3.2. SEBİLÜRREŞAD DERGİSİ’NDE LAİKLİK
3.2.2. Sebilürreşad’da 163 Madde ve Laiklik Meselesi
Os partidos políticos são instituições surgidas como produto da atuação de atores políticos nas arenas decisórias e eleitorais. Promovem a organização do processo eleitoral e devem ser analisados tanto em sua capacidade de manter a governabilidade quanto em sua possibilidade de estruturar a competição eleitoral (KINZO, 2005).
Offerlé (2008) afirma, no entanto, não ser possível dar uma única definição para partido político. Pode-se falar de partido como uma entidade se o tratamos normativamente como um elemento chave da democracia ou juridicamente como uma instituição que é sujeito ou objeto de direito; pode-se abordar o partido como uma relação social, onde interessa, sobretudo, a
27 Apesar das divergências conceituais em torno da definição de direita e esquerda, é nos partidos de esquerda – em suas diversas definições – que se encontram os militantes.
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concorrência entre seus agentes em sistemas políticos competitivos e democráticos – nesse caso, não se trata o partido de maneira isolada, mas inserido em configurações sociais e políticas que criam constrangimentos à sua ação –; pode-se, ainda, tomar o partido como um negócio ou empreendimento político de tipo particular (op. cit: 4 e 5). Offerlé ressalta que o termo negócio é bastante reducionista para explicar um partido político, mas mantém seu uso associado ao conjunto lexical que o termo carrega consigo – bens, capitais, mercado, produtos –, devido ao seu potencial heurístico.
O autor ressalta que o uso que faz do termo negócio não se fundamenta, especificamente, nas noções de Weber e Schumpeter, para os quais o “negócio partidário” tomaria o empreendedor como agente de inovação temporária e não como capitalista. Em sua definição, usa o termo em francês – entreprise – em seus dois sentidos: negócio como produto de um compromisso e como resultado de uma atividade específica de produção. Seria, portanto, uma idéia próxima à de mercado, onde os agentes competem intercambiando bens políticos em troca de apoios ativos ou passivos.
Kinzo (2004) afirma que os partidos “têm papéis específicos em duas arenas do sistema político: a eleitoral e a decisória” (p. 24). Na arena eleitoral, está claro seu papel na organização do processo eleitoral e na escolha dos candidatos que participarão do processo de escolha popular. Na arena decisória, “sua atividade está associada à formulação, ao planejamento e à implementação de políticas públicas, participando como atores legítimos no jogo de poder e no processo de negociação política” (p. 25).
São agentes fundamentais no processo democrático representativo, pois estão respaldados no voto popular. De fato, somente com base neste critério – apoio eleitoral – é possível, no contexto das democracias de massa, falar de partidos como canais de expressão e representação de interesses, como um vínculo, ainda que frágil, entre a sociedade e o Estado. (KINZO, 2004: 25)
A disputa por vagas para concorrer a cargos eletivos – no executivo ou legislativo – seria apenas um dos “mercados” internos de cada partido, havendo, simultaneamente, vários outros tipos de “mercados”, realizados, por exemplo, entre grupos mais ou menos estruturados que entram em disputa pela direção do negócio. No campo dos bens políticos, ocorreriam, ainda, disputas pela autoridade política, ou seja, sobre quem tem legitimidade para falar pelo partido, bem como para identificar e propor soluções para problemas que se apresentem (OFFERLÉ, 2008).
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O autor afirma que os partidos são formas historicamente determinadas de empreendimento político e estão, portanto, sob influência das mudanças que ocorrem nos contextos sociais, políticos e culturais em que se inserem. Esse empreendimento político reivindicou, na época moderna, o monopólio da atividade no mercado de bens eleitorais, mas está vendo aumentar a concorrência com outros atores que também têm produzido bens políticos – grupos de interesses corporativos, conselhos deliberativos ou outros grupos juridicamente delimitados etc.
Ainda segundo Offerlé (2008), numa definição restritiva, um partido é uma organização duradoura, ou seja, uma organização que tem esperança de vida superior à de seus dirigentes, uma organização local bem estabelecida, que mantém diálogo regular com o nível nacional e que tem dirigentes nacionais e locais com disposição voluntária de exercer o poder – e não somente a disposição de influenciar o poder. Essas características distinguiriam os partidos de outras organizações, tais como comitês de notáveis, grupos autonomistas ou grupos formados em torno de uma bandeira individual. Panebianco (2005:11)28 afirma que os partidos “se distinguem pelo ambiente específico no qual desenvolvem uma atividade específica”, ou seja, são as únicas organizações que atuam na arena eleitoral disputando votos, ainda que possam guardar várias outras similaridades com outros tipos de organização. Em uma definição extensiva, o partido é tomado como uma sociação que depende de um engajamento (formalmente feito) livre, que tem a finalidade de proporcionar o exercício de poder a seus líderes, bem como proporcionar a seus militantes ativos as chances – ideias ou materiais – de perseguir metas objetivas, alcançar vantagens pessoais ou realizar ambas (OFFERLÉ, 2008: 8-10).
Ao considerar o partido como uma relação social, analisam-se as interações que ocorrem entre seus membros, que se inserem num determinado espaço onde o jogo de relações se realiza, considerando-se os elos invisíveis que envolvem seus agentes em uma cooperação concorrencial. O partido seria, portanto, na definição de Offerlé, um campo de lutas, um espaço de competição entre os agentes, que estão dispostos a realizar tal competição, que lutam não apenas por espaços, mas também pela decisão sobre quem é a voz do partido e pela legitimidade de suas posições no partido.
28 PANEBIANCO, Angelo. Modelos de partidos: organizações e poder nos partidos políticos. Tradução de Denise Agostinetti. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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Para Panebianco (2005), inspirado pelos clássicos estudos de Ostrogorski, Weber, Duverger e Michels, os partidos são organizações que reproduzem internamente as estruturas e, portanto, também as desigualdades sociais vividas na sociedade. Mas não são simples reprodutores. Suas estruturas internas de disputa por poder, modos de decisão – ou os diferentes mercados internos na acepção de Offerlé – produzem novas desigualdades. Assim, “como organização, o partido político é, ao menos em parte, um sistema autônomo de desigualdades, e muitas vezes as tensões que o percorrem são essencialmente o produto de tal sistema” (PANEBIANCO, 2005: 6).
O jogo eleitoral – intra e interpartidário – e a disputa pelo apoio eleitoral, na busca por ocupar espaços de poder, são mobilizadores dos membros dos partidos na construção de bens políticos, na construção de sua legitimidade interna e na constituição de grupos internos de disputa de poder. E, se os partidos são o coração das instituições políticas democráticas, os membros dos partidos são o coração de alguns deles (SCARROW, 2007).