1.3. ŞİİRDE ÖNCELEME SORUNU VE ÖNCELEMELER
1.3.3. Sözdizimsel Öncelemeler
Mambaí é um município da microrregião Vão do Parana, próximo da divisa com o estado da Bahia. Dista 517 quilômetros de Goiânia e aproximadamente uns 250 quilômetros de Brasília. A cidade fica nos contrafortes (i. e., cadeia de montanhas que se destaca, mais ou menos perpendicularmente) da Serra Geral. Seu potencial ecológico, que abrange densa flora e fauna, cavernas, cachoeiras, dentre outros atrativos, levou o IBAMA a investir na região, protegendo legalmente áreas de relevante interesse ecológico, e preparando-as para o ecoturismo.
A história de Mambaí remonta ao início do século passado, com a chegada à região dos primeiros seringalistas que ali foram ter para extrair resina das abundantes mangabeiras (árvore freqüente em cerrados e no litoral nordestino, que produz fruto comestível, a mangaba, e látex útil na fabricação de borracha, e cujas flores são grandes e alvas).
Com a chegada destes trabalhadores, foi-se desde logo construindo moradas e o povoado recebeu o nome de "Riachão". Até o ano de 1953 manteve essa denominação, que foi modificada pela Câmara Municipal de Posse para "Mambaí", ao ser elevado a distrito.Em novembro do mesmo ano, foi alçado a município com autonomia política.
A chegada a Mambaí dos ciganos Calon, os que atualmente se encontram sob a autoridade do Sr. Dálcio6 - uma vez que, conforme este mesmo chefe, há outros "bandos" de Calon vivendo em outras partes do país (como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná) cuja responsabilidade não é mais sua -, deu-se no decorrer do ano de 1972. As famílias, que originaram os Calon de Mambaí e dos demais municípios assinalados na Figura 13, migraram das cidades de Correntina, Bahia, e de Montalvânia, Minas Gerais (Figura 12). Desde o ano de 1972, contudo, a família nuclear do Sr. Dálcio (ou seja, aquela formada pelos pais e irmãos) nunca abandonou Mambaí, mas outras famílias pertencentes a esta mesma vitcha (designação, em Romani, para "bando") estão distribuídas por cidades (a maior parte concentrada no estado de Goiás), como mostra o mapa da Figura 13.
6 Segundo Sérgio Paulo Adolfo, "os ciganos no Brasil, com exceção dos Calon, não possuem nenhum tipo de chefia ou de autoridade que os representem."
Figura 12 - Cidades de Correntina(BA) e Montalvânia (MG)
Figura 13 - Cidades de Goiás em que há famílias ciganas da vitcha do Sr. Dálcio
Em Mambaí, estão onze das cento e quatorze famílias que compõem a
vitcha governada pelo Sr. Dálcio e que, segundo ele, é considerada uma das maiores famílias ciganas de nosso país. A título de esclarecimento, compreende-se a relação entre "família nuclear" e "família extensa" da seguinte maneira: "A unidade mínima de organização social e política é a família nuclear que se liga de forma intrínseca à família extensa. A família é gerida pelo pai dentro de um sistema patriarcal, patrilocal7 e gerontocrático8" (ADOLFO, 1999). Assim, contígua à casa do Sr. Dálcio, mora sua mãe, Dona Teresa, e sua tia Dona Lourdes.
Nos arredores da casa do chefe, que está localizada na esquina das ruas José Pereira Magalhães e José Pires Martins, quadra 17, vivem sobrinhos, netos, os seis dos quinze filhos de Dálcio com seus cônjuges - sendo duas mulheres (Darlene e Sueli) casadas com rapazes naturais de Mambaí, não-ciganos, e quatro homens (Reizimar, Adalto, Welington, Dalcivan) também casados com moças não-ciganas do município. Há um ponto aqui que merece atenção: de acordo com as tradições ciganas, o casamento devia se dar exclusivamente
intra-grupo. Dado que se casam muito cedo, por volta de 15 ou 16 anos, a escolha, a princípio, cabia aos pais por serem mais experientes. Hoje, os casamentos - como os dos filhos do Sr. Dálcio - ocorrem extra-grupo e num acordo com os pretendentes: o que necessariamente afeta a continuidade de muitos costumes, incluindo a manutenção do dialeto
calon. Pois bem, todos esses parentes que convivem com o chefe, bem como aqueles que habitam em São Domingos, Posse, Buritinópolis, Brasília, dentre outras localidades, constituem a denominada "família extensa".
No aspecto das obrigações, as responsabilidades são bem divididas. Cabe aos homens a tarefa de ganhar dinheiro para satisfazer as necessidades da família, o que os leva a exercerem ofícios dos mais diversos: segurança de fazendas, corretagem nas ruas próximas a sua residência (os ciganos de Mambaí têm casas, que destinam ao aluguel), empreitadas em firmas e propriedades rurais, compra e venda de carros, bem como de aparelhos eletrodomésticos, encomenda de colchas de cama e toalhas de mesa de crochê as quais ficam a cargo das mulheres, que as vendem. Compete ainda às mulheres "a manutenção da casa, da roupa dela e dos seus (...)" (ADOLFO, 1999) e o preparo das refeições.
7 "Pelo casamento, é a mulher obrigada a seguir o marido, passando a morar no local onde ele mora (casa,
acampamento, aldeia etc.)- Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa básico. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988.
42
As principais festas realizadas pela comunidade Calon pesquisada são o casamento e o batizado - que seguem o rito próprio da igreja cristã - e as festas dedicadas aos santos católicos de quem são muito devotos. Como me explicou o Sr. Dálcio,
Sempre nós somos muito devotos, né! Sempre na família cigana tem assim um santo que a pessoa seja devoto e quando não seja um, seja outro. Às vezes aquela pessoa é comprometida com aquele santo, às vezes faz uma premessa por um fio, às vezes por ele mesmo, ou por uma pessoa da família (...)'- inté tantos anos eu vou festejar p'ra santo fulano'. Então durante aquele perinto que a pessoa premeteu. então continua aquela festa todos os anos.9
As festas de Santo, como observa Sérgio Adolfo, seguem a mesma estrutura das festas de nossa população sertaneja: começam com uma reza, alguns cânticos para o santo que está sendo homenageado, e depois partem para os comes e bebes e para as danças, sempre próximos da fogueira.
Sérgio Adolfo, que travou amizade com os Calon do Paraná e teve a oportunidade de observar-lhes as peculiaridades, notou que "(...) o senso de beleza [dos ciganos] pode soar estranho aos olhos dos gadje, no entanto, em todas as suas atitudes, nos mínimos gestos, o homem, a mulher ou a criança Calon está em busca ou no desfrute dessa beleza. Homens e mulheres têm os dentes brilhantes de ouro, mesmo colocando em risco sua saúde dental, nenhum Calon resiste a esse chamamento étnico. A dentadura recoberta de ouro faz parte de sua indumentária, como as roupas de cores luminosas e o chapelão de boiadeiro dos homens.". Desta descrição feita por Sérgio, tive a alegria de verificar a vaidade do uso de ouro na dentadura; o apelo à boa apresentação que se deu em duas circunstâncias separadas: a primeira, na visita que fiz inicialmente para conhecê-los, quando pedi a Dona Teresa para tirar uma foto sua e ela solicitou-me uns minutos para aprontar-se, trocando imediatamente de roupa, passando óleo no cabelo e penteando-o (Figura 14); e a segunda, na vez em que saí numa fotografia ao lado do chefe Dálcio que ausentou-se, antes de tirarmos a foto, para arrumar-se (Figura 15).
44
As crianças da comunidade cigana de Mambaí já freqüentam a escola municipal. Conversando com uma senhora, moradora do município, cujo esposo exercera cargo político (vereador), e ela mesma diretora de escola que recebe filhos de ciganos, pude comprovar que a relação entre os ciganos e alguns setores de Mambaí, incluindo uma parcela da população, ainda é conturbada. A referida diretora reclamou da ausência dos pais no acompanhamento escolar dos filhos, bem como do comportamento destes em sala de aula, e
Figura 16 - Uma das famílias que compõem o bando cigano de Mambaí
Como bem frisou Ático Vilas-Boas, "ao longo da história, ciganos e não-ciganos têm-se ignorado e, enquanto não houver maior aproximação entre eles, há de persistir a rejeição mútua. Enquanto a cultura cigana não for melhor compreendida, os preconceitos tendem a permanecer" (MOTA, 1986:32). A parte os desencontros entre ciganos e gadjé, outros aspectos do modo de vida característico dos Calon de Mambaí constam da entrevista que me concedeu o chefe Dálcio, a qual encontra-se transcrita na íntegra em anexo nesta dissertação.