• Sonuç bulunamadı

A partir da Revolução bolchevista, em 1917, foi imposta a necessidade de reestruturação organizacional do Estado russo a bem de institucionalizar o estado socialista, como iter para o comunismo, em conformidade com a postura de Karl Marx, no que foi fundamental a ação de Lenin, pois a obra daquele explica as contradições capitalistas, a forma do estabelecimento da revolução e a caracterização do comunismo, mas não a forma de organização do Estado para se chegar aquele objetivo.

Por sua vez, o direito, nessa ideologia, teve importância fundamental, pois considerado como superestrutura de força e controle na perpetuação do modelo dos modos de produção, manipulado e conformado aos interesses dos que têm sob seu comando uma determinada sociedade.

A partir dessa consciência a doutrina marxista-leninista passa a ser dogma, expressão indiscutível da verdade a ser institucionalizada no direito a bem de cumprir com três funções do Estado e, portanto, do Direito soviético, a saber: a) segurança nacional na consolidação, expansão e desencorajamento dos inimigos do regime; b) na ordem econômica o desenvolvimento da produção a satisfazer as necessidades de todos, segundo os princípios socialistas; e c) educação implantadora de consciência e postura sociais, assim como a erradicação de tendências antisociais, próprias dos regimes anteriores330.

330DAVID, obra citada, páginas 165/174. Vale transcrever trecho da obra de página 173:

Não basta ter curado o vício fundamental da sociedade, como pedia a doutrina marxista, nem ter saneado a sua infra-estrutura econômica, coletivizando os bens de produção. Uma outra tarefa se impõe a de reeducar os homens e de lhes fazer compreender que as atitudes antisociais, outrora desculpáveis e mesmo justificadas, não o são mais no Estado

A supremacia do Soviete Supremo, na elaboração das leis e na determinação da forma como deveriam ser interpretadas, era clara a ponto de não haver competência para

os tribunais, quaisquer que fossem, julgarem a

constitucionalidade das mesmas, o único que controlava esse poder era o Partido Comunista. A ‘interpretação autêntica’, enquanto diretrizes para todos os julgadores, da lei era assegurada por órgãos e métodos administrativos331.

Conforme visto, os juízes eram eleitos por prazo determinado, podendo ser leigos, tendo como regra a decisão colegiada por assessores eleitos dentre o povo, objetivando a educação e a legitimação popular, mas devendo respeito estrito à lei e ao ‘espirito das leis soviéticas’ em suas interpretações.

Diante da supremacia da lei a importância da jurisprudência era a de fazer reinar a ordem e restabelecer a paz, a descoberta de insuficiências e lacunas (sempre cabendo a decisão final quanto a interpretação aos Supremos Tribunais), apresentar de forma mais expressiva e concreta o conteúdo das leis, asseguramento do êxito da política governamental, em decisões apoiadas na lei soviética e na opinião pública, para que ‘o tribunal soviético seja uma escola, nunca um espetáculo’332.

socialista de hoje. Esta tarefa deve ser realizada a partir da infância; é em função dela que são concebidos programas soviéticos de ensino. Deve prosseguir ao longo da existência do homem; o partido comunista assume a este respeito uma responsabilidade particular.

331 A respeito de quais os órgãos encarregados de garantir a aplicação uniforme da lei soviética há pequena divergência entre René David, obra citada, páginas 176 e seguintes (mencionando Presidium do Soviete Supremo, o Supremo Tribunal da União Soviética e o árbitro-chefe da União Soviética), e GILISSEN, obra citada, página 228 (mencionando Supremos Tribunais da U.R.S.S. e das repúblicas federadas, com explicações com força obrigatória; do controle sobre a ‘ legalidade socialista’ exercido pela procuratura – equivalente ao ministério público - e pelo “controlo popular”)

332 Bis in idem, páginas 176 a 241. Ensina MIRANDA, obra citada, página 113 que a última Constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas:

Uma obra de educação de cidadãos, na qual os juristas são convidados a cooperar, deve ser paciente e incansavelmente conduzida.

...

O tribunal soviético é concebido como uma escola. Adverte, encoraja, dá conselhos, tal como a própria lei muitas vezes o faz. A sua composição, a sua forma de atuar, a sua existência são justificadas pelo papel educador do direito soviético. É um malogro se o condenado não aprova a sentença que o pune, se os adversários não se reconciliam ao reconhecerem o caráter justo de uma decisão tomada na aplicação da lei socialista. Através de toda esta obra persuasiva, toda a repressão se tornará pouco a pouco inútil. 333(grifo nosso)

Assim, o direito socialista tem como funções específicas: ideológica, pedagógica, protetora dos direitos reconhecidos aos cidadãos e organizacional, em especial do domínio econômico; tudo tendo como finalidade precípua a edificação do comunismo334, com importante relevo da função ideológica a

V – A Constituição aprovada em 07 de outubro de 1977, a quarta Constituição soviética, propôs-se expressamente ampliar e aprofundar “a democracia socialista”, correspondente à concepção do Estado de “todo o povo. Nela encontram-se, nomeadamente a prescrição expressa do princípio da legalidade socialista e uma enumeração mais completa e precisa dos cidadãos; um capítulo novo sobre desenvolvimento da política externa; e o reforço da institucionalização do partido comunista.

333 DAVID, obra citada, páginas 176/177.

334 GILISSEN, obra citada, página 228, ensina que a sociedade comunista que se pretende (u) construir pressupõe:

consolidar o regime socioeconômico e político desse regime que se pretendia gradualmente implantar335.

Dessa forma, acompanhando René David, a principal característica distintiva deste sistema jurídico para o da família romano-germânica, é a pretensão de ver o direito e o Estado em declínio de importância à extinção, no mais ‘... conserva um Estado, um direito e um princípio da legalidade que, apesar de qualificados de socialista, não deixam de evocar a idéia do Estado e do direito burguês. ...’, a expressar com mais ênfase o momento histórico do sistema em que imperavam as concepções positivistas336337.

- uma sociedade sem classes, totalmente integrada, sem antagonismos entre os sexos,

entre os habitantes da cidade e do campo, entre trabalhadores manuais e intelectuais, sem qualquer discriminação;

- abundância dos bens materiais e culturais a fim de dar a cada um “segundo as suas necessidades”;

- um grau muito elevado de consciência social nos indivíduos chamados a contribuir espontaneamente para o bem-estar geral.

335 ROZMARYN, Stefan. La Constitution loi fondamentale de l’État socialiste, Paris-Turim, 1966, páginas 88-81.

336 Obra citada, página 59.

337 MIRANDA, obra citada, página 117, ensina:

II – A legalidade socialista é muito diferente do Estado de Direito, pois envolve:

a) A aceitação da hierarquia das normas jurídicas, não por causa do seu valor intrínseco e apenas por serem normas de Direito socialista; b) A desvalorização, por conseguinte, das normas constitucionais em face

de leis mais conformes com o estado actual da sociedade socialista; c) A redução do papel do juiz e da interpretação em geral;

d) A recusa da fiscalização judicial da constitucionalidade das leis; e) O papel importante da Procuradoria-Geral (com funções mais amplas

que as de um Ministério Público), promovendo a aplicação uniforme da lei e a fiscalização dos órgãos administrativos, por iniciativa própria ou a pedido dos cidadãos (art. 164 da Constituição soviética);

f) A intervenção do Partido Comunista na interpretação e na aplicação do Direito (dado o caráter ideológico deste), através de directivas e resoluções dirigidas aos juízes;

g) A extensão do princípio da legalidade tanto aos órgãos do Estado como aos cidadãos em geral, a quem se exige uma colaboração activa na salvaguarda do Direito socialista.

4.4 CONTROLE EXTERNO DO JUDICIÁRIO E AS