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Ao adentrar mais nas relações dialógicas entre enunciados, não se pode deixar de observar a conclusibilidade específica de cada enunciado ou seu acabamento específico. Isso quer dizer que, em uma consulta pública digital, há limites na construção de cada enunciado pertencente a uma dada sequência enunciativa. Cada sequência enunciativa determina o limite da interação verbal on-line que, logo, efetiva o diálogo on-line entre governo e cidadãos, em dada consulta pública digital (Figura 14).

Figura 14 – Camadas da experiência discursiva na consulta pública digital

Fonte: Elaborada pela autora (2016)

ENUNCIADOS SEQUÊNCIAS ENUNCIATIVAS INTERAÇÃO VERBAL ON-LINE DIÁLOGO ON-LINE CONSULTA PÚBLICA DIGITAL

Na obra Estética da criação verbal (1979-2011, p. 270-306), ao apresentar o enunciado como unidade da comunicação discursiva, Bakhtin destacou a “conclusibilidade específica do enunciado” como peculiaridade dessa comunicação:

A conclusibilidade do enunciado é uma espécie de aspecto interno da alternância dos sujeitos do discurso; essa alternância pode ocorrer precisamente porque o falante disse (ou escreveu) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob certas condições. Quando ouvimos ou vemos, percebemos nitidamente o fim do enunciado, como se ouvíssemos o “dixi” conclusivo do falante. Essa conclusibilidade é específica e determinada por categorias (BAKHTIN, 1979-2011, p. 280, grifo nosso). A “conclusibilidade específica do enunciado”, em uma sequência enunciativa, é percebida na extensão alteridade-respondibilidade, já que ela é um aspecto interno dessa extensão. Como disse Bakhtin, é o “dixi” conclusivo do autor, percebido pelo interlocutor a partir de três elementos: a) a exauribilidade semântico-objetal do tema – algo que se falará, imediatamente, na próxima seção –, b) a vontade discursiva do enunciador, que Habermas chamou de “plano de ação individual” e c) os gêneros do discurso do enunciado, que são padrões para a produção do enunciado. Esse padrão é determinado pelo campo de argumentação (conforme, Habermas) ou campo da comunicação discursiva (conforme, Bakhtin), pelas considerações temáticas (semânticas), pela situação concreta da comunicação discursiva e pela composição pessoal de cada interlocutor (com toda sua individualidade e subjetividade). Entende-se que os elementos podem ter pesos diferentes em cada construção de enunciado. Se houver um peso maior da composição pessoal de cada enunciador e um peso menor da influência do campo de argumentação, ter-se-á gêneros discursivos mais flexíveis, plásticos e criativos. Se o peso maior for dos campos de argumentação, ter-se-á gêneros discursivos padronizados, formais ou estereotipados. Mas, esta é só inferência provisória desta investigação.

Propõe-se, para esta pesquisa, que se estabeleçam dois níveis de conclusibilidade (Figura 15) para melhor compreender os acabamentos específicos de cada enunciado e de cada sequência enunciativa, no interior da interação verbal on-line. Observando as camadas desenhadas na Figura 14, sugere-se que se visualize um micronível de conclusibilidade – aquele pensado por Bakhtin, chamado de “conclusibilidade específica do enunciado” – e um outro, o macronível de conclusibilidade.

O macronível de conclusibilidade se refere ao acabamento de uma sequência enunciativa em dada interação verbal on-line. No macronível, a conclusibilidade de cada

sequência enunciativa pode ser percebida por meio do conjunto dos enunciados individuais em relação, ou melhor, no todo do discurso. Cada acabamento, de cada sequência enunciativa, é desenhado:

a) pela relação entre o mecanismo de interlocução (consulta pública digital) e a gestão da interlocução, orientada por regras de participação – tratando-se da interlocução entre governo e cidadãos, num ambiente da esfera governamental, pressupõe-se que a relação entre consulta pública digital (mecanismo de interlocução) e a gestão dessa interlocução (realizada pela “observância das regras técnicas de ação”), sob certo controle do governo (sujeito que propõe a ação), instituem o gênero discursivo adequado que, por sua vez, orienta cada plano enunciativo individual;

b) pelo momento em que o último enunciado é expresso – trata-se do “dixi” conclusivo do último falante que sinaliza a finalização de uma das “matrizes de opinião”; e

c) a significação coletiva, produzida (ou reproduzida) em dada sequência enunciativa – trata-se do resultado (provisório) das relações semântico- axiológicas estabelecidas que geraram um efeito de sentido e uma apreciação coletiva em dada sequência enunciativa.

No micronível, a conclusibilidade específica do enunciado contém:

a) a elaboração do plano de enunciação de cada interlocutor, com suas razões próprias para dizer o que dizem e dizer como dizem – trata-se da forma particular de se pensar uma mensagem para outrem, após decidir querer-dizer algo. Antes de escrever e postar, o enunciador ajusta sua escrita para obter atenção do outro e para apresentar sua ideia, da forma a mais adequada possível, à sensibilidade do outro (seu interlocutor real ou presumido), adentrando o seu campo perceptivo. Neste plano particular, considera-se: 1) a esfera da comunicação verbal (ou campo de argumentação) em que o plano deve se concretizar; 2) o objetivo do enunciador; 3) tanto o interlocutor, quanto os enunciados já postados; 4) a força do objeto/tema frente a uma dada situação social; e 5) a necessidade de expressividade do enunciador;

b) a gestão do contato com outrem e os efeitos de sentido suscitados ao escrever- postar, formando a “tríade viva do enunciado” – trata-se da forma pessoal de

cada enunciador de responder ao enunciado precedente e, simultaneamente, apresentar à sensibilidade dos enunciadores subsequentes seu ponto de vista sobre o objeto/tema, demonstrando a força de seu argumento; e

c) o estilo pessoal do enunciador se dirigir ao(s) interlocutor(es) – que começa no momento em que ele imagina o destinatário de seu enunciado. Depende de seu grau de percepção da situação em que o tema se constituiu, do seu conhecimento especializado, ou não, sobre ele e do seu ponto de vista. No estilo de cada enunciador há escolhas de recursos lexicais, gramaticais e composicionais que revelam a relação emotivo-valorativa do enunciador com o objeto/tema e com outros enunciados.

Figura 15 – Dois níveis da conclusibilidade da interação verbal on-line

Macronível

Sequência enunciativa Microníveis

Fonte: Elaborada pela autora (2016)

Para efeito desta pesquisa, os dois níveis de conclusibilidade marcam os limites internos da interação verbal on-line. Considerando o que foi proposto, entende-se que os dois níveis de conclusibilidade, um referente a cada enunciado e outro referente a cada sequência enunciativa, só podem ser discutidos após a identificação dos aspectos emotivo- avaliativos contidos em cada enunciado que estabelecem, também, o micronível de conclusibilidade e expõem o plano enunciativo de cada interlocutor. Todavia, pode-se identificar, neste momento, alguns elementos que participam da composição, tanto do micronível, quanto do macronível. Com essa finalidade, pergunta-se: que tríade viva

Enunciado 1 Enunciado 2 Enunciado 3 Enunciado 4 Enunciado 5

(enunciado dos outros + assunto + o próprio falante) pode ser identificada em cada enunciado, revelando o plano comunicativo de cada participante da interação verbal on- line e o acabamento de seu enunciado? Em relação ao macronível: o que identifica o acabamento de uma sequência enunciativa?

Dentro dos limites das sequências enunciativas, observa-se, em seguida, como as expressões pessoais ganham destaque nas relações dialógicas entre enunciados individuais, compreendendo a dimensão dialética da interação verbal on-line, que efetiva o diálogo.

4.2.3.2 Relações semântico-axiológicas na interação verbal on-line: entonação e valoração