O esporte é um fenômeno social e, por isso, componente integrante do legado humano, correspondendo, assim, a uma manifestação cultural da humanidade. Conceituado, nesse sentido, como uma criação sócio-histórica, um fenômeno sociocultural e que também se apresenta como elemento político, como destaca Tubino (2006, p. 20), ao escrever sobre a origem do esporte:
Segundo Carl Diem (1966), a história do esporte é íntima da cultura humana, em que os povos tiveram, em cada época, seus esportes, que foram a essência de cada povo. Depois, Ueberhost (1973), apoiado em Diem, justificou a origem do esporte pela busca do conhecimento do homem sobre o próprio homem na sua natureza, sua vida pessoal e comunitária. Os norte-americanos Van Dalen, Mitchel e Bennet, citados por Ueberhost, afirmaram que o esporte nasceu para resolver problemas pedagógicos primitivos.
Na sociedade, em um âmbito geral, o esporte é considerado um dos fenômenos mais importantes da humanidade. Grande parte das pessoas se relaciona de diversas formas com o esporte, sendo vivenciado através das variadas manifestações corporais que compõem o repertório esportivo praticado por diferentes grupos sociais e em diversos espaços, sejam estes formais ou informais, como os clubes esportivos, praças, academias, escolas e ambientes naturais (FLORENTINO, 2006).
O esporte apresenta três divisões, de acordo com o período histórico: Esporte
Antigo, que vai da Antiguidade até metade do século XIX; Esporte Moderno, que vai de
1820, através da sistematização institucional das práticas esportivas iniciada pelo inglês Thomas Arnold oficializando regras e entidades dos esportes, até o final de 1980, quando vem à tona o Esporte Contemporâneo, a partir da Carta Internacional de Educação Física e Esporte, desenvolvida pela UNESCO/1978, que reconheceu o esporte como um direito de todos, rompendo, então, com a perspectiva anterior do Esporte Moderno, que dava ênfase ao caráter competitivo dos esportes, bem como ao rendimento dos atletas, trazendo, assim, uma nova perspectiva para o esporte, concebendo-o como um componente para a promoção da
inclusão social, visando à construção de um mundo melhor (TUBINO; GARRIDO; TUBINO, 2006).
Segundo Tubino (2010), podemos atribuir ao esporte demasiados conceitos, por este incorporar finalidades múltiplas que darão uma variação e uma particularidade quanto ao campo que será destinado. Assim, teremos três manifestações:
a) esporte-educação, destinado à formação humana/cidadania; b) esporte-lazer, com fins lúdicos;
c) esporte desempenho, que tem como objetivo focar nos melhores resultados dos atletas.
Os dois primeiros modelos esportivos se apresentam também dentro de uma única concepção mais abrangente, nomeada de Esporte Social.
O enfoque nesse estudo é dado ao esporte e sua relação com a educação. Nesse sentido, é abordada, nesse tópico, a ideia do esporte vinculado à formação humana, como uma ação educativa destinada à sociedade, compreendendo, assim, o esporte como articulador de ações educativas.
O esporte-educação está dividido em esporte educacional e esporte escolar, compreendendo que este tanto pode estar presente na escola como fora dela. Como princípio geral, essa abordagem deve estar fundamentada com base na inclusão, participação, cooperação, coeducação e corresponsabilidade, prescindindo a formação para a cidadania (TUBINO; GARRIDO; TUBINO, 2006).
O esporte educacional traz como seu objetivo a emancipação, o desenvolvimento da autonomia, a criatividade e o pensamento crítico das pessoas, visando sua efetiva participação na construção do mundo (BARBIER, 1999).
Porém, como vimos anteriormente, o esporte-lazer também é localizado como uma abordagem social, por isso, já que nosso enfoque nesse trabalho, além da questão educativa, é também a relação do esporte com o meio social, principalmente pelo seu cunho inclusivo, é necessário fazer um destaque sobre o esporte enquanto sua dimensão de lazer.
O esporte-lazer, conhecido também como esporte popular ou comunitário, esporte-ócio, esporte-participação ou esporte do tempo livre, tem como princípios a participação, o prazer e a inclusão.
Em nosso país, atualmente, existem diversos projetos no âmbito esportivo que se desenvolvem como uma prática social esportiva com finalidade de promover a inclusão social e a formação de crianças e jovens (ALMEIDA, 2012).
Um deles é o programa Segundo Tempo, uma ação do governo que usa o esporte como potencializador de elementos educativos que podem favorecer uma reflexão crítica sobre os diferentes contextos de riscos sociais, bem como minimizar o tempo de exposição de crianças e jovens aos efeitos nocivos da violência, dos desajustes familiares, do tráfico de drogas, das carências alimentares, da falta de afeto, entre outros tantos elementos que convergem para deteriorar a dignidade humana (MELO; DIAS, 2009).
O programa Segundo Tempo, criado em 2003, busca usar o esporte nas constituições de suas ações com base em uma concepção fundamentada na promoção de uma sociedade igualitária, na qual todas as pessoas possam ter o acesso a todos os direitos fundamentais ao seu desenvolvimento humano. Assim, o projeto trabalha com crianças e adolescentes que vivem em situação de risco social. “O Programa Segundo Tempo tem como um dos princípios fundamentais a universalização da prática esportiva e a inclusão social, tendo-se no esporte educacional um meio para contribuir no desenvolvimento integral de crianças e adolescentes” (MELO; DIAS, 2009, p. 24).
Um dos projetos mantidos pelo Segundo Tempo e que tem semelhança com os projetos sociais de surfe no litoral brasileiro é o projeto Navegar5. Criado em 1999, o projeto usa o ensino dos esportes remo, vela e canoagem como um importante instrumento de resgate da cidadania, estímulo do cuidado com a saúde do próprio corpo, aprimoramento da habilidade motora e do raciocínio, além da promoção dos valores do esporte e da conscientização ambiental.
Cavasini (2008), em sua pesquisa realizada com jovens participantes do projeto, constatou significativas contribuições para a vida dos entrevistados, destacando o desenvolvimento de conhecimentos relacionados aos benefícios à saúde e possíveis riscos gerados pelos esportes. Além da manutenção da prática de atividades esportivas e físicas, interessa, na continuidade dos estudos, relatos de melhoria no comportamento de indivíduos e o potencial do esporte para desestimular o uso das drogas e o envolvimento em atos de delinquência, bem como o desenvolvimento da consciência ambiental.
Nessa lógica do esporte como prática social, constata-se a presença de três abordagens na sistematização dessa ideia, com objetivos, justificativas e visões diferentes, ao conceber o esporte como instrumento de educação para os jovens.
1) De um lado, encontramos visões alienadas superficiais com concepções reducionistas e discriminatórias que usam o esporte, a educação física e o lazer na
5 Retirado da página do projeto. Disponível em: <http://www2.esporte.gov.br/pintando/integracao_navegar.jsp>. Acesso em: 25 mar. 2016.
sistematização de programas sociais com justificativas conservadoras, idealizando esses mecanismos como ferramenta educacional destinada a ocupar o tempo livre dos jovens, usando o esporte e as práticas físicas, em geral, como solução dos problemas sociais da juventude, sob a ideia de que, quando estão jogando, praticando algum exercício físico, eles estão ocupados, longe da ociosidade.
Para essa visão, a raiz de todos os males e problemas da juventude encontra-se nessa falta de ocupação. Para os que defendem essa abordagem, quando os jovens não estão ociosos, não necessitam entrar no mundo do crime e das drogas.
Ocorre que, como um direito social, pouco interessa se 15% de nossos jovens nunca tiveram a oportunidade de ir ao cinema, 46% ao teatro, 29% a um show de música brasileira, 86% a um concerto de música clássica, 52% ao museu, 72% a uma exposição fotográfica, 77% a um espetáculo de dança moderna, 88% a um espetáculo de ballet, 22% ao circo, 49% a um jogo de futebol no estádio e 40% à biblioteca. O que conta mesmo, do ponto de vista sistêmico, cuja finalidade mais típica, embora não exclusiva, resvala no controle social, é administrar possíveis conflitos, tornando as áreas de instabilidade pelo menos toleráveis, garantindo a ordem necessária à preservação e reprodução do atual sistema de metabolismo societal. Assim, os programas governamentais e não-governamentais de lazer, em sua maioria, inspirados na ‘filosofia’ de manter a juventude ocupada, longe dos ‘males’ e ‘perigos’ da ociosidade, são pensados como uma espécie de redutor dos índices de violência e criminalidade urbana. (MASCARENHA, 2003, p. 135). São projetos idealizados com caráter assistencialista, geralmente, concebidos por interesse político-oportunista. Dentro dessa realidade, as ações não são fundamentas como elemento de transformação social. Os projetos dessa natureza são encabeçados numa perspectiva utilitarista e medicalizada da educação física, trata-se de uma prática que se coloca ao lado da camada popular para “assisti-la”, mas não assume com ela a transformação da realidade que oprime (TAVARES, 2006).
Nessa perspectiva, o esporte é alienante, usado como forma de controle social pelo sistema capitalista, como nos alerta Bracht (1986), ao revelar o lado disciplinador da atividade esportiva na formação de pessoas passivas, conformadas, que não conseguem refletir e perceber tanto a necessidade quanto o seu potencial de mudança, isso porque as regras dos esportes podem transmitir essa lógica de que devemos respeitar as regras acima de tudo, negando a nossa capacidade de refletir, propor e concretizar mudanças. Nesse sentido, o esporte é considerado como uma forma de controle social.
2) Do outro lado, encontramos intervenções sociais com justificativas ligadas ao esporte-rendimento, sistematizadas como celeiro para descoberta de atletas, com o intuito de prepará-los e colocá-los no circuito competitivo, das premiações e dos contratos feitos por meio de patrocinadores. São projetos que ofertam oportunidade esportiva das massas para o
surgimento de grandes estrelas do esporte de alto nível. Nessa lógica, ocorre um processo de esportivização dessas ações (MELO, 2003).
Essa concepção acaba por desviar a missão social dos projetos para uma prática desportivista, em detrimento das práticas humanistas e/ou críticas, afinal, mesmo o esporte competitivo sendo um caminho de oportunidade para a superação de algumas adversidades, não são todos os que se beneficiam dessa realidade, pois o cenário do esporte de competição é bastante limitado, ou seja, são poucas as oportunidades, sendo, por isso, uma prática de caráter excludente.
O trabalho centralizado apenas nesse objetivo acaba se tornando uma ação problemática, porque, ao invés de promover práticas inclusivas, cooperativas, coletivas, humanas, afetivas para a melhora da vida de todos, acaba promovendo posturas individualistas, focadas nos resultados a todo o custo, influenciando sentimentos de vingança e baixa autoestima acompanhados de quadros depressivos daqueles que são taxados como incapazes, perdedores, derrotados.
3) Em contrapartida dessas concepções, existe outra forma de compreender o esporte, as práticas corporais. Nesse sentido, elucidamos uma visão progressista, reflexiva, crítica, humana, indo além de justificativas que usam o esporte para ocupar e disciplinar a juventude, ou para a descoberta e preparação de atletas rumo aos eventos competitivos.
Esta visão entende essas práticas como um mecanismo de intervenção capaz de problematizar o lugar social, usando-as como um vetor para a construção de uma sociedade justa e igualitária, baseada no desejo de transformação social, a partir da promoção dos valores humanos e de uma prática contextualizada (NOGUEIRA, 2011).
Diante desse cenário diversificado, onde encontramos as várias escolinhas e projetos sociais de surfe, com suas respectivas singularidades, é que nos propomos a estudar o surfe como uma ferramenta educacional para a formação humana e a inclusão socioeducativa dos jovens, indo a campo desamarrados de visões superficiais em relação às concepções de esporte, educação, políticas públicas e juventude.
Por isso, o contexto desse estudo não se limita a estudar o surfe enfocando ações que se destinam apenas ao combate das drogas e da violência, bem como à formação de atletas, pois o intuito desse trabalho é refletir o surfe através de um espaço que busca a verdadeira conscientização dos jovens da camada popular que convivem diariamente com a exclusão e a injustiça social.
Portanto, é a partir de uma realidade comprometida com a transformação social, a superação da opressão que se dá a construção dialética desse estudo, enviesada por aspectos
políticos, sociológicos e culturais, ancorando-nos, principalmente, em Paulo Freire, quanto às suas contribuições no campo de uma educação popular, progressista, autônoma, em prol da emancipação do povo.