2001 2002 2003 2004 TOPLAM GELİR 58.700 86.304 112.462 134
5. TÜRKİYE’DE TARIM SEKTÖRÜNÜN YAPIS
Viu-se, nos itens anteriores deste capítulo, a continuidade, possível, entre a organização escolar e uma organização empresarial desde que os meios não atropelem os fins (COSTA, 1996; PARO, 1996, 2011). A escola como empresa deve ter um "diferencial competitivo" (COLOMBO, 2004), nutrido nos valores contidos na identidade, história e objetivos humanistas da instituição que deve, estrategicamente, servir de motivação pessoal e profissional a todos os envolvidos com a escola (COLOMBO, 2004; SERGIOVANNI, 2006; HARGREAVES e FINK, 2007; MURAD, 2008). Uma instituição, de caráter não lucrativo, como a maioria das escolas católicas, precisa de uma administração profissionalizada para obter sustentabilidade financeira e a continuidade segura e próspera de suas atividades (MURAD, 2008; STEINBERG e MARCATTI, 2010). Pode-se levantar a questão sobre se a busca por uma gestão profissional e um posicionamento competitivo no mercado educacional significa uma contradição à tradição humanista? Mesmo que muitas das escolas sejam filantrópicas, não visem ao lucro, a rentabilidade e sustentabilidade financeira é irrenunciável para a continuidade das atividades. Como
uma instituição católica e humanista pode manter sua integridade ética e moral em uma sociedade capitalista?
Zamagni (2011) sustenta que o capitalismo tem suas raízes no modelo econômico dos mosteiros católicos, entre os séculos XIII e XV. O autor diferencia, na origem do capitalismo, a economia do mercado civil e a economia capitalista total (ZAMAGNI, 2011). A economia do mercado civil assume responsabilidade com o bem comum, todos devem crescer juntos. O capitalismo total, somente os grupos de investidores é que tem crescimento total. A economia do mercado civil tem sua origem a partir do século XIII, com o surgimento da civilização urbana, a invenção de máquinas que aumentam a produção e o enriquecimento burguês, a partir do século XVI. Nesse ambiente, afirma Zamagni (2011, p. 7), o léxico econômico inspirou-se na cultura monástica para tornar o trabalho um "elemento de vida boa". Isso ocorre primeiro como a regra beneditina ora et labora, depois com a regra de pobreza cisterciense e, principalmente, com a regra franciscana. A regra beneditina eleva a categoria do trabalho ao nível da oração e, portanto, desfaz a tradição greco-romana para quem o trabalho era humilhante e reservado aos escravos; aos cidadãos cabia o fazer político. O regime beneditino também instituiu um estilo de vida disciplinada, regrada, em nível pessoal e também em termos de administração dos bens que os fez prosperarem em propriedades ainda que essa não fosse a intenção de São Bento. O movimento monacal cisterciense, de Bernardo de Clairvaux, fundado em 1098, em Citeaux (cistercium), estabeleceu uma regra no uso dos bens que imprimiu aos monges uma vida pessoal austera, impossibilitando-os de usufruir dos bens produzidos para além do necessário. Isso gerou um enorme excedente de produção, e isso mais as muitas doações que recebiam os fizeram, a contragosto do fundador, uma expressiva força econômica no decurso de poucas décadas. Essas duas regras monásticas justificavam o uso dos bens segundo a tradição de que os bens deveriam ser usados como meio para se atingir os fins e desde que bem utilizados não eram condenados em si (ZAMAGNI, 2011, p. 8). Para resolver a questão da pródiga riqueza que se estabeleceu nos mosteiros, algo não previsto por São Bento e São Bernardo, coube a outro grande santo, Francisco, instituir um modo de vida sobre o qual foi criada a economia do mercado civil. Francisco iniciou um movimento de reforma na vida religiosa e exigia que tudo o que fosse produzido no mosteiro estivesse a serviço do bem comum das cidades e fosse utilizado para a expansão missionária da ordem. Isso contribuiu para o surgimento de novas cidades e
fortaleceu suas atividades comerciais. O franciscanismo introduziu, no horizonte cultural da época, dois modos de se lidar, moralmente, com a riqueza e o lucro: primeiro, a utilização da riqueza é mais importante do que a posse. Os monges não possuíam, mas podiam usar e partilhar os bens produzidos. O segundo modo é quanto à sustentabilidade, "a virtude da pobreza, para ter continuidade é necessário que seja sustentável, que possa durar no tempo" (ZAMAGNI, 2011, p. 12). O franciscanismo procurava integrar na vida da ordem três dimensões de governo, a econômica, governativa e evangélica e estabeleceram-se três princípios reguladores que passaram, também, a regular a economia de mercado civil. O primeiro princípio era a divisão de trabalho. Todos os monges tinham que trabalhar. De acordo com as características do monge, lhe era dado um trabalho dentro ou fora do mosteiro, por isso se dizia que "a esmola ajuda a sobreviver, mas não ajuda a viver". Os franciscanos eram mendicantes, mas não tinham nisso a finalidade de suas vidas. O segundo princípio era o de reservar parte da produção para necessidades ou investimentos futuros. Isto foi importante para a criação de novas atividades manufatureiras e a expansão da produção têxtil. O terceiro princípio era a liberdade empresarial. Devia-se dar autonomia e oportunidade aos que fossem criativos, corajosos e capazes de liderar grande número de pessoas (ZAMAGNI, 2011, p. 14). Segundo Zamagni, esses princípios foram importantes para inspirar as relações e contratos no mercado embrionário e potencialmente pujante que se formava enquanto a população ia inflando as cidades e constituindo uma cultura urbana e burguesa. Pairava, ainda, sobre o comércio a noção pecaminosa sobre a usura, o lucro e ideia de que prosperar sem trabalhar na terra era pecado. Assim, o pensamento franciscano, com a noção do bem comum sobre as transações comerciais, instituiu uma base moral para a economia de mercado (ZAMAGNI, 2011b p. 7).
A questão central e definidora, eticamente, da economia do mercado civil era o bem comum. Esse princípio justificava o comércio, o lucro, a concorrência e a expansão empresarial. Zamagni cita um escrito de São Bernardino de Sena, do ano de 1427, em que se justificava a concorrência e o lucro, visando ao bem comum, "se o fim pelo qual se faz empresa é o do bem comum, os custos sociais da concorrência jamais serão excessivamente elevados" (Bernardino de Sena, Prediche volgari sul Campo di Siena, 1427 apud in ZAMAGNI, 2011, p. 16).
Segundo Zamagni, o que se iniciou no final do século XVI e consolidou-se com a Revolução Industrial foi a transformação da economia do mercado civil na economia do capitalismo total. Nesse modelo de capitalismo o bem comum é substituído pelo "bem total" dos investidores. O lucro é dividido de acordo com o capital dos investidores e a finalidade do comércio é a maximização do lucro. Assim se inicia um conflito com os humanistas da época, para quem o bem do todo sem estar inserido no bem comum leva a sociedade a se destruir. O bem comum justifica eticamente as atividades empresariais, o lucro e a concorrência, pois preserva a integridade e prosperidade da cidade e civilização. O bem total somente dos investidores e a maximização do lucro sem considerar o bem de todos são capazes de perverter a natureza de reciprocidade da atividade econômica e torná-la nociva à civilização (ZAMAGNI, 2011, p. 18).
Zamagni sustenta, portanto, que não há conflito entre o lucro e a ética católica, "é a finalização do agir econômico ao bem comum o que assegura a ausência de conflito" (2011, p. 19). Importante observar que essa "canonização" do lucro é fruto da influência do movimento monacal e do pensamento franciscano na alta Idade Média, pois, nos séculos anteriores, o lucro e a usura eram condenados pela Igreja com farta sustentação teológica. Bernardino de Sena, entre outros pensadores franciscanos, foram os responsáveis por justificar os elementos da economia de mercado (ZAMAGNI, 2011b, pp. 23ss). Zamagni (2011b) observa, ainda, que a encíclica de Bento XVI, Caritas et Veritas, resgata a derivação da economia de mercado ao capitalismo e não o contrário (2011b, p. 28), o que significa que o capitalismo descende da economia de mercado que lhe é anterior. Na economia de mercado há o predomínio do bem comum ao bem total de alguns indivíduos. A mesma encíclica, ressalta Zamagni (2011b), coloca ressalvas sobre a forma como o capitalismo, hoje, vem se construindo sob a forma que elimina a dimensão da fraternidade e da responsabilidade social e solidária. Zamagni assinala que o papa Bento XVI, pela primeira vez na história das encíclicas sociais, estabelece continuidade entre a economia de mercado civil com os princípios teóricas do franciscanismo (ZAMAGNI, 2011b). A encíclica Caritas et Veritas propõe retomar a dimensão da fraternidade e solidariedade da economia. A economia comprometida com a fraternidade entende que os serviços prestados é um dom para a sociedade, um dever moral e jamais uma moeda de troca. Os serviços prestados pelas empresas à sociedade se desvinculadas da responsabilidade com o bem
comum caem em uma relação utilitarista, presente no modo liberal de capitalismo, em que o lucro passa a ser a finalidade e os consumidores, cidadãos, meios para enriquecer uma pequena parte do todo (ZAMAGNONI, 2011b, p. 30). Desaparece, nesse modelo de mercado, o princípio da reciprocidade, segundo o qual os dois lados da relação comercial estabelecem relação de confiança46, assegurado por contrato de compra e venda, e que permite a continuidade da economia, porque nenhuma das partes será prejudicada e ambas contribuirão para o bem comum.
Zamagni (2011c) atribui à crise do capitalismo neoliberal a quebra dos princípios básicos de sustentação do mercado, tal como apresentados por Adam Smith na Riqueza das Nações (1776), e na Teoria dos Sentimentos Morais (1759). Esses princípios referem-se à troca equivalente de valores e distribuição eficiente das riquezas, ou seja, o mercado precisa de reciprocidade na alocação de recursos e as trocas não podem promover o lucro à custa do prejuízo. Esse processo deve alocar os investimentos necessários sem que haja desperdício, e o desemprego é considerado desperdício. É o princípio da equidade que garante a todos a possibilidade de participarem do "jogo econômico do mercado" ainda que o capital seja somente com a mão de obra (ZAMAGNI, 2011c, p. 25). A riqueza acumulada e mal distribuída não tem continuidade, pois coloca em risco os princípios que dão segurança e durabilidade ao mercado econômico. É a isso que se refere a encíclica Caritas et Veritas quando denuncia os desvios ocorridos na economia e que desencadeou grave crise de confiança no sistema financeiro de orientação neoliberal.
A sustentabilidade financeira das instituições católicas, filantrópicas ou não precisam de um sistema de gestão que torne possível a sua continuidade no chamado mercado educacional. O mercado educacional, hoje, tende a transformar a educação em um produto comercializável segundo as regras da economia neoliberal, em que os grandes investidores têm como meta principal a maximização de seus lucros. Nessa lógica, os professores, escola, proposta pedagógica são transformados em custos de produção e os alunos e as famílias em clientes; a maximização dos lucros vai exigir a diminuição dos custos com a produção e o aumento do consumo dos clientes. O resultado desse "contrato" será a venda em
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Aqui, Zamagni refere-se ao pensamento de Adam Smith (1759) na obra Teoria dos Sentimentos Morais, em que estabelece a impossibilidade do mercado sem que haja relação recíproca e contínua de confiança entre as partes.
grande quantidade de certificados de conclusão do ensino básico e de diplomas de graduação. Se a finalidade do mercado educacional fosse o bem comum haveria, entre o empresário da educação e as famílias e alunos, um vínculo de responsabilidade social e de reciprocidade.
O resgate dos valores que integram a identidade da escola católica na atualidade possibilita ter clareza em relação à identidade e missão também em relação à gestão. Considerando-se o contexto da mercantilização do ensino e a necessidade de adotar um modelo profissional de gestão e recursos variados de sustentabilidade financeira, a escola católica pode orientar-se segundo os princípios do pensamento cristão em relação à economia que, conforme foi apresentado, não se opõe às atividades mercantis, mas as regula segundo os princípios da economia do mercado civil. A escola católica enfraqueceria sua identidade e trairia a sua missão se, em função da sustentabilidade financeira, colocasse o lucro no lugar dos fins.
5 O PERFIL DO GESTOR E A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO, NAS ESCOLAS