2. KURAMSAL ÇERÇEVE
2.3. Sürdürülebilir Ulaşım Düzenlemeleri
2.3.1. Dünya’daki sürdürülebilir ulaşım düzenlemeleri
como você é tão bom pra mim! Cada carta de você é um carinho descansante pra mim, fico feliz. Deus lhe pague.
(4MA2) E a sua casa que você não se cansa de me oferecer em Natal... Como você é bom pra mim! Se fosse possível não imagine que eu esperaria repetição e convite não. Iria mesmo.
Em (4MA1) e (4MA2), a característica que sobressai como representação de LCC é a bondade. Nos dois fragmentos destacam-se as expressões “como você é (tão) bom pra mim”, seguidas de exclamações que exprimem o entusiasmo e a emoção do enunciador. MA mostra-se entusiasmado com a generosidade, a bondade do amigo demonstrada para ele, e emprega nos dois fragmentos o adjetivo prototípico para destacar esse traço positivo do potiguar. O valor exclamativo dessas construções produz efeitos positivos de afetividade, que intensificam o conteúdo proposicional e destacam a expressão da emoção do enunciador. Nas proposições de (4MA1), bem como nas duas primeiras de (4MA2), a Rd de Cascudo constrói-se com base no pronome dêitico “você”. Na primeira proposição de (4MA1), “você” é tematizado na posição de sujeito e se destaca no início da frase como tema, seguido
de uma predicação a seu respeito. Na segunda proposição, “você” aparece na estrutura de locução adjetiva e atribui traços semânticos ao referente “carta”, conferindo-lhe ideia de posse. Em (4MA2), “você” é colocado na posição de sujeito, seguido de uma predicação sobre ele, nas duas ocorrências.
3.1.1.4 A hospitalidade
(4MA2) E a sua casa que você não se cansa de me oferecer em Natal... Como você é bom pra mim! Se fosse possível não imagine que eu esperaria repetição e convite não. Iria mesmo.
Em (4MA2), a estrutura topicalizada destaca o referente “casa” como tópico discursivo. Esse objeto, evidenciado no início da frase, ancora a ação do sujeito “você”: oferecer a casa. O recurso metonímico, que permite estender o sentido da palavra “casa” para lugar de hospedagem ou acolhida, realça, com o emprego de substantivo concreto, o efeito da emoção na memória do interlocutor. A expressão “não se cansa” aspectualiza a predicação, acentuando a repetição da ação. Essas expressões constroem imagens que levam a inferir para o interlocutor uma representação que remete à hospitalidade. E é por causa desse gesto de hospitalidade do amigo que Mário declara a bondade deste para com ele, representação que reitera a Rd construída em (4MA1), exprimindo toda a sua satisfação.
3.1.1.5 A pressa
(5MA1) Às vezes tenho impressão que você escreve um pouco depressa os seus versos e deixa como saíram sem se importar mais com eles [...] Você é tão natural tão verdadeiro nestes poemas que a gente quase que não escuta a dicção de você porque ela desaparece e fica a impressão o quadro que você descreveu vibrando sozinho desimpedidoe bonito.
Em (5MA1), MA chama a atenção do amigo para a forma apressada de escrever. De forma bastante sutil, atenuada pelo modalizador “tenho impressão”, o enunciador aponta para a falta de revisão dos versos escritos por Cascudo, sugerindo a ausência dessa prática nos textos do potiguar. O emprego metafórico da
forma verbal “saíram” sugere a prática de uma escrita improvisada e resultante de entusiasmo momentâneo. A anáfora pronominal fiel “eles” garante a continuidade referencial da designação do objeto “os seus versos” e ancora a predicação “sem se importar mais”, indicando a falta de revisão e reelaboração desses versos. O determinante possesivo “seus” ancora-se no interlocutor, especificando o objeto de discurso “versos”. Dessa forma, a correferência exerce papel de aporte para novas informações, mantendo a isotopia e a progressão do discurso por retomadas do objeto e acréscimos de novas informações a ele relacionadas, as quais permitem ao texto avançar em nova direção.
3.1.1.6 A naturalidade
(5MA1) Às vezes tenho impressão que você escreve um pouco depressa os seus versos e deixa como saíram sem se importar mais com eles [...] Você é tão natural tão verdadeiro nestes poemas que a gente quase que não escuta a dicção de você porque ela desaparece e fica a impressão o quadro que você descreveu vibrando sozinho desimpedidoe bonito.
Em (5MA1), a proposição “Você é tão natural tão verdadeiro...” estabelece uma relação predicativa entre o referente “você” e os modificadores “natural” e “verdadeiro”, de modo que esses predicadores são postos como modificadores do referente você por meio da operação de modificação. A representação que se constrói em (5MA1), por meio dessa operação, é posta numa relação de causalidade, cujo efeito é delineado na analogia com outros elementos:
expressão e quadro. Ancorados, em uma perspectiva metafórica, num domínio
sonoro, esses elementos constroem o quadro de referência para a representação de LCC, ancorada na naturalidade e autenticidade do estilo do escritor. A metáfora do quadro “vibrando sozinho desimpedido e bonito” acrescenta um aspecto emocional àquilo que é dito, reforçando a ideia de naturalidade da escrita de LCC. Destaque- se, também, o emprego metafórico dos verbos “escuta” e “desaparece” trazidos ao texto para dar mais visibilidade ao objeto “dicção”, caracterizando-a como amena e aprazível.
3.1.1.7 A “modernidade”
(6MA2) Dos modernos do Nordeste é você incontestavelmente muito superior aos outros, sem mesmo, dentre os que eu conheço, possibilidade de comparação. [...] Mande coisas e cartas. A fala serelepe de você dá na gente, espeta, pinga, chuça, faz cócega, é engraçada e sagui. Me diverte e é verdadeira, por isso além de divertir comove.
(8MA2) Falar nisso, os “Atos dos Modernos” que você publicou em Letras Novas são um achado. Está finíssimo como invenção [...]. De moderno mesmo só você. Pela sensibilidade pelo inédito da invenção, pelo cortante e incisivo da expressão. Gostei de verdade dos “Atos dos Modernos”.
Nos fragmentos (6MA2) e (8MA2) Cascudo é tematizado como moderno, numa relação de analogia com outros escritores. Em (6MA2), a representação do natalense é construída por uma relação de comparação em que LCC é colocado em posição de superioridade. A comparação é feita com os modernos do Nordeste, deixando subentendida a informação de que LCC também era moderno (na acepção literária da palavra), estratégia que, além de acrescentar informações novas, permite que estas sejam postas como verdadeiras, irrefutáveis. Essa intenção de tornar os elogios verdadeiros fica patente quando o enunciador ressalta que não está fazendo elogios, mas falando a verdade. Essa comparação é posta também de forma duplamente modalizada pelos advérbios modalizadores/intensificadores “incontestavelmente” e “muito”, que modificam, respectivamente, o verbo (“é”) e o adjetivo (“superior”), intensificando suas propriedades. A comparação, feita em termos de superioridade, é, em seguida, contradita pelo próprio enunciador, que afirma não haver possibilidade de comparação. Ou seja, ao mesmo tempo em que opera a comparação, ele diz que ela não é possível, para reafirmar de forma absoluta o dito anterior, ou seja, reafirma a superioridade de forma absoluta. LCC é tão superior, que anula a possibilidade de comparação, pois não há quem com ele possa competir no referido aspecto. Após fazer a apreciação avaliativa do amigo, MA pede-lhe que envie “coisas e cartas”, retomando o referente “coisas” introduzido em (3MA1) e, em seguida, introduzindo novo referente “fala”.
Em (8MA2) é construído um referente para Câmara Cascudo: ele é moderno, ou melhor, modernista, na acepção literária da apalavra. Em 1926, no auge do movimento Modernista, quatro anos depois da Semana de 22, muitos escritores se esforçavam para se modernizarem, pois ser moderno era a grande
realização do momento para poetas e escritores. A partir do texto, pode-se elaborar uma representação de moderno para o autor da carta, que inclui sensibilidade, ineditismo, estilo incisivo, direto. Há também uma atitude avaliativa do autor, que permite construir uma representação de criatividade, inventividade e grandeza estética. Por possuir esses atributos, LCC se enquadraria no novo estilo. Em uma perspectiva mais ampla, pode-se considerar que “moderno” também inclui a brasilidade e o folclore. Há, também, nesse fragmento uma comparação, embora não estejam explícitos todos os elementos dessa relação, entre LCC e outros escritores contemporâneos. Nessa relação, o interlocutor é posto, mais uma vez, como superior no que se referia a dogmas do Modernismo. Os outros se esforçavam por se modernizarem, mas só o escritor potiguar atendia aos padrões do novo estilo literário.
3.1.1.8 A sensibilidade
(7MA2) A sua opinião sobre a mentalidade de Recife... engraçado é que eu vinha tendo faz muito tempo já a mesma sensação. Você compreende: por enquanto não posso ter opinião porque não vi não li, porém tenho a mesma sensação pelo pouco que sei e vi. E sobretudo me parece gente sem sensibilidade nova, sem esta agilidade intelectual desabusada que é tão característica do nosso tempo e que você tem.
(8MA2) Falar nisso, os “Atos dos Modernos” que você publicou em Letras Novas são um achado. Está finíssimo como invenção [...]. De moderno mesmo só você. Pela sensibilidade pelo inédito da invenção, pelo cortante e incisivo da expressão. Gostei de verdade dos “Atos dos Modernos”.
Em (7MA2) e (8MA2), a sensibilidade se destaca como traço de LCC. Essa qualidade agrada o paulista e se revela como característica do estilo modernista. Em (7MA2), a estrutura topicalizada que introduz o período funciona como tema da sequência, servindo como ponto de partida para as informações que seguem. Nesse fragmento, a Rd discursiva de Cascudo é construída por meio da predicação e da modificação. A escolha do verbo ter permite atribuir propriedades ao nome complemento, qualificando o seu referente. Nesse caso, o verbo e seu complemento determinam a estrutura argumental, resultando uma construção em que o nome/complemento é o responsável pela determinação dos papeis
semânticos dos argumentos (cf. NEVES 2006). Ao empregar essa estrutura, foi possível ao enunciador atribuir propriedades ao referente “agilidade”, qualificando-o como “intelectual, desabusada”, “tão característica do nosso tempo”. Essas propriedades constroem a Rd de LCC nesse enunciado: um escritor com “sensibilidade nova” e “agilidade intelectual”. Esses atributos são reiterados em (8MA2), destacando mais uma vez a sensibilidade do escritor potiguar.