráter social do que acontece nos mercados e suas instituições, uma vez que os indivíduos tomam decisões em mercados financeiros em antecipação e resposta às decisões de outros. Partindo dessa perspectiva, Sinclair (2005) sugere que em situações de elevado risco e incerteza, as instituições que trabalham para facilitar as transações entre compradores e vendedores e diminuir a assimetria de informação assumem um papel central na organização dos mercados e, consequentemente, no mundo.
Rating is, first and foremost, about creating an interpretation of the world and about the routine production of practical judgments based on that interpretation. This interpretation is made within the terms of the socialization and interests of rating agency officials, who are part of a wider financial and analytical community (SINCLAIR, 2005, p. 61).
Julgamento profissional e análise – e expectativas públicas sobre seu desenvolvimento e padrões – são elementos-chave socialmente legitimados dessa estrutura de pensamento das agências de rating de crédito, segundo Sinclair (2005; 2010). Tem-se uma concepção de como a estrutura de pensamento de agências de rating pode ser entendida em seu contexto social mais amplo por meio do que Haas (1992) chamou de comunid ades epistêmicas, no sentido de serem “redes de especialistas baseadas em conhecimento”, as quais discutem problemas aparentemente técnicos e complexos. O reconhecimento de que essas redes são formadas por profissionais competentes e peritos confere a essas pessoas e - consequentemente - às empresas o direito de oferecer conselhos ao mercado. Desse modo, o controle do conhecimento é, segundo Haas (1992, p. 2), “uma importante dimensão do poder”. As características de tais comunidades epistêmicas são: conjunto de normas e princíp ios compartilhados, crenças causais compartilhadas, noções de validade compartilhadas na área do
conhecimento e uma “empresa política em comum” (HAAS, 1992, p. 16), conectada para melhorar o bem-estar dos indivíduos. Assim, o que as comunidades epistêmicas fazem é interpretar fenômenos. O poder das comunidades epistêmicas e das agências de rating emana do conhecimento que possuem.
Para Sinclair (2005; 2010), quando atuam como redes de conhecimento as agências podem ajustar as “regras de base” dos mercados de capital internacionalmente, dando forma e ditando o comportamento das instituições que estão buscando fundos para seus investimentos. Esse poder estruturante é refletido no entendimento dos participantes do mercado de capitais em relação às expectativas e visões das agências. Constitui, portanto, a base a partir da qual negócios e políticas são desenvolvidos. O efeito de coordenação das agências estreita as expectativas de credores e devedores, reduzindo-as a um conjunto de normas transparentes, compartilhadas e bem entendidas por todas as partes. As agências não reprimem o mercado de capitais, e sim fornecem pressão significativa sobre os participantes do mercado.
Ainda na visão de Sinclair (2005; 2010), o que está no âmago das atividades dessas redes de conhecimento é o papel que o próprio conhecimento desempenha nas decisões de investimento. Para o autor, os atores do mercado estão absolutamente sobrecarregados com informações sobre tudo e, sendo assim, uma possível solução é a tentativa de condensar todos os dados soltos em rankings ou ratings. Esse conhecimento compilado torna-se um benchmark em torno do qual os atores do mercado organizarão seus negócios. Aqueles que tomam decisões em mercado financeiro costumam partir desses pontos de referência - tais como ratings - para fazer suas escolhas, e isso passa a ser tomado como padrão, em certa medida decretando o sucesso ou a falência de quem é avaliado. Deste modo, os resultados apresentados ao mercado pelas redes de conhecimento desempenham um papel crucial na construção dos próprios mercados quando não se tem muita certeza sobre o futuro e não há informação perfeita. Os
ratings tornam-se, então, linguagem franca, e repetidamente as conversas e decisões de pessoas
do mercado financeiro trarão referências às notas de crédito para aludir à determinada companhia. As agências não são importantes por conta de algum rating em especial, mas pelo fato de constituírem parte da organização interna do mercado financeiro.
Agências de rating de crédito são tratadas seriamente pelo mercado financeiro, e os participantes demonstram considerável interesse por seu ponto de vista. As agências aqui estudadas trabalharam ao longo de anos para construir seu status como empresas imparcia is. As circunstâncias que envolvem agências de rating, como longevidade e posição no mercado de capitais lhes conferem caráter de autoridade em um nicho mais resiliente. Ainda que alguns atores do mercado financeiro não levem a sério as opiniões dadas pelas agências de rating, eles
devem de algum modo tentar antever o que irá acontecer quando essas instituições manifest a m suas opiniões publicamente (SINCLAIR, 2010).
As opiniões emitidas pelas agências têm de ser levadas em conta, visto que a ação no mercado é desencadeada a partir delas. Investidores também acabam por imitar seus pares, aumentando ainda mais o efeito produzido no mercado com o lançamento da opinião de especialistas. Esse contexto cria um círculo vicioso: o mercado e emissores de dívida têm grande incentivo para agir como se todos realmente levassem em consideração as opiniões emitidas pelas agências. Vale ressaltar que as pessoas acreditam nessas instituições e que as opiniões por elas emitidas determinam uma ação coletiva. É digno de nota que, assim como em outras áreas, há mimetismo quando o assunto é investimento (DIMAGGIO; POWELL, 1983). Desse modo, se as pessoas valem-se dos ratings para ação ou inação coletiva, as análises feitas pelas agências tornam-se reais e significativas. Refletir sobre a natureza e a direção dos fatos sociais constitui parte cotidiana do mercado financeiro. Há nesse campo social a crença de que aquilo que é dito pelas agências importa, o que imediatamente transforma a informação veiculada pela mídia em ação e, como consequência, o que pode ser falso torna-se verdadeiro (MERTON, 1948). As agências trabalham seu status, o qual não pode ser comprado, uma vez que demanda construção ao longo do tempo como uma instituição que se oferece para o mercado a fim de resolver os problemas de informação entre compradores e emissores de dívida, provendo comunicação de forma até certo ponto confiável e gerando autoridade epistêmica. A legitimidade, o status e a reputação das agências não são naturais, e sim compõem um ativo valioso e construído no decorrer de um processo (SINCLAIR, 2010).
O poder, a autoridade das agências e as implicações dos ratings para a vida pública e privada fazem dessas empresas atores de mercado não neutros. Os processos de coleta de informações e julgamento feitos pelas agências refletem maneiras de pensar particula res, rejeitando outros modos possíveis. Os julgamentos produzidos e as decorrentes opiniões emitidas adquirem o status de fatos entendidos no mercado em razão do papel de autoridade que os participantes de mercado e sociedades atribuem às agências (SINCLAIR, 2005).
A vigilância das agências sobre seus clientes constitui um aspecto-chave por moldar o pensamento e a ação dos emissores de dívida, uma vez que os ratings são concedidos e após algum tempo as agências voltam a avaliar os emissores a fim de decidir se as notas são mantidas ou se sofrerão upgrade ou downgrade. Os próprios investidores esperam que as agências façam o escrutínio dos emissores e assumam o papel dos “guardas da prisão”. Ao fornecerem conhecimento profissional, local e especialista na forma de capacidade analítica de uma vasta série de emissores, as agências (juntamente com os bancos de investimento responsáveis pelo
underwriting) relegam os analistas de crédito dos bancos como gatekeepers menos importantes.
O processo de gatekeeping é manifestamente político, já que a lógica dos ratings está ligada a uma forma particular de organização social e a um conjunto de interesses. As agências avaliadoras tentam parecer altamente científicas e evitam qualquer sugestão de parcialidade em seus negócios, a fim de que possam exercer seu papel de “policiais” habilitando a realização da mobilidade de capital do modo mais seguro possível, sempre baseando seu discurso em argumentos pragmáticos.
O conhecimento constitui um elemento-chave na economia política do rating. O tipo de conhecimento produzido pelas agências é parcial tanto do ponto de vista social como do político. Esse conhecimento é objetivado por meio da validação social, tornando-se assim oficial. Cabe lembrar que o conhecimento resulta de uma disputa de interesses sociais. Os
ratings em específico constituem conhecimentos valiosos porque abordam assuntos de interesse
social. A forma com que as agências utilizam o conhecimento é instrumental e sincrônica, conforme Sinclair (2005). A utilização dessa forma de conhecimento, quando ligada ao
gatekeeping feito pelas agências, é apenas uma consequência. Aqueles que procuram a
aclamação das agências têm muitos incentivos para adotar essa forma de conhecimento. A publicação das notas gera consequências financeiras distributivas significativas, bem como influencia de modo indireto a criação de empregos e a economia global. Para negar que as agências possuem um lado político deve-se afirmar que o mercado financeiro funcio na independente da intervenção social. O poder exercido pelas agências é disseminado por aquilo que as notas de crédito representam. A disseminação do que é afirmado pelas agências tem impactos no bem-estar global, podendo gerar uma crise de crédito a depender das interpretações feitas. (SINCLAIR, 2005).
Nesse sentido, a visão de Sinclair (2005) é influenciada pelo conceito-chave de Granovetter (1985) denominado embeddedness, o qual busca vincular as instituições às relações sociais nas quais estão inseridas. Dessa forma, a vida econômica não é separada da sociedade, mas completamente ligada às circunstâncias históricas e culturais, as quais constituem variáve is dentro do tempo e espaço. Assim, Sinclair (2005; 2010) explica também que as agências de
rating de crédito são redes de conhecimento incorporadas (embedded knowledge networks), ou
seja, sistemas analíticos e de julgamento considerados legítimos em vez de entidades impostas pelos participantes do mercado. Os julgamentos de investimentos são cada vez mais centralizados nas agências, sendo o conhecimento para fazer ratings um fenômeno social que se torna cada vez mais instrumental.
As agências possuem uma espécie de hierarquia que permite que algumas instituições comandem não apenas a atenção da audiência, mas também sua confiança, respeito e fé. As circunstâncias históricas são cruciais para identificar a existência de autoridade, a qual é entendida como efeito dessas circunstâncias. Autoridade não é persuasão, mas reside na identidade da instituição que garante a aceitação de um discurso. A existência de coerção revela que há falta de autoridade ou que essa autoridade está em perigo e necessita de subterfúgio para continuar. A passagem das agências de rating de crédito de persuasoras frente ao mercado para autoridades epistêmicas ou redes de conhecimento embutidas dá-se quando o mercado de capitais inicia sua expansão e os bancos perdem a posição de alocadores de capital. Dessa forma, as avaliações creditícias tornam-se institucionalizadas e incorporadas em normas e regras, influenciando comportamentos e organizando ações no mercado. Sinclair (2005) desenvolveu um quadro mental sobre a ortodoxia do rating - amplamente aceita pelo
mainstream econômico - versus a heterodoxia, a fim de trazer à discussão elementos sociais,
culturais e políticos.
Princípios racionalistas (ortodoxia) Princípios construtivistas (heterodoxia) Investimento Ratings são o resultado de processos
profissionais racionais
Ratings são o resultado de julgamentos Ênfase nos retornos de curto prazo e na
especificação dos passivos
Ênfase no crescimento sustentável em um ambiente de absorção coletiva de risco Avaliação dos lucros como meios de
repagamento. Sendo que o lucro pode ser gerado na produção ou nos mercados financeiros
Avaliação dos lucros e tributação como meios de repagamento, baseados em investimentos nas capacidades produtivas e sociais
Conhecimento Conhecimento é imparcial, cross- cultural e instrumental
Dinâmicas sociais são centrais para a criação, conteúdo e eminência concedida a diferentes conhecimentos
Mercados são naturais e espontâneos, não fenômenos sociais
Mercados são fenômenos sociais
Opinião técnica é essencial para a criação de conhecimento. Todos os produtores de conhecimento são iguais e são tão bons quanto sua última análise
Reputação, baseada na experiência, sustenta a autoridade epistêmica (isto é, redes de conhecimento embutidas). Todos os produtores de conhecimento não são iguais – a identidade intersubjetiva do produtor de conhecimento como uma autoridade epistêmica dá autoridade para as análises do produtor de conhecimento (boa ou má)
Governança Rating não é político Rating é político Rating desafia normas e práticas
políticas historicamente assumidas para inibir a alocação eficiente de capital
Ênfase no papel válido de múltiplos stakeholders e na distribuição social de custos e benefícios
Ênfase nos tipos de sistemas de
podendo resultar em privatização. Isso é visto como politicamente neutro Quadro 3 – Quadro mental sobre a ortodoxia do rating Fonte: SINCLAIR, 2005, p. 70.
Os atores do mercado veem essas redes de conhecimento incorporadas como endógenas à globalização financeira. Nesse cenário, as agências destacam-se como mecanis mos influentes no processo de globalização, moldando o comportamento de governos e empresas ao julgarem a habilidade futura e a vontade de um emissor fazer pagamentos em dia tanto de principal como de juros durante a vida de um instrumento financeiro. O objetivo da maioria das agências é fazer ratings que possam ser usados globalmente para que investidores possam fazer escolhas também globais. Entretanto, um rating não é uma recomendação de compra, venda ou manutenção de um papel, e deveria ser apenas parte da informação que os investidores utiliza m para fazer decisões. Ainda assim, as agências constroem uma base analítica para os investido res realizarem suas transações de mercado (SINCLAIR, 2005).
Além da globalização, a desintermediação financeira e a securitização de recebíveis têm feito com que os julgamentos sobre quem recebe ou não crédito no mercado saiam dos bancos e migrem para as agências que avaliam esse tipo de operação. Os bancos não desempenham mais o papel principal de emprestadores nesse contexto e o mercado de capitais passa a ser mais desenvolvido (SINCLAIR, 2010). Os mercados tradicionais de capitais baseavam-se em emprestadores renomados e confiáveis em suas comunidades. Todavia, os
ratings têm se tornado a norma em que os empréstimos bancários perderam seu lugar e os
gerentes de fundos são pressionados para demonstrar que não estão baseando suas escolhas de investimento apenas em nomes conhecidos no mercado, mas sim valendo-se de um mecanis mo reconhecido e aceito.
Com a mudança dos investimentos no sentido de haver mais desintermediação no mercado financeiro, o poder e a influência das agências aumentaram. Essas empresas têm grande interesse de se manterem como autoridades de julgamento, e esse interesse incentiva as agências a cooperarem com os investidores que as contratam. Paradoxalmente, elas também têm o interesse de não divulgarem completamente informações sobre como são feitos os julgamentos e, desse modo, reforçam seu papel no mercado de capitais. (SINCLAIR, 2005).
Esquema 2 – Intermediação e desintermediação financeira Fonte: SINCLAIR, 2005, p. 58.
Portanto, as agências podem ser pensadas como intermediárias de reputação (GOUREVITCH, 2002), ou como proposto por Durand e McGuire (2005), agentes de legitimidade. Para Bitektine (2011) as agências de crédito fornecem informação e opinião para o mercado e guiam os julgamentos de legitimidade do público em geral, funcionando como uma espécie de avaliador. Tais intermediários ou agentes são essenciais para o funcioname nto do sistema ao monitorar gerentes, ou então como estabelecedores de regras, de forma que as decisões sejam menos custosas para os participantes do mercado de capitais (GOUREVITCH, 2002; BECKERT, 1996). Sendo assim, as agências operam como requerimentos quase legais no mercado, levando a sua legitimação frente a uma audiência (SCOTT, 1995).
O maior desafio enfrentado pelas agências são as crises ou pânico, já que nessas situações há ameaça real de quebra dos ativos reputacionais construídos há algum tempo. A crise econômica do México de 1994, a crise financeira asiática, a moratória russa em 1998, a crise subprime e os diversos casos envolvendo escândalos em corporações representam possíveis problemas para as agências que avaliam esses países e essas empresas. Para Sincla ir (2005), o modo de lidar com essas “crises de legitimidade” é manter-se informado sobre inovações financeiras, gastando altas somas em treinamento de pessoal e contratações. Com isso, as agências desenvolvem “novos produtos”, como a criação de símbolos para indicar quando os ratings são baseados em informação pública e não refletem dados confidencia is (na S&P), ou então escalas de rating nacionais e regionais, entre outros. O autor alega, ainda, que
uma estratégia usada nesse caso pela Moody’s foi deixar mais transparente o racional usado para a atribuição de ratings.
Onde e quando essas instituições ou redes de conhecimento tentam se implantar em outras sociedades representa um risco de perder seu status de “incorporadas”, a menos que reconheçam a necessidade de cooptar atores de mercado em outros lugares que acreditem na natureza endógena de suas competências (SINCLAIR, 2005). Portanto, tais agências devem adaptar-se às expectativas públicas do novo país, quando da sua expansão, ou, de acordo novamente com Meyer e Rowan (1977), seguir os mitos. Seguir os mitos envolve apreender o que é aceito socialmente e, dessa maneira, compreender o que assume o status de regra na imaginação de uma sociedade, ou seja, quais fatores levam determinada instituição à legitimidade. O que esses autores chamam de mito constitui a chave para entender por que instituições são organizadas e operam de determinado modo.