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Antes de adentrar propriamente na definição e na discussão dos contratos de balcão não organizados, por meio dos quais os produtores conseguem crédito para sua produção, será feita uma breve exposição da situação do crédito rural brasileiro que levou ao surgimento de novas formas de financiamento por meio dos contratos de balcão aqui estudados.

Almeida (2008), Gonçalves et al.(2005) e Rezende e Zylbersztajn (2011) apontam que o aparecimento das fontes alternativas de crédito para a agropecuária citadas anteriormente, pode ser creditado à falta de oferta de crédito rural por parte do setor público. Isso porque de acordo com Gasques e Conceição (2001), no final de década de 80 e começo da década de 90, ocorreu um esgotamento do sistema tradicional deste tipo de financiamento, que era pautado principalmente nos recursos do Tesouro Nacional. Logo o Estado brasileiro diminuiu sua intervenção no agronegócio com uma redução drástica dos subsídios destinados à agricultura e com o desmonte do aparelho estatal ligado ao financiamento rural (LIMA FILHO et al., 2007).

Segundo Silva (2006), a política púbica de crédito rural passou por basicamente quatro períodos distintos, o primeiro foi de 1966 a 1979: quando os recursos eram crescentes e o crédito era subsidiado pelo setor público; o segundo foi de 1980 a 1989: quando os recursos já estavam escassos; o terceiro de 1990 a 1996: período de preparação para o abandono do crédito rural como financiamento da agropecuária e o último de 1996 até hoje: maior envolvimento do setor privado na criação de crédito para o setor rural. E é justamente desta maior dedicação do setor privado agropecuário para a obtenção de financiamento, devido à

escassez de crédito público, que surgiram os novos instrumentos de crédito negociados no mercado de balcão não organizado, que já foram aqui citados e serão melhor detalhados a seguir.

De acordo com Gonçalves et al. (2005), neste período, a saída para o produtor rural foi apelar para o mercado informal de crédito, que passa a responder por uma parcela significativa dos financiamentos. Gonzalez (2011) salienta que para não perder a dinâmica adquirida, a economia rural começou a fazer uso de créditos privados, alavancados em estruturas informais como as negociações de escambo (conhecidas no ambiente agrícola pelo jargão “troca-troca”) e contratos a termo (como os de soja verde), logo a escassez de crédito fez com que os agentes se movessem na busca de alternativas que proporcionassem o financiamento privado das safras e da comercialização propriamente dita. Belik e Paulillo (2001, p.106) também argumentam nesta linha:

Nesse sentido, formas alternativas de financiamento agropecuário tem surgido, pautadas nas interações financeiras dos agentes privados - empresas de processamento, empresas de máquinas e insumos agropecuários, agricultores integrados, traders, securitários, etc. Neste mecanismo, onde os preços atuais e futuros das commodities agrícolas são fixados, os recursos privados foram canalizados como objetivo de garantir a agilidade na comercialização física e no financiamento das culturas. Nesse cenário alternativo de financiamento agropecuário no país, destacam-se o sistema de soja verde, títulos privados, certificados de mercadorias negociados em bolsas de mercadorias e o da troca de produtos por insumos utilizados pela indústria, que avançou mais nos segmentos da soja e do café.

Considerando que para Almeida e Franca (1993), o crédito rural formal é o empréstimo feito pelas instituições do sistema financeiro na esfera do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) 27 e sob a supervisão direta do governo. Tem-se que os financiamentos informais são aqueles realizados fora do controle do governo, de forma que não são previstas pelo SNCR, logo o crédito buscado pelos produtores no setor privado, após a drástica diminuição do subsídio público, esta inserido no segmento de financiamentos informais. Os autores acima consideram a existência de quatro tipos mais comuns de transações financeiras informais no setor rural, que são as seguintes: i) empréstimo em dinheiro realizado fora do sistema bancário; ii) operação de escambo tipo insumo-produto ou serviço-produto; iii) compras e vendas antecipadas de produção e iv) empréstimos e poupanças feitos por grupos de poupança ou associações de poupança e crédito rotativo estabelecidos pelos próprios produtores. As negociações de mercado de balcão não organizado que serão expostas ao

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De acordo com o artigo 7º da Lei n.4829 de 5 de novembro de 1965 as instituições que fazem parte do SNCR são: O Banco Central do Brasil, o Banco do Brasil S.A., o Banco de Crédito da Amazônia S.A., o Banco do Nordeste do Brasil S.A. e o Banco Nacional de Crédito Cooperativo.

longo deste capítulo se enquadram nestas divisões apresentadas, e tão logo fazem parte da classificação de financiamento informal proposta por Almeida e Franca (1993).

Almeida e Franca (1993) alocam as principais diferenças entre o crédito formal e o crédito informal em forma de tabela (que é exposta na página a seguir), baseando-se nas informações de Araújo e Almeida (1992) e tornando clara a disparidades existentes entre tais modalidades de crédito.

Analisando a Tabela 1, fica evidente que o crédito informal, que dentre outras maneiras é obtido através dos contratos de balcão não organizado, tem custos financeiros maiores que o crédito formal, porém o seu custo de transação, a burocracia envolvida e a demora na liberação dos recursos são menores. Isso porque, como também é salientado na Tabela 1, os agentes que são envolvidos nas negociações de crédito formal são bancos e cooperativas de crédito, ou seja, instituições que se cercam de cuidados e garantias formais antes de liberarem qualquer tipo de crédito, já que são fiscalizados pela CVM. Por sua vez os agentes envolvidos nas negociações informais de crédito, são agentes que não são fiscalizados pelo órgão citado acima, logo não são obrigados a seguir regras rígidas para o fornecimento de crédito. De acordo com Araújo e Almeida (1992), quando se trata de transações informais o conhecimento entre as partes (emprestador e tomador) e a confiança mutua são a base das operações.

Tabela 1- Principais diferenças entre crédito formal e crédito informal

Item Crédito Formal Crédito informal

Valores Transacionados + - Prazos de Empréstimos + - Custos Financeiros - + Custos de Transação + - Área de Atuação + - Garantias Exigidas + -

Reciprocidades financeiras pessoais

Burocracia + -

Demora na liberação de recursos

+ -

Finalidades Imprevistas (doenças, consumo familiar, adversidades climáticas, investimentos de alto risco)

Não Sim

Agentes Bancos e Cooperativas de

crédito

Agiotas, vendedores de insumos, casas de penhor, parentes, grupos de poupança, ROSCAS*, corretores de empréstimos, instituições financeiras não regulamentadas + (maior); - (menor)

*Rotating Savings and Credit Associations Fonte: Almeida e Franca (1993).

Ainda segundo Araújo e Almeida (1992), quando o produtor não consegue obter crédito formal, por qualquer motivo, como por exemplo, falta de garantias para oferecer no empréstimo, o mercado informal aparece como opção para se obter recursos externos. Dentro do mercado informal de crédito existe uma vasta gama de contratos tidos como instrumentos de obtenção de financiamento, sendo que estes não são negociados exclusivamente no ambiente de balcão não organizado agropecuários, porém devido ao enfoque deste trabalho, serão expostos somente aqueles negociados no mercado em questão neste capítulo.