1.2 Hâmid’in Batı Etkisindeki Tiyatro Anlayışının Şekillenmesi: Dil, Teknik ve Tema
1.2.1 Namık Kemal’in Celal Mukaddimesi ve Hâmid’le Mektuplaşmaları
Eu as fiz estrategicamente minhas, para que você, leitor, não se amedrontasse ao querer fazê-las suas.166
A fim de organizar a correspondência recíproca de Murilo Rubião com Mário de Andrade e Otto Lara Resende e as cartas que Rubião recebeu de Sabino, dispostas aqui no formato de (h)antologia, delimitei alguns critérios, objetivando facilitar a leitura. Um deles concerne à ordem em que são dispostos os conjuntos. Eles se encontram ordenados cronologicamente, da correspondência Mário e Murilo (1939-1945), Murilo e Otto (1947- 1991) e Fernando a Murilo (1942-1983). Apesar do diálogo de Rubião e Sabino iniciar antes da conversa postal com Otto, optei por colocar aquele por último, por considerar que a leitura das cartas de Murilo e Otto pode auxiliar em sua compreensão, fornecendo indícios para um exercício imaginativo do que poderia constar nas cartas fantasmas de Rubião a Sabino, sugerindo assim, ao leitor elementos para elaborar respostas hipotéticas.
Esta organização também se relaciona a outra questão, a de ser possível perceber, nos períodos delimitados pelo diálogo com cada interlocutor, três momentos distintos da vida literária de Murilo Rubião. No primeiro, 1939 a 1949, vemos o escritor ainda jovem, “pirotécnico aprendiz”, leitor-iniciante tanto da tradição literária como da própria obra, que busca aprimorar seu instrumento de escrita. Esse processo de compreensão de sua linguagem ficcional se dá a partir dos conselhos e do olhar do escritor consagrado (Mário), mas também dos amigos de geração (Otto e Sabino). Nas cartas desse contexto, observa-se na conversa com os amigos vintanistas um tom informal (mas nem por isso menos “encenado”), que reforça a sensação de cumplicidade vista na troca de ideias, na escrita compartilhada mediante permuta de manuscritos, mas também no “puxar angústias”.167 Não são poucas as cartas em
166 SANTIAGO, 2006, p. 93.
167 Referência a termo empregado pelo personagem Eduardo Marciano, protagonista do romance O encontro marcado (1956). “Puxar angústia” consiste em expressar aos amigos questões existenciais que atormentam a
pessoa em uma circunstância específica. Tal termo revela, ainda, a recepção da obra de Jean Paul Sartre na
que os três expõem as dúvidas e as questões existenciais (como a insatisfação de Murilo com a própria ficção, ou as questões de cunho religioso, no caso de Sabino e Otto) que formam seus tumultuosos “mares interiores”. No que diz respeito a características de estilo, é possível observar peculiaridades do texto epistolar de Murilo, como a linguagem metafórica e o uso recorrente de citações bíblicas em suas cartas a Otto – “lavores de estilo” que implicam “cartas literárias”.
No diálogo com Mário, apesar da disponibilidade e da empatia demonstradas pelo “irmão maior”, desde a primeira resposta em suas “cartas de pijama”, predomina certa dissimetria entre o mestre “amigo, despreocupado, sofredor, aguentador lutador e camarada” e o discreto aprendiz em busca de legitimação. Mas, no correr dessa conversa, vemos Murilo passar, aos poucos, das “cartas de terno”, formais e tensas, às “cartas em manga de camisa”, menos formais e mais íntimas, afirmando, ainda que de modo titubeante, sua maneira de fazer literatura.
Este período também produziu as cartas mais “pesadas”, mais intelectualizadas e ricas em comentários e em debates sobre os processos de criação. São vários os exemplos de cartas em que Mário, Otto e Fernando se debruçam sobre os contos de Rubião, analisando-os, discutindo aspectos formais e esboçando reflexões acerca da literatura. Particularmente interessantes são os comentários de Sabino sobre os contos de Rubião, como aquele no qual observa a descoberta, por parte de Murilo, do “recurso sádico e eficiente de cortar, em vez de desenvolver”.168 Considero este momento como aquele no qual a reescrita passa a exercer papel importante no processo de composição do autor de “O pirotécnico Zacarias”, adquirindo o aspecto de prática que não consiste apenas no retoque da linguagem, visando, antes, ao burilamento desta.
No segundo momento, que compreende o período entre 1950 e 1959, nota-se um esmaecimento do diálogo com Fernando no decorrer da década de 1950, no qual não há mais que três cartas – dentre as quais apenas uma sobre literatura. Entretanto, nesta mesma época são trocadas trinta e três cartas entre Murilo e Otto, em meio às quais há documentos significativos. No plano pessoal, ocorrem deslocamentos geográficos, como o retorno de
geração de Sabino, Rubião e Lara Resende, como poderá se observar nas cartas eivadas de melancolia desses escritores, mas também nas menções à obra sartriana feitas por Sabino em suas cartas a Rubião.
168
SABINO, Carta a Murilo Rubião, 07 de setembro de 1947.
Murilo a Belo Horizonte (após a breve temporada em que reside com Otto no Rio de Janeiro). Também vemos Murilo se estabelecer como funcionário público e se tornar chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek. Há comentários sobre a sensação de exílio, partilhada por Murilo e Otto durante o período em que residem em Madri e Bruxelas, respectivamente, na condição de adidos culturais. No plano da ficção de Murilo, além do curioso comentário sobre o caráter autobiográfico de sua ficção, também há notícia da novela “Manoel, o nascido do esgoto” (que não chegou a ser concluída) e da elaboração do conto “Teleco, o coelhinho”, minuciosamente comentado por Otto em carta de 17 de setembro de 1957. Da parte de Otto, há registros da publicação do livro de contos Boca do Inferno, da elaboração do romance O
braço direito e da novela “O carneirinho azul”.
No último momento, o mais longo da correspondência, que abrange os anos de 1966 a 1991, o fluxo das cartas é ainda menos caudaloso. Com exceção de uma carta datada de 1966, em que Fernando Sabino faz considerações acerca da ficção de Murilo por ocasião do recebimento de Os dragões, o autor de Os movimentos simulados se limita a dar notícias esporádicas acerca da leitura de contos de Murilo em revistas e jornais. O entusiasmo e a escrita compartilhada da juventude cede lugar a cartas mais objetivas e a questões de outra ordem, como o excesso de trabalho. O principal tema desse contexto é o Suplemento
Literário. Neste momento, o autor de “Bruma” já figura como escritor canonizado, que
publica livros em grandes tiragens e possui intensa atuação junto ao Estado na direção e na formulação de diretrizes culturais. Curiosamente, ao fim da vida, Murilo se assemelha ao Mário de Andrade (Murilo de Andrade?) que conheceu quando jovem: dividido entre as tarefas de homem público e de escritor canonizado, assoberbado por demandas como conferências, correspondências e entrevistas, além da condição de mediador cultural que auxilia na legitimação dos novos escritores e como intelectual requisitado por vários setores do campo cultural.
Após essa breve introdução ao teor desses diálogos epistolares, convido você, que me lê, a navegar por esses mares interiores. Boas leituras e até nosso reencontro, no “P.S.”, quando passo a sugerir outros caminhos para expandir as rotas possíveis de navegação.