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TANIMLAR VE KAVRAMLAR

Belgede TASARRUF MEVDUATI SÝGORTA FONU (sayfa 103-120)

Um dado que me chamou atenção logo quando comecei a estudar a inteligência na PM é como o policial do P2 se refere ao seu parceiro no cotidiano: “cobaia”ou “canga”.112 Dentre outros motivos, isso se deve ao grau de confiança que um deve ter no outro e à forma de atuação dos policiais Reservados, que sempre atuam com ao menos um parceiro ao seu lado. Por transitarem na linha entre

111 Entrevista realizada com Ranulfo em 11 de junho de 2015.

112 Conforme o Dicionário Houaiss (online), há duas acepções de canga que correspondem ao sentido

fornecido pelos policiais: "[...] peça de madeira usada para prender uma junta de bois a carro ou arado" e "[...] um pau assentado nos ombros de dois carregadores e usado para transportar objetos pesados".

legalidade e ilegalidade, o destino de um PM do Reservado está intimamente ligado ao outro; é preciso que haja cumplicidade e uma comunhão mínima de visão e valores para lidar com as adversidades e os desafios impostos pelo cotidiano do trabalho. Daí a imagem da “canga”, como uma peça simbólica de madeira que une irremediavelmente um PM a seu parceiro. A expressão “cobaia” talvez exija um menor esforço de interpretação, mas ela se insere perfeitamente nesse contexto de improviso e surpresa que permeia a atividade de inteligência. Para Martins, é preciso ter o mínimo de confiança no que o parceiro vai fazer e no modo como ele vai reagir durante a abordagem (informação verbal)113 .

Haroldo, PM que atuou por cinco anos no Serviço Reservado, cita o exemplo em que a “cobaia” dele simulou ter aceito o recebimento de propina de uma acusada de praticar o golpe “boa-noite cinderela”.114 Com isso, a mulher pode ser presa em flagrante por tentativa de suborno a um policial. A ação ocorreu sem que houvesse um acerto prévio e foi resultado de uma iniciativa imediata. Se o parceiro tivesse recusado a propina por qualquer motivo (uma desatenção, por exemplo), eles teriam perdido a chance de detê-la naquele instante, mas graças à atitude perspicaz da “cobaia”, conforme o relato de Haroldo, a mulher foi detida legalmente e levada à delegacia (informação verbal)115116.

O emprego de nomes fictícios também é uma medida de segurança adotada pelos policiais. Como têm de lidar diretamente com pessoas ligadas aos circuitos e redes criminais, a posse do nome verdadeiro do PM é um bem valioso nas disputas por informações sobre o “inimigo”, que perpassam os confrontos travados entre policiais e traficantes. “Chico” e “Louro” são alguns exemplos de nomes que circulam no interior das equipes. Martins afirma que no Batalhão de Choque é usada a numeração: 01, 02, etc. Tal medida é evitada no Serviço Reservado, a fim de diminuir as feições militarizadas das ações dos agentes. Nas interações que mantive com os policiais, pude presenciar situações em que um PM se referia ao outro como “Chico”, de forma bastante espontânea.

113 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015.

114 Golpe que consiste em ministrar um medicamento indutor de sono de forma disfarçada, a fim de que

a vítima do crime durma profundamente e tenha seus bens roubados durante esse período.

115 Entrevista realizada com Haroldo em 4 de janeiro de 2013.

116 Vale ressaltar que o motivo da prisão não foi o mesmo pelo qual ela estava sendo procurada pela

polícia. Tal estratégia policial não é incomum. Ouvi diversas menções a ocorrências em que infrações de menor gravidade foram o ponto de partida para prisões de criminosos tidos como “perigosos” pelos órgãos de segurança.

3.7 “A equipe tem de me dar produção, tem de me dar conhecimento”

Sobre a divisão do trabalho e o gerenciamento das ocorrências, um oficial PM entrevistado para a presente pesquisa afirma que costuma repassar as prioridades à sua equipe no início da manhã. Uma segunda reunião é feita no fim da tarde para avaliar o que se avançou em relação à missão dada. “Conversamos no início e no fim do expediente”, garante (informação verbal)117. O militar afirma que o seguimento do horário de expediente do quartel é um item secundário, quando se leva em consideração o cumprimento das deliberações propostas. Um problema enfrentado na área de circunscrição em que atua, de acordo com o oficial, é a desova de cadáveres. “As mortes costumam ocorrer em outro local, mas os corpos são jogados em áreas ermas”, explica (informação verbal)118. Tais ocorrências são costumeiramente repassadas à equipe local do Reservado.

Um segundo oficial PM destaca a importância da inteligência policial com a seguinte afirmação: “A equipe tem de me dar produção, tem de me dar conhecimento”. Hugo afirma que o comandante deixa a equipe livre, mas é preciso informá-lo sobre as ações: “Chega demanda do número 181 (teledenúncias) tudo documentado. Tem de dar uma resposta, um retorno àquela demanda”, explica (informação verbal).119 casos em que a origem do pedido parte do comando ou de ligações feitas ao quartel. A cobrança por resultados é um fator gerador de preocupação para os policiais. Para Hugo, atuar como policial da inteligência é uma atividade bastante estressante, e desabafa:

A gente sai do trabalho e fica pensando na ocorrência do dia. Se exagerou, se errou. Um policial fardado pode passar 30 anos na viatura só dando tchau para os moradores e empurrando as coisas com a barriga. O Reservado tem de ter produção, tem de ter resultado todo dia. A gente dá muito prejuízo aos traficantes. Atuamos muito próximo a eles (informação verbal)120

No que tange à produtividade de seu setor, Ulisses diz que ela é bastante elevada. Em uma conta rápida, ele estima que, no ano anterior à entrevista, haviam sido redigidos 150 relatórios de inteligências (relints), cujas informações teriam

117 Entrevista realizada com Hugo em 2 de dezembro de 2015. 118 Entrevista realizada com Hugo em 2 de dezembro de 2015. 119 Entrevista realizada com Hugo em 2 de dezembro de 2015. 120 Entrevista realizada com Hugo em 2 de dezembro de 2015.

resultado em mais de 100 prisões. Até março daquele ano, oito armas teriam sido apreendidas, 25 relints elaborados e entre 10 e 15 pessoas teriam sido presas. Os resultados poderiam ser melhores, de acordo com o agente. Ele explica que o Reservado gera muita informação, mas ela não costuma ser usada pelo comando (informação verbal)121.

Ao contrário do que ocorre no quartel de Ulisses, um coronel da PM ouvido na pesquisa afirma valer-se bastante da atividade de coleta de informações no policiamento cotidiano. De acordo com o oficial, os PMs do Reservado auxiliam na agregação de elementos sobre a autoria do crime, fornecendo subsídios à investigação da Polícia Civil:

Quando há indícios muitos fortes, montamos a ‘campana’, ou seja, enviamos o policial descaracterizado ao local. Nesses casos, ou pedimos a expedição de mandado de prisão ou eles agem sob flagrante delito que lhes permite entrar nas casas a fim de obter as provas materiais (informação verbal)122.

Esse protagonismo da PM na atividade investigativa é gera repulsa em parte de setores da Polícia Civil, que veem nessa atitude uma usurpação de papéis. A realização de prisões é um aspecto central nesse debate. Há uma recomendação, na doutrina de inteligência, de que o policial do Reservado não faça a prisão de quem ele estava monitorando. O procedimento padrão é a confecção de um relatório para envio ao comandante. O documento deve preencher os critérios de ISA (Indício Suficiente de Autoria)123. As ações a serem tomadas em seguida, então, passam para uma esfera de atuação distinta da 2ª Seção. De posse desses dados, cabe aos policiais fardados que realizam o policiamento ostensivo ou aos policiais civis agir no sentido de prender o acusado. No dia a dia, contudo, não raro os policiais da P2 realizam prisões sem qualquer tipo de disfarce, como se atuassem no policiamento ostensivo.

A definição da operação passa pelo alvo e por quem solicita, explica o PM. Ele cita o caso de um roubo de uma câmera de vídeo de uma emissora local. Após uma intensa investigação, os criminosos foram presos e o equipamento recuperado.

121 Entrevista realizada com Ulisses em 27 de março de 2013. 122 Entrevista realizada com um coronel da PM.

123 De acordo com o Código de Processo Penal, em seu artigo 312, "a prisão preventiva poderá ser

decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria".

Segundo Haroldo, ele nunca teve tantas condições de trabalho quanto naquela missão. “Nunca passamos tão bem. Andávamos em carrões e comíamos do bom e do melhor”, disse. Em muitas ocasiões, o trabalho de monitoramento de um determinado suspeito teve de ser abortado em prol de demandas das mais diversas origens (informação verbal)124.

Belgede TASARRUF MEVDUATI SÝGORTA FONU (sayfa 103-120)