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Para finalizar este capítulo realizaremos uma breve análise acerca da importância do movimento estudantil para as discussões relativas às teorizações dos movimentos sociais. Como sabido, as manifestações de 68 tiveram forte impacto nas reformulações teóricas na área das ações coletivas sinalizando a emergência – em termos analíticos – dos Novos Movimentos Sociais (NMSs). Este debate, a nosso ver, é importante na medida em que temos a possibilidade de perceber com maior clareza como se dão os processos pelos quais a teoria acompanha e segue posterior aos acontecimentos sociais. O caso do movimento estudantil torna-se emblemático e significativo desta discussão e, por isso, nossa necessidade de pontuar.

A história dos movimentos sociais é marcada tanto por diferentes ondas de mobilização – e seus variados atores – como por paradigmas analíticos e interpretativos61. Desde as análises dos movimentos sociais sob a perspectiva da categoria da multidão (Le Bon, 1895) até as interpretações dos mesmos enquanto produtores de ação coletiva baseada na identidade (Melucci, 1999), o estudo dos movimentos sociais tem se caracterizado por diferentes momentos e abordagens.

61 Não aprofundaremos as diferentes abordagens teóricas que correspondem ao estudo dos

movimentos sociais e das ações coletivas. Aqui, faremos uma pequena síntese destas abordagens e localizaremos a ação do movimento estudantil como fundamental nesse processo de desenvolvimento teórico.

Num primeiro momento, no início do século passado, fortemente, caracterizado por manifestações e tensões sociais provocadas pelas consequências da revolução industrial, os comportamentos coletivos foram percebidos através da idéia de anomia social, ou seja, como desajustes ou desvios frente às normas sociais criadas e incorporadas socialmente. Ainda, para os primeiros estudiosos, os movimentos foram homogeneizados sob a categoria de multidão que foi interpretada como “irracional” (Le Bon, Tarde, Smelser e Ortega Y Gasset).

Com outra perspectiva – e a partir das questões históricas colocadas pelo movimento operário – surge a abordagem de cunho marxista que, realçadamente de base classista, se torna uma nova ferramenta na compreensão dos fenômenos relativos aos comportamentos coletivos e dos movimentos sociais. A determinação das classes sociais sobre as ações coletivas e manifestações será, portanto, central na abordagem analítica destes teóricos.

Mas, diferentemente de outras abordagens, a perspectiva de análise de cunho marxista não funcionou apenas como proposta analítica, mas também proporcionou uma arma doutrinal passível de ser usada na própria mobilização para a ação coletiva transformadora (Drago, 2004).

Com o advento dos movimentos de 68 – protagonizados pelo movimento estudantil em diversas partes do mundo – as análises interpretativas que realçavam a classe social como mola propulsora do conflito e da ação coletiva começam a ser questionadas.

Primeiro, porque o sujeito (ou o super-sujeito) da ação deixa de ser a classe operária com seus mecanismos da vanguarda partidária e passa a ser um sujeito difuso, não-hierarquizado, na luta contra as discriminações (Gohn, 1997). Neste espaço estão os estudantes, as mulheres, os pacifistas, ecologistas, entre outros.

Segundo, porque as temáticas e reivindicações também não são mais (ou somente) de base classista62. As questões de identidade e de cultura são realçadas como fundamentais e ganham seu espaço no campo da política. Os novos atores dão visibilidade e centralidade a temas até então tidos como não-políticos e os politizam sem, no entanto, enquadrá-los “na codificação binária esquerda/direita,

62 Em análise da temática Santos (1999) afirma que diferentemente dos movimentos sociais

dos países centrais, os movimentos sociais latino-americanos são marcados por uma “impureza”, onde reside a grande novidade dos NMS’s. Esta “impureza” é o resultado da constituição mesma dos próprios movimentos sociais que unem reivindicações tanto materialistas quando pós-materialistas, que unem questões de cunho classista e transclassista.

que presidia, até então, à demarcação política nas sociedades do ocidente” (Drago, 2004:28). Neste sentido, os NMS’s são a ampliação da política para além do marco liberal da distinção entre estado e sociedade civil (Santos, 1999). Mais: na ótica de Foucault, estes movimentos potencializam outros espaços da política.

É neste momento que os movimentos juvenis – e neste caso, marcadamente, o movimento estudantil – ganham expressão e vinculam, claramente, sua experiência à trajetória e linhagem dos movimentos sociais. Como nos diz Feixa, Costa e Saura (2002:11),

“mesmo que possamos encontrar vinculações entre movimentos sociais e movimentos juvenis ao largo da história, não é senão na década de sessenta do século XX, que o jovem irrompe de maneira contundente no cenário político, já não como sujeito passivo, mas como protagonista ativo. Berkeley, 1964; Paris, Roma, Praga e México, 1968, converteram essa década em um referente mítico dos movimentos juvenis. Pela primeira vez podemos falar de uma vinculação estreita entre movimento social e movimento juvenil”.

A compreensão de que a juventude queria novos rumos e não se sentia responsável pelo modelo social existente permitiu uma renovação da linguagem política que ressignificava a luta – protestos, palavras, manifestações – através, dentre outras coisas, da estética. A grande recusa juvenil – explicitada por Marcuse – era expressa através de uma política que se queria plural, horizontalizada, que buscava antes de tudo, a construção de uma nova sociedade, não baseada no consumo, na espetacularização da vida ou na colonização do Estado frente à comunidade. A crítica acerca da democracia representativa também era fortemente realizada.

Para Martins (2004:138), em seu ensaio sobre o maio francês, a grande recusa poderia ser expressa na consciência clara de que ser jovem era, antes de tudo, “não ter tido participação na construção da sociedade existente (…), é ser o herdeiro de suas conquistas e de seus desvarios, sem, porém, ter responsabilidades na tarefa de administrá-la: é ser irresponsável perante a sociedade no sentido de ter as mãos limpas e ao mesmo tempo livres”. Livres para colocar em prática aquilo que acreditava. E neste sentido, os estudantes se colocavam enquanto personagens centrais nas mudanças estruturais da sociedade moderna.

Assim, os movimentos estudantis dos anos 1960 marcaram as análises sobre os movimentos sociais até então realizadas, deflagrando uma nova perspectiva de investigação. Com eles, surgem os mais variados atores sociais que –

desvinculados da esfera produtiva – expressam seus anseios e reivindicações que passam, principalmente, por questões culturais. Para muitos dos teóricos dos movimentos sociais, esta mudança afeta a base, a estrutura e a tática destes, abrindo novas formas de representação de interesses nas democracias avançadas (Feixa, 2002:13).

Por fim, destacamos que foi, a partir dos anos 1960 (e em grande parte, pelas manifestações realizadas naquele período) que o estudo dos movimentos sociais ganhou espaço, expressão, visibilidade e status enquanto objeto de análise científica, sendo interpretado a partir de diferentes teorias.

Neste capítulo, portanto, tentamos reconstruir o movimento a partir de seus elementos mais simbólicos. Assim o fizemos para demonstrar o quão essa dimensão acaba por perpetuar e imprimir no imaginário estudantil uma identidade de movimento que, quando acessado, pode ser capaz de mobilizar. A história e a tradição do movimento acabam por ser aquilo que, de alguma forma, alimenta a militância e a une (num meio onde as diferenças na prática política são tão heterogêneas).

É essa dimensão simbólica que amalgama a prática militante e dá substância para a sua renovação nas diferentes gerações. É essa dimensão que cataliza um processo identificatório entre os estudantes quando percebem que esta está ligada a uma prática política coerente e justa. É também isso o que queremos observar e compreender no movimento estudantil atual, portador dos mais diferenciados pensamentos e comportamentos políticos.

O Meio (Luiz Tatit)

Agora depois do começo Já estou me sentindo Bem mais à vontade Talvez já esteja no meio Ou começo do meio Porque bem no meio Seria a metade

É bom demais estar no meio O meio é seguro pra gente cantar Primeiro, acaba o bloqueio

Depois todo aquele receio Partindo do meio, podia evitar Até para as crianças nascerem Nascendo no meio, não iam chorar

Diria, sem muito rodeio No princípio era o meio E o meio era bom

Depois é que veio o verbo Um pouco mais lerdo

Que tornou tudo bem mais difícil Criou o real, criou o fictício Criou o natural, criou o artifício Criou o final, criou o início O início que agora deu nisso

Mas tudo tomou seu lugar Depois do começo passar E cada qual com seu canto Por certo ainda vai encontrar Um meio para nos alegrar