No capítulo anterior, quando se tratou do Sistema de Pagamentos Brasileiro, também já foi apresentada a atuação da CETIP como depositária de vários papéis financeiros. Aqui nessa subseção será dada ênfase ao desempenho deste órgão, como entidade de balcão organizado, depositária de derivativos.
A CETIP foi criada em 1984 pelo Banco Central em conjunto com instituições financeiras, como uma associação civil sem fins lucrativos, pertencente às instituições que eram suas associadas e iniciou suas atividades em 1986. Sua criação objetivava propiciar mais segurança e agilidade às operações do mercado financeiro brasileiro. Em 2008 sofreu um processo de desmutualização, transformando-se em uma sociedade anônima e em 28 de outubro de 2009 a companhia passou a ter capital aberto, com ações negociadas no Novo Mercado.
Os negócios realizados no mercado de derivativos de balcão passaram a ter a possibilidade de serem registrados na CETIP após a aprovação da Resolução nº 2.138 de 29 de dezembro de 1994 do Banco Central do Brasil, que posteriormente foi revogada pela Resolução nº 2.688 de 26 de janeiro de 2000. No artigo segundo desta última resolução fica estabelecido como obrigatório o registro das operações de derivativos de balcão (Swaps e opções de swaps, referenciadas em ouro, taxas de câmbio, taxas de juros e índices de preços), em sistema administrado pela Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos – CETIP ou em outros sistemas de registro, de custódia e de liquidação autorizados pela CVM e que atendam às necessidades de fiscalização e controle por parte do Banco Central do Brasil (como por exemplo, a câmara de derivativos da BM&FBOVESPA apresentada acima).
De acordo com a própria página virtual da CETIP, ela é o único mercado de balcão organizado do mundo a reunir em um só ambiente a negociação, o registro, a custódia, a gestão de garantias e as atividades de compensação e de liquidação dos derivativos de balcão. Sendo considerada como a maior registradora de ativos do mercado de balcão da América Latina, com mais de R$ 4 trilhões em ativos e derivativos registrados (Informação
disponibilizada por Carlos Eduardo Ratto Pereira, diretor executivo de Produtos Comerciais e Marketing da CETIP, (2012)). Porém a companhia, diferente da câmara de derivativos da BM&FBOVESPA, não assume a posição de contraparte central para as operações efetuadas em seu mercado, desta forma, não se expõe a perdas de capital.
Ao invés de servir como contraparte central para as partes dos contratos de derivativos de balcão, a CETIP oferece atualmente em parceria com a Clearstream, subsidiária do Deutsche Börse Group23 o serviço de gestão de colateral24, que possibilita o gerenciamento do risco bilateral do negócio. De acordo com Sant’Anna (2009) a gestão colateral é uma técnica de suavização de risco de crédito de contraparte ligada às transações com derivativos de balcão.
O elemento central deste serviço é a CETIPCOLATERAL, que proporciona aos seus clientes acesso em tempo real a todas as informações relacionadas às alocações de colateral e comporta o lançamento das exposições a serem cobertas. CETIP (2011) apresenta a CETIPCOLATERAL como um módulo de gestão de colateral que proporciona ferramentas de gestão de garantias em relações bilaterais, tornando possível desta forma a mitigação de risco para as transações com derivativos registradas no mercado de balcão, através da administração de ativos entregues como garantia. Todos os participantes autorizados a registrar contratos de derivativos na CETIP, podem ser usuários do sistema CETIPCOLATERAL. Porém, para ser usuário de tal sistema de gestão de colateral, o participante deve fazer um pedido formal junto a CETIP.
De acordo com o folheto explicativo sobre os serviços de gestão de colateral da CETIP e segundo Carlos Eduardo Ratto Pereira, em entrevista concedida, tal serviço se inicia com a existência de um risco bilateral que tem a necessidade de ser mitigado por colaterais elegíveis. Sendo assim, primeiramente as instituições devem calcular e notificar seu nível de exposição no CETIPCOLATERAL, ou então, elas podem contratar a CETIP para efetuar este cálculo. Com o nível de exposição calculado, o sistema alocará automaticamente o colateral, de maneira ótima, nas contas de colateral dos recebedores de garantia, tais ativos vêm das contas dos provedores de garantia. Os garantidos e os garantidores receberão por meio da CETIPCOLATERAL todas as informações referentes aos ativos nas contas de alocação e nas contas de colateral, e aos valores de exposição ligados a todas as relações bilaterais. E os participantes podem utilizar ativos registrados na CETIP e na SELIC (Sistema Especial de
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Bolsa alemã 24
Ativo financeiro ou de qualquer outra natureza, dado como garantia por um devedor para avalizar determinado empréstimo.
Liquidação e Custódia) nas contas de alocação. CETIP (2011) salienta que uma das principais ferramentas que o sistema de gestão de colateral oferece é a possibilidade de aplicação de diferentes parâmetros que servirão de base para o sistema administrar ativos em garantia.
Segundo Sant’Anna (2009), o uso da gestão de colateral pode trazer os seguintes benefícios:
i) - Mitigação do risco de crédito da contraparte; ii) - Diminuição da alocação de capital;
iii) - Acréscimo no universo de prováveis contrapartes; iv) - Crescimento da liquidez do mercado; e
v) - Viabilização de operações mais complicadas e de risco elevado.
Sendo assim, o modelo de gestão de colateral, por meio de uma infraestrutura de mercado baseada na regulação e na centralização de informações, consegue trazer para as negociações com derivativos de balcão mais transparência e flexibilidade, de forma a evitar transtornos referentes ao risco de crédito e a elevados níveis de alavancagem, pelas instituições participantes do mercado de balcão organizado.
De acordo com dados da CETIP o volume de registro de derivativos de balcão tem apresentado forte tendência de crescimento de abril de 2011 até abril de 2012, como mostra o Gráfico 1:
Fonte: CETIP/Market Report
Fonte: CETIP/Market Report
Gráfico 2- Valor financeiro por tipos de derivativos registrados
Do total de R$600 bilhões em estoque de derivativos, verificado no Gráfico 1, a maior parte (55%) do valor financeiro de derivativos registrados são Foreing Exchange, ou FOREX (FX), ou seja, divisas estrangeiras e a menor parte são de commodities que representam 1% do valor financeiro registrado, como deixa claro o Gráfico 2. Sendo que dentro desta última porcentagem do valor financeiro, a participação dos diferentes tipos de commodities se da na seguinte proporção: açúcar 21.36%, alumínio 17,54%, petróleo 11,78%, soja 11,11%, zinco 10,13%, cobre 9,24%, café 7,17%, boi, 4,04%, níquel 3,74%, milho 3,17%, prata 0,42%, etanol 0,27%, estanho 0,04% (Informação fornecida por Boesso,(2012)).
Além das leis existentes e dos sistemas disponíveis na economia brasileira para se efetuar o registro dos derivativos, já apresentados por este trabalho. A fim de fortalecer ainda mais o fluxo de informações sobre os derivativos de balcão registrados na BM&FBOVESPA e na CETIP e de ir ao encontro da tendência internacional pós-crise de maior regulação e administração de risco, foi criada em 2010 a Central de Exposição a Derivativos (CED), que será exposta a seguir.