Como foi mostrado anteriormente, a primeira experiência de um órgão exclusivo voltado à inteligência foi o Serviço Estadual de Informações (SEI), durante a Ditadura Civil-Militar. Com o processo de integração ocorrido a partir de 1997, policiais civis e militares passaram a dividir os mesmos espaços institucionais e a ficar sob um mesmo comando, como no caso do Sistema Integrado de Defesa Social (Sindes). Para Alfredo, que participou do processo de implantação da nova estrutura de inteligência da SSPDS, a experiência do Sindes funcionou como um “protótipo”, mas faltava ao sistema uma formulação legal definida, ficando restrita mais ao plano operacional. Um aspecto, no entanto, ficou a ser resolvido: o que fazer com o setor de
inteligência de cada corporação? Alfredo revela que a estrutura de inteligência das duas polícias era muito “artesanal e personalista”. Para que essa situação fosse superada, era preciso criar um órgão que pudesse compartilhar as informações, que ficavam concentradas nas mãos de poucas pessoas:
Aquela pessoa era a caixa-preta e sabia de tudo naquele grupinho e que exercia um certo empoderamento na estrutura policial, porque eles dominavam um recurso que hoje é o mais importante em qualquer atividade de gestão, que é a informação. Sem informação você não faz nada. Então qual foi a visão do William Bretton que o Tasso adotou na época? Fazer a integração da segurança pública e criou com base nisso a, na época era Coordenadoria Integrada de Inteligência de Segurança Pública (CIISP). Era Coordenadoria Integrada de Inteligência em quê? O objetivo era exatamente fazer a democratização, a potencialização e a depuração das informações que eram importantes para alimentar a atividade policial, a atividade investigativa, a atividade repressiva do aparato policial. Então foi uma iniciativa, dentre várias atividades de integração, que foi fundamental (informação verbal).77
A criação da Coordenadoria Integrada de Inteligência de Segurança Pública (CIISP) por si só não representou uma mudança nas práticas policiais vigentes até aquele momento. A vaidade em ser o dono exclusivo de uma determinada informação e a desconfiança sobre o uso que o outro fará do conhecimento fornecido foram dois entraves observados durante o processo de implantação do órgão, conforme o relato de Alfredo:
Ainda hoje quem trata nessa área de inteligência passa por grandes dificuldades. Por quê? Por dois motivos. Quem trabalha na área de inteligência, a maioria, a grande parte tem aquela chamada vaidade de ser o dono da informação. O segundo motivo, tem a chamada desconfiança do outro. Ele tem medo de passar aquela informação, com medo de como o outro vai passar aquela informação. Então são duas coisas que tem que ser tratadas e batidas fortemente são esses dois aspectos: vaidade e insegurança com os parceiros. Então, a Polícia Militar tinha medo da Polícia Civil de passar certas informações e a Polícia Civil vice-versa e assim por diante. Isso aí gerava uma truncagem nas informações ou às vezes até ações paralelas ou ações ineficientes, porque você não cruzava as informações para não agregar valor do que um tinha com o que o outro tinha. A tentativa do CIIPS foi exatamente congregar em um setor, que a visão sempre foi de integração, um núcleo acima dessas duas cabeças, no sentido de buscar fazer essa coordenação da inteligência policial e que a Coordenadoria de Inteligência será composta e ainda hoje é por policiais civis, policiais militares e bombeiros militares, em que há um trabalho em conjunto (informação verbal).78
77 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013. 78 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013.
Segundo Alfredo, a convivência entre policiais civis e PMs em um mesmo espaço institucional foi a maneira encontrada pela Secretaria de fazer com que a desconfiança fosse reduzida. “Botar as pessoas pra trabalharem junto. Era a filosofia que a gente usava”, comenta (informaçãoverbal)79. Conforme o oficial, o conhecimento acerca do trabalho do outro, dos seus defeitos e qualidades, foi um recurso empregado para que os policiais de corporações distintas tivessem um olhar menos preconceituoso e passassem a confiar mais entre si. Quando visto em retrospectiva, o resultado é ambíguo:
Conseguimos isso em termos, porque isso é quebra de cultura. Quebra de cultura você não quebra por decreto e por lei e nem quebra com muita facilidade. Você tem que ir passo-a-passo. Não é só quebra de cultura, como é quebra de poder. Redução de poder. Porque você começa a socializar a informação. Agora a visão dessas pessoas que acham que isso é poder é uma visão distorcida, porque a gente aprende a informação, quanto mais circula, mais nova fica. Ao contrário de um sapato, que você usa e desgasta, a informação fica velha quando você guarda e não quando você circula, porque ela volta renovada. Então se você tem só com você e você não socializa, você termina com aquela informação velha ou incompleta. Esse é um princípio básico da informação. Ela tem que circular para poder se manter nova (informação verbal).80
Um coronel da reserva do Exército, ex-comandante do 23º Batalhão de Caçadores, foi o primeiro coordenador do CIISP. A equipe era formada por, no máximo, sete pessoas. O Departamento de Inteligência Policial (DIP) foi mantido, mas deveria ser reportar à Coordenadoria.
Com o governo Lúcio Alcântara, a CIISP passou a ser denominada de Coordenadoria de Inteligência (Coin). A mudança de nomenclatura, no entanto, não representou uma mudança no funcionamento da estrutura da área de inteligência, devendo-se apenas às contingências políticas. “Entra governo novo E normalmente ele lança sua reforma administrativa, né? Com a sua cara. Isso é normal”, explica Alfredo. A maior diferença, para o oficial, é que a coordenadoria adotou um caráter operacional, e não mais só de análise, quando de sua constituição formal (informação verbal).81
79 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013. 80 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013. 81 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013.
Já sob o comando de um delegado da Polícia Federal na SSPDC, a Coordenadoria agora passou a ter um grupo voltado para cumprir missões reservadas. A “operacionalidade” da Coin foi alvo de polêmicas:
O Grupo operacional foi criticado por uns e apoiados por outros e é uma questão meio polêmica. Eu até considero que não deva ter. Por que que não deva ter? Porque começa a gerar ciumeira contra o próprio órgão. Porque como ele coordena as informações de forma privilegiada, na hora em que ele vai pra uma ação, as pessoas tem medo. “Rapaz, quem ganhou o crédito foi fulano. Eu prestei informação, mas quem foi cumprir a ordem foi o grupo lá de cima”. Aí é um risco de se também criar uma truncagem na circulação da informação. Quem tem de cumprir essa ocupação operacional são os órgãos de ponta que tão na rua e tem que receber a informação privilegiada e partir para qualificar suas ações, tanto na Polícia Civil como na Polícia Militar. Órgão de inteligência é para informar, para qualificar as informações para poder qualificar a ação policial. Minha visão é essa (informação verbal).82 A opção por recorrer a uma dimensão mais “operacional” da inteligência também é encontrada nos núcleos de inteligência dos batalhões e companhias. Embora seja considerado pelos próprios agentes como um órgão diferenciado no que diz respeito ao refinamento das ações e à complexidade das missões às quais está envolvida, a Coin esteve à frente de diversas missões “operacionais”, sendo responsável pelo ciclo completo da justiça criminal, que congrega o levantamento inicial de informações até a detenção do acusado. Uma prova disso foi a presença constante do órgão nas manchetes dos jornais, entre 2012 e 2014, realizando as mais diversas atividades83.