A violência é considerada, como já ressaltado anteriormente, um agravo à saúde das populações de grande magnitude e transcendência, nos âmbitos nacional e internacional, além de um desafio para as questões sociais da atualidade (MINAYO, 1990, 1994, 2004, 2006a, 2007; MELLO JORGE, 2002; COLLET; OLIVEIRA, 2002; MINAYO; SOUZA, 2003; MARZIALE, 2004; WAIDMAN; DECESARO; MARCON, 2004; SOUZA; LIMA, 2006; SCHRAIBER; D’OLIVEIRA; COUTO, 2006; BRASIL, 2001a, 2005a, 2006).
Na década de 1960, a importância de estudos sobre violência iniciou-se junto ao campo médico pediátrico, nos EUA, quando uma pediatra americana passa a estudar, diagnosticar e tratar a “síndrome do bebê espancado”, colocando-a como um sério problema para o crescimento e o desenvolvimento infantil (MINAYO; SOUZA, 1999; MINAYO, 2007).
Apesar disso, até o início da década de 1980, a temática da violência vinha sendo tratado, quase que exclusivamente, pelo direito criminal e pelos setores de segurança pública e, por isso, era pouco abordada pela área da saúde (DESLANDES, 2000; BRASIL, 2001a; MINAYO, 2007).
Vale salientar, que há muito o termo “violência” já estava incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID) da OMS sob a denominação “Causas Externas”. Esse grupo de causas que abrangia os códigos E800 a E999 da CID, em sua 9ª revisão, assumiu os códigos V01 – Y98, na 10ª revisão, para as análises de mortalidade. Para os estudos de morbidade, os eventos violentos, antes representados pelo capítulo 17 da CID-9, atualmente estão referidos nos códigos S e T da CID-10. O conceito de mortalidade por causas externas engloba homicídios, suicídios e acidentes fatais e o de morbidade recobre as lesões, envenenamentos, ferimentos, fraturas, queimaduras e intoxicações por agressões interpessoais, coletivas, omissões e acidentes (BRASIL, 1993).
Em 1970, vários países reconhecendo, formalmente, os maus-tratos como um ato de violência e considerada um grave problema de saúde pública, criam programas de prevenção primária e secundária em instituições públicas e privadas, voltadas para a família, principal responsável pela maioria das agressões, negligências e abusos psicológicos (MINAYO, 2007). Para que isso ocorresse, houve uma grande contribuição por parte das sociedades de pediatria
de vários países, já articuladas com setores da sociedade civil dedicados aos direitos da infância e da adolescência (MINAYO; SOUZA, 1999).
Na mesma década, outro acontecimento importante que colaborou para que as discussões sobre violência fossem feitas no campo da saúde, foi o movimento feminista. A partir de sua filosofia e método de trabalho, esse movimento buscou sensibilizar a sociedade, em especial as mulheres, quanto à violência de gênero, trazendo mudanças essenciais na abordagem do setor saúde. Dessa forma, as agressões domésticas, o abuso sexual e psicológico, a mutilação e os homicídios passaram a fazer parte do cotidiano das emergências, não apenas como cuidado pontual e sim como objeto de prevenção e da promoção da saúde a violência fundamentada no gênero (MINAYO, 2007).
Nesse contexto, Minayo e Souza (1999) relatam que, oficialmente, apenas na década de 1990, a OPAS começou a discutir especificamente o tema violência, incluindo-o na agenda do setor saúde, consolidando documentos específicos e discutindo suas proporções em suas assembléias anuais. Destas, as de importância fundamental foram as de 1993 e 1994 que trataram especificamente do assunto.
A OMS, em sua 49ª Assembléia Mundial de Saúde com a presença dos ministros da saúde de todos os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1997, reafirmou o tema como uma de suas prioridades de atuação. Este episódio colocou a violência como um dos cinco problemas principais a ser objeto de políticas específicas para as Américas, nos dez primeiros anos do século XXI (MINAYO; SOUZA, 1999; MINAYO, 2007).
No entanto, foi apenas na década de 1980 que o tema violência entra com maior força nos debates do campo da saúde brasileira e demais sociedades ocidentais, coincidindo com o término da ditadura militar. Os movimentos sociais pela democratização, as instituições de direito e a forte pressão de algumas entidades não-governamentais e organizações internacionais, com poder de influenciar o debate nacional, foram fundamentais para tornar a violência social uma questão pública (DESLANDES, 2000; MINAYO, 2007).
Minayo e Souza (1999) comentam que entre as décadas de 1980 e 1990 surgiu, no Brasil, iniciativas oriundas do setor saúde, especialmente sob a forma de ONG’s que atuam junto às famílias envolvidas na prática de maus-tratos. Como exemplo, temos os Centros Regionais de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (CRAMI), Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), Associação Brasileira de Prevenção aos Abusos e Negligências na Infância (ABPANI) e outros serviços de defesa dos direitos da criança e do adolescente, designados em várias capitais do país.
É importante mencionar que a participação do movimento de mulheres brasileiras, na introdução da violência como tema de saúde no Brasil, teve expressão fundamental na construção do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), promulgado em 1983, incorporando de forma clara a pauta dos direitos sexuais e reprodutivos, que dá lugar de destaque à reflexão sobre a violência de gênero (MINAYO; SOUZA, 1999; MINAYO, 2007). Em meados dos anos 1990, também aconteceram várias iniciativas de secretarias municipais e estaduais, articuladas com outros setores públicos e da sociedade civil, visando sensibilizar a população, capacitar profissionais de saúde e formular ações para a prevenção e assistência mais direcionada (MINAYO; SOUZA, 1999).
Nessa mesma década, profissionais comprometidos com a saúde e com o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes participaram ativamente de um forte movimento em prol da cidadania infantil, que redundou na criação do Estatuto da Criança e da Adolescência (ECA), promulgado em 1990, que muito contribuiu para o diagnóstico da violência infantil nas instituições de saúde (BRASIL, 2002b).
No ano de 2003, o MS cria o Estatuto do Idoso pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, abordando o tema da violência como pauta intersetorial, incluindo a área de saúde (BRASIL, 2003b). Em 2005, foi oficializado um plano de ação intersetorial de enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, cabendo ao setor saúde programar ações de promoção, prevenção de agravos, atendimento às várias formas de violência e normalização das casas e clínicas de longa permanência (BRASIL, 2005b).
Nesse contexto, o MS inseriu algumas políticas específicas para o controle da violência no Brasil, entre ele estão a “Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências”, aprovado por portaria do Ministro da Saúde, em maio de 2001 (BRASIL, 2001a).
Este documento trata, em primeiro lugar, a violência em pauta como um problema social e histórico e o situa nos marcos da promoção da saúde e da qualidade de vida. Nesse mesmo sentido define os conceitos de "violência" e a distingue de "acidentes", uma vez que, tradicionalmente, esses dois termos vêm juntos na CID sobre CE’s. Logo em seguida, fez um diagnóstico geral do problema, das formas como ele afeta o setor saúde. Analisou as fontes de informação e documentação oficiais existentes, sua importância e suas deficiências. Realizou um diagnóstico situacional, embora referenciando dados do país como um todo, apresentando detalhadamente as várias formas de manifestação do problema (agressão física, abuso sexual, violência psicológica, omissões, violência interpessoal, institucional, social, no trabalho, política, estrutural, cultural, criminal e de resistência). Também distinguiu as formas como a
violência incide em homens e mulheres e nas diversas faixas etárias (BRASIL, 2001a; MELO, 2008).
Quanto às diretrizes dessa política, temos: promover a adoção de comportamentos e ambientes seguros e saudáveis; monitorar a ocorrência de acidentes e violência; sistematizar, ampliar e consolidar o atendimento pré-hospitalar; incrementar uma forma de cuidado multiprofissional às vítimas de violência e acidentes; estruturar e consolidar os serviços de recuperação e reabilitação; investir na capacitação de recursos humanos, em estudos e em pesquisas específicas, sobretudo nos assuntos que possam iluminar as práticas nos três níveis, principalmente, o local.
Outro marco importante foi a formulação do “Plano de Ação” pela Portaria 936 do MS, de 18/05/2004, criado, inicialmente, no ano de 2003 e implantado em 2005. Seu conteúdo conta com subsídios sobre a estruturação da “Rede Nacional de Prevenção da Violência e Promoção da Saúde” e a implantação e implementação de “Núcleos de Prevenção à Violência” em estados e municípios. Para a formulação desse instrumento, inicialmente, foi feito um diagnóstico, por meio do qual, aliado aos indicadores de morbimortalidade, o MS estabeleceu um “ranking” dos municípios com mais de 100 mil habitantes, onde a situação de violência, configurada por taxas de mortalidade por homicídios, acidentes de trânsito e suicídio, fosse mais dramática (BRASIL, 2005c).
No ano de 2005, o MS ainda divulgou a série “Impacto da violência sobre a saúde dos brasileiros” atendendo a uma recomendação da OMS, para que cada país desenvolvesse estratégias de promoção para diagnosticar os impactos da violência no Brasil, com vistas a fundamentar, ainda mais, as ações de prevenção (BRASIL, 2005a)
Entre outras implantações importantes estão: a Portaria 1.968/2001, que trata da notificação obrigatória pelos profissionais de saúde das situações de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes (BRASIL, 2001b); a Portaria 1.969/2001, que dispõe sobre o registro e o preenchimento da Autorização de Internação Hospitalar (AIH) nos casos de atendimento das CE’s; (BRASIL, 2001c); e as Portarias SAS/MS n° 969 27 e 970/2002, que disponibilizam uma nova ficha de registro de entrada de pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS), com a intenção de captar com mais qualidade aqueles advindos dos acidentes e violência (BRASIL, 2001d).
Nesse sentido, Minayo (2007) ressalta que o Brasil tem sido pioneiro no mundo quanto à criação, implantação e implementação de políticas que visem à redução e o controle da violência no território nacional.