• Sonuç bulunamadı

1.1.3. Türkçede Ünlüler

1.1.3.4. Türkçede yarı-ünlüler

Assim, a simplicidade dos quatro de que fala Heidegger é o próprio mundo enquanto reunião da totalidade. É este propriamente o sentido que há em se afirmar que os mortais são na quaternidade enquanto um dos momentos de uma totalidade integradora – a quaternidade representa em última análise o lugar primeiro a partir de onde começa o nosso ser. Contudo, esse nó de quatro pontas que sustenta de modo originário a fundação do mundo necessita ele mesmo de cuidado e proteção, tarefa atribuída ao nosso próprio habitar: “Em habitando, os mortais são na quadratura. O traço fundamental do habitar é, porém, resguardar. Os mortais habitam resguardando a quadratura em sua essência”64. A quaternidade corresponde assim à condição de possibilidade de nossa essência, enquanto aquela que abre primeiramente o mundo que nos acolhe e nos protege, mas também traz junto de si a ideia de um fim para a nossa existência, pois ser um mortal é também ter de assumir a tarefa de resguardar a quaternidade. Em outras palavras, o humano só pode vir a ser a partir da quaternidade, enquanto aquela que acomoda o emergir de todas as coisas na arrumação própria de sua estrutura; em contrapartida, a nossa entrada no mundo nos compromete desde o princípio com a tarefa de zelar por este acontecimento. Resta, contudo, esclarecer como se dá esse resguardo da quaternidade enquanto tarefa do habitar.

Perguntar-se sobre como é possível resguardar a quaternidade já é sempre perguntar sobre como é que se realiza o nosso modo de ser como habitar, ou em outras palavras, como podemos nos apropriar de nossa essência. Aqui, manifesta-se uma ideia cara ao todo da filosofia heideggeriana, aquela ideia de que falar do humano já é sempre falar das coisas do mundo, de modo que habitar não seria possível se se tratasse somente de “...uma de-mora sobre a terra, sob o céu, diante dos deuses, com os mortais. Habitar é bem mais um demorar- se junto às coisas. Enquanto resguardo, o habitar preserva a quaternidade naquilo junto a que

os mortais se demoram: nas coisas”65. Assim, é o cuidado com as coisas de nosso mundo cotidiano que em última análise garante a posição do humano na quaternidade, já que a coisa é capaz de reunir em si a simplicidade das quatro facetas que compõem o mundo – parece assim que a própria essência do habitar enquanto este resguardo fundamental repousa antes nas próprias coisas, quer dizer, sem essa postura de zelo e serenidade para com o mundo, nenhum habitar se faria possível66. Fica claro aqui que a noção de habitar atinge aquela significação prática que vimos tentando desvelar desde o começo de nossa investigação a partir deste renovado relacionamento do habitante com as coisas do seu lugar de morada: o modo de vida como um habitar vem para se contrapor àquele cotidiano instrumentalizado e objetificador em que uma postura de dominação articulava o todo da autocompreensão humana. Habitar, em última análise, diz respeito às coisas, porque tratar do modo de ser do humano já é sempre debruçar-se sobre o seu relacionamento com o mundo e as suas coisas – habitar pode ser dito então como a tarefa de resguardar a quaternidade nas coisas. Mas como isso é possível?

A demora junto às coisas é o único modo em que a demora própria da simplicidade dos quatro alcança na quadratura uma plenitude consistente. No habitar, a quadratura se resguarda à medida que leva para as coisas o seu próprio vigor de essência. As coisas elas mesmas, porém, abrigam a quadratura apenas quando deixadas como coisas em seu vigor67.

Fica claro, portanto, que ao modo de vida como um habitar corresponde um relacionamento com o mundo das coisas segundo uma postura de deixar-ser [Seinlassen] estas mesmas coisas – e essa postura não é nada menos que uma condição do habitar. Se ao habitante cabe a tarefa de preservar a quaternidade nas coisas, o modo efetivo com que isso se dá reside no empenho humano ao zelar pelas coisas, ou ainda naquelas atividades responsáveis pelo vir-à-presença de muitas coisas: no cultivo daquilo que cresce por si mesmo, ou na edificação de coisas que simplesmente não crescem, ambos modos de construir. Porque habitar é construir coisas. Como vimos, a coisa produzida por uma vida apropriada como um habitar deve revelar tanto as condições de seu aparecer (ao contrário da ilusória incondicionalidade do objeto da técnica), como as condições da própria vida que a produziu; em outras palavras, um habitar deve produzir coisas que revelem a condicionalidade da vida

65 HEIDEGGER, Ensaios e conferências, p. 131.

66 Essa postura de serenidade deve ser tratada em maior profundidade após a nossa passagem pela questão da

arte no pensamento heideggeriano: uma disposição serena pode ser entendida como o estado existencial ao qual somos conduzidos a partir da vivência estética. Essa postura de serenidade, portanto, deve nos levar a um modo de vida no qual as coisas são deixadas viger em seu ser, a partir de onde se faria possível superar aquela postura de dominação.

humana e da própria coisa. Por fim, o critério para delimitar o que no nosso mundo pode ser chamado de coisa parece ser este: só é coisa aquilo que preservar e manifestar a quaternidade. A coisa, portanto, deve de algum modo revelar a sua dívida para com a natureza, a sua fragilidade diante das intempéries dos ciclos naturais, a sua incompletude diante do divino que é fervorosamente aguardado, a sua produção a partir da vida de um humano que deseja morrer uma boa morte. É assim que Heidegger irá dizer que habitar é construir “desde que se preserve nas coisas a quaternidade”, quer dizer, desde que o nosso modo de vida e as coisas que construímos a partir daí espelhem o reconhecimento primordial de nossa condicionalidade. Assim, é a nossa atividade producente que deve levar a quaternidade até a coisa construída, o que em última análise depende que vivamos como habitantes, ou seja, na quaternidade. Na coisa resplandece o fundamento sobre o qual repousa a própria possibilidade de nossas vidas como humanos: a quaternidade é o lugar a partir de onde o nosso habitar acontece.