2.2. II DÖNEM SEBİLÜRREŞAD’IN YENİDEN İNKİŞAFINI HAZIRLAYAN
3.1.3. Sebilürreşad’da İslam Düşmanları Meselesi
O engajamento militante produz experiências singulares para quem se engaja, seja em partidos – como é o caso dos jovens em questão –, seja em outros espaços e formas de engajamento. Aquilo que foi vivido antes do engajamento se associa com as novas experiências e produz novos códigos e significados. A experiência é, ao mesmo tempo, individual e coletiva, na medida em que incide sobre os sujeitos, mas é determinada também pelas estruturas sociais nas quais ocorre.
Dubet (1994)19 define a experiência social como noção “que designa as condutas individuais
e colectivas dominadas pela heterogeneidade dos seus princípios constitutivos, e pela actividade dos indivíduos que devem construir o sentido das suas práticas no próprio seio desta heterogeneidade” (p. 15). O autor afirma ter lançado mão do termo experiência social por considerá-lo o mais adequado, ainda que ambíguo e impreciso, para explicar processos sociais que ele observou ao longo de suas pesquisas empíricas. Observou condutas sociais que não são explicáveis por meio de códigos interiorizados ou da sequência de opções estratégicas que fazem da ação uma série de decisões racionais: “Essas condutas não estão diluídas no fluxo contínuo de uma vida cotidiana feita de interações sucessivas; elas são organizadas por princípios estáveis mais heterogêneos” (p. 93).
De acordo com Dubet e Martucceli (2000), a experiência social advém de um duplo mecanismo:
por um lado, é uma maneira de sentir o mundo social, de recebê-lo, de defini-lo através de um conjunto de situações, de imagens e de condicionamentos já existentes. É a versão subjetiva da vida social. Por
19 Foi utilizada a versão portuguesa da obra, que pode, eventualmente, apresentar algumas imprecisões de tradução.
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outro lado, na medida em que não há mais unidade nem coerência no mundo, a experiência social é uma maneira de construir o mundo social e construir- se a si mesmo. (p. 75, tradução nossa)
Dubet (1994) afirma que a experiência social ocorre no momento em que a representação “clássica” de sociedade já não é mais suficiente para explicar os acontecimentos. Para o pensamento sociológico clássico – Durkheim, Parsons e Elias seriam alguns representantes de tal pensamento –, a sociedade existe como noção central e é uma realidade altamente integrada e integradora: “a sociedade existe como um sistema integrado e identificado com a modernidade, com um Estado-nação e com uma divisão do trabalho elaborada e racional. Ela existe igualmente porque produz indivíduos que interiorizam os seus valores e realizam as suas variadas funções” (p. 21). Já Wautier (2003), em sua leitura da obra de Dubet, afirma que “numa sociedade que se caracteriza pela diversidade cultural, pela multiplicidade das formas de conflito e de ação social, os atores não podem mais ser reduzidos a um só tipo de papel programado, não podem atuar segundo uma lógica única e determinada: o ator e o sistema se separam” (p. 179). Assim sendo, os atores precisam “gerenciar” várias lógicas da ação “que remetem para diversas lógicas do sistema social” (DUBET, 1994: 94).
Para Wautier (2003), a experiência aparece como uma “maneira de construir o mundo ao mesmo tempo subjetiva (é uma ‘representação do mundo vivido, individual e coletiva) e cognitiva (é uma construção crítica do real, um trabalho reflexivo dos indivíduos que julgam sua experiência e a redefinem)” (p. 181).
Três características centrais envolvem a experiência social, segundo Dubet. A primeira refere- se à heterogeneidade dos princípios culturais e sociais que organizam as condutas (DUBET, 1994: 16) – os papéis, as condutas e a cultura já não bastariam para definir os elementos estáveis da ação. Isso ocorre porque os indivíduos não cumprem um programa único, mas buscam construir uma unidade do mundo a partir da multiplicidade de elementos existentes na vida social e das significações que tais elementos trazem consigo20. Wautier, sobre isso, afirma que “a identidade social não é um ser (posição social), mas um trabalho, uma ‘experiência’” (WAUTIER, 2003: 180). A segunda se relaciona com a distância subjetiva que os indivíduos mantêm em relação ao sistema (DUBET, 1994: 16) – a pluralidade das experiências vividas produz um certo mal-estar, porque exige dos sujeitos explicações de suas
20 Dubet (1994) usa os professores para exemplificar sua acertiva: apesar das definições sobre o papel a ser desempenhado nesta profissão, os professores relatam suas práticas como uma reinterpretação pessoal desse papel, como “uma construção individual realizada a partir de elementos esparsos: o respeito pelos programas, a busca dos desempenhos e da justiça” (p. 16).
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adesões (relativas) a papéis e valores aos quais eles próprios não conseguem aderir completamente. “Esta distância crítica (reflexividade), quando ocorre, define a autonomia dos atores, torna-os sujeitos, já que os atores não podem ser enclausurados nos seus papéis” (WAUTIER, 2003: 181). A terceira característica da experiência social assente que a construção da experiência coletiva recoloca a noção de alienação no cerne da análise sociológica (p. 17)21 – com a afirmação de Dubet sobre o declínio da ideia clássica de sociedade, não haveria mais um “conflito central” ou um único movimento social capaz de agregar indivíduos em uma experiência comum. Haveria, sim, “explosões” sociais localizadas e a alienação ocorreria quando as relações de dominação impedissem os indivíduos de terem domínio sobre sua experiência social (WAUTIER, 2003: 181).
Assim, para Wautier
a experiência social aparece como uma maneira de construir o mundo ao mesmo tempo subjetiva (é uma “representação” do mundo vivido, individual e coletiva) e cognitiva (é uma construção crítica do real, um trabalho reflexivo dos indivíduos que julgam sua experiência e a redefinem). Experiência não alheia à alienação. (p. 181)
Ainda de acordo com Wautier (2003)
a experiência social é o resultado de uma articulação aleatória entre essas três lógicas: a integração – o ator é definido pelos seus vínculos na comunidade; a estratégia – o ator é definido por seus interesses num mercado; a subjetivação – o ator é um sujeito crítico frente a uma sistemática de produção/dominação, de alienação. (p. 182)
Assim, temos que a experiência social constitui uma maneira de construir o mundo (DUBET, 1994: 95), não é apenas uma espécie de esponja que incorpora o mundo por meio das emoções e sensações. Para isso, deve-se ter como princípio que o homem não está totalmente socializado, ou seja, as normas, valores e comportamentos não estão completa e definitivamente internalizados, havendo espaços para reformulações e ressignificações que ocorrem a partir das experiências sociais.
Um uso semelhante ao empreendido neste estudo se encontra no trabalho de Gilberto Moreno (2010), que faz uma leitura do conceito de experiência social a partir dos escritos de
21 Aqui foi utilizada a tradução de Wautier (2003), pois apresenta termos mais precisos em relação ao original francês.
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Thompson. De acordo com Thompson (1981), a experiência é uma elaboração consciente dos sujeitos, mediada pelas condições sociais em que estes se inserem, principalmente as condições de classe. Para o autor, “a experiência surge espontaneamente no interior do ser social, mas não surge prescindindo do pensamento; surge porque os homens e as mulheres são racionais e pensam sobre o que acontece a eles e a seu mundo” (p. 19). O que o autor quer dizer com isso é que o sujeito social é passível de mudanças que dão lugar à “experiência transformada” (p. 20), que é determinante no sentido de “estabelecer pressões sobre a consciência social existente, estabelece novas questões e proporciona grande parte do material de base para os exercícios intelectuais mais elaborados” (p. 20, tradução nossa). Em seu uso do termo, Thompson aponta que
[…] os homens e as mulheres retornam como sujeitos; não como sujeitos autônomos ou “indivíduos livres”, mas como pessoas que experimentam as situações produtivas e as relações em que se encontram enquanto necessidades e interesses e enquanto antagonismos, “elaborando” assim sua experiência dentro de coordenadas de sua consciência e sua cultura pelas vias mais complexas (essas vias sim, relativamente autônomas) e atuando sobre sua própria situação (frequentemente, mas nem sempre, através das estruturas de classe em que ocorrem). (p. 253)
A experiência social, assim, é elaborada no nível individual, mas também determinada por condicionantes sociais, notadamente pela situação de classe. Leva em conta que os sujeitos não estão completamente socializados, havendo, assim, espaços para transformações e ressignificações sobre o mundo social em que o sujeito se insere.