R. Erdem Erkul, A.g.e
6. SONUÇ ve DEĞERLENDĐRME
Impressoras 3D são máquinas capazes de reproduzir, a partir de designs, objetos para uso variado, dando assim forma, por exemplo, a brinquedos e objetos acessórios, como também a parte substitutivas, a órgãos humanos e próteses. O método de produção criativa se dá através de um processo chamado de “fabricação aditiva”58. Trata-se de uma forma de
prototipagem rápida onde os modelos digitais tridimensionais, a partir de um arquivo digital, são criados por adição de materiais que se acumulam camada por camada. Os materiais utilizados, chamados filamentos, são introduzidos na máquina e passam por um processo de aquecimento. Uma vez derretido o material, que é expelido por um tubo fino que em movimentos horizontais de acordo com o design do objeto, vai adicionando o material selecionado em camadas até que se dê forma ao objeto tridimensional.
Os filamentos variam e são escolhidos de acordo com o projeto, com a funcionalidade desejada e com o tipo de impressora 3D. A definição técnica do filamento é monofilamento plástico. Os dois tipos de materiais mais comuns são hoje o ABS (acrilonitrila butadieno estireno) e o PLA (ácido poliático)596061. A escolha do filamento é extremamente importante uma vez que a seleção inadequada pode resultar em uma impressão desastrosa, gerando um prejuízo para o usuário-consumidor/usuário-produtor.
O ABS é o material mais fácil de ser encontrado no mercado e pode ser usado para diversos fins devido às suas características. Esse filamento tem um custo baixo, quando
57 PATEL, Ansh. Questioning the 3D printing revolution: Who controls the machines? How are they made? And
who makes them? Model View Culture, A magazine about technology, culture and diversity, n. 36, 26 abr. 2016.
Disponível em: <http://modelviewculture.com/pieces/questioning-the-3d-printing-revolution>. Acesso em: 05 mai. 2016.
58 BROWN, Mayer. How to explore the potential and avoid the risks of additive manufacturing 3. 2014. In: NIELSON, Heidi. Manufacturing consumer protection for 3D printed products. Arizona Law Review 609, v. 57, n. 2, 2015. Disponível em: <http://arizonalawreview.org/manufacturing-consumer-protection-for-3-d- printed-products/>. Acesso em: 27 abr. 2016.
59 FILAMENTOS 3D BRASIL. Qual é a diferença entre ABS e PLA? Filamento 3D, 06 ago. 2015. Disponível em: <http://filamentos3dbrasil.com/2015/08/06/qual-e-a-diferenca-entre-abs-e-pla/>. Acesso em: 15 mar. 2016. 60 Cf. DORFER, Thiago Reis. Conheça os diferentes tipos de materiais para impressão 3D FDM. Impressão 3D
Fácil, 01 dez. 2015. Disponível em: <http://www.impressao3dfacil.com.br/conheca-os-diferentes-tipos-de-
materiais-para-impressao-3d-fdm/>. Acesso em: 22 mai. 2016.
61 Cf. CAMMADA. Materiais para impressão 3D: entenda como são os materiais para impressão 3D. Disponível em: <http://cammada.com/materiais>. Acesso em: 22 mai. 2016.
comparado ao PLA (R$120,00/kg v. R$150,00/kg)62 e, é supostamente, indicado para usuários que já tenham um conhecimento das técnicas empregadas e que já estejam familiarizados com o uso de uma impressora 3D. Esse tipo de filamento tem uma aparência fosca e é mais resistente, o que significa que os objetos impressos são mais duráveis. No entanto, demanda uma temperatura mais alta (210°-250°C) por possuir também maior resistência térmica. Trata-se de um material derivado do petróleo e assim, não é indicado para peças que tenham contato constante com a pele. Já o PLA é mais usado por aqueles que gostam de fazer experimentos, de brincar com a impressão 3D. Esse material é derivado do milho e é, portanto, biodegradável63. Enquanto inofensivo ao contato humano, corantes utilizados podem ser tóxicos se ingeridos64. O material derrete quando exposto a uma temperatura entre 160°-220°C. Por ser mais rígido é menos provável que algum tipo de má formação ocorra. Recomenda-se o filamento PLA para uso doméstico, mas também pode ser utilizado em âmbito industrial. Por ser disponível em várias cores, acaba gerando maior atratividade para usuário tanto profissionais como também aqueles que estão apenas começando (ANEXOS D e E).
A primeira etapa é a criação de um modelo/design digital de um objeto 3D utilizando um software adequado. As impressoras 3D funcionam a partir de um sinal enviado por um computador com as instruções do que imprimir. Essas instruções estão no formato de arquivos digitais (CAD). Esses arquivos são uma espécie de rascunho digital. Uma vez feito o design neste modelo digital, basta acionar uma conexão com a impressora e esperar o término do processo da impressão, que se dá em camadas. Essas camadas grudam umas nas outras até surgir um objeto sólido65. Importante ressaltar que não se trata de um processo rápido. O tempo de impressão de um objeto varia de acordo com a impressora e o projeto e, muitas vezes, erros podem ocorrer durante a impressão, atrasando o seu término. Uma vez que resultados com defeitos e problemas são comuns, justifica-se a necessidade de um tratamento jurídico adequado e bem definido. Assim, em casos onde o consumidor se encontra diante de um produto 3D com defeitos e/ou vícios, estará legalmente amparado.
62 DORFEN, op. cit.
63 3D PRINTING FROM SCRATCH. 3D printer filament types overview. Disponível em: <http://3dprintingfromscratch.com/common/3d-printer-filament-types-overview/#abs-pla/>. Acesso em: 15 mar. 2016.
64 CAMMADA, op. cit.
65 WALKER, Andrew. 3D Printing for dummies: How do 3D printers work? Independent, 21 jun. 2013. Disponível em: <http://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/features/3d-printing-for-dummies- how-do-3d-printers-work-8668937.html>. Acesso em: 09 mar. 2016.
Após envio do design para a impressora, o filamento escolhido para o projeto é puxado através de um tubo para dentro da impressora que passa a aquecê-lo e, ao mesmo tempo, expele esse material em camadas na plataforma da impressora (figura 1).
Figura 1: Impressora 3D Zortrax, M200 em funcionamento no Olabi.66
Há uma diferença quanto ao nível de qualidade da impressão quando se trata de impressoras 3D para uso industrial e impressoras 3D utilizadas e concebidas para uso de consumidores67. Impressoras 3D industriais, por serem maiores e mais complexas imprimem
em resolução superior, já quando comparadas as impressoras 3D mais acessíveis ao consumidor, estas seriam as desktop 3D printers. Atualmente, há um avanço técnico nas impressoras 3D destinadas ao consumidor comum uma vez que esta tecnologia vem se transformando de modo a tornar-se mais acessível ao consumidor comum. Assim, se antecipa
66 Cf. OLABI. Makerspace. Rio de Janeiro. Disponível em: <http://olabi.co/>. Acesso em: 22 mai. 2016. Sobre:
“Olabi é uma empresa social focada em estimular a aprendizagem de novas tecnologias e estimular a inovação
social no país”.
67 GILPIN, Lyndsey. 3D printing: 10 factors still holding it back. TechRepublic, 19 fev. 2014. Disponível em: <http://www.techrepublic.com/article/3d-printing-10-factors-still-holding-it-back/>. Acesso em: 09 abr. 2016.
que, em alguns casos, a compra de certos objetos diminuirá, tendo em vista que o consumidor-produtor terá meios de produzir o objeto desejado em casa.68
De forma a facilitar a compreensão desse processo, resumidamente, existem dois passos69: o primeiro é criar o design do objeto desejado em 3D utilizando um tipo de software, como por exemplo, o Google Sketch Up70, que oferece este serviço gratuitamente
ou o TotalCAD71, um programa pago. Outra opção é, em vez de criar um design ou modelo
próprio, buscar modelos prontos e disponíveis em plataformas como a já mencionada Thingiverse onde existe uma enorme variedade de modelos dos mais diversos objetos disponíveis. Quanto a esta última opção, o usuário-consumidor/produtor deve se atentar às informações e às instruções que acompanham o arquivo disponibilizado. Em geral, os designs são licenciados em Creative Commons72. Esse conjunto de licenças foi criado com o objetivo de promover o compartilhamento de obras ou produções intelectuais de forma livre, não obstante protegida. Caberá ao autor da obra definir a licença que melhor atende aos seus interesses. Existem, portanto, certas limitações impostas ao usuário a depender da licença utilizada pelo autor da obra em questão.
Para exemplificar, considerando a situação hipotética em que determinado usuário é fã da série Harry Potter e esteja buscando algum objeto relacionado à série no site Thingiverse, ao digitar “Harry Potter”73 no campo de busca o usuário encontra a sua disposição para download objetos dos mais variados, mas todos relacionados à série em questão (ANEXO F).
68 CASTANHEIRA, Bruna de Freitas; DOS SANTOS, Nivaldo. As possibilidades de sustentabilidade
trazidas pela impressora 3D. 2002. In: PAULA, Gil César Costa de; SILVA, José Antônio Tietzmann;
ARAÚJO, Luciene Martins de. Sustentabilidade: desafios e perspectivas. 1. ed. v. 1. Goiânia: América, 2015. v. 1.
69 DONOVAN, Joe. What is 3D printing? A beginner’s guide to the desktop factory. Digital Trends, 19 fev. 2015. Disponível em: <http://www.digitaltrends.com/computing/what-is-3d-printing-a-beginners-guide-to-the- desktop-factory/>. Acesso em: 09 mar. 2016.
70 Cf. SKETCHUP. A maneira mais fácil de desenhar em 3D. Disponível em: <https://www.sketchup.com/pt- BR>. Acesso em: 14 abr. 2016.
71 Cf. TOTAL CAD. Software técnicos. Sketchup. Disponível em: <http://totalcad.com.br/sketchup/>. Acesso em: 14 abr. 2016.
72Cf. CREATIVE COMMONS CORPORATION. Licenses. Disponível em: <https://creativecommons.org/>. Acesso em: 11 mar. 2016. “Creative Commons é uma organização que permite o compartilhamento e uso da criatividade e do conhecimento através de instrumentos jurídicos gratuitos. As licenças de direitos autorais são uma forma de permitir o compartilhamento e uso de trabalhos criativos, desde que atenda a certas condições impostas pelo autor da obra em questão. As licenças do CC operam de forma a complementar os direitos autorais e permitem que o autor da obra modifique seus termos de uso para melhor atender às suas necessidade e interesses. Os diferentes tipos de licenças são uma espécie de autorização de uso, o que não implica a transferência de autoria”.
73 THINGIVERSE. Sorting Hat. Harry Potter. Thingiverse, 15 out. 2014. Disponível em: <http://www.thingiverse.com/thing:501495>. Acesso em: 11 mar. 2016.
Vê-se que o tipo de licença indicada nesse modelo do Sorting Hat, é a Atribuição-Não Comercial (CC BY – NC)74. Essa licença permite que outros usuários modifiquem e adaptem o design tendo como base o design original, desde que não seja para fins comerciais. Assim, se outra pessoa encontrar esse design do Harry Potter e decidir adaptá-lo de alguma forma, terá que dar créditos ao criador original e não poderá usar o seu novo design para fins comerciais. Todas essas licenças estão previstas no site75 do Creative Commons onde
encontra-se disponível um breve resumo sobre seu significado, sua funcionalidade e o seu texto legal.
Importante a compreensão de que o site Creative Commons disponibiliza os tipos de licenças e a escolha de utilizá-las fica à cargo do autor da obra. Caso o autor opte por determinada licença e sua obra for utilizada fora dos termos escolhidos, pressupõe-se a infração de direitos autorais. No entanto, o Creative Commons não se trata de uma instituição jurídica e não dispõe desses serviços76. Assim, como assegurar que terceiros irão cumprir o determinado pela licença? Há um efetivo enforcement?
Neste sentido, cumpre mencionar o caso Sad Face77, que ocorreu no início de 2016, envolvendo impressão 3D, direitos autorais e o site Thingiverse, assim como no caso hipotético do Sorting Hat do Harry Potter. Designers disponibilizaram na plataforma Thingiverse arquivos de uma sad face78 (uma cara triste, ANEXO G), todos protegidos e
licenciados em Creative Commons sob o modelo Atribuição (CC BY), mas também sob o modelo Atribuição – Não Comercial (CC BY-NC), não sendo permitido para uso comercial. Entretanto, um vendedor do eBay acessou os modelos disponibilizados no site Thingiverse, imprimiu-os em 3D e disponibilizou-os para venda no site eBay, sem a devida autorização dos criadores do arquivo digital e sem que houvesse qualquer tipo de compensação pelo uso e venda. Uma das designers, inconformada com a situação, decidiu agir mobilizando a comunidade do Thingiverse e denunciou o vendedor, identificado como just3dprint, exigindo que cessasse a venda do objeto impresso e alegando a violação de seus direitos autorais.
74 CREATIVE COMMONS CORPORATION. Attribution-NonCommercial 4.0 International – legal code. Disponível em: <https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/legalcode>. Acesso em: 11 mar. 2016.
75 Idem. Sobre as Licenças. Disponível em: <https://creativecommons.org/licenses/?lang=pt_BR>. Acesso em: 11 mar. 2016.
76 BRANCO, Sérgio; WALTER, Brito. What is Creative Commons? New copyright models in a more creative
world. ITS – Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio, Publit Soluções Editoriais, 2015, p. 93.
77 CASTANHEIRA, Bruna de Freitas. Entenda o caso Sad Face, impressoras 3D e direitos autorais. Direito
Tech, 15 mar. 2015. Disponível em: <http://direitotech.com/2016/03/15/entenda-o-caso-sad-face-impressoras-
3d-edireitos-autorais/>, 2016. Acesso em: 25 mai. 2016.
78 THINGIVERSE. Sad Face. Thingiverse, 18 fev. 2016. Disponível em: <http://www.thingiverse.com/thing:1350837>. Acesso em: 30 mai. 2016. Anexo G.
Inicialmente, a demanda não foi atendida pelo usuário just3dprint, mesmo após ser notificado pelo eBay. Apenas no final de fevereiro deste ano que o usuário retirou do ar a venda do objeto (ANEXO G). Fica assim evidente que, ainda que tenha a proteção da licença Creative
Commons, isso não impede que casos como estes ocorram e que direitos autorais e marcários
sejam infringidos. Como, então, garantir o enforcement?
Passada essa observação, uma vez que a escolha é feita basta fazer o download, com alterações ou não. O download do modelo é salvo em arquivo digital e este é enviado para a impressora, que o transformará em algo físico através de seu método aditivo.
Claramente o usuário-consumidor possui uma série de escolhas. Ele pode optar por contratar um serviço de impressão como um todo, apenas escolhendo um design e contratando o serviço de impressão 3D uma vez que existem empresas e sites que fornecem esse tipo de serviço ou que fazem a conexão entre empresas ou terceiros que tenham impressoras 3D. São os chamados printers. Outra opção seria o consumidor-usuário que tem uma ideia, um projeto, mas não sabe como desenvolvê-la e busca também esse serviço terceirizado. E, há ainda, o consumidor que já obteve sua própria impressora 3D e faz tudo sozinho, no modelo DIY.
Frente a essas possibilidades surgem novas questões jurídicas que devem ser pensadas. Como primeira reação, aqueles que vem acompanhando o avanço da impressão 3D pensam nas implicações relacionadas à Propriedade Intelectual devido a facilidade com que se pode violar direitos autorais. No entanto, além disso, deve-se estudar as responsabilidades legais onerosas que recaem sobre um produto impresso em 3D. De que forma a figura do usuário- consumidor suportará um dano ou prejuízo decorrente dessa relação, que poderá envolver outros usuários, empresas, fornecedores, tendo ainda, como pano de fundo a internet? A quem caberá a responsabilidade por eventuais danos ou prejuízos e como provar tal responsabilidade são questões que requerem uma análise mais atenta e que não necessariamente podem ser respondidas por completo. A partir de casos hipotéticos, mas que cada dia passam a ser mais plausíveis, é possível demonstrar os desdobramentos que uma impressão 3D poderá incorrer e como estes poderão vir a impactar tanto o consumidor final como também as outras partes envolvidas.
3.2 A IMPRESSÃO 3D E SEUS DESDOBRAMENTOS: UMA TECNOLOGIA QUE