De acordo com Triches e Bertoldi (2006), um sistema de pagamentos consiste em um conjunto de regras, instrumentos e procedimentos, que permitem a transferência de recursos financeiros entre agentes não bancários, bancos, governo, instituições financeiras e Banco Central. Tal definição é corroborada pelo Banco Central do Brasil (2009), que afirma que o Sistema de Pagamentos é um conjunto de normas, métodos, instrumentos e sistemas operacionais interligados, por meio dos quais são feitos pagamentos e transferências de fundos financeiros entre diversos agentes econômicos. Sendo que localizado em uma ponta de tal sistema de pagamentos estão os bancos e os instrumentos de pagamento (cheque, cartões de débito e crédito, dinheiro em espécie, etc.) e na outra ponta estão os sistemas de compensação e liquidação das obrigações.
Segundo Brito (2002), o sistema de pagamento é um componente essencial da infra- estrutura de qualquer economia de mercado, que dependa da liquidação diária de milhares de transações vindas de compras e vendas de bens, serviços e ativos, sendo assim uma condição importante para um sistema de pagamentos é a certeza de liquidação de pagamentos efetuados por meio de seu sistema de participantes.
O Sistema de Pagamentos Brasileiro, tal qual ele é atualmente é fruto da reforma conduzida pelo Banco Central do Brasil nos anos de 2001 e 2002, que culminou, dentre outras coisas, com a implantação do Sistema de Transferência de Reservas (STR) no dia 22 de abril de 2002. Com este sistema que é operado pelo Banco Central, as liquidações financeiras passaram a ser realizadas em tempo real, o que possibilitou a redução do risco de liquidação e, por conseguinte, do risco sistêmico.
Isso porque o STR é um sistema de permutas interbancárias de fundos, que possui liquidação bruta em tempo real, em que somente o titular da conta a ser efetuado o débito pode dar a ordem de transferência. Tais ordens podem ser dadas pelo próprio participante em seu nome ou por terceiros, em benefício do participante destinatário ou de cliente do participante destinatário, sendo que hoje o limite mínimo é de R$3 mil por transferência, valor este que foi definido pelos participantes. Estas transferências de fundos aqui em questão são consideradas irrevogáveis e incondicionais, a partir do momento em que são efetivados os lançamentos correspondentes nas contas de liquidação (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2009).
De acordo com o artigo 4º e 5º da Resolução nº 2.882 de 30 de agosto de 2001, que dispõe sobre o sistema de pagamentos, as câmaras e os prestadores de serviços de compensação e de liquidação que o integram, o Banco Central atua dentro do SPB com o
objetivo de garantir a solidez, o funcionamento normal e o contínuo aperfeiçoamento de tal sistema. Para tanto o BACEN deve regular as atividades das câmaras e dos prestadores de serviços de compensação e de liquidação, bem como autorizar o funcionamento de seus sistemas, além de supervisionar as suas atividades. Já a Comissão de Valores Mobiliários, de acordo com o artigo 6º da mesma resolução, atua no âmbito das operações com valores mobiliários, também regulando as atividades, autorizando o funcionamento e supervisionando as câmaras, os prestadores de serviços de compensação e de liquidação.
Segundo o parágrafo único da Lei nº 10.214 de 27 de março de 2001 que dispõem sobre a atuação das câmaras e dos prestadores de serviço de compensação e de liquidação no ambiente do Sistema de Pagamentos Brasileiro, fazem parte do SPB, além do serviço de compensação de cheques e outros papéis, os seguintes sistemas: i) de compensação e liquidação de ordens eletrônicas de débito e de crédito; ii) de transferência de fundos e de outros ativos financeiros; iii) de compensação e de liquidação de operações com títulos e valores mobiliários; iv) de compensação e liquidação de operações realizadas em bolsas de mercadorias e de futuro; e v) outros, inclusive envolvendo operações com derivativos financeiros cujas câmaras ou prestadores de serviços tenham sido autorizados.
De acordo com o propósito deste trabalho, o segmento do Sistema de Pagamentos Brasileiro ao qual deve ser dado maior atenção, é o que compreende o Sistema de liquidação de operações com títulos, valores mobiliários, derivativos e câmbio interbancário. Sendo assim, será feita agora uma apresentação sobre tal sistema, visto que este será importante para o entendimento de determinadas estruturas organizacionais que serão posteriormente apresentadas.
O Sistema de liquidação de operações com títulos, valores mobiliários, derivativos e câmbio interbancário pode ser sintetizado pela Figura 1.
MERCADO DE BALCÃO MERCADO DE BOLSA CETIP BM&FBO VESPA ATIVOS BM&FBO VESPA CÂMBIO SOMA SELIC DERIVATI VOS CBLC BANCO CENTRAL DO BRASIL CONTAS DE LIQUIDAÇÃO STR
Fonte: Banco Central do Brasil (2009).
Figura 1- Sistema de liquidação de operações com títulos, valores mobiliários, derivativos e câmbio interbancário
Serão expostos brevemente os órgãos que fazem parte do sistema demonstrado na Figura 1:
- Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic): responsável pela liquidação das transações que envolvem títulos públicos federais e alguns títulos estaduais e municipais, efetivadas no mercado de balcão. Tal sistema efetua as negociações, primárias e secundárias, envolvendo títulos públicos federais, e as transações de compra ou de venda de certificados de depósito interbancário. Todos os títulos negociados nesse sistema são escriturais e custodiados em nome de seus possuidores (BRITO, 2002).
-Central de Custódia e Liquidação financeira de Títulos (CETIP): é a depositária principalmente de títulos de renda fixa privados6, títulos públicos estaduais e municipais e títulos representativos das dívidas de responsabilidade do Tesouro Nacional. Na categoria de depositária, a entidade executa a emissão, o resgate e a custódia dos títulos, bem como, quando é o caso, o pagamento dos juros e demais eventos a eles relacionados. Ela também registra operações realizadas no mercado de balcão. Vale lembrar que a CETIP não atua como contraparte central. (Posteriormente voltaremos a falar com mais detalhes sobre a CETIP) (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2009).
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Certificados de depósito bancário (CDB), Recibos de depósito bancário (RDB), Depósitos Interfinanceiros (DI), letras de câmbio (LC), letras hipotecárias (LH), debêntures e commercial papers, entre outros.
-Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC): é responsável pela compensação, liquidação e controle de riscos das operações realizadas do âmbito da BM&FBOVESPA e da SOMA (que serão tratadas posteriormente). No caso da BM&FBOVESPA a CBLC lida com títulos de renda variável (mercados à vista e de derivativos - opções, termo e futuro) e, também, com títulos privados de renda fixa. Já no caso da SOMA, são liquidadas operações com títulos de renda variável (mercados à vista e de opções) e com títulos de renda fixa. A BM&FBOVESPA, por meio do sistema CBLC, atua também como depositária central de ações e de títulos de dívida corporativa, além de operar um programa de empréstimo relacionado a esses títulos (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2009).
- Câmara de ativos, câmara de derivativos e câmara de câmbio da BM&FBOVESPA: A primeira câmara liquida operações com títulos públicos federais e operações contratadas no domínio do Sisbex (plataforma eletrônica de transação operada pela BM&FBOVESPA). Além de operações no mercado de balcão tradicional. Já a segunda liquida contratos de derivativos referenciados em taxas de juros, taxas de câmbio, índices de preços e índices do mercado acionário. E a última câmara liquida transações interbancárias de câmbio realizadas no mercado de balcão da BM&FBOVESPA. As câmaras acima serão mais exploradas na parte deste trabalho que trata propriamente da BM&FBOVESPA.
Logo, como a apresentação anterior, é possível verificar que dentro dos sistemas de liquidação de operações com títulos, valores mobiliários, derivativos e câmbio interbancário cada órgão atua na liquidação de um tipo diferente de título ou de operação, sendo que todos são ligados ao STR que executa todas estas liquidações em tempo real, sob a supervisão do Banco Central do Brasil.
Posto que já foram expostos todos os órgãos normativos e as entidades supervisoras do SFN, bem como seu sistema de pagamentos, ficou faltando comentar sobre os órgãos operadores, que são de suma importância, já que é por meio deles que todas as negociações financeiras da nossa economia acontecem. Porém a exposição de cada órgão, um a um foge do intuito deste trabalho. Na próxima seção deste capítulo alguns deles serão expostos com um pouco mais de detalhe devido à sua ligação com o tema central do estudo.7
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Para mais informações sobre os órgãos operadores do Sistema Financeiro Nacional: site do Banco Central do Brasil: http://www.bcb.gov.br/?sfncomp.