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Entrevista concedida à revista eletrônica Lugares, da Fundação Iberê Camargo, publicado em 06/03/2008.

Na última quarta-feira, a Bienal do Mercosul divulgou carta aberta, que dá início a um processo de seleção para o curador-geral da 7ª Bienal do Mercosul. A idéia é receber propostas de trabalho para a próxima edição da Bienal e selecionar um ou mais candidatos, que serão remunerados, para desenvolver um projeto detalhado. A seleção é aberta a profissionais de todo o mundo.

As propostas devem ser enviadas até o dia 25 de março e devem considerar as metas da Fundação Bienal para a 7ª edição do evento, que tem foco na contribuição da Bienal para a sociedade, buscando benefícios reais para seus públicos, parceiros e apoiadores. O candidato deverá enviar um currículo, carta de intenções que esclareça a proposta curatorial e as questões básicas de sua produção, levando em conta os princípios da Fundação Bienal do Mercosul, e exemplos de textos produzidos.

Uma comissão formada por Gabriel Pérez-Barreiro, curador-geral da 6ª Bienal do Mercosul, Henry Meyric Hughes, presidente da Associação Internacional dos Críticos de Arte, Justo Werlang, presidente da Bienal do Mercosul, e Rodrigo Naves, crítico de arte, irão escolher um ou mais candidatos, que serão remunerados para produzir uma proposta mais detalhada. O candidato selecionado deve ter disponibilidade para começar a trabalhar em maio de 2008. Leia, abaixo, entrevista com Justo Werlang.

Qual a sua avaliação da 6ª Bienal do Mercosul e o que se pretende aperfeiçoar para a próxima?

De certa forma as alterações implementadas na sexta edição foram resultantes do percurso traçado pela Bienal do Mercosul em suas cinco primeiras edições.

O modelo adotado na primeira edição, projeto curatorial de Frederico Morais, quando participaram artistas dos seis países do Mercosul "expandido" (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai) e um país convidado, no caso Venezuela, indicava a intenção curatorial de ir agregando outros países de fora do bloco econômico. É interessante observar que na mostra Acervos latino-americanos em coleções no Brasil Frederico já introduzia a presença de artistas dos demais países latino-americanos. No percurso até a sexta edição, observamos diversas inovações importantes, que mantiveram o projeto atualizado. No entanto, o modelo básico de participação foi mantido. Sob a presidência de Ivo Nesralla, Fábio Magalhães curou as segunda e terceira edições da Bienal do Mercosul. Juntos realizaram um formidável esforço de consolidação do evento. Não fossem eles,

provavelmente teríamos ficado na bienal de uma só edição. Assim também na quarta edição, sob a presidência de Renato Malcon e curadoria de Nelson Aguilar, e na quinta edição, sob a presidência de Elvaristo Teixeira do Amaral e curadoria de Paulo Sérgio Duarte, souberam interpretar as necessidades dos desafios específicos com que se defrontaram. Entendo que a Bienal do Mercosul tem percorrido um percurso coerente, com contribuições positivas crescentes a cada edição. Por ter vivido intensamente a experiência da primeira bienal, quando presidi os trabalhos, e ter desempenhado a vice-presidência na quarta e quinta edições, percebi a necessidade da instituição enfrentar urgentemente dois desafios em sua sexta edição, que teve lugar no ano de 2007: um, relativo à sustentabilidade do projeto, questão ligada diretamente à gestão; e, outro, relativo ao possível esgotamento do modelo curatorial adotado desde a primeira edição. Buscamos no projeto de Gabriel Pérez-Barreiro, nascido na Espanha, educado na Inglaterra, então curador da coleção latino- americana no Museu da Universidade de Austin, Texas, a renovação do modelo curatorial. Tivemos 334 obras de 67 artistas oriundos de 21 países, apresentadas em seis mostras. Algo como uma bienal a partir do Mercosul, pois os processos se fundavam nele. Foram 508.353 visitas às mostras, em 79 dias abertos de forma ininterrupta. Mas a Bienal não se resumiu às mostras eis que, através do projeto pedagógico estivemos com os professores e alunos durante 210 dias, em 52 encontros de formação de professores, em 42 cidades do estado do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, quando atendemos cerca de 7.350 educadores. Resultado é que tivemos turmas escolares agendadas de 178 municípios, totalizando 156.587 alunos atendidos em visita às mostras. Assim como o projeto curatorial de Gabriel Pérez-Barreiro propôs a privilegiar a relação entre o cidadão e a peça de arte, o projeto pedagógico criado pelo artista e educador Luis Camnitzer trabalhou basicamente com o processo criativo do aluno (na sala de aula) e do visitante (nas mostras, por exemplo nas 20 estações pedagógicas dispostas nos espaços expositivos). Os projetos curatorial e o pedagógico foram desenvolvidos quase que simultaneamente, o que permitiu aos visitantes uma experiência extremamente rica. A transparência foi outra de nossas preocupações, tanto nos procedimentos curatoriais quanto nos de gestão. Assim, bem antes de termos os nomes dos artistas, sabíamos quais seriam os quesitos para a seleção. A mostra Conversas, por exemplo, previa que nove artistas teriam a liberdade de escolher dois outros artistas, cada um, perfazendo um total de 18. E, em relação à gestão, a mostra de prestação de contas que realizamos depois de encerradas as mostras da Bienal, evidenciou ao grande público como se fez a Bienal, para quem e no que resultou. Isso tudo está consubstanciado no Relatório de Responsabilidade Social que fizemos publicar. Muitos foram os focos a que nos dedicamos. Na formação da diretoria, por exemplo, tínhamos em mente a oportunidade de formação de voluntários (jovens empresários e profissionais liberais) que poderiam futuramente atuar em outras instituições culturais. Quando buscamos fornecedores, outro exemplo, buscamos privilegiar a contratação de fornecedores locais. Esta foi a primeira Bienal do Mercosul produzida por uma produtora local e totalmente montada por profissionais locais. Em relação aos patrocinadores e apoiadores, desenvolvemos todo um trabalho no sentido de garantir uma maior visibilidade, e o resultado é que alcançamos realizar mais do que o contratado. Creio que esta edição da Bienal do Mercosul superou todas nossas melhores expectativas, graças ao trabalho e paixão de todos que estiveram envolvidos. Caso tivesse que indicar apenas um ponto, como principal, diria que talvez tenha sido a resposta que tivemos da comunidade, que compreendeu e vivenciou a Bienal como nunca havia feito.

Por que houve o interesse em democratizar a seleção do curador geral da Bienal?

Considerando o percurso das edições anteriores, com vistas à manutenção do que já foi alcançado e agregar novas possibilidades, o Conselho de Administração da Fundação Bienal do Mercosul entendeu oportuno normatizar o processo de seleção do curador-geral e projeto curatorial. Como está desenhado, o processo alcança grande transparência, incrementa as possibilidades de inovação/renovação, ao mesmo tempo em que diminui todos riscos que uma escolha inadequada pode trazer. O Conselho e a Diretoria são formados por pessoas que apresentam conteúdos e possibilidades de auxiliar a gestão da Instituição, não havendo a necessidade de que sejam experts em artes visuais. O mesmo se dá em relação à presidência: são cidadãos que operam a partir de sua responsabilidade para com a comunidade. Pois o processo agora desenhado qualifica a decisão que antes cabia solitariamente ao presidente, ao trazer a opinião de especialistas. Creio que não é uma questão de democratização, mas de racionalização. O Conselho informa "para onde entende deve ir a Bienal", abre o processo a todos os que se sentirem motivados/qualificados a oferecer uma proposta, e conta com o suporte necessário da comissão na análise das propostas recebidas.

O que se espera receber em termos de projeto, já que o prazo é de apenas 20 dias?

O que estamos solicitando é uma carta de intenções contendo os princípios fundamentais a

partir dos quais pretende trabalhar na organização da Bienal, transcrevendo os termos do texto divulgado. Assim, o prazo não é para o desenvolvimento de um projeto fechado, mas para que o candidato ofereça a idéia básica através da qual pretende desenhar o projeto, evidentemente observando os quesitos informados, os princípios que a Instituição pretende sejam aprofundados na presente edição. Na segunda etapa, os candidatos pré-selecionados

serão convidados a produzir uma proposta mais detalhada, pela qual serão remunerados. Entendo o primeiro prazo como adequado.