4. ARAŞTIRMA VE BULGULAR
4.1. Marmara Bölgesinde Yer Alan Baraj Havzaları
4.1.1. Karaidemir Baraj Havzası
4.1.2.1. Sevişler Baraj Havzası Özellikleri
Cinco séculos antes de Cristo, Sun Tsu já observava: “a prontidão é a essência da guerra”. As noções de Mobilização total e de Estado total estão vinculadas. Foram idealizadas pelos mentores da “Revolução conservadora” na Alemanha, e serão implementadas durante a fase totalitária. Não é de se surpreender, portanto, que muitos intelectuais tenham aderido a “Revolução” nacional-socialista. Schmitt se torna jurista oficial do regime, Forsthoff aplaude a vinda de um novo regime político, Jünger e Ludendorff saúdam o renascimento
39O adormecido acordado, 1900. 40O salto de ferro, 1909.
41O Estado servil, 1911.
nacional alemão. O Estado totalitário deverá cumprir as esperanças dos idealizadores do Estado total.
O regime nacional-socialista pretende organizar uma sociedade sem classes, uma comunidade nacional orgânica, unida em volta da bandeira com a cruz gamada do partido único, tornado partido-estado. O Estado nacional-socialista preenche os critérios quantitativos e qualificativos definidos por Schmitt. Quantitativamente, a esfera de competência do Estado se estende em toda parte, do berço ao túmulo. Qualitativamente, o Estado é totalmente uno e forte, voltado para o objetivo último da guerra.
O Estado em direção ao qual seus idealizadores aspiram é um Estado capaz de conduzir com êxito o que Yünger chamava de Mobilização total, a totale
mobilmachung, isto é, “a exploração total de toda a energia potencial” de um povo,
empenhado na guerra como um só exército:
A potência é a força organizada, a união do órgão com a força. O universo é repleto de forças que procuram um órgão para se tornar potencia. Os ventos, as águas são forças: aplicados ao moinho ou a bomba hidráulica que constituem os seus órgãos, eles se tornam potências. Essa distinção entre a força e a potência assemelha-se à solução do problema da soberania no corpo político. O povo é a força, o governo, o seu órgão e a reunião dos dois formam a potência política. Quando o órgão é destruído e que as forças permanecem [vivas], não resta nada mais do que convulsão, delírio ou furor. E se é o povo que se separou do seu órgão, isto é, de seu governo, começa a revolução (YÜNGER, 1990, p.75).
Com a mobilização, é possível conectar toda a rede complexa da divisão do trabalho da vida moderna “nessa linha de alta tensão” (op. cit. p.109) constituída pela atividade militar. Ao lado dos exércitos que se enfrentam num campo de batalha, surgem exércitos de um gênero novo: “o exército encarregado das comunicações, o que tem a responsabilidade do abastecimento, o que se encarrega da indústria do equipamento – o exército do trabalho em geral”. A Mobilização total tem a forma de um dirigismo econômico, de um planejamento industrial centralizado, à imagem dos planos qüinqüenais soviéticos. Os poderosos programas de
equipamentos industriais, a uso militar, dos últimos anos da guerra, transformaram os países beligerantes “em gigantescas linhas de montagem, produzindo exércitos que serão enviados, de maneira incessante para o front, onde um processo de dispêndio sangrento desempenha o papel de mercado” (CHAPOUTOT, 2005).
Com a mobilização e a potência, o Estado não somente atinge a sua maior extensão territorial, mas adquire uma nova função: dar a primazia aos problemas de segurança. Não é apenas a extensão territorial que se torna relevante (...). Com a grande importância atribuída pelo Estado ao problema da Segurança, doravante é essa última que delineia a sua forma e o seu destino (YÜNGER, 1990, p.92).
A esse respeito, Virilio43 observa que na sociedade antiga, em que predominavam as estratégias econômicas e política, o exercito era uma defesa nacional. Sua tarefa consistia em proteger fronteiras ou expandi-las combatendo o inimigo. Em contrapartida, na sociedade moderna onde predominam os problemas de segurança, as forças armadas voltam-se contra as suas próprias populações, para exigir os recursos necessários para a guerra total e para controlar a sociedade.
Podemos distinguir dois sistemas: o sistema de defesa contra um inimigo, e o sistema de segurança contra uma ameaça (...). A defesa e o inimigo construíram territórios, temporalidades de todo tipo (...). Inversamente, a segurança e as ameaças desmantelam territórios (...). As cidades serão evacuadas, uma diáspora provocada, os territórios desmantelados. É desregulagem (...) e não só de territórios. Em nome da segurança, em nome da proteção, tudo é desfeito, desregulado: relações econômicas, relações sociais, relações sexuais, relações de dinheiro e poder (VIRILIO, 1984, p.100).
No entanto, a Mobilização total não se restringe apenas ao campo econômico; investe igualmente na esfera do direito civil e do direito constitucional para criar um novo tipo de contrato social no qual o cidadão é provido de direitos apenas compatíveis com a defesa do país. Desta forma, o Estado militariza a vida civil, submetendo-a a uma organização e a uma disciplina que anunciam a mobilização e a Guerra total, que serão teorizadas por Schmitt e Forsthoff. Para Forsthoff, jurista e professor de direito público, membro do Partido nacional-socialista, o Estado total é a antítese diametral do Estado liberal, do Estado de Direito e do sistema partidário encarnados pela República de Weimar, que o autor execra:
O Estado total é o oposto do Estado liberal (...). O Estado liberal é corroído pela luta entre os interesses particulares, pela luta dos partidos: ele é vazio de conteúdo, minimalista e o seu poder é anulado pela sua fragmentação em decorrências das garantias jurídicas determinadas por leis que servem a interesses particulares. Em oposição, o Estado total organiza e estrutura uma comunidade total, unida, que supera as tensões antagônicas. A totalidade do poder político deve cristalizar-se no Estado total (FORSTHOFF apud CHAPOUTOT, 2005).
Para Forsthoff e Schmitt, o Estado total é o estado por excelência, “aquele que reconcilia a Comunidade Nacional consigo mesma, promove o interesse geral e dirige a Nação inteiramente voltada para um destino comum e contra um inimigo comum”. Schmitt deplora a divisão estéril e feroz inerente aos partidos políticos, que se enfrentam, bloco contra bloco, corroendo por dentro o Estado e o processo de decisão política. Ele observa ainda que os partidos políticos têm uma vocação totalitária pelo caráter radical, intolerante de suas ideologias, assim como pela sua dimensão social.
Não temos hoje na Alemanha um Estado total, mas uma pluralidade de partidos, onde cada um procura alcançar a totalidade. Estes partidos que pretendem oferecer tudo ao mesmo tempo - ideologia, sociabilidade e comunitarismo -, são partidos totais. Como eles são numerosos e se opõem frontalmente, cada qual desqualificando a proposta do outro, a coexistência de várias estruturas totais desses gêneros, que dominam o Estado por meio do Parlamento, se torna a causa da destruição do Estado e da Sociedade, em decorrência de interesses partidários antagônicos (SCHMITT apud CHAPOUTOT, 2007).
De acordo com Schmitt, paradoxalmente - e de maneira perversa - o Estado pluralista deixa manifestar os objetivos monopolistas de cada um desses partidos totais, os quais ambicionam o monopólio político e acabam assim por enfraquecer a ação do Estado. O advento do Estado total só pode ser desejável uma vez que ele é a única forma de realizar plenamente o conceito de Estado soberano e poderoso. As forças que o promovem são inelutáveis, em razão do progresso técnico que provê o Estado de instrumentos de dominação inéditos.
A reviravolta para o Estado total é puramente quantitativa e não qualitativa. Um Estado verdadeiramente total é um Estado forte, que “não deixa surgir dentro dele nenhuma força que possa lhe ser hostil, que o entrave ou que o divida”. (op. cit.). Os textos de Jünger, Schmitt e Forsthoff, sobre as noções de Mobilização total e de Estado total, em sinergia com o pensamento fascista italiano, irão alimentar a reflexão de Ludendorff sobre a noção de Guerra total.
Em 1916, Erich Ludendorff elabora o Plano Hinderburg para o Alto Comando alemao, no qual todos os recursos, todas as forças vivas da Nação deveriam ser orientadas para o esforço de guerra, organizado por um planejamento militar coerente e centralizado. Após a derrota, Ludendorff expõe suas reflexões em um livro publicado em 1936 e intitulado precisamente Der Totale Krieg. Segundo ele, a 1ª Guerra Mundial marcou a passagem de uma guerra tradicional, uma guerra de gabinetes, limitada no seu alcance e nos seus objetivos, para uma Guerra total. conceito de Guerra total, entretanto, foi associado ao nazismo bem antes da história do III Reich.
Clausewitz44 (apud CHAPOUTOT, 2007) operou uma distinção entre guerra absoluta e guerra de gabinetes. A guerra absoluta era uma expressão para designar o último estágio de um conflito no qual os beligerantes colocam todos os seus meios em ação, não apenas para vencer, mas para aniquilar o inimigo. É essa noção de guerra absoluta, de Guerra total que foi retomada pelo Alto Comando alemão durante a 1ª Guerra Mundial. Em contrapartida, na guerra de gabinetes, o principal objetivo era de exercer uma coerção sobre outro Estado, de tal modo a conduzi-lo a rendição completa. De acordo com a fórmula consagrada de Clausewitz, a guerra de gabinetes constitui “uma continuação da política por outros meios”; prolongamento da ação política, a guerra conserva dela a frieza calculada e o alcance limitado. No entanto, para Ludendorff, a definição de Clausewitz da guerra já é obsoleta, uma vez
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que indica somente um envolvimento limitado, com um objetivo preciso e bem definido, circunscrito à única esfera militar.
Na guerra de gabinetes, a guerra era, antes de tudo, assunto de ministros e de soldados. Ela se desenrolava num espaço restrito, em acordo com os tradicionais códigos da arte bélica e do direito consuetudinário da guerra, que regulavam os conflitos entre fidalgos havia séculos. No entanto, Clausewitz, que foi contemporâneo da Revolução Francesa, do alistamento em massa de voluntários, do recrutamento e do serviço militar obrigatório, já havia percebido os sinais de mutação na essência da guerra: uma “escalada para os extremos” que devia conduzir a guerra até a sua “forma absoluta”. Uma forma absoluta que devia se tornar uma enteléquia, uma força propulsora da própria guerra.
Mas, para Ludendorff (apud CHAPOUTOT, 2007), Clausewitz não foi muito além. Ele não percebeu que a guerra é assunto de todo um povo. A guerra é a “luta do povo pela sua vida”. Ela compromete o povo por inteiro e tem como aposta a sobrevivência do povo inteiro. Doravante é o povo que é diretamente implicado, é ele que é visado pelo inimigo: “embora a Revolução Francesa já houvesse envolvido forças populares de outra natureza, a guerra ainda não tinha alcançado, para utilizar a expressão de Clausewitz, “a sua forma abstrata absoluta”. Essa forma de guerra absoluta, segundo Ludendorff, será realizada pela 1ª Guerra Mundial: “nessa guerra era difícil distinguir onde começava a força armada no sentido literal e onde parava a do povo; povo e exército formavam um só; pela primeira vez, o mundo estava assistindo, a uma guerra dos povos, no pleno sentido da palavra” (op. cit.).
Neste contexto, desaparece a distinção entre civis e militares. A linha divisória tradicional que os separava, emaranha-se, apaga-se. O civil se torna combatente noutro front desta vez, o da retaguarda, graças a uma atividade produtiva e logística que apóia e abastece a atividade da frente de batalha. Como observa Yünger: “No decorrer da 1ª Guerra Mundial, não havia uma só atividade que não fosse uma produção destinada, pelo menos indiretamente, à economia de guerra, quer seja a de uma empregada doméstica trabalhando na sua máquina de costurar”. Como combatente, o civil se torna, ao mesmo tempo, alvo e vítima do ataque do inimigo que o alveja como poderia visar qualquer objetivo militar.
Para Ludendorff (apud CHAPOUTOT, 2007), a prática da Guerra total se ampliou sob as ações do serviço militar obrigatório e do recrutamento, que associaram grupos cada vez maiores ao feito guerreiro. Foi a Revolução Francesa que promoveu a Nação em armas, um exército composto de cidadãos-soldados à imagem das “hóplitas” atenienses. Em Valmy, o “Viva a Nação”, vitoriosamente oposto ao exército profissional do Rei da Prússia, marca uma dupla revolução política e militar que se desenvolve sob a ação do progresso técnico: a propaganda e a aviação propiciaram um raio de ação balística e psicológica, que ampliou consideravelmente o teatro de operações da guerra. Contrariamente aos conflitos clássicos - a guerra política dos gabinetes -, a Guerra total não visa apenas o exército, mas igualmente os povos. Ela os associa como alvos e como combatentes. Esta constitui uma nova realidade à qual é preciso se conformar.
A “nova guerra” não é apenas total pelo tamanho das forças que ela mobiliza, mas também pelo investimento material e psicológico que ela implica. Quando dois povos entram em confronto, quando dois povos colocam em risco a sua própria existência e lutam pela sua sobrevivência, o envolvimento de cada deles deve ser total. Ludendorff havia observado a respeito da também chamada guerra perdida de 1914-1918: “Se quiséssemos vencê-los, cada um de nós devia ter dado até o seu último sopro, no sentido literal da palavra, até a última gota de seu suor e de seu sangue”. E profetiza: “A próxima guerra exigirá do povo, algo de totalmente diferente: a disponibilidade absoluta, total de suas forças espirituais, físicas e materiais”. A nova guerra acrescenta ele, irá exigir o que faltou à Alemanha em 1914: um Estado e um governo capaz de mobilizar a totalidade das forças espirituais e materiais da Nação, a fim de direcioná-las para o combate total. Nessa perspectiva, pode-se observar com Virilio: “logística é o procedimento segundo o qual o potencial de uma nação é transferido para as suas forças armadas, tanto em tempos de paz como de guerra” (apud VIRILIO, 1984, p.25).
Aos olhos de Ludendorff, os preparativos para uma Guerra total somente poderão ser bem sucedidos mediante uma Política total, o que requer um regime e um governo político determinados a comandar e preparar o povo para tal combate. A
política total consagra assim a inclusão do campo militar no espaço e no tempo civil da paz. O Estado deve estar voltado para a guerra e deve preparar o povo para ela: “a política total deve se preparar, já em tempo de paz, para apoiar essa luta vital que ocorrerá no tempo de guerra”, escreve o autor.
O advento moderno da Guerra total inverte, portanto, o vínculo tradicional entre política e guerra. Enquanto a guerra de gabinete só deixava cicatrizes superficiais no corpo do povo, a Guerra total coloca em risco nada menos que a sua própria existência. Cai a perspectiva tradicional de Clausewitz, segundo a qual a guerra é um prolongamento da ação política por outros meios e que o exército é apenas uma ferramenta acionada pelo poder político. Em contrapartida, cresce a perspectiva de Ludendorff que percebe que a nova guerra exige que “as togas rendam-se às armas”, que o poder político se subordine à força militar e vê que a eventualidade da deflagração de uma Guerra total pode se tornar uma ameaça à própria sobrevivência do povo.
O caráter radical da luta - e do perigo - atribui uma prioridade à esfera militar, a única capaz de adequar os corpos e os espíritos da nação ao combate total: “a guerra e a política concorrem para a preservação dos povos, mas a guerra permanece como a expressão suprema da vontade de vida da raça (...). É a razão pela qual o político deve servir à guerra”, diz Ludendorff (op. cit.), invertendo, assim, a célebre expressão de Clausewitz, de que não é mais a guerra que deve estar a serviço do político: é o político que deverá estar a serviço da guerra. Convém observar, a esse respeito, uma diferença de natureza essencial entre o imperialismo britânico e o seu rival pangermanista: enquanto no primeiro as baionetas costumavam ficar a serviço do império da lei, no segundo caso, são as leis foram colocadas a serviço das baionetas.