IV. Kavramlar
IV.3. Sünnet Kavramının Tanımı
IV.3.6. Fıkıhçılara Göre S-n-n Kavramının Anlamı
1. HZ PEYGAMBER’İN TEŞRİ YETKİSİ VE SINIRLARI
2.5. Bir Beyan Vasıtası Olarak Takrîrî sünnet
2.5.6. Takrîrî Sünnet ve Nesh
O desafio último, tanto da identidade estrutural da função narrativa quanto da exigência de verdade de toda obra narrativa, é o caráter temporal da experiência humana. Aquilo que de humano se passa no tempo é que o se registra.
Paul Ricoeur65 analisa, em Tempo e Narrativa as “aporias” (igualdade de
contradições) existentes na obra de Santo Agostinho, a saber, a medida do tempo e, também, a aporia do ser e do não-ser do tempo:
Conhecemos de cor o grito de Agostinho no limiar de sua meditação: “O que é afinal o tempo? Se ninguém me pergunta, sei; se alguém pergunta e quero explicar, não sei mais” (14,17). Assim o paradoxo antológico opõe não somente a linguagem a si mesma: como conciliar a positividade dos verbos “ter passado”, “advir”, “ser” e a negatividade dos advérbios “não [...] mais”, “ainda não [...]”, “nem sempre”? A questão é pois circunscrita: como o tempo pode ser, se o passado não é mais, se o futuro não é ainda e se o presente nem sempre é?
63 DERRIDA, 1995, p. 52.
64 RESENDE, Beatriz. Contemporâneos: expressões da literatura brasileira no século XXI. Rio de
Janeiro: Casa da Palavra: Biblioteca Nacional, 2008, p. 34.
65 RICOEUR, Paul. (1913). Tempo e narrativa, (tomo I). Tradução de Constança Marcondes Cesar.
Para esclarecer esse paradoxo sobre o tempo, é necessário ter em mente que só conseguimos medir o tempo quando as coisas passam, pois é aí que as medimos. “Onde estejam, quaisquer que sejam, [as coisas futuras ou passadas] só estão aí como presentes”. Se a “narração implica memória e previsão implica espera”, então, “recordar é ter uma imagem do passado”. E só é possível recordar porque essa imagem do passado é uma “impressão deixada pelos acontecimentos e que permanece fixada no espírito”.66
E a compreensão do passado aumenta na mesma medida em que se determina até que ponto esse passado se adapta às estratégias de “dotação de sentido” que estão contidas na arte literária, em suas formas mais puras.67
Uma narrativa que resgata épocas históricas não é só uma mera reprodução dos acontecimentos nela relatados, mas também um “complexo de símbolos que nos fornece direções para encontrar um ícone da estrutura desses acontecimentos em nossa tradição literária”.68 [grifo do autor].
A narrativa em si não é o ícone; o que ela faz é descrever os acontecimentos contidos no registro histórico de modo a informar o leitor o
que deve ser tomado como ícone dos acontecimentos a fim de torná-los
“familiares” a ele. Assim, a narrativa histórica serve de mediadora entre, de um lado, os acontecimentos nela relatados e, de outro, a estrutura de enredo pré-genérica, convencionalmente usada em nossa cultura para dotar de sentido os acontecimentos e situações não-familiares.69
Em relação ao tempo dos acontecimentos narrados, os dados e detalhes históricos são utilizados com o intuito de conferir veracidade à narrativa, aspecto que torna a história incontestável.
Há uma verdade histórica que surge através da polifonia (vozes das personagens) e pelos diálogos que as personagens travam. Para Hayden White70,
os historiadores procuram “nos refamiliarizar com acontecimentos que foram traumáticos na história de uma cultura ou foram esquecidos por acidente, desatenção ou recalque”.
O discurso da história atesta o da ficção, sendo aquele também uma voz que ecoa por entre as linhas da narrativa, decifrando uma característica constante do
66 ICOEUR, 1994, p. 27.
67 WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: ensaios sobre a crítica da cultura/Hayden White.
Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. (Ensaios de Cultura; v. 6). São Paulo: Editora da USP, 1994, p. 105.
68 Ibid. 69 Ibid.
romance, no momento de sua publicação: o relacionamento entre a literatura e a história.
Ora projetada em personagens fictícios, ora mesclada em crônicas e/ou romances; seja para registrar o passado desejado, selecionando fragmentos de vida que se quer lembrar, seja para resgatar passagens traumáticas na forma de autoanálise textual, comprova-se que a autoficção é reflexo das múltiplas influências da mobilidade da vida contemporânea.
A ficção comprova, muitas vezes, o reflexo das múltiplas influências da identidade que se movimenta constantemente na vida contemporânea. O sujeito que se escreve e se inscreve na literatura acaba por apropriar-se de espaços variados para expor sua vida e narrá-la de forma explícita ou camuflada, respeitando a verdade dos fatos ou alimentando-se do ficcional. O escritor que pratica a autoficção pode encontrar em seu texto o espaço para revisitar sua vida em retrospectiva. Ele ainda pode recuperar apenas fragmentos de um passado que precisa ser registrado para não ser esquecido ou ainda, para ser curado; superado no espaço do texto-divã.
Muitas vezes esse passado fragmentado está enraizado às memórias culturais da infância, vivenciadas no convívio com a família. Para Nancy Huston71, a noção de
cultura e de grupo está em “nossas entranhas”, desde os primeiros anos de vida da espécie humana: é o conjunto das “primeiras marcas” que moldam as regiões do cérebro com todas as impressões gravadas no seio da família.
À semelhança de um disco de cera, o “espírito humano” grava “sulcos mais ou menos profundos”, registrando – no tempo – “as primeiras marcas – língua materna, histórias, canções, impressões gustativas, olfativas, visuais – serão as mais profundas”, conforme Huston72.
E o conjunto dessas “marcas” forma a cultura de um povo ou grupo, pois, a acolhida da criança ocorre através de histórias que lhe serão contadas, no interior de vários círculos concêntricos, relativos à família, etnia, religião, clã, comunidade, tribo ou país.
Para que o eu possa surgir, é preciso fazê-lo existir em meio a vários
nós. Como sempre, com os mais ou menos próximos ou ameaçadores eles. Você é dos nossos. Os outros são os inimigos. Esse é o Arque-texto da espécie
humana, arcaico e arquipoderoso. Estrutura de base de todas as narrativas primitivas, desde A guerra do fogo até A guerra nas estrelas.73
71 HUSTON, Nancy. A espécie fabuladora. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre, RS: L &PM,
2010, p. 64-5.
72 Ibid. 73 Ibid.
Por mais que se pense no outro, “um grupo é um grupo”. E, para a sua coesão e sobrevivência, cada grupo vai insistir de forma espontânea em se enxergar como o grupo, ou seja, o melhor entre os outros. Além disso, cada integrante desse grupo vai valorizar a sua cultura de forma privilegiada, como sendo a cultura. Mais tarde, quando novos elementos, oriundos de outras culturas surgirem, serão relacionados à cultura que os assimilou, automaticamente. Para Huston74, o ser humano copia, nesse sentido, o modelo primata: na sobrevivência, se liga fortemente ao nós (o mesmo), e considera como inimigos em potencial todos os eles (o outro).
De acordo com essas teorias, a dúvida que sempre assolou os grupos humanos é o “como sobreviver?”, ao passo que a resposta imediata é “ligando-se, coligando-se”, decorrendo, daí os movimentos de “inclusão” e de “exclusão”, portanto, como funções primordiais das histórias humanas.
Essa consciência histórica do nós, gravada em sulcos, como diz Huston, instaura e se reforça através das narrativas do passado coletivo – o que ficou dele de significativo para a sobrevivência do grupo -, através da memória, traduzido em ficções.
Sabe-se, por exemplo, que a memória do passado foi sempre um componente central da experiência judaica, e a referência à memória coletiva não é uma metáfora, mas uma realidade social transmitida e sustentada através de esforços conscientes e de instituições responsáveis pela organização do grupo.
Em muitas narrativas de pós-imigração, essa coligação entre o passado coletivo e o que ficou de significativo para a memória vai existir entre múltiplas culturas, de tal forma que a narrativa ficcional vai focalizar sobremaneira essa visão antiestereotipada do sujeito no mundo contemporâneo. E vai resgatar não um tempo que passou, mas um tempo que se faz sempre presente.
2.3 A BUSCA IDENTITÁRIA NA LITERATURA DO BRASIL: INTERSECÇÃO DE