• Sonuç bulunamadı

1.1 Gelenekselden Batı Etkisindeki Tiyatroya: Kanbur Örneği

1.1.4 Taklit

(...) arquivar a própria vida é definitivamente uma maneira de publicar a própria vida, é escrever o livro da própria vida que sobreviverá ao tempo e à morte.96

Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou97

Esta é a lição que nos fica, como uma herança, para ser vivida até que chegue a nossa vez. 98

Uma das indagações dos pesquisadores que desenvolvem pesquisas a partir de fontes documentais consiste nas táticas de abordagens do corpus. Na busca por modos de leitura dos arquivos literários, os seguintes versos de Quevedo colocam o problema sob os signos da conversa e da escuta: “Vivo en conversación con los difuntos, / Y escucho con mis ojos a los muertos”.99 Nestas poucas linhas, perscruta-se a sugestão da leitura como forma de escuta. Assim o pesquisador se encontra investido não só no papel de ouvinte e de intérprete ao ler e ao manusear registros de ausentes que se fazem presentes em arquivos, mas também, na condição de narrador a ficcionalizar imagens e narrativas a partir de histórias “ouvistas” nos arquivos.

Como dito anteriormente, não busco, aqui, apenas pensar os arquivos literários como lugares de memória, mas, antes, interrogar como a pessoa que elabora o próprio arquivo organiza as projeções de si que irão aparecer e permanecer após sua morte. Em outros termos, trata-se de indagar em que condições o arquivo literário constitui as circunstâncias para a reprodução póstuma das imagens da obra e do escritor como aparições espectrais? Com essas questões, viso não só a retomar o arquivo literário como carta/postscriptum, mas a explicitar a relação entre a poética dos rastros (apresentada na primeira parte deste capítulo), a noção de sobrevivência das formas artístico-culturais (postulada por Aby Warburg) e a lógica da espectralidade (elaborada por Jacques Derrida). Da conjunção dessas ideias, formulo o que chamo de leitura espectral – uma escuta com os olhos dos rastros do passado, a fim de propiciar sua sobrevida nos presentes ainda por vir.

96 ARTIÈRES, 1998, p. 32. 97 RUBIÃO, 1998, p. 32.

98 SABINO, Carta a Murilo Rubião. Rio de Janeiro , 07 de Março de 1949. 99

QUEVEDO apud ROCHA, 2011, p. 17

A noção warburguiana de sobrevivência (Nachleben) das formas artísticas, que embasa sua ciência da arte, foi desenvolvida a partir da noção de sobrevivência (survival) das formas culturais, ponto nodal da ciência da cultura formulada pelo antropólogo britânico Edward B.Tylor em seu livro Primitive Culture (1871).

O historiador da arte George Didi-Huberman, em sua leitura da antropologia do tempo warburguiana, mostra que a Nachleben problematiza o conceio evolucionista e linear de história, sendo tributária de uma concepção heterogênea de tempo histórico. Esse é compreendido como um tempo fantasmal, em que o presente é visto como tempo em devir, composto por “múltiplos [saberes] passados”100 que ressitem e constantemente emergem e se manifestam na “‘superfície’ presente de uma cultura”.101 Essa permanência dos rastros da cultura, ou da “tenacidade das sobrevivências”, expressar-se-ia a partir da análise de restos ou de vestígios materiais “do rumor dos mortos”102 (afrescos, esculturas ou objetos do cotidiano) ou imateriais (discursos ou práticas sociais como brincadeiras, festividades e rituais) de uma cultura em um dado momento de sua história. De acordo com Warburg (e Didi-Huberman), ao analisar os rastros no arquivo de cada época, não apenas se observa a persistência de aspectos desaparecidos de uma sociedade, como seus modos de agir e suas formas de saber – mas também “elimina-se a certeza de o que vem depois seria influenciado pelo que veio antes, ou que o progresso cultural dependeria de novas descobertas do presente”.103 Contudo, os rastros se manifestariam deslocadados em seu estatuto ou seu significado – Didi-Huberman menciona, como exemplo, a permanência do arco e flecha como brinquedos infantis em nossa sociedade, evidenciando a modificação de seu status e sua significação.104

As noções de tempo fantasmal e de sobrevida warburguianas são, aqui, associadas à lógica da sobrevida e da espectralidade do pensamento derridiano.105 Contudo, como lembra Eneida Maria de Souza, há uma diferença entre ambas. Se para Warburg “a sobreposição de tempos artísticos e de valores culturais responderia pela construção do arquivo/biblioteca

100 DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 46. 101 DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 45. 102 DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 35. 103 SOUZA, 2014, p. 114. 104

Cf. DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 49. Cabe mencionar que é difícil, ao lermos tal passagem, não relacionarmos as leituras empreendidas por Walter Benjamin em textos como “História cultural do brinquedo” ou “Brinquedo e brincadeira” aos trabalhos de Tylor e Warburg.

105 Para o rastreamento da noção de espectro/espectralidade no pensamento de Derrida, sugiro a leitura

DERRIDA (1994, 2001, 2012) e SKINNER (2004).

como montagem de livros e de formas distintas”,106 para Derrida o conceito de sobreviência responde “por uma indagação filosófica da existência, ampliando-se para a construção da obra como legado espectral, a partir da ponte entre obra e vida, justanpondo morte e vida”.107 De acordo com esse raciocínio, problematiza-se a dimensão temporal da existência, de modo a romper “com as oposições entre antes e depois, entre vida e morte, pelo aspecto anacrônico conferido às categorias relativas ao passado e ao futuro”.108

Quanto à noção de espectro, este consiste em um “ente que sobrevive (mesmo que sob a forma de um postulado) à sua própria morte,”109 apresentando-se como manifestação de um ausente que persiste no imaginário de um contexto histórico (como os espectros de Marx, rastreados no inconsciente teórico do século XX por Derrida). Essa meia-presença, aparição visível-nãovisível, que não remete nem à aparência nem à essência, nem ao presente, nem ao passado, relaciona-se a outros termos do pensamento derridiano, como arquivo, herança, (trabalho de) luto, (guarda da) memória, (figuração do) Outro e sobrevida. Para Derrida, a espectralidade110 constitui o fundamento da experiência da memória e do arquivamento. Como “todo rastro é finito (...) [e] sempre pode ser apagado (...) [caso contrário] não seria um rastro”,111 por isso há arquivo, para selecionar para guardar ou deixar desaparecer, “para organizar a sobrevivência (...) de certos rastros deliberamente escolhidos”.112 Ler esses rastros arquivados consiste não só a tarefa do arquivista, mas o trabalho do herdeiro de elaborar o luto, que pressupõe em determinar que rastros (aspectos, imagens ou identidades) da história preservarmos e rejeitamos, a fim de decidir quais serão conservados, reelaborados e reafirmados criticamente em nossa atualidade. Assim, arquivo, rastro, espectro, luto e sobrevida são noções que se associam e, de acordo com o filósofo franco-argelino, não só constituem o a priori da experiência mnésica e histórica, mas engendram as condições de possibilidade do ato de leitura/rastreamento de toda experiência – seja as nossas ou aquelas de contextos passados que permanecem transformadas no presente.

Quatro são os motivos que me levaram a considerar a ideia de espectro como sendo propícia para refletir tanto acerca das aparições (do escritor, da escrita e da literatura) como a

106 SOUZA, 2014, p. 114. 107 SOUZA, 2014, p. 114. 108 SOUZA, 2014, p. 111. 109 ROMANDINI, 2012, p. 13. 110 DERRIDA, 2001, p. 110. 111 DERRIDA, 2012, p. 131. 112 DERRIDA, 2012, p. 131.

propósito da sobrevida desses fantasmas elaborados e editados por Rubião e seus correspondentes. Primeiro, a hipótese de que a ficção rubiana é um painel de almas errantes. Kafka, Machado de Assis, os profetas do Velho Testamento: estas são alguns dos rastros que ecoam e frequentam o universo do texto rubiano. Mas há outros – afinal, sempre “há mais de um, deve haver mais de um”.113 Em uma espécie de etnografia das almas penadas que rondam a modernidade, encontram-se a dama ausente andradina, a ironia (machadiana), a burocracia, o duplo, mas também (ou sobretudo) a melancolia. Espectros que rondam o mundo de um escritor cético e seus personagens (seus daímons) obsediados.

Essa recorrência de sobreviventes da morte (ou de viventes que não podem morrer), de mortos que persistem em vida, torna a leitura dos contos de Rubião semelhante a uma demografia espectral. Vejamos alguns exemplos desses corpos paradoxais em que as palavras vida e morte já não são aplicáveis: a não-morte do pirotécnico Zacarias, morto-que-está-vivo; o “ex-Mágico”, (não-)ser surgido de um espelho, que lamenta não ter nascido e não poder morrer; o velho Simeão, que assombra a memória dos jovens sobreviventes de ’“A casa do girassol vermelho”; as (ex-)esposas assassinadas que retornam em os “Três nomes de Godofredo”; o retrato da mãe que necessita ter a maquiagem retocada todas as noites em “Petúnia”; a aparição de “Marina, a intangível” no conto de mesmo título; ou, ainda, a reelaboração ficcional das experiências de antepassados da família de Murilo em “Memórias do contabilista Inácio”.114

O segundo motivo diz respeito às “duas vidas da correspondência”:115 sua “vida original”, como comunicação privada, dirigida a um destinatário específico, e sua “vida virtual” (ou espectral), como comunicação reestabelecida e tornada pública postumamente por pesquisadores ou por editores.

O terceiro são as “cartas fantasmas” de Murilo a Fernando, situação que me estimula a pensar uma poética indicial que auxilie a fazer ouvir, ainda que por vias indiretas, as respostas às questões e aos apontamentos elaborados por Fernando nas cartas ausentes de Murilo.

113

DERRIDA, 1994, p. 30.

114 Cf. RICCIARDI, 2006, p. 303. Cabe mencionar que, dos trinta e três contos editados em livro por Rubião, ao

longo de sua vida, este foi publicado apenas em O ex-mágico (1947) e na coletânea Literatura Comentada (1982). O motivo de tal decisão nunca foi mencionado.

115

DIAZ apud MORAES, 2014a, p. 01.

Por fim, o quarto motivo se refere aos espectros do escritor Mário de Andrade que povoam os diálogos dos “jovens moços de Minas”. A figura do “mestre pedagogo” é evocada de várias maneiras nas cartas, seja nas menções às regras do pacto epistolar por ele formalizado, que deram as balizas de uma comunidade epistolar, na rememoração do amigo morto que sobrevive como lembrança, ou, ainda, como legado que se insinua nos conselhos e comentários de Otto e Fernando aos contos de Murilo. Outros exemplos são os fantasmas da obra de Kafka, que frequentam tanto as conversas de Murilo com seus interlocutores quanto os textos críticos acerca de O ex-mágico, ou, ainda, a retomada, por Rubião, da parábola como gênero,116 a revivência dos mitos da antiguidade clássica (Proteu em “Teleco, o coelhinho”)117 ou, ainda, do discurso bíblico na obra de um escritor moderno autodenominado agnóstico.

Para encerrar este capítulo e continuarmos nosso curso rumo às correspondências de Murilo Rubião, convoco um fragmento de uma carta enviada por este a Otto Lara Resende em 05 de agosto de 1948. Neste breve trecho, Rubião dissimula seu projeto de endereçar sua obra e seu arquivo ao futuro, dizendo ao amigo que “Esta carta não se destina à posteridade”.118 Mas, anos depois, o próprio Rubião desmascara seu intento ao mencionar, em outra carta endereçada a Otto, que uma entrevista de Paulo Mendes Campos119 confere a ambos “uma pequena chance de entrarmos na posteridade”.120 Em sua resposta, Otto diz ao amigo

Quanto ao recorte do “Correio da Manhã”, devolvo-o a você. Recebi um igual do Rio, mandado pelo meu irmão. Contemplei longamente a fotografia, lembrei-me das circunstâncias, do dia em que a tiramos, lembra-se? (...) Grande retrato! Fiquei pensando como surgiu a ideia de fazê-lo, me ocorreu que só você poderia ter tido ideia tão sensata e rica e, ao mesmo tempo, poderia ter levado a turma a concretizar essa ideia, que hoje nos permite voltar, à vista de um documento, os olhos para aquele tempo, ainda ontem e já tão distante! Muito obrigada, pois. É como você diz:

a entrevista do Paulusca é uma chance de posteridade...121

116

Conforme propõe Sérgio Alcides no texto “A parábola inconformada” (ALCIDES, 2006), citado na primeira parte deste capítulo quando da leitura da narrativa “O documento”, em que o crítico aproxima o recurso à forma parabólica por Kafka e Rubião.

117 Murilo Rubião, ao comentar o parentesco de sua ficção com a de Franz Kafka, em diversas entrevistas,

menciona que tanto “A metamorfose” quanto as transformações do protagonista de “Teleco, o coelhinho” seriam, em sua opinião, releituras do mito grego de Proteu.

118 RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Belo Horizonte, 05 de agosto de 1948.

119 Menção à reportagem de Renard Perez “Escritores Brasileiros Contemporâneos – n. 52 – Paulo Mendes

Campos”, publicada no Correio da Manhã, em que consta uma fotografia, feita em um estúdio de Belo Horizonte, no ano de 1948, quando aparecem reunidos em um “retrato de geração” Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião e Emílio Moura.

120 RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Madri, 30 de julho de 1957. 121

RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Belo Horizonte, 05 de agosto de 1948.

Mais por terem elaborado suas obras do que por colecionarem suas vidas, formando seus arquivos, Rubião e Otto conseguiram a almejada chance de se inscreverem no por vir da história literária. Talvez agora, com a edição de suas cartas, estas mensagens tenham chance de se endereçarem ao “tempo de compreender”:122 a posteridade – não (só) a nossa, mas aquela ainda por acontecer.

A partir dessa concepção do arquivo e das cartas como “um vestígio material do rumor dos mortos”,123 dá-se a leitura/escuta espectral, gesto de escutar esses corpora documentais, a fim de evocar os rumores das vozes daqueles que não mais possuem corpos, fazendo com que retornem e sejam “ouvistos” no presente.

Prossigamos nossa jornada rumo às cartas, caro leitor, pois estas já se avizinham.

122 Referência à noção psicanalítica de a posteriori mencionada anteriormente. 123

DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 35.