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Hâkim Ortaklardan Alacaklarýn Geri Kazanýmý

Belgede TASARRUF MEVDUATI SÝGORTA FONU (sayfa 64-77)

3.4. HÂKÝM ORTAKLARDAN ALACAKLARIN ÇÖZÜMLENMESÝ

3.4.2. Hâkim Ortaklardan Alacaklarýn Geri Kazanýmý

Embora já existisse um Subsistema de Inteligência de Segurança Pública, faltava um instrumento normativo que pudesse regulamentar a ação dos agentes. Isso só ocorreu em 2009, com a publicação da Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública (DNISP). Segundo Coelho (s/data, p. 9), diversos entraves fizeram com que o subsistema não funcionasse de modo mais eficaz: a atividade de inteligência de segurança pública não era formalizada na maioria dos estados, os profissionais não possuíam qualificação na área, faltavam equipamentos específicos para o desempenho da atividade, não havia uma “mentalidade” de inteligência alinhada às propostas do Plano Nacional de Segurança Pública e havia, ainda, a carência de uma doutrina específica que orientasse a atividade de ISP em nível nacional. Todos esses fatores somam-se às dificuldades em manter um fluxo de informação entre os atores que compõem o Sisp, e até mesmo entre os órgãos que compõem as secretarias estaduais de segurança pública. A falta de comunicação

71 Entrevista realizada com o major Silveira em 28 de dezembro de 2015. 72 Entrevista realizada com o major Silveira em 28 de dezembro de 2015. 73 Entrevista realizada com o major Silveira em 28 de dezembro de 2015.

entre a Polícia Civil e a Polícia Militar é um aspecto crônico das dinâmicas de interelação entre as duas corporações, e já foi observado por diversos autores.

O documento é de acesso Reservado, ou seja, não pode circular livremente. No entanto, com dois cliques é possível localizar a versão digital da “Doutrina”74 na internet. Uma nova versão estava prevista para ser lançada no fim de 2015, mas até o encerramento desta tese não consegui obter acesso ao material. Ainda que uma nova versão tenha vindo à luz, as diretrizes às quais os agentes de inteligência tiveram de se basear estão, até o momento, inscritas na edição de 2009. Nesta seção, faço uma exposição do documento. O objetivo da Doutrina é nortear as ações de inteligência no âmbito da área de segurança pública. Para tanto, é preciso explicitar conceitos e descrever o funcionamento do subsistema. A DNISP divide-se em cinco capítulos, a saber: “Fundamentos doutrinários”, “Conhecimento”, “Métodos para reunião de dados”, “Contra-inteligência” (CI) e “Organização da Inteligência de Segurança Pública (ISP)”.

O primeiro capítulo é dedicado a responder à seguinte questão: “O que é a inteligência de segurança pública?”, e explica que a atividade é dividida em três funções específicas: a) ações especializadas para a identificação, acompanhamento e avaliação de ameaças reais ou potenciais na esfera de Segurança Pública; b) produção e salvaguarda de conhecimentos necessários para subsidiar os governos federal e estaduais a tomada de decisões, para o planejamento e à execução de uma política de Segurança Pública; e, por fim, c) ações para prever, prevenir, neutralizar e reprimir atos criminosos de qualquer natureza ou atentatórios à ordem pública.

Como se vê, a Inteligência de Segurança Pública (ISP) estende-se ao longo de uma série encadeada de ações, abrangendo diversos atores institucionais. O ponto de partida seria a identificação da ameaça, seja ela real ou potencial. Não basta, contudo, saber de sua existência. É preciso avaliar a magnitude do problema que ora se apresenta. A preocupação com a gestão dos recursos, humanos ou materiais, é evidente. Uma alegação recorrente entre os estudiosos da segurança pública é a de que não há efetivo suficiente para atender todas as demandas da sociedade. Em um contexto de escassez permanente, escolhas precisam ser feitas.

74 A “Doutrina” é o modo como os meus interlocutores costumam se referir ao documento durante

Para quem atua na área da inteligência, o produto de toda essa análise não pode ficar exposto. Daí a necessidade de proteger documentos, informes e relatórios que possam subsidiar a tomada de decisões no que o documento denomina de “salvaguarda”.

A Doutrina é abrangente o bastante para não deixar de fora a possibilidade de que o agente possa agir também na "prevenção, neutralização e repressão" dos atos criminosos. Há diversos casos relatados pelos interlocutores em que o agente de inteligência se vê "obrigado" (conforme a explicação dada por eles) a realizar uma prisão.

No tópico seguinte, relativo às finalidades, as três ações são desmembradas em uma série de atividades articuladas, como "Apoiar diretamente com informações relevantes as operações policiais de prevenção, repressão, patrulhamento ostensivo e de investigação criminal", "Preservar o segredo governamental sobre as necessidades informacionais, as fontes, fluxos, métodos, técnicas e capacidades de Inteligência das agências encarregadas da gestão da segurança pública" e "Auxiliar na investigação de delitos". Este último item chama atenção por seu caráter vago. Auxiliar a investigação abrange uma infinidade de práticas. Conduzir um suspeito para ser interrogado ou coletar materiais que possam ser incorporados ao inquérito criminal pode ser considerado auxílio? A quem compete a execução dessas tarefas? Enumero essas duas somente a título de exemplo, para que se possa perceber o quanto essa área é movediça. O poder de investigar é uma atividade policial em constante disputa, conforme será visto no capítulo 4. No item seguinte, a "Doutrina" lista 10 características que distinguiriam a ISP das demais atividades policiais. São elas:

- Produção de Conhecimento - Assessoria

- Verdade com Significado - Busca de Dados Protegidos - Ações Especializadas - Economia de Meios - Iniciativa - Abrangência - Dinâmica - Segurança (SENASP, 1999, p. 14).

Vou me deter nas duas primeiras. A produção do conhecimento é um elemento fundamental na ISP, na medida em que é ela quem qualifica o que é uma

atividade de inteligência. Pode se descrever a produção de conhecimento como a coleta e busca de dados que são transformados em conhecimento preciso a partir de uma metodologia específica. Todas essas etapas são necessárias para que o procedimento possa ser compreendido por seus operadores como um produto de inteligência.

O destino de todo esse esforço, segundo a DNISP, é "[...] assessorar os usuários no processo decisório" (BRASIL, 1999, p. 14). A ênfase no papel de assessoramento é tema recorrente nos estudos que versam sobre inteligência de segurança pública, assim como nos discursos dos policiais que já fizeram parte de órgãos específicos de inteligência, como a Coordenadoria de Inteligência (Coin). Em número de 11, a Doutrina enumera os princípios da Inteligência de Segurança Pública:

- Amplitude - Interação - Objetividade - Oportunidade - Permanência - Precisão - Simplicidade - Imparcialidade - Compartimentação - Controle - Sigilo (SENASP, 1999, p.15).

Do ponto de vista da pesquisa, me interessa, primeiramente, a interação, descrita pelo documento como o estabelecimento ou adensamento de "relações sistêmicas de cooperação" visando à consecução dos objetivos. A precisão é um princípio bastante interessante, pois se refere a um conhecimento "verdadeiro" e que seja, ao mesmo tempo, "significativo, completo e útil". Por fim, temos o sigilo, princípio que visa à preservação do órgão e de seus integrantes (SENASP, 1999, p. 16). A interação e o sigilo serão analisados de forma mais detalhada no capítulo 4.

O profissional de inteligência lida com dois tipos de fontes: a aberta, cujo acesso é liberado, e a protegida, cujo acesso é negado. Para obter a informação desejada, há basicamente dois meios: a inteligência humana (humint) e a inteligência eletrônica (intel). Enquanto na primeira o foco seria o homem, na segunda o foco é o equipamento. A intel pode ser dividida em três:

Intel de Sinais é responsável pela interceptação e pré-análise de comunicações, radares, telemetria etc, e pela transcrição de informações

obtidas em línguas estrangeiras, pela decodificação de mensagens criptografadas, pelo processamento de imagens digitais, além de outras funções.

Intel de Imagens envolve a coleta e o processamento de imagens obtidas através de fotografias, satélites, radares e sensores infravermelho.

Intel de Dados envolve a captura de dados pela interceptação de sistemas de informática, telecomunicações e telemática (SENASP, 1999, p. 18).

Toda essa terminologia é oriunda da inteligência militar. Para Cepik (2003), a expressão humint é uma maneira eufemística e norte-americana de descrever a atividade de espionagem, cuja carga conotativa é bastante negativa. O autor afirma ainda que a humint é "[...] a fonte de informação mais antiga e barata", e "[...] consiste nas próprias pessoas que têm acesso aos temas sobre os quais é necessário conhecer" (p. 36). O Serviço Reservado da PM atua fortemente na inteligência humana. A Coordenadoria de Inteligência (Coin), por sua vez, vale-se principalmente dos recursos eletrônicos para desempenhar suas atribuições. O uso disseminado do smartphone vem embaralhando tais distinções no campo das práticas, como será abordado no capítulo seguinte. De posse de um celular, é possível obter imagens, gravações e arquivos de áudios a um custo bastante reduzido, incrementando a atuação do agente do ponto de vista de sua agentividade. Além da inteligência, há ainda a contrainteligência. A DNISP assim define os dois ramos:

Inteligência é o ramo da ISP que se destina à produção de conhecimentos de interesse da Segurança Pública.

Contra-Inteligência é o ramo da ISP que se destina a produzir conhecimentos para neutralizar a inteligência adversa, a proteção da atividade e da instituição a que pertence (BRASIL, 2009, p.17, grifo do autor).

A própria DNISP reconhece, no entanto, que os dois ramos são "[...] intrinsecamente ligados, não possuem limites precisos, uma vez que se interpenetram, se inter-relacionam e interdependem". Por fim, o capítulo detém-se na definição do que seja a inteligência policial75:

A Inteligência Policial atua, principalmente, em duas esferas distintas e igualmente importantes: na prevenção e na repressão.

A Inteligência Policial atua na prevenção, principalmente, através da produção de conhecimento resultante da análise de padrões e tendências, visando antecipar situações futuras, com o objetivo de servir de base para a elaboração, por parte dos órgãos competentes, dos planos e ações de prevenção de atividades e fatos delitivos que vulnerem a Segurança Pública.

75 A diferenciação que a DNISP estabelece entre inteligência e investigação criminal será abordada de

A Inteligência Policial atua em prol da repressão produzindo conhecimentos a fim de assessorar a investigação policial (SENASP, 2009, p. 47).

Quando se analisa a estrutura de funcionamento do sistema de justiça criminal, é possível perceber que a inteligência policial pode ser localizada ao longo de toda a cadeia. Da identificação de ameaças, a partir da análise de padrões e tendências, à produção de conhecimentos que possam assessorar a investigação policial, o carro-chefe do modelo inquisitorial de administração de conflitos (KANT DE LIMA, 1989). Por causa da burocracia que é inerente a tal modelo, a inteligência policial se apresenta como uma modalidade de ação mais flexível e capaz de atender às demandas por segurança que se apresentam ao Estado, como será visto mais adiante no capítulo que trata da descrição do funcionamento do Serviço Reservado da PM.

2.10 Transformações na segurança pública pós-1997 - parte 3: as idas e vindas da inteligência de segurança pública no Ceará

Em 1998, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa da Cidadania (SSPDC) criou um departamento de inteligência como um órgão de execução programática da secretaria, a Diretoria de Inteligência (Dint). Apenas uma unidade de estatística compunha a unidade. De acordo com um delegado que atua na área, o Ceará foi um dos primeiros estados a aderir ao plano nacional de segurança pública, no que diz respeito às ações de inteligência. O policial descreve a atuação do Dint e os desdobramentos institucionais obtidos a partir dele:

A Dint era o órgão central que representava a inteligência federal aqui. Até então, nós não tínhamos o sistema estadual de inteligência. Nós só tínhamos um representante da inteligência federal aqui. A DINT foi crescendo, fez projetos, estruturou a inteligência central, estruturou os órgãos de inteligência da policia civil, da polícia militar, do corpo de bombeiros e foi se fortalecendo. De DINT passou a ser CISP e depois CIISP, daí evoluiu para o que hoje é a Coin, todos eles como órgãos centrais do Estado do Ceará que representava o subsistema de inteligência de segurança pública. Com essa evolução foi criado o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do Estado do Ceará (SEISP), cujo órgão central é a Coin (informação verbal).76

No mesmo período, foi criado o Departamento de Inteligência Policial (DIP), da Polícia Civil, como uma forma de coordenar e organizar o trabalho de inteligência investigativa (BRASIL, 2002). O novo departamento não deixou de ser uma resposta a uma demanda que vinha sendo atendida exclusivamente pela Polícia Militar. Em 2003, foi criado o Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública (CIISP), formado por um departamento de inteligência, um departamento de contrainteligência e uma unidade central de estatística. O centro era composto por policiais civis e militares, numa tentativa de mediar os conflitos entre as duas corporações na área de inteligência policial e se adequar à nova realidade nacional, que já vivia sob o regime do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública (Sisp).

O Decreto Nº 27.874, de 16 de agosto de 2005, instituiu o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social. Entre as justificativas estavam a concepção da inteligência como "[...] um valioso instrumento para resposta e apoio ao combate à violência em geral e, principalmente, aos crimes de alta complexidade" e a "[...] necessidade de sistematizar os procedimentos das atividades de inteligência no âmbito do Estado do Ceará" (CEARÁ, 2005). A legislação diz o seguinte:

Art.1º Fica instituído, no âmbito do Governo do Estado do Ceará, o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social, para integrar as ações de planejamento e execução das Atividades de Inteligência do Estado, e destinado a subsidiar o Secretário da Segurança Pública e Defesa Social e, quando for o caso, o Governador do Estado, no processo decisório. Parágrafo único O Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social é o responsável, no âmbito do Estado do Ceará, pelo processo de obtenção, análise e disseminação de informações necessárias à adoção de providências para a manutenção da Segurança Pública, bem como pela salvaguarda dos conhecimentos sensíveis do interesse do Governo do Estado, sempre observando os fundamentos da defesa do Estado Democrático de Direito, da dignidade da pessoa humana e da preservação dos direitos e das garantias individuais dos cidadãos, bem como dos demais preceitos constitucionais vigentes.

Art.2º Integram o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social:

I - o Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública (CIISP) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS);

II - os Órgãos de Inteligência da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar; e

III - os Órgãos e Entidades da Administração Pública Estadual que direta ou indiretamente possam contribuir com dados de interesse para a manutenção da segurança pública.

Art.3º O Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública (CIISP), da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social – SSPDS, será o Núcleo Estadual de Gerenciamento do Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública e Defesa Social, competindo-lhe, dentre outras atividades:

I – planejar, coordenar, dirigir e executar as atividades de inteligência e contra-inteligência com ações especializadas para a produção e proteção de conhecimentos necessários à prevenção e repressão da criminalidade em geral;

II – coletar, analisar e produzir informações que viabilizem a neutralização do crime organizado;

III – integrar-se às atividades de inteligência de segurança pública em harmonia com os órgãos de inteligência estaduais e federais que compõem o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública;

IV – produzir análise e tendências estatísticas da criminalidade;

V – executar as operações técnicas de interceptações telefônicas a serem realizadas pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, quando determinadas ou autorizadas judicialmente (CEARÁ, 2005).

A Doutrina Estadual de Inteligência de Segurança Pública é um documento de extrema importância. Trata-se da primeira legislação, em âmbito estadual, a regulamentar o papel da inteligência que não se baseia simplesmente em uma adaptação da doutrina do Exército. O decreto expressa, em seu artigo 1º, uma série de atividades já descritas em documentos anteriores, citados neste capítulo, como “[...] o processo de obtenção, análise e disseminação de informações necessárias à adoção de providências para a manutenção da Segurança Pública” e a “[...] salvaguarda dos conhecimentos sensíveis do interesse do Governo do Estado” (CEARÁ, 2005). A menção à defesa “[...] do Estado Democrático de Direito, da dignidade da pessoa humana e da preservação dos direitos e das garantias individuais” (CEARÁ, 2005) é uma referência aos valores defendidos pela Constituição Federal de 1988, o que a distingue das normas anteriores. O termo “segurança interna”, presente na terminologia militar, também não é mencionado.

Belgede TASARRUF MEVDUATI SÝGORTA FONU (sayfa 64-77)