2. Avrupa Birliği’nde En Çok Göç Alan Devletler
1.4. Geri Kabul Anlaşmaları Çerçevesinde AB – Türkiye İlişkileri
1.4.2. AB Göç Politikası ve Türkiye’den Beklentileri
1.4.2.3. Sınır Kontrolü
O direito, portanto, pode ser visto como um sistema composto por unidades comunicacionais, onde o estudo de cada um dos aspectos que compõe o
processo de comunicação se faz necessário. Como bem assevera o jurista espanhol Gregório Robles69:
O direito não é uma coisa, mas um meio de comunicação social. É um subsistema social cuja função consiste na organização total do sistema social por meio da verbalização das instituições, por meio da expressão linguística dos conteúdos normativos.
O direito, então, pode ser observado como um fato comunicacional ante a verbalização das instituições e expressão linguística dos conteúdos normativos, tudo através de enunciados que, direta ou indiretamente, visam dirigir e regular a conduta humana (imperatividade da mensagem jurídica - reguladora - voltada à conduta humana - regulada).
Com isso, seu estudo pode ser fracionado (didaticamente) sob as três dimensões semióticas70, quais sejam, sintática, semântica e pragmática. Foi exatamente isso que fez Gregório Robles71, denominando-as Teoria formal, Teoria da dogmática jurídica e Teoria das decisões.
A primeira Teoria (formal) volta-se à sintaxe dos elementos do sistema jurídico, como se relacionam formalmente, ou seja, analisa a estrutura lógica do direito. A segunda Teoria (da dogmática jurídica) preocupa-se com os possíveis significados que as normas jurídicas de um ordenamento podem ter, principalmente ressaltando a necessidade de tal significado advir da análise do conjunto normativo que regula o instituto observado (construir um sentido
69 ROBLES, Gregório. O Direito como texto: quatro estudos de teoria comunicacional do direito [tradução Roberto Barbosa Alves]. Barueri : Manole, 2005, p. 78.
70 “A segmentação do processo semiótico ou da semiose (ação ou efeito gerado pelos signos) em
três aspectos ou dimensões que podem ser abstraídos para o propósito de serem estudados separadamente, e a denominação dos planos de investigação em ‘sintático’, ‘semântico’ e ‘pragmático’ foi inicialmente proposta em 1938, por Charles William Morris (1901-1979).”
(ARAUJO, Clarice von Oertzen. Incidência Jurídica: teoria e crítica. São Paulo : Noeses, 2011, p. 165).
71 “La teoría comunicacional del derecho divide su tarea en tres grandes capítulos, cada uno de los
cuales considera el texto jurídico en una perspectiva diferente. Esos tres niveles de análisis son: la teoría formal, la teoría de las decisiones y la teoría de la dogmática jurídica. Corresponden respectivamente, en una concepción semiótica, a la sintaxis, a la pragmática y a la semântica.”
(ROBLES, Gregório. La Justicia en los juegos. Revista de Direito Tributário n. 103. São Paulo : Malheiros, 2009, p. 9).
normativo partindo, apenas, de um único artigo de lei, provavelmente implicará em significação conflituosa com outros enunciados pertencentes ao sistema)72. E, por fim, a terceira Teoria (das decisões) volta-se ao ato de fala que insere os elementos (mensagens jurídicas) no ordenamento jurídico, ou seja, aprecia a decisão que antecede a positivação de uma norma jurídica.
Aprofundemos o estudo desta última Teoria (das decisões), onde há ênfase ao ato de fala do emissor da mensagem jurídica, ponto que deve ser observado em confronto com o papel do receptor deste processo comunicacional.
Isso porque, sob a ótica do giro-linguístico e demais premissas de cunho comunicacional que já explicitamos, o sentido da mensagem (norma jurídica) é construído pelo receptor (autêntico ou não), cabendo ao emissor apenas torcer para que suas pretensões de significação sejam captadas73, ou seja, dá-se ao receptor uma importância muito maior em detrimento ao emissor da mensagem, inclusive jurídica.
Nesse sentido, afirma João Maurício Adeodato74:
Torna-se cada vez mais reconhecido que os textos não são capazes de controlar inequivocamente os conflitos concretos; como cada grupo social e mesmo cada indivíduo veem diversamente o que é correto, as expressões genéricas das leis ordinárias e constituições precisam ser concretizadas, num processo sobre o qual o legislativo que as criou não tem qualquer controle. No Brasil isso é agravado por um legislativo inoperante e um judiciário agressivo, fazendo do decisionismo casuísmo.
72 É bem verdade que a Teoria da dogmática jurídica, cunhada por Gregório Robles, tem pretensões que destoam das premissas adotadas neste estudo, mormente a missão de construir um sistema que reflita e complete o ordenamento (o que se contrapõe à premissa aqui adotada de sinonímia entre os termos “sistema jurídico de enunciados prescritivos” e “ordenamento jurídico”). Vejamos: “La dogmática jurídica tiene como misión construir el sistema que refleja y completa el
ordenamiento jurídico.” (La Justicia en los juegos. Revista de Direito Tributário n. 103. São Paulo :
Malheiros, 2009, p. 11). Mesmo assim, acreditamos na importância de relatar essas Teorias do jusfilósofo espanhol no intuito de demonstrar sua estreita vinculação a uma concepção semiótica do direito.
73 “O artista é que dá o tiro, mas a trajetória da bala lhe escapa.” (MORAES, Frederico. apud AZEVEDO, Wilton. Ruído Como Linguagem. São Paulo : Dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1984. p. 144).
74 ADEODATO, João Maurício. Uma Teoria Retórica da Norma Jurídica e do Direito Subjetivo. São Paulo : Noeses, 2011, p. 57.
Assim, se é o receptor quem vai construir o sentido da mensagem, qual é, então, a importância do emissor? Ugo Volli75 esclarece:
...o destinatário acredita descobrir o sentido de alguma coisa, mas na realidade recebe uma comunicação cuidadosamente elaborada por um emissor. De modo geral, é até possível pensar toda a comunicação como uma complexa manipulação do ambiente operada por alguém (o emissor) interessado em fazer com que algum outro (o destinatário) perceba um certo sentido.
É certo que, na sequência, este semiólogo italiano vai discorrer sobre a importância do receptor (condição necessária à comunicação, em detrimento à figura do emissor que, para ele, pode inexistir num ato comunicacional76), mas a questão que se quer aqui frisar é a relevância do agente responsável pela enunciação77 na comunicação jurídica.
Gregório Robles78 fortalece a importância do emissor na comunicação jurídica ao afirmar que “a decisão geradora de texto jurídico limita o sentido
deste.” Ora, se o sentido do texto é limitado pela decisão de gerá-lo e, quem dá
75 VOLLI, Ugo. Manual de Semiótica [tradução Silva Debetto C. Reis]. São Paulo : Loyola, 2007, p. 20.
76 “Pode-se facilmente admitir, com efeito, que exista comunicação sem emissor, por exemplo, nos
casos em que da leitura de um instrumento científico ou dos sintomas de uma doença ou de outros indícios, isto é, representações importantes do mundo, alguém extraia um sentido (exemplos clássicos de indícios são a fumaça para o fogo, a febre para a doença, a impressão digital para o assassino). Sem recepção, no entanto, não há comunicação eficaz - aliás, não existe o fato comunicação.” (VOLLI, Ugo. Manual de Semiótica [tradução Silva Debetto C. Reis]. São
Paulo : Loyola, 2007, p. 21).
77 “O fato produtor de normas é o fato-enunciação, ou seja, a atividade exercida pelo agente
competente. Falamos em fato-enunciação porque a atividade de produção normativa é sempre realizada por atos de fala (...) o procedimento (enunciação) é um objeto dinâmico só atingível pela operação de catálise. A aproximação do sujeito cognoscente ao procedimento só é executável pelas marcas da enunciação deixadas no enunciado (fatos enunciativos componentes da enunciação-enunciada) (...) Apesar de parecer paradoxal, o conhecimento do fato produtor (fonte do direito) de enunciados prescritivos (produto) só se torna tangível após a publicação deste último.” (MOUSSALLEM, Tárek Moysés. Fontes do Direito Tributário. 2ª Ed., São Paulo : Noeses,
2006, p. 139/140).
78 ROBLES, Gregório. O Direito como texto: quatro estudos de teoria comunicacional do direito [tradução Roberto Barbosa Alves]. Barueri : Manole, 2005, p. 18.
“vida” ao enunciado é o emissor, evidenciado está sua relevância no contexto comunicacional.
Essa ressalva é de crucial importância para este estudo, pois será analisada a possibilidade de uma visão competencial do direito, ou seja, uma análise do sistema sob o ângulo do emissor da mensagem jurídica (aquele sujeito competente para inserir elementos no conjunto normativo - enunciação), que só tem sentido se for atribuída alguma importância a este partícipe do processo comunicacional.
1.4.2. Ruído comunicacional (ponto central da perspectiva eleita)
Outra questão importante para as pretensões deste estudo é entender que qualquer problema em um dos elementos do processo comunicacional (código, emissor, mensagem, receptor, contato e contexto) pode impor falhas na decodificação da mensagem e, por conseguinte, a informação que se pretendia transmitir acaba sendo destorcida (ou sequer recebida).
Ou seja, se não há a transmissão de uma mensagem codificada de um sujeito a outro, ou se tal trânsito não se deu da maneira pretendida pelo emissor, ou ainda em harmonia com o contexto inerente à comunicação, ocorreu uma falha no processo comunicacional cujas consequências são evidentes.
Sobre o ruído na comunicação, Roti Nielba Turin79 ensina:
Quando não há esse trânsito, quando isso não ocorre, dá-se aquilo que em Teoria de Comunicação denominamos ruído. Ruído é a perda da informação. É a perda de parte da informação ou a não informação por desconhecimento do código, ou por erro de emissão, ou por erro de recepção. Pode haver perda por diferenças de repertório, sendo um muito alto e outro muito baixo, ou então, quando os repertórios são idênticos.
79 TURIN, Roti Nielba. Aulas: introdução ao estudo das linguagens. São Paulo : Annablume, 2007, p. 50.
O ruído é nítido quando o emissor utiliza um código desconhecido pelo receptor que, portanto, jamais receberá a mensagem (mensagem transmitida na língua portuguesa a um índio que, até aquele momento, desconhecia nossa civilização). O mesmo ocorre se o emitente utiliza de mensagem oral (falada) quando o receptor tem problemas auditivos (certamente teremos um ruído na comunicação fruto do canal equivocadamente escolhido80). Haverá, ainda, ruído comunicacional se a mensagem formulada deu-se em contexto inapropriado (petição direcionada a um Juiz escrita em linguagem ordinária, repleta de gírias e abreviações incompatíveis com a formalidade que o contexto exige).
E é evidente que sendo o direito um fenômeno comunicacional, o ruído também é uma situação que o atinge. Nesse sentido, ensina Tácio Lacerda Gama81:
...os chamados “ruídos da comunicação” ensejam problemas das mais diversas naturezas no entendimento dos sujeitos de uma conversação qualquer. No plano das linguagens descritivas, próprias da Ciência do Direito, os ‘ruídos da comunicação’ levam a desentendimentos, disputas verbais e incompreensões. Nas linguagens prescritivas os danos não são menores, pois problemas na transmissão de mensagens jurídicas precisas ensejam conflitos de interesse.
O problema atinente ao ruído comunicacional, mormente no direito, aumenta quando há mais de um receptor e, mesmo inexistindo evidentes vícios no código, no contato ou no canal, ainda assim nos deparamos com interpretações distorcidas em face de uma mesma mensagem.
Em situações como esta, podemos acreditar que a mensagem se deu com tamanha vagueza82 que propiciou a existência de interpretações diametralmente
80 “Quando há interferência num canal de comunicação, há obviamente perturbação no código,
descaracterizando-se este de sua função informacional.” (AZEVEDO, Wilton. Ruído Como Linguagem. São Paulo : Dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. 1984. p. 31).
81 GAMA, Tácio Lacerda. Sentido, Consistência e Legitimação. In: HARET, Florence e CARNEIRO, Jerson [Orgs.]. Vilém Flusser e Juristas. São Paulo : Noeses, 2009, p. 236.
82 “Hay casos em los que, puestos a decidir si cierto objeto concreto debe incluirse en determinada
classe, dudaríamos (...) Esta falta de precisión en el significado (designación) de una palabra se ilama vaguedad: una palabra es vaga en la medida en que hay casos (reales o imaginarios, poco
opostas, ainda que cientes os receptores da pretensão do emissor (ante os demais elementos do processo comunicacional). Ou seja, mesmo diante da possibilidade de se vislumbrar uma construção da mensagem mais harmônica ao processo de comunicação a ela inerente, é esperado que seus destinatários lutem pela vitória da interpretação (decodificação) que mais lhes convêm.
O interessante aqui é destacar que a vagueza da mensagem não é, por si só, a causa do ruído. Pelo contrário, a vagueza é elemento necessário ao processo de comunicação (grau ótimo de vagueza). Explicitando a necessidade de um “grau ótimo de vagueza” em todo e qualquer processo comunicacional, Lauro Frederico Barbosa da Silveira83, citando Charles S. Peirce, afirma:
Diz o texto peirciano, por conseguinte, que para que haja comunicação, é necessário que o signo comporte um grau ótimo de vagueza:
Nenhuma comunicação de uma pessoa a outra pode ser inteiramente definida, isto é, não-vaga. Podemos razoavelmente esperar que os fisiologistas irão encontrar algum dia, meios de comparar as qualidades dos sentimentos de uma pessoa com as de outra, de modo que não seria conveniente insistir em sua presente incompatibilidade como uma fonte inevitável de desentendimento. Mas subsistindo algum grau ou qualquer outra possibilidade de variação contínua, a precisão absoluta é impossível (CP 5.506).
Assim, a tentativa de minimizar o ruído comunicacional (em casos como este)84 não se vincula à pretensão de eliminar a vagueza da mensagem posta, pelo contrário, a vagueza é reconhecidamente elemento necessário ao processo de comunicação.
importa) en los que su aplicabilidad es dudosa...” (GUIBOURG, Ricardo A., GHIGLIANI, Alejandro
M. E. e GUARINONI, Ricardo U. Introdución al conocimiento científico. 6ª Ed., Buenos Aires : Eudeba, 1988,p. 47/48).
83 SILVEIRA, Lauro Frederico Barbosa da. A comunicação de um ponto de vista pragmaticista. In COGNITIO. Revista de Filosofia. Número II, 2001, p. 208.
84 A redundância é um mecanismo apto a minimizar o ruído comunicacional. Nesse sentido é a lição de Isaac Epstein: “A redundância é, por outro lado, um fator capaz de proteger a mensagem
contra o ruído, embora onerando a transmissão, uma vez que emprega um número maior de sinais do que o estritamente necessário. A redundância, digamos, é o preço para proteger a mensagem das perturbações do ruído”. (Teoria da Informação. São Paulo : Ática, 1986, p. 21).
Todavia, se existe um grau ótimo de vagueza, o ruído acontecerá sempre que este estiver além do ótimo, ou seja, com vagueza superior ao necessário para que haja a comunicação. Portanto, o que se deve buscar é a redução do excesso de vagueza (tarefa nada fácil, ante sua inquestionável subjetividade), não sua eliminação por completo.
Na mesma linha de raciocínio, Manfredo Araújo de Oliveira85, discorrendo sobre a “segunda fase” de Wittgenstein (atinente a sua obra póstuma Investigações Filosóficas), afirma:
Esse espaço de vaguidade, essencial aos conceitos da linguagem comum, é o que Waismann chama de “open texture” e Stegmüller de “abertura de conceitos”. Nós, na realidade, podemos apenas, por meio de certas regras, diminuir o campo de vaguidade dos conceitos empíricos (na terminologia de Waismann, em contraposição aos conceitos matemáticos) ou dos conceitos de linguagem comum, mas afastar toda e qualquer vaguidade é impossível, pois isso pressupõe conceitos cuja significação está estabelecida de modo definitivo e não podemos, a priori, estabelecer regras para todos os casos. A possibilidade do aparecimento de casos não previstos está sempre aberta: daí o termo “abertura dos conceitos”. Nossos conceitos são essencialmente
abertos por admitirem a possibilidade de aplicação a casos não previstos.
Por todo o exposto, é possível fixar as seguintes premissas: (i) toda mensagem é vaga (deve conter um grau ótimo de vagueza); (ii) o ruído pode estar jungido à extrema vagueza de uma mensagem; e (iii) é possível reduzir a vagueza e, assim, reduzir o ruído. Com isso, se alcança a seguinte conclusão: (iv) não é possível eliminar a vagueza, nem tampouco o ruído dela decorrente86.
O ruído comunicacional é perspectiva tomada como fundamental para o estudo, aqui pretendido, do conflito de competência em matéria tributária. Logo,
85 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 3ª Ed., São Paulo : Loyola, 2006, p. 131.
86 “...o ruído pode ser contido, delimitado, porém não eliminado de uma mensagem. Em outras
palavras, na prática informativa cotidiana é rara a mensagem sem algum tipo de ruído real ou virtual. Pode-se dizer mesmo que o ruído constitui uma espécie de pano de fundo sobre o qual são transmitidas as mensagens.” (COELHO NETTO, J. Teixeira. Semiótica, Informação e Comunicação: diagrama da Teoria do Signo. 3ª Ed. São Paulo : Perspectiva, 1990, p. 138).
as premissas acima fixadas e, principalmente, as conclusões externadas serão, nos próximos Capítulos, revisitadas com frequência. Vamos adiante.