2. KURAMSAL ÇERÇEVE
2.2. Sürdürülebilir Ulaşım Bileşenleri
2.2.1. Sosyal sürdürülebilirlik
A representação discursiva é uma das principais noções utilizadas pela ATD para o nível semântico do texto. Essa noção, juntamente com as de correferência, anáfora, isotopia e colocação (Cf. ADAM, 2008a, cap. 3), compõe o conjunto de categorias da ATD mais diretamente vinculadas à semântica.
A noção de representação discursiva (Rd) que será aqui utilizada é apreendida, em especial, da obra de Adam e autores que o seguem, como também de Grize (1997). De forma simplificada, a representação discursiva seria a “imagem” do locutor, do auditório, ou do tema tratado proposta pelo discurso. Sempre que se enuncia ou se lê uma proposição está-se construindo uma representação discursiva. Essa Rd que se constrói é suscetível de ser confirmada ou invalidada, modificada ou complementada por outras proposições. Depreende-se, portanto, que as Rd não são dadas, mas construídas a partir da realidade apresentada pelo texto. É o texto que propõe o sentido, conforme postula Adam, endossando R. Martin (MARTIN, 1985 apud ADAM 1990, p. 37, tradução nossa) “Podemos descrever o sentido de um texto
como uma imagem mental que o receptor constrói da realidade tal qual esta lhe é apresentada pelo texto.”17.
Em harmonia com Adam (2008a), o texto é uma proposição de sentido que o interpretante é convidado a (re)construir. O sentido de um enunciado é inseparável dessa atividade de reconstrução:
[...] toda representação discursiva [Rd] é a expressão de um ponto de vista [PdV] (relação [A] – [B]) e que o valor ilocucionário derivado da orientação argumentativa é inseparável do vínculo entre o sentido de um enunciado e uma atividade enunciativa significante (relação [C1] – [B]). Enfim, o valor descritivo de um enunciado [A] só assume sentido na relação com o valor argumentativo desse enunciado [C1]. O sentido de um enunciado (o dito) é inseparável de um dizer, isto é, de uma atividade enunciativa significante que o texto convida a (re)construir. ( 2008a, p.113).
É nesse sentido que vamos abordar as representações discursivas: toda Rd é, semanticamente, construída pelo interpretante a partir do texto, conforme propõe Adam (2008a, p. 114).
É o interpretante que constrói a Rd a partir dos enunciados (esquematização), em função de suas próprias finalidades (objetivos, intenções) e de suas representações psicossociais da situação, do enunciador e do mundo do texto, assim como de seus pressupostos culturais.
Com a escolha da expressão “construção de uma representação discursiva”, pretende-se dar a entender que a linguagem faz referência e que todo texto é uma proposição de mundo que solicita do interpretante (auditor ou locutor) uma atividade semelhante, mas não simétrica, de (re)construção dessa proposição de (pequeno) mundo ou Rd. (Aspas do autor).
Considerando essa afirmação de Adam de que o interpretante é quem constrói as Rd em função de seus objetivos e de suas representações do enunciador e também dos seus pressupostos culturais, as representações de LCC que são construídas a partir dos textos de MA passam por nossas finalidades e
17 « On peut décrire le sens d’um texte comme une image mentale que le récepeteur se fait de la
representações psicossociais da situação e dos interlocutores, bem como de nossos pressupostos culturais. Não havendo, dessa forma, como fugir de certa subjetividade. Outros interpretantes farão outras leituras e, provavelmente, construirão outras representações.
Adam aceita a ideia de que a língua, embora não possa dizer tudo, faz referência ao mundo, às palavras, à própria situação de enunciação e aos co- enunciadores. E o texto é “[...] uma proposição de mundo (Rd) e de sentido, um sistema de determinações e um espaço de reflexividade metalinguística.” (cf. 2008a, p. 115). Todo texto constrói uma representação discursiva do seu enunciador, do seu ouvinte ou leitor e dos temas ou assuntos que são tratados. A proposição enunciada (unidade textual elementar) também possui um conteúdo referencial, um valor descritivo e, portanto, constitui uma representação discursiva mínima:
A atividade discursiva de referência constrói, semanticamente, uma representação, um objeto de discurso comunicável. Esse microuniverso semântico apresenta-se, minimamente, como um tema ou objeto de discurso posto e o desenvolvimento de uma predicação a seu respeito. A forma mais simples é a estrutura que associa um sintagma nominal a um sintagma verbal, mas, de um ponto de vista semântico, uma proposição pode muito bem se reduzir a um nome e um adjetivo. (ADAM, 2008a, 113-114).
A proposição-enunciado, tal como é esquematizada por Adam (2011a, p. 111), apresenta três dimensões: referencial, enunciativa e argumentativa. A “imagem” do conteúdo proposicional (Rd) figura na dimensão referencial (A): referência como representação discursiva construída pelo conteúdo proposicional. A atividade de referência constrói uma imagem dos objetos de discurso, posto que “[...] cada expressão utilizada categoriza ou perspectiva o referente de uma certa maneira.” (cf. RODRIGUES, PASSEGGI, SILVA NETO, 2010, p. 173).
Rodrigues, Passeggi, Silva Neto (2010) observam que, embora a proposição enunciada constitua uma representação discursiva mínima, quando se trata do funcionamento textual típico, uma Rd é habitualmente composta por um conjunto de proposições e uma rede lexical. Dessa forma, a noção de representação discursiva pode se realizar na frase, no período, na sequência e no texto. Uma dada
representação discursiva pode ser construída em vários pontos do texto, não necessariamente sucessivos.
Adam (2008a e 2011a) não aprofunda a noção de representação discursiva nem se estende sobre os procedimentos de sua construção. Ele faz referência a sua obra de 199918, na qual essa noção se apoia no conceito de esquematização de Grize (1996)19. Assim, o autor entende Rd como atividade de esquematização e produção textual dessa atividade.
No quadro teórico da lógica natural, Grize (1996)20 formula cinco postulados de base: o postulado do dialogismo; o postulado da situação de interlocução; o postulado das representações; o postulado dos pré-construídos culturais; e o postulado da construção de objetos (cf. LANE, 2008). Aqui vai nos interessar especialmente o postulado das representações. Há três representações elementares que se combinam igualmente entre si: aquelas que o locutor A tem de si mesmo, aquela que ele tem do ouvinte B e aquela que ele tem daquilo sobre o que se fala T (tema abordado).
No esquema da comunicação proposto por Grize (1997), um locutor A, em uma situação de interlocução e diante de um interlocutor B, constrói uma representação discursiva (por definição, uma esquematização) dos assuntos tratados T. B reconstrói a esquematização que lhe é proposta e também constrói suas representações, de A e de T. Nessa teoria, A deve construir representações tanto dos temas (T) como do interlocutor ou auditório (B). Ressalte-se que a representação não é de B, mas de alguns de seus aspectos, como saberes, intenções e valores. A constrói também uma representação de si. Para o autor, toda situação de comunicação oral ou escrita origina uma esquematização e essa atividade cria os sentidos. Ilustramos essas representações com a figura seguinte, adaptada por Ramos (2011) com base em Adam (2008):
18 ADAM, J-Michel. Linguistique textuelle: des genres de discours aus textes. Paris ; Nathan, 1999. 19 GRIZE, J-Blaise. Logique naturelle et communications. Paris: PUF, 1996.
Figura 03 – Representações discursivas (Rd)
Fonte: Adaptado por Ramos (2011) com base em Adam (2008a)
Adam (2008b) entende que a teoria da esquematização discursiva desenvolvida por Grize ajuda a esclarecer alguns pontos da análise de discurso, dentre os quais a representação discursiva, numa perspectiva linguística. Dessa forma, o autor faz referência a “representações discursivas esquemáticas”, entendendo a Rd como atividade de esquematização e produção textual dessa atividade. Para o autor, uma esquematização tem sempre alguma dimensão descritiva que requer do destinatário uma interpretação. Nesse sentido, uma esquematização é uma representação discursiva concebida sobre determinada realidade e orientada para um destinatário. É o destinatário quem constrói a Rd com base na esquematização que a produziu. Assim, a linguagem adquire valor referencial, particularmente porque a esquematização solicita a construção de um sentido. Em outras palavras “Esquematizar é construir um esquema, isto é, uma representação discursiva, por definição parcial e seletiva de uma realidade. Dessa maneira, qualquer discurso constrói uma espécie de microuniverso [...]” (ADAM, 2008b, p.102).
Convém destacar, em harmonia com Grize (1997), que uma esquematização nem sempre constrói imagens, mas ela contém marcas que ajudam na sua reconstrução. A atividade de reconstrução consiste na interpretação da esquematização e se baseia nas representações, nos pré-construídos e nas finalidades dos interlocutores. As imagens, enquanto objetos textuais, diferem das representações. Estas podem ser inferidas a partir daquelas. Dentro dessa
abordagem, o autor entende que os interlocutores constroem as representações a partir das imagens que o discurso propõe. Essas imagens são basicamente de três tipos (cf. PASSEGGI, 2001, p. 249):
– imagem do locutor: im (A) – imagem do destinatário: im (B) – imagem do tema tratado: im (T)
Segundo Passeggi (op.cit.), as imagens do tema tratado remetem diretamente às operações lógico-discursivas de sua construção. Tais operações permitem aos interlocutores construir e reconstruir a esquematização no nível dos enunciados. O autor faz uma correspondência entre as operações lógicas e as operações discursivas, daí a terminologia “lógico-discursiva”. Voltaremos a essas operações quando tratarmos das categorias para construção das representações discursivas.
Adam (199921 apud LANE, 2008, p. 212) destaca quatro aspectos da esquematização que ele insere no quadro da linguística textual e da análise de discurso:
Uma esquematização é, ao mesmo tempo, operação e resultado. A esquematização como representação discursiva é um processo. Se, em uma dada situação, um locutor A dirige um discurso, numa língua natural, a um locutor B, diz-se que A não só propõe uma esquematização a B, como também constrói um microuniverso diante de B, microuniverso que se pretende verossímil para B. A esquematização, portanto, remete tanto a um processo quanto a um resultado. Como objeto da análise de discurso, a esquematização discursiva reúne a enunciação como processo e o enunciado como resultado (cf. ADAM, 2008b).
Toda representação discursiva é esquemática. Uma esquematização é sempre situada e solicita como consequência que o analista disponha de conhecimentos que a ultrapassem. Esquematizar é construir um esquema, uma representação seletiva e estratégica de uma realidade que pode ser
ficcional. A noção de esquematização propõe uma teoria da referência e do contexto no quadro de uma abordagem dinâmica e interativa.
Toda esquematização é uma co-construção. Devido ao fato de ser representação de alguma coisa, todo discurso propõe uma esquematização a um destinatário: “Uma esquematização tem a função de fazer ver qualquer coisa a qualquer um; mais precisamente, é uma representação discursiva orientada para um destinatário daquilo que seu autor conhece ou imagina de uma certa realidade” (GRIZE, 1996, p. 5022 apud LANE, 2008). Nos termos de Grize (1990,1996), uma esquematização é construída por seu destinatário e, portanto, interpretada, posto que ela aparece como solicitação à construção de um sentido.
Toda esquematização é uma proposição de imagens. Grize (op. cit.) distingue o termo imagem do termo representação, denominando de representação aquilo que é relativo a A e B e imagem aquilo que é visível no texto. Grize postula, portanto, três imagens de base: imagens do esquematizador em (A), imagens do co-esquematizador em (B), imagens do tema do discurso em (T). Adam substitui as noções de esquematizador e co-esquematizador pelas de locutor e ouvinte. Convém deixar claro que, neste trabalho, vamos analisar apenas as representações do interlocutor.
Outra noção que julgamos conveniente na análise de representações discursivas e para a qual convém dedicar um pouco da nossa atenção é a de pré- construído. O postulado dos pré-construídos culturais estabelece que os interlocutores mobilizam um conjunto de conhecimentos pré-construídos – conhecimentos de natureza cultural e social, a começar pela própria linguagem (cf. PASSEGGI, 2001). Em Charaudeau e Maingueneau (2008), lemos que o pré- construído pode ser entendido como a marca, no enunciado, de um discurso anterior. Assim, ele não é construído no momento da enunciação, ele já foi dito antes e esquecemos quem foi seu enunciador. Essa noção está intimamente ligada à de interdiscurso. Para Passeggi (op. cit. p. 248), “A comunicação só é possível se os interlocutores partilham de um conjunto de pré-construídos; mas não basta partilhar um mesmo saber, é preciso, ainda, saber que o outro o possui.”. Ainda de
acordo com o autor, são os pré-construídos que fazem com que um texto seja um produto verbal e um produto social.
Antes de passarmos ao exame das categorias que embasarão nossa análise das representações discursivas, convém destacar que, neste trabalho, essas representações serão observadas na interação, em contextos de uso, nas atividades dos locutores. Nesse sentido, seguimos Marcuschi (2005, p. 71), que alerta para o cuidado de se evitar a reificação das representações e das formas usadas para tal. O autor atenta para a necessidade de se “observar o funcionamento dessas formas em seus contextos de uso situados”. Para isso, deve-se observar o que os interlocutores fazem e como agem para construir representações do mundo em sistema de “co-produção discursiva”. Trata-se de fugir da tendência natural para tomar essas formas como categorias fixas, dadas a priori, e observá-las como construtos, formas que são construídas na dinâmica das interações.