Até agora, foram expostas duas instituições (bolsa de valores e bolsa de mercadorias e futuros) que fazem parte do segmento normatizado do mercado de capitais. Porém todos os pontos foram destacados de forma genérica, sem fazer relação com nenhuma bolsa específica atuante no país. Sendo assim, será apresentada agora a principal bolsa brasileira, a BM&FBOVESPA, que além de ser uma bolsa de valores também é uma bolsa de mercadorias e futuros.
A BM&FBOVESPA- Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros S.A. é uma companhia brasileira de capital aberto criada em 2008, fruto da fusão de duas bolsas, a Bovespa que era segundo Cavalcante, Misumi e Rudge (2005) o maior centro de negociações com ações da América Latina. Nela, eram negociadas ações, opções sobre ações, direitos e dividendos sobre ações, bônus de subscrição e cotas de fundos. E a BM&F que era uma bolsa de mercadorias e futuros, onde eram transacionados contratos futuros e opções de dólar, ouro, taxas de juros, índice de ações e commodities agrícolas. Ela era a principal bolsa do país em negociações de derivativos e a única bolsa de futuros atuante (BM&FBOVESPA, 2012).
Mesmo com a fusão das duas bolsas, internamente na BM&FBOVESPA funcionam de forma separada os dois segmentos acima. Como é deixado claro no relatório do ano de 2011 da BM&FBOVESPA, que mostra que o segmento Bovespa abrange as etapas dos ciclos de negociação de valores mobiliários, de títulos, de renda variável e de renda fixa, nos mercados de bolsa e Mercado de Balcão Organizado (MBO). Isto porque a BM&FBOVESPA gerencia os únicos ambientes de balcão organizado e de bolsa nacionais para a transação de valores mobiliários de renda variável, os quais compreendem ações, recibos de ações, certificados de depósito sobre ações de empresas brasileiras ou estrangeiras (BDR - Brazilian Depository Receipts), bônus de subscrição, cotas de diferentes tipos de fundos de investimentos fechados, derivativos sobre ações, cotas representativas de certificados de investimento audiovisual, opções não padronizadas (warrants) de compra e de venda sobre valores mobiliários, e outros títulos e valores mobiliários autorizados pela CVM.
Já o Segmento BM&F abrange as principais etapas dos ciclos de negociação e liquidação de títulos e contratos, que são: (i) sistemas de transação em ambientes de pregão eletrônico e pregão via internet (WebTrading); (ii) sistemas de registro, compensação e liquidação de operações, associados à forte e sofisticado sistema de gerenciamento de risco designado a assegurar a boa liquidação das operações registradas; e (iii) sistemas de custódia de títulos do agronegócio, de ouro e de outros ativos. Além disso, o segmento aqui em questão
inclui a negociação de mercadorias, de câmbio pronto, de ativos da dívida pública, dos serviços prestados pelo Banco BM&F e pela Bolsa Brasileira de Mercadorias (BM&FBOVESPA, 2011b).
De acordo com o site da própria bolsa, a BM&FBOVESPA tem como objetivo administrar mercados organizados de títulos, valores mobiliários e contratos de derivativos, além de oferecer o serviço de registro, liquidação e compensação, atuando como contraparte central, de forma a garantir a liquidação financeira das transações realizadas em seus ambientes.
Atuam dentro do ambiente da BM&FBOVESPA as seguintes empresas: i)- BM&FBOVESPA Supervisão de Mercados que atuam como órgão auxiliar da CVM no que tange à observância da regulação dos mercados da Bolsa; ii)- Bolsa Brasileira de Mercadorias que tem a função de registrar e liquidar as operações que envolvem mercadorias, bens e serviços para a entrega física, bem como dos títulos representativos desses produtos, tanto nos mercados primários como nos secundários e nas modalidades à vista, a termo e de opções; iii)- o Banco BM&F que foi criado em 2004 para facilitar a compensação e a liquidação financeira das operações feitas em seu ambiente de negociação e funcionar como mecanismo fundamental de diminuição de risco e de suporte operacional; iv)- a BM&F USA Inc. que é uma subsidiária integral, situada na cidade de Nova York (EUA), com um escritório de representação em Xangai e uma subsidiária integral em Londres, seu objetivo é representar a BM&FBOVESPA no exterior, buscando um bom relacionamento com outras bolsas e agentes reguladores; e v)- as clearings (câmaras de compensação) de ações, derivativos, câmbio e títulos públicos que já foram apresentadas anteriormente, mas vale acrescentar que elas possuem uma forte estrutura de regulação e supervisão, baseada na autorregulação das bolsas, na avaliação e na supervisão constante dos modelos de risco e de liquidação cumpridas pelo Banco Central do Brasil, e na supervisão dos mercados de valores mobiliários realizada pela CVM (BM&FBOVESPA, 2011).
Ainda falando das clearings, é por meio delas que a Bolsa atua como contraparte central garantidora das operações, ficando responsável pela boa liquidação das transações realizadas e registradas dentro de seu sistema. Logo, se um agente participante da bolsa não cumprir com suas obrigações, como por exemplo, não realizar pagamentos ou não entregar ativos, ficará a cargo da BM&FBOVESPA acionar os mecanismos de salvaguardas, de acordo com a legislação do SPB já apresentada. (BM&FBOVESPA, 2011). De acordo com Leuthold et al.(1989, p.37) apud Gonzalez (1999), a clearing house tem a responsabilidade de i)- fazer
a compensação das transações ocorridas; ii)- garantir a integridade financeira das transações; e iii)- propiciar os meios para liquidação física (quando for o caso).
A BM&FBOVESPA também possui desde 2008 uma parceria com a CME Group, que inclui entre outros, o projeto de um sistema de roteamento de ordem entre as duas bolsas, que permite que clientes não residentes no Brasil possam ter acesso direto aos produtos da bolsa brasileira e que clientes domiciliados do Brasil possam acessar diretamente produtos do CME Group. Inicialmente este roteamento era feito por meio da plataforma eletrônica Global Trading System (GTS) e as negociações eram feitas somente no mercado de derivativos. Atualmente esta em andamento o processo de implantação o PUMA Trading System CME Group e BM&FBOVESPA que substituirá o GTS e que desde agosto de 2011 já processa negócios nos mercados de derivativos, commodities e câmbio pronto. Tal roteamento de ordens é muito benéfico para a bolsa brasileira, uma vez que traz mais liquidez, proporciona uma maior internacionalização e ainda reduz custos (BM&FBOVESPA, 2012).
E a ligação da bolsa brasileira com a CME Group não se restringe a parceria citada acima, de acordo com Thomson Reuters Brasil (2012) as duas bolsas divulgaram um acordo para a listagem cruzada de índices de referência globais e de contratos de commodities e de energia, aumentando a oferta de produtos para investidores brasileiros e estrangeiros. Este acordo prevê que a BM&FBOVESPA lance em bolsas pertencentes ao grupo CME, contratos futuros de petróleo WTI, e mini-contratos de soja da bolsa, sendo que este último já teve sua negociação iniciada no dia 11 de junho de 2012.
E mais recentemente, Bovespa [...] (2012), informou que a BM&FBOVESPA assinou um acordo estratégico de operação conjunta com a bolsa do Chile, visando o roteamento de ordens entre as duas bolsas, nos moldes de como a BM&FBOVESPA faz com a CME. A intenção da bolsa chilena com este acordo é desenvolver seu mercado de derivativos que atualmente tem pouco volume, também há interesse no desenvolvimento de produtos para o mercado de balcão.
Segundo o relatório da própria bolsa, o volume financeiro total no segmento Bovespa chegou a R$1,61 trilhões em 2011, ultrapassando a marca de R$1,60 trilhões, alcançada em 2010. Ainda dentro do segmento Bovespa o número total de negócios atingiu o número de 141.229.649 em 2011. Já no segmento BM&F foram negociados 671.979.899 contratos em 2011, o que gerou um volume financeiro R$46,50 trilhões.
Considerando a abordagem realizada acima, que explorou os principais pontos da parte regulamentada do mercado de capitais e que trouxe uma maior compreensão sobre as bolsas de valores e de mercadorias e futuros, além de uma exposição sobre a
BM&FBOVESPA, pode-se compreender um pouco da estrutura de funcionamento de tal mercado. Os próximos capítulos terão como tema principal o mercado de balcão, que também faz parte do mercado de capitais apresentado por este seção, bem como sua divisão em organizado e não organizado.
3 O MERCADO DE BALCÃO ORGANIZADO BRASILEIRO
Este capítulo trata das características, da organização e da estrutura de funcionamento do mercado de balcão organizado brasileiro. Procurar-se-á com tal exposição, deixar clara todas as definições e peculiaridades que existem dentro deste mercado, de forma a identificar os tipos de agentes e instituições que atuam dentro de tal ambiente, bem como os papéis que nele são comercializados. Para tanto, inicialmente será apresentada uma definição geral do mercado de balcão propriamente dito e posteriormente tratar-se-á do segmento organizado de tal ambiente financeiro.