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Perguntas como: de onde vem o conhecimento? como ele se transforma? são comumente estabelecidas quando suscitamos a possibilidade de definir o termo conhecimento. É fato que desde o início da humanidade a curiosidade e a vontade de aprender nos moveram ao desenvolvimento e evolução face ao conhecimento que foi sendo adquirido: um dos primeiros lampejos do conhecimento veio do fogo que trouxe com ele seu poder de transformação; passamos a manifestar nossas conquistas, desafios e comportamentos e rituais
fazendo desenhos em cavernas; a evolução ganhou novas formas de transmissão de conhecimento, sobretudo, por meio dos recursos tecnológicos; adquirimos habilidades que mudaram a história da humanidade para sempre; usamos símbolos para impulsionar nossa evolução; o avanço do conhecimento influenciou a formação das civilizações; o homem desenvolveu ferramentas para dominar e disseminar o conhecimento.
Além disso, outros fatos históricos que denotam o conhecimento na evolução da humanidade são: a origem da democracia e de nossa noção de cidadania por meio das organizações sociais e políticas da Grécia; a invenção do papel face a uma mistura de fibras vegetais deixaria a China e ganharia o mundo; a criação da prensa; a renascença da humanidade com a quebra dos paradigmas e avanço das artes, literatura e ciências, superando a herança clássica e nascendo para uma época de iluminação; a luta por territórios que levaram o homem para novos horizontes; o registro de diferentes formas de olhar o mundo ou diferentes olhares sobre um mesmo objeto; as guerras mundiais com suas dores, devastação e surgimento e utilização de novas tecnologias que evoluíram ao longo do tempo para diferentes funcionalidades; a descoberta do espaço e do universo sucumbindo e transformando o tempo e o espaço geográfico; entre muitas outras coisas.
Uma análise de todos esses acontecimentos, ao longo da história da humanidade, nos leva a perceber que a humanidade acompanhou e impulsionou a evolução do conhecimento ao mesmo tempo em que ela própria progredia e aprimorava sua forma de comunicá-lo. Descobrimos novas possibilidades de produzir, receber e compartilhar conteúdos. Avançamos no desenvolvimento da tecnologia de forma a alcançar limites antes impossíveis e chegamos num momento em que digital e real se confundem. Estamos numa busca incessante por aquilo que move nossa existência e impulsiona nossa evolução: o conhecimento.
Para refletir o termo levamos em conta que as redes de comunicação têm sido incorporadas, de forma irreversível, ao cotidiano humano. São elas as responsáveis pelo fluxo informacional intenso na sociedade e pela geração contínua de conhecimentos que integram o cotidiano dos cidadãos. Essa nova forma de comunicar traz estratégias inovadoras de informar e de aprofundar saberes, o que demanda análises mais críticas a respeito do fluxo de informação, da construção e uso do conhecimento e da GC inseridos na realidade atual.
Tal como ocorre com o termo ‘informação’, também há definições diversificadas sobre o termo ‘conhecimento’ no âmbito das mais diversas ciências. Concepções filosóficas abarcam o entendimento de que o conhecimento é um elemento do ser cognitivo: inexiste conhecimento sem a pessoa que o detém.
conhecimento por duas vertentes: a do empirismo, que afirma que o conhecimento pode ser adquirido por indução, por meio de experiências sensoriais; e a do racionalismo, no qual o conhecimento pode ser adquirido por dedução, por meio do raciocínio.
Já Abbagnano (1982) afirma que as interpretações filosóficas, ao longo da história da humanidade ocidental, estão baseadas em dois momentos. O primeiro trata-se da relação entre identidade e semelhança em que os pré-socráticos, os filósofos da natureza, Sócrates, Platão e Aristóteles, estabelecem bases bem sólidas sobre a interpretação do termo. Esses filósofos entenderam que o conhecimento transcende a visão mitológica de mundo, cuja essência do conhecer está no ‘conhecer-se a si mesmo’, no ‘vir de dentro’, na justaposição das verdades filosóficas em busca de opiniões próprias de conhecimentos oscilantes (SANTOS; LLARENA; LIRA, 2014).
Para as autoras, além desses teóricos, outros refletem o conhecimento neste primeiro momento. São eles: Santo Agostinho (racionalista) que coloca no mesmo plano o objeto conhecido e o sujeito cognoscente como condição do conhecimento, através da unidade e da distinção recíproca da memória, da inteligência e da vontade. Tudo isso reproduz no homem a trindade divina. São Tomás de Aquino (empirista), para quem o conhecimento é a abstração da forma da matéria individual, do particular para se relacionar ao universal. E, Hegel, Fichte, Schopenhauer, Wittgestein, Descartes e Locke, que tratam o conhecimento como uma operação de identificação e semelhança em três formas principais: a criação que o sujeito faz do objeto, em que conhecer significa produzir ou criar o objeto reconhecendo no próprio objeto o sujeito; a consciência, que se dá por meio da unificação entre sujeito e objeto, mente e corpo, no processo cognitivo, através da consciência, da ideia ou do espírito, em que o conhecimento é obtido por meio de experiência sensorial; e a linguagem, que é utilizada para descrever fenômenos, considerada como jogo ou interação entre pessoas com regras sobrepostas predefinidas.
No segundo momento o conhecimento é tido como operação de transcendência. Autores como Kant, Husserl, Heidgger e Dewey destacam interpretações filosóficas que passam pela ideia da construção do conhecimento através da relação do eu pensante com o mundo. Perpassam o ‘idealismo transcendental’ de Kant e acreditam que o conhecimento se dá a partir da percepção sensorial do objeto transcendental. Chegam à ‘consciência pura’ de Husserl, em que o conhecimento só é possível através da descrição das interações entre a consciência pura e seus objetos.
Nas visões mais contemporâneas alguns autores também se destacam, a exemplo de Hessen (2000, p.19) que merece destaque por abordar a temática de maneira ampla. O autor
conceitua a teoria do conhecimento como “uma interpretação e uma explicação filosófica do conhecimento humano. [...] Conhecer significa apreender espiritualmente um objeto”. Essa apreensão não é um ato simples, mas uma multiplicidade de atos. O autor apresenta dois métodos por meio dos quais podem ser fundamentados os estudos sobre o conhecimento: o psicológico e o fenomenológico. O primeiro trata da investigação dos processos mentais e de suas relações com outros processos. O segundo tenta apreender a essência geral no fenômeno concreto, abordando aspectos essenciais a todo conhecimento. E afirma que o conhecimento pode ser definido como uma determinação do sujeito pelo objeto e que “o dualismo do sujeito e do objeto pertence à essência do conhecimento”. Assim, sujeito e objeto relacionam-se e sofrem alterações mútuas (HESSEN, 2000, p.20).
Nonata (2007) também se destaca por afirmar que os conceitos de conhecimento foram se modificando à medida que ocorriam mudanças na sociedade, e que as definições de conhecimento aconteceram em torno de paradigmas. Sobre a primeira afirmação, afirma que
[...] qualquer que seja a visão que elaboremos de como a mudança acontece, a leitura filosófica diz-nos que ela ocorre sempre como resultado da percepção que se tenha da realidade, formada graças a descobertas importantes e que tem como núcleo básico a compreensão das relações mente (consciência) e matéria (cérebro). [...] O conhecimento, pois, cada vez mais avançado dessas relações, especificou-se, por épocas, de acordo com a leitura da realidade que dela fizeram as diferentes culturas. Então, surgiram diferentes e sempre melhoradas visões de mundo, de ser humano, de conhecimento e de sociedade (NONATA, 2007, p. 263).
Em relação às definições paradigmáticas, a autora afirma que seriam os paradigmas responsáveis pelos tipos de conhecimentos vivenciados e pelas necessidades das buscas por suas definições e aplicações.Ao longo da história três paradigmas marcaram as definições dos termos: o ontológico, o moderno e o neomoderno. O primeiro, considerado clássico ou tradicional, está firmado na experiência de duas grandes tradições históricas: a judaica e a grega, em que a imagem de um ser superior que oriente os passos dos seres humanos traduz- se na luz divina que leva à necessidade. Neste paradigma ‘conhecer’ significa ‘desvelar’ os fatos e fenômenos.
O paradigma moderno centra-se na ideia de que “é do centro de si mesmo que o homem lança o olhar ao seu arredor, buscando novo horizonte da racionalidade” (VERZA, 1996, p. 31). Nesse paradigma, o homem “[...] se faz por si mesmo e se valoriza pelo seu esforço pessoal, que instrumentaliza o seu pensar e o seu fazer, no sentido de avançar sempre mais na conquista desse mundo, que se lhe apresenta promissor” (NONATA, 2007, p. 269). Sendo assim, surge a racionalidade instrumental com o auxílio da ciência e da tecnologia,
assim como nasce a hierarquização das áreas do conhecimento, e aquelas disciplinas tidas como exatas ou científicas passaram a ser privilegiadas nos currículos escolares.
No paradigma da neomodernidade percebe-se que todos os seres humanos podem crescer e aprender na (inter) ação com os outros. Neste processo é essencial aprender a importância da conversa, do diálogo e da interação com os nossos semelhantes/diferentes e dividir nossas angústias, certezas e incertezas para construir conhecimentos.
Nesse sentido, para Morin (1999), o conhecimento, para ser atingido, requer, necessariamente, um pensamento complexo, que perpassa pelo conhecimento do conhecimento. Para o autor, as relações entre os contrários devem permanecer para que prevaleça o aprofundamento do conhecimento, uma vez que não se pode separar a parte do todo, ou seja, para
[...] deslocar e ultrapassar o problema dos fundamentos do conhecimento, deve-se ter um pensamento, ao mesmo tempo, dialógico, reflexivo e hologramático, para evitar as dicotomias do holismo/reducionismo, do construtivismo/realismo e do espiritualismo/materialismo (MORIN, 1999, p. 256).
Para Morin (1999, p.18), o conhecimento é um fenômeno multidimensional, “simultaneamente físico, biológico, cerebral, mental, psicológico, cultural, social”, mas que foi esfacelado pela fragmentação disciplinar da Ciência e pela separação da Filosofia, o que resultou na crise das ideias. Nesse sentido, o autor reconhece a necessidade de “estabelecer o difícil diálogo entre a reflexão subjetiva e o conhecimento objetivo” (MORIN, 1999, p. 29), considerando as diferenças e as complementaridades da complexidade e do caráter multidimensional do problema em que, “na crise dos fundamentos e diante do desafio da complexidade do real, todo conhecimento hoje necessita refletir sobre si mesmo, reconhecer- se, situar-se, problematizar-se. Não há conhecimento sem conhecimento do conhecimento” (MORIN, 1999, p. 34). Isso pressupõe que não há conhecimento sem a sua gestão no mais simples do cotidiano da vida à mais complexa aplicação na interação com o outro. Em outras palavras, para o autor,
[...] a vida não é viável nem passível de ser vivida sem conhecimento, o conhecimento de um indivíduo, ao mesmo tempo produto e produtor de um processo auto-(geno-feno-ego)-eco-re-organizador, ou seja, o ser vivo produz conhecimento e colabora sendo objeto dele, numa interação que se processa objetiva e subjetivamente (MORIN, 1999, p. 224).
O pensamento do autor reconhece que a humanidade do conhecimento aparece-nos não somente como a união indissolúvel da animalidade e da humanidade do conhecimento, mas também como a união indissolúvel da humanidade, que está sempre em busca da verdade
e da culturalidade do conhecimento, em qualquer âmbito da sociedade, principalmente no ‘organizacional complexo’.
Nesse sentido, resgatamos Pérez-Montoro Guitiérrez (2008, p. 42) – com quem concordamos e tomamos por base nesta investigação – e seu conceito de conhecimento aplicado no contexto social organizacional da contemporaneidade. Para o autor,
[…] el conocimiento debe ser identificado con un tipo especial de estados mentales (o disposiciones neuronales) que posee un individuo y que presentan una serie de características propias. Por un lado son estados mentales que adquiere el individuo a partir de un proceso de asimilación o metabolización de información. En este sentido el contenido semántico de estos estados mentales coincide con esa información asimilada. Y por otro, actúan de guía en las acciones y la conducta de ese individuo. Es decir, que rigen la toma de decisiones.
Para o autor, o conhecimento, diferente dos dados e da informação, se encontra estreitamente relacionado com as ações e as decisões do sujeito que as realiza. Inclusive se pode avaliar esse conhecimento utilizando, como indicadores, essas ações e decisões. O conhecimento é o fator crítico que permite a assimilação de nova informação e a criação de novo conhecimento, reestruturando-se continuamente pelas entradas ou metabolização de novas informações assimiladas, o que permite planejar as condutas e as ações e tomar decisões.
Porém, o autor é claro ao enfatizar que, para entender o termo conhecimento, não deveríamos nos esquecer de outros conceitos muito próximos que permitem sua aquisição: experiência, verdade, crença e valores. Sobre o termo ‘experiência’ pode ser definido como conjunto de vivências protagonizadas por cada indivíduo ao longo de sua vida dando a possibilidade de criar novo conhecimento ao nos capacitar para entender novas situações a partir de outras que já foram vividas e encontrar novas respostas que nos permitam adaptar aos novos cenários.
Em relação à verdade, o autor afirma que o conhecimento implica verdade porque o conhecimento e suas ações derivadas têm que estar em sintonia com o que realmente ocorre. A realidade se encarrega de refinar e melhorar o conhecimento, desestimulando e apagando de nossa cabeça aquele suposto conhecimento ou pseudoconhecimento que não funciona ou não sintoniza com ela. Além disso, o conhecimento implica o juízo de crença, ou seja, o estado mental de um indivíduo que se encarrega de manter um compromisso com a verdade. Por último, é preciso refletir o conceito de valores, pois são eles que determinam o
background que rege nossas ações e, portanto, nossa maneira de conhecer e nosso
Sendo assim, “nos queda señalar también que la caracterización de estos tres conceptos que […] permite, en la mayoría de las circunstancias, la discriminación física entre los datos, la información y el conocimiento” (PÉREZ-MONTORO GUITIÉRREZ, 2008, p. 44).
Em concreto, segundo a proposta do citado autor, dados, informação e conhecimento situam-se em três níveis distintos. O primeiro se encontra no território puramente físico, caracterizados como acontecimentos físicos ou pedaços ou parcelas da realidade, está dotado de natureza material. O segundo situa-se no território conceitual e caracteriza-se pelo conteúdo semântico dos dados, dotado de um valor de verdade. Sendo assim, um mesmo dado pode transportar diferentes informações e uma mesma informação pode ser transportada simultaneamente por diferentes dados. O último, como estado cerebral ou disposição neuronal, pertence ao território mental. E, devido a esta natureza (mental), o que o diferencia dos dados ou da informação é que o conhecimento é difícil de capturar, representar e transferir no seio de uma organização.
Dentro de este esquema, la información se convierte en conocimiento a través de procesos humanos y sociales de captación, elaboración y comprensión. Esos procesos se realizan tanto en contexto individual como en los entornos corporativos. No debe extrañarnos, por tanto, que sea más difícil gestionar el conocimiento que la información, ya que el conocimiento implica, esencialmente, a personas y sus complejos procesos internos cognitivos como, entre otros, la asimilación, el análisis y el aprendizaje (PÉREZ-MONTORO GUITIÉRREZ, 2008, p. 44).
Tudo isso expressa que existe uma relação muito próxima entre informação e conhecimento à medida que são aplicados nos contextos sociais e organizacionais com ações voltadas à construção de conhecimento.
2.2.3 O processo de criação do conhecimento organizacional
Em conformidade com os autores acima, poderíamos definir o conhecimento como a informação combinada com a experiência, o contexto, a interpretação e a reflexão em uma unidade complexa. É uma classe de informação de alto valor que está preparada para aplicar- se às tomadas de decisões e à realização de ações (DAVENPORT, 1998). Na visão de Barbosa (2008), o conhecimento, especificamente, tem conquistado gradativamente maior valorização nas organizações contemporâneas, o que desperta a atenção crescente de gestores, profissionais e pesquisadores. Isto faz com que autores como Drucker (1969) acreditem que, em termos de economia, nos dias de hoje, o conhecimento constitui o custo mais elevado das