B. Hinduizm’de Cenaze Töreni (Antyeşti Samskara)
4. Çocukların ve Sannyasinlerin Cenaze Törenleri
Como afirmamos no início deste trabalho, o movimento estudantil – ainda que com maior ou menor força entre os estudantes – carrega em sua trajetória uma representação que se cola a imagens como protesto, ruptura, jovialidade. Esta representação, marcada por um simbolismo e força, é fruto de sua história, da memória social dos militantes acerca do movimento, de uma tradição que se relaciona e se confunde com uma práxis in(ter)ventiva e inserida socialmente.
Esta tradição se alimenta através de eventos ou símbolos que vão sendo ressignificados tanto pelas novas leituras acerca do passado quanto pelo diálogo com o contexto presente. Entendemos por tradição, a consolidação da experiência coletiva que se faz através da repetição e, por consequência, da recordação desse fazer, dessa experiência (Matos, 1989).
Para a autora (idem:131), esta consolidação da experiência coletiva, “garante o acesso do indivíduo à dimensão de sua ancestralidade, tradição que pulsa em cada instante do ‘agora’. A repetição em um sentido preciso garante a ‘recordação coletiva’, substância mesma da tradição: recordação é a anamnese da experiência coletiva na sua forma social”.
Os eventos acima relacionados que se remetem tanto aos acontecimentos de Córdoba quanto aos movimentos de 68 ou o próprio período de redemocratização, são alguns dos elementos que amalgamam esse imaginário. A imagem, a representação, “cristaliza” uma certa identidade acerca do movimento. Este ethos – que se firma através de um imaginário colado a uma identidade coletiva – através da memória social dos militantes (muitas vezes cristalizada e
romantizada), de eventos e manifestações, sobrevive sendo a expressão mais visível da história do movimento entre os estudantes.
É claro que como toda representação, esta também é relativa. Mesmo porque, nem sempre – ou na maioria das vezes! – ela coincide com a realidade. As ações do passado são redimensionadas a partir da representação construída através do tempo. Nestas representações, geralmente, o passado é romantizado e a história/práxis do movimento, naturalizadas, o que muitas vezes dificulta a compreensão do presente.
De toda forma, esse imaginário serve como referência daquilo que o movimento pretende ser, muito mais do que uma construção daquilo que ele realmente foi enquanto produto de uma coletividade. Neste sentido, os eventos que possuem maior força simbólica se impõem aos demais e fixam-se como norteadores de um certo ethos e imaginário. Ao pontuarmos algumas lutas históricas do movimento estudantil, sinalizamos alguns dos elementos constituintes de ambos: ethos e imaginário.
A luta pela reforma universitária em toda a América Latina, talvez seja um elemento fundante e unificador em torno do movimento estudantil. O ideário de incorporação de valores modernos, a ruptura com uma certa estrutura universitária baseada no conservadorismo, a proposta de uma universidade mais aberta (e em tempos mais recentes, a reivindicação por uma universidade popular), democrática e representativa em seu conjunto, tornam-se marcantes em todas as manifestações estudantis ocorridas nos diferentes países, o que faz deste conjunto de elementos, central na imagem que o movimento faz de si próprio.
A abertura do movimento estudantil para lutas mais gerais, que definem em cada época as contradições de cada sociedade, também torna-se um pilar desta representação. O movimento estudantil foi um dos primeiros movimentos sociais a dialogar, de fato, com outros segmentos sociais, tornando-se um ator com grande capilaridade social e forte agente na construção de redes de movimentos. Seja através do movimento estudantil clássico, seja através dos movimentos de área ou culturais, os estudantes vão conseguindo se posicionar acerca dos mais variados temas, além de compondo várias redes de lutas. Neste sentido, as diversas experiências de interlocução e de realização de projetos comuns com outros segmentos e movimentos sociais aqui assinalados se tornam a expressão desta característica do movimento que se fortalece em sua trajetória enquanto prática e ação.
Os anos 1960 e tudo aquilo que o envolve também foram fundamentais para a constituição de um imaginário estudantil marcadamente forte. O contexto de luta e manifestação no Brasil foi de grande relevância para a visibilidade e aceitação do movimento por grande parte da sociedade. As passeatas e os protestos contra a ditadura fizeram do movimento estudantil um agente catalizador das vontades sociais e tornou-o porta-voz de parte significativa da sociedade brasileira naquele período. Somam-se a isto, todas as transformações ocorridas naquela década em todo o mundo, tanto em termos culturais e de comportamento, quanto em termos políticos e sociais.
A agitação dos movimentos estudantis em 68, a contracultura, as manifestações pacifistas e toda uma onda de conscientização acerca de questões advindas do âmbito da cultura como o feminismo, a ecologia, entre outros, foram determinantes para um envolvimento mais ativo dos estudantes que, em grande parte, também serviram como agentes de referência na visibilidade destes temas. A reivindicação da liberdade – frente às ditaduras e totalitarismos existentes –, a crítica à sociedade de consumo (Baudrilard, 2003) e à sociedade do espetáculo (Debord, 1997), também fizeram parte da linhagem e tradição de lutas deste período.
Na América Latina, como já afirmamos, esta época foi marcada pela luta contra as ditaduras militares, o autoritarismo e um sentimento fortemente anti- imperialista. Neste sentido, a experiência da revolução cubana foi para a esquerda latino-americana – e para sua juventude estudantil em geral – um elemento referencial que inspirou solidariedades e ações. Seu simbolismo, marcado pela radicalidade de um povo, foi transferida, aos poucos, para a imagem de um personagem que, logo, se transformaria no ideário juvenil da época: Che Guevara. A criação do mito da juventude enquanto revolucionária – em muito – foi fortalecida neste momento, por todos estes elementos que acabavam por se colar à imagem de Che.
Também, como já vimos, no processo de redemocratização do continente latino-americano, o movimento estudantil – apesar de menos expressivo enquanto movimento porta-voz da juventude – participa ativamente das ondas de manifestação que marcam este período reivindicando abertura democrática e eleições livres. A luta pela reconstrução de uma sociedade livre era também a luta pela reconstrução das entidades estudantis que foram subsumidas no período ditatorial.
O que queremos afirmar neste momento é que todos estes elementos e contextos foram – em alguma medida – importantes para a criação de um imaginário social que colocou no centro uma representação acerca da militância estudantil enquanto ator social relevante e o fez referência para os movimentos juvenis.
É claro, também, que outros elementos vão sendo acrescentados a este imaginário que, com o passar do tempo, vai se modificando. Hoje, ele conta com elementos advindos do passado, mas também, com práticas que foram se constituindo em seu interior e ainda subsistem no movimento estudantil atual. Questões como a forte partidarização do movimento ou a própria estrutura organizativa deste – que já não consegue responder às demandas estudantis com tanta vivacidade – são alguns elementos que entram na constituição do atual imaginário, complexificando-o.