2. KURAMSAL ÇERÇEVE
2.1. Sürdürülebilir Ulaşım
Adam (2008a, p. 106) concebe o período como uma unidade textual e faz uso desse conceito para designar “os conjuntos mais ou menos complexos de enunciados que entram na composição textual”. Para descrever os textos escritos que analisa, o autor adota uma abordagem que tem origem na retórica oratória. Essa abordagem, segundo ele, é historicamente anterior à invenção da frase e está ligada à oralização da escrita, daí vem satisfazer os seus propósitos. Essa postura do autor deve-se ao fato de que a gramática francesa não utiliza a noção de período, a qual é do âmbito da tradição retórica. Tal rótulo estava disponível em língua francesa para uma interpretação de cunho textual (Cf. PASSEGI et al, 2010).
De acordo com Passeggi et al (op.cit.), a noção de período utilizada por Adam deve ser interpretada como um termo técnico da ATD. Essa noção não corresponde ao período da tradição gramatical. Ela é recuperada da retórica pela ATD para designar uma unidade de estruturação textual. Esse é um dos pontos teórico-terminológicos da ATD que precisam ser melhor esclarecidos.
O período é uma unidade textual que articula proposições e sequências e permite que se leve em consideração as conexões lógico-gramaticais, bem como as rítmicas. Ele resulta das mais variadas formas de ligações: ligações rítmicas das proposições, ligações léxico-semânticas e ligações por conexão, asseguradas por conectores (Cf. PASSEGGI et al, 2010). Para a ATD, são períodos tanto as estruturas rítmicas, sem conectores, na fala e na escrita, como as estruturas organizadas em torno de conectores. Esses dois tipos de estrutura são, respectivamente, ilustrados abaixo.
“Que carta desesperante, puxa! Todo esse luar inda não maculado pelo soneto, essa paz esse silêncio que você sentiu e devorou e despejou com amizade na carta tudo me encheu duma dor funda uma dor que foi peleleim... peleleim... badalando através da terra grande nossa e encheu todo o Brasil.” (MA).
“Júlio Prestes foi o mais infame dos presidentes paulistas. Mas fez também algumas obras importantes.” (MA).
Um período pode corresponder a várias frases, ligadas pelo critério de conexão. Os períodos constituem as sequências; entretanto, há casos em que um único período corresponde a uma sequência (sequência mínima). Adam (2008a, p. 216-224) aponta quatro macro-operações que servem para descrever o período (tematização, aspectualização, relação, subtematização). Essas operações agrupam outras operações descritivas, que por sua vez geram outros tipos de operações de base. O autor detalha essas operações apenas para o período descritivo, no âmbito das características da sequência descritiva. Tais operações serão reinterpretadas e aproveitadas como categorias para a análise das representações discursivas (essas categorias serão detalhadas em capítulo próprio).
Segundo Passeggi et al (2010), as operações que Adam atribui ao período descritivo são comuns a todos os períodos. Essas operações também dão conta, embora parcialmente, da estruturação da proposição-enunciado, para a qual Adam não desenvolve procedimentos de construção. Os autores destacam a importância teórica e descritiva dessa questão, uma vez que explicita a recorrência das operações de textualização (construção das unidades textuais) em diferentes níveis.
2.5.4.3 Sequências
Adam (2008a), ao distinguir períodos e sequências, concebe estas como unidades mais complexas e tipificadas do que aqueles, mesmo em se tratando de uma sequência mínima, já que a diferença diz respeito à complexidade e não ao volume. Para o autor,
As sequências são unidades textuais complexas compostas de um número limitado de conjuntos de proposições-enunciados: as macroproposições. A macroproposição é uma espécie de período cuja propriedade principal é a de ser uma unidade ligada a outras macroproposições, ocupando posições precisas dentro do todo ordenado da sequência. Cada macroproposição adquire seu sentido
em relação às outras, na unidade hierárquica complexa da sequência. (ADAM, 2008a, p. 204).
Entendemos, em harmonia com Adam, que as proposições-enunciado se organizam em períodos (macroproposições), os quais compõem as sequências. Em outras palavras, e para uma melhor interpretação desse postulado de Adam, podemos dizer que cada unidade, ao mesmo tempo em que é constituída de unidade inferior, é constituinte de unidade superior. Assim, temos que as proposições constituem os períodos, estes constituem as sequências, as quais constituem o texto. As macroproposições, ou grupos de proposições, que entram na composição de uma sequência dependem de combinações pré-formatadas de proposições, o que não ocorre com os períodos simples. A essas diferentes combinações Adam denomina de sequência narrativa, argumentativa, explicativa, dialogal e descritiva. As sequências correspondem a relações macrossemânticas que são transmitidas culturalmente e utilizadas para reconhecimento e estruturação da informação textual.
Adam (2008a, p. 206) entende que as asserções narrativas, descritivas, argumentativas e explicativas, factuais ou ficcionais constroem representações esquemáticas do mundo mais do que se ajustam a ele. Essas asserções não têm como finalidade última o estabelecimento de uma crença partilhada, mas, sim, uma finalidade de ação: “[...] fazer partilhar uma crença com a finalidade de induzir um certo comportamento (sonhar, chorar, indagar-se, revoltar-se, agir no mundo etc.).”. Com o objetivo último de “convencer para fazer fazer”, o ato assertivo se comporta como os enunciados diretivos. Para o autor, narração, descrição, argumentação e explicação podem ser definidas como atos de discurso não primitivos, intermediários entre o objetivo ilocucionário primário da asserção e o objetivo último do ato assertivo. Esses atos vêm reforçar e especificar a asserção. Para nós, interessa destacar que o sentido de um enunciado se atualiza no contexto de comunicação, levando em consideração a combinação de todos os atos de discurso e as ligações entre eles. Nesse sentido, seguimos Adam (2008a, p. 196) para quem o texto não é uma sequência de atos de enunciação com certo valor ilocucionário, mas “uma estrutura de atos de discurso ligados entre si”.
Adam (2011b) acredita que as sequências elementares se reduzem a alguns tipos básicos de formatação de enunciados. Assim, o autor se atém às cinco sequências prototípicas: narrativa, descritiva, argumentativa, explicativa e dialogal. A narrativa, considerada como exposição de fatos reais ou imaginários, é uma sequência de proposições ligadas progressivamente para um fim. Esses “fatos”, conforme o autor, abrangem eventos e ações, que requerem ou não a presença de agente (humano ou antropomórfico). No primeiro caso, temos as ações; no segundo, os eventos, que são produzidos sob o efeito de causas, sem intervenção de um agente.
A sequência descritiva é caracterizada por Adam como a menos estruturada; não possuindo organização típica, consiste na aplicação de um conjunto de operações desenvolvidas conforme o plano de texto. Assim, “Quatro macro- operações agrupam nove operações descritivas que geram uma dezena de tipos de operações descritivas de base.” (ADAM, 2008a, p. 216). As quatro macro-operações de construção da sequência descritiva são: tematização, aspectualização, relação e expansão por subtematização. Essas operações se aplicam tanto no nível da proposição como no do período. Na seção que trata das representações discursivas, retomaremos essas macro-operações, fazendo uma releitura de suas operações discursivas para aplicação, como categorias de análise – juntamente com outras categorias propostas pela ATD – na construção das Rds.
A sequência argumentativa é descrita por Adam (2008a) como um modelo de composição que parte de premissas para chegar a determinada conclusão, ou seja, como um raciocínio, cujo objeto é demonstrar ou refutar uma tese. Para isso, parte-se de premissas supostamente contestáveis para mostrar que não se podem admitir tais premissas sem admitir também determinada conclusão. A conclusão passa a ser a tese a ser demonstrada ou negação da tese ou de argumentos de seus adversários. Diversos procedimentos argumentativos são utilizados para passar das premissas às conclusões.
Essa abordagem põe em evidência dois movimentos: demonstrar-justificar uma tese e refutar uma tese ou certos argumentos de uma tese adversa. Na verdade, trata-se de um mesmo movimento, pois se parte de premissas que não podem ser admitidas sem se admitir também determinada conclusão-asserção (C).
Adam (2008a) endossa a tese de que a argumentação é indissociável da polêmica, já que defender uma tese ou conclusão é defendê-la contra outras teses ou conclusões. Isso implica contra-argumentos, que constituem características da argumentação. Adam propõe, para a sequência argumentativa, um esquema que comporta dois níveis: nível justificativo, em que a estratégia argumentativa é dominada pelos conhecimentos apresentados e nível dialógico ou contra- argumentativo em que a argumentação é negociada com um contra-argumentador real ou potencial. Nesse nível, a estratégia argumentativa visa a uma transformação dos conhecimentos.
Para a sequência explicativa Adam (2008a, p. 242 et seq.) propõe uma estrutura sequencial de base apoiada em dois operadores: um primeiro operador [POR QUE] introduz a primeira macroproposição obrigatória e o segundo operador [PORQUE] leva à segunda macroproposição obrigatória; essas macroproposições são geralmente seguidas de uma terceira macroproposição de ratificação. Dessa forma, tem-se a seguinte esquematização: Problema (questão) → Explicação (resposta) → Ratificação-avaliação (cf. esquema 27 de Adam, op.cit. p. 244).
Para descrever a sequência dialogal, Adam (2008a) parte da definição interacionista proposta por Goffman16, segundo a qual as enunciações do texto
dialogal-conversacional se encontram localizadas em turnos de fala que constituem ocasiões temporárias de ocupar alternadamente a cena. Esses turnos são emparelhados sob a forma de intercâmbios bipartidos que se ligam entre si em sequências marcadas por uma certa tematicidade. A conversação é formada por essas sequências temáticas. Os intercâmbios se combinam para formar as sequências; estas se combinam para constituir as interações. As enunciações são construídas e calculadas para sustentar a colaboração social que implica a tomada do turno de fala.
Segundo Adam (2008a), o modo de composição dialogal tem uma posição particular: é poligerenciado, enquanto os outros quatro tipos são monogerenciados. A posição que cada modo de composição ocupa na construção de um texto depende da situação de enunciação. Em uma situação oral, o modo de
composição dialogal-conversacional se sobrepõe a todos os outros modos e assegura o encaixamento das sequências narrativas, descritivas, explicativas e argumentativas. Já nos discursos escritos, independentemente do gênero discursivo, os cinco tipos de composição se encontram uniformemente distribuídos.
Para Adam (2008a, p. 275), a caracterização global de um texto resulta de um efeito dominante que o caracteriza como predominantemente narrativo, argumentativo, explicativo, descritivo ou dialogal. Em se tratando de sequências, o efeito de dominante é determinado pelo maior número de sequências de um certo tipo que aparecem no texto ou pelo tipo de frequência matriz. “Esses fatos de dominante sequencial estão ligados aos gêneros e subgêneros de discurso que mantêm relações hierárquicas instáveis e sempre suscetíveis de serem modificadas.” (grifos do autor).