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PLATON’DA ĐDEAL DEVLET, YÖNETĐM VE DÜZEN

O período de 1824-1826, fruto da atuação de governos com algum pendor moderador e de restabelecimento dos pressupostos anteriores à revolução, deu algum alento à Igreja (Neto, 1998: 228). A 29 de abril de 1826, D. Pedro IV outorgava a Carta Constitucional49 que acentuaria a cliva-

gem entre os clérigos: o episcopado divergiria para uma posição mais próxima do poder político e o clero provinciano continuaria a sua viragem às vozes de oposição ao liberalismo. A notícia da outorga chegava à Madeira, por aviso, somente a 24 de julho (Carita, 2003: 425). Na ilha, o regimento de Infantaria n.º 750 acabou gerando alguns problemas, tornando a realidade cartista alarmante para a

ordem pública até ao seu regresso, em novembro, um mês após as eleições dos quatro deputados51,

sendo um deles clérigo.

A Carta estabelecia uma orgânica parlamentar constituída por duas câmaras: dos deputados e dos pares52. A segunda, aristocrática, hereditária e de nomeação do monarca, correspondia ao arqué-

tipo dos tradicionalistas ligados ao antigo regime, mas com justificação inspirativa no parlamenta- rismo anglófono. Na sua composição assentavam três classes, sendo que os bispos, arcebispos e o patriarca tinham assento por inerência53, não sendo necessário submeterem-se, como na câmara dos

deputados vintista, ao sufrágio. O artigo 65.º da Carta, na linha da Constituição de 1822, excluía o clero regular do processo eleitoral e incluía o clero secular, acentuado a separação e o privilégio de

49A Carta esteve em vigor durante três períodos distintos (1826-1828, 1834-1836 e 1842-1910), recebendo quatro atos adicionais (1852, 1885, 1895-1896 e 1907), mantendo o catolicismo como religião do reino e o culto privado de outras religiões, sem assumirem forma de templo (art. 6.º); excluiu do voto e de eleição, em assembleias paroquiais, os religiosos regulares (art. 65.º e 66.º); manteve, no ritual de juramento, a presença da religião católica, em lugar cimeiro, no juramento do rei (art. 76.º), do herdeiro do trono (art. 79.º) e dos conselheiros de Estado (art. 109.º); estabeleceu uma “imprensa sem dependência de censura”, mas sem a prerrogativa da Igreja como em 1822, e que ninguém seria “perseguido por motivos de religião, uma vez que respeite a do Estado” (145.º); previa a nomeação dos bispos, o provimento dos benefícios ecle- siásticos como atribuições do rei, além de “conceder ou negar o beneplácito aos decretos dos concílios e letras apostólicas e quaisquer outras constituições eclesiásticas”, com crivo prévio das cortes (art. 75.º), condicionando a publicação de documentos da cúria após a obtenção do beneplácito. Desaparecia a menção do catequismo no ensino. A Carta aumentava as prerrogativas do rei, conferindo também o poder régio de veto e estabelecia um sistema de duas câmaras, com géneses sociológicas distintas, onde vários eclesiásticos foram nomeados pares do reino.

50 Este regimento fora enviado, em 1823, em “apoio da alçada Absolutista” (CARITA, 2003: 425).

51 Lourenço José Moniz, sobrinho do cura da Sé; Manuel Caetano Pimenta de Aguiar; o P.e Caetano Alberto Soares, afilhado de um antigo cónego da Sé e Luís Monteiro que, por motivos de saúde, nunca ocupou o lugar.

52 Utilizaremos a designação de Câmara dos Deputados para a Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa (1822-1910) e Câmara dos Pares para a Câmara dos Dignos Pares do Reino (1826-1836) e para a Câmara dos Pares do Reino (1842-1910).

53 A 30 de abril de 1826, os primeiros pares estavam distribuídos entre 72 titulares e 19 eclesiásticos. Desses 19, “2 bispos tiveram a sua nomeação sem efeito” (SILVEIRA, 1992: 336-337). Aliás, o próprio número de religiosos que exerciam funções no parlamento foi decrescendo. Se em 1821 eram 19, passaram a 9 em 1834 e, finalmente, em 1848 eram apenas 5 (RAMOS, 2004, 495). Note-se que, desde o reinado de D. João V, Portugal tinha o direito de “apresentar” os bispos que eram “nomeados” pelo Papa. A Carta atribuiu ao rei o direito de nomear os bispos do reino, num grande avanço regalista. Neto (1998: 97) observa que, ao longo do liberalismo, “a participação da hierarquia católica na vida parlamentar foi muito pouco ativa”.

uma classe, em detrimento de outra, sendo ambas do catolicismo romano. O patriarca de Lisboa, numa carta pastoral de 23 de agosto de 1826, assumia “aceitar a Carta e recomendava que os párocos a lessem e explicassem nas missas conventuais”, ditando a regra da hierarquia católica nacional. Parte do clero mostrava-se hostil às disposições da Carta, mesmo sem alterações significativas, no foro religioso, ao previsto no articulado constitucional anterior. A 1 de março de 1827, foi publicado um diploma para que fossem identificados e punidos todos os eclesiásticos que utilizassem a sua posição para anatematizar as disposições da Carta Constitucional. O regalismo cartista exigia que a assem- bleia fosse elucidada, na homilia dominical, sobre as benesses que o regime acarretava, não sendo, de forma alguma, oposicionista ao que o catolicismo romano defendia.

Os acontecimentos de 1828, que resultaram na aclamação de D. Miguel a 7 de julho, e da sua prometida política regalista e persecutória54, interromperam a atuação do pariato eclesiástico, for-

çando um hiato que duraria até 1834 quando, a 27 de maio, a Carta foi restaurada e os episcopais foram reintegrados na condição de pares do reino55. Nesse processo, os prelados miguelistas, recusa-

dos pelo Estado, “foram substituídos por vigários capitulares (…) a questão, a que se juntou a expul- são do núncio” (Silveira, 1999: 337), com a ocupação liberal de Lisboa, resultando num Cisma, e o Estado só admitiu o regresso dos bispos expulsos como moeda de troca do reconhecimento das no- meações episcopais régias, entretanto realizadas56. Até a Regeneração, apenas onze prelados tomaram

posse.

A 17 de junho de 1828, o rei demitiu o governador da Madeira. Muito do clero do campo foi uma fonte de apoio do bispo do Funchal, D. Francisco Rodrigues de Andrade, que congregava os miguelistas, mas não reunia o consenso político na cúria regional: o cónego vigário geral, o pároco de Santo António e de S. Jorge e um dos curas de S. Pedro mostravam-se absolutistas e a “tropa mantinha-se fiel a D. Pedro e pressionava o bispo” (Clemente, 2012: 42). Várias figuras de relevo local, que eram liberais, como o deão da sé, alguns padres e notórios morgados, buscaram o exílio em Inglaterra, até ao triunfo de D. Pedro. A 28 de julho de 1828 o cabido da catedral pronuncia-se favoravelmente pela Carta, reforçando o seu pendor liberal: “contradizer a ela (à Carta) é rejeitar a própria representação”57. O médico João Francisco de Oliveira, numa missiva remetida ao seu filho

54 Entre os castigos, os açoites e o degredo foram os destinos dados a vários defensores liberais, incluindo clérigos, cf. Oliveira (2009: 350). Essa atitude adensou a guerra interna e externa da Igreja.

55 VARGUES, 1989: 283. Silveira (1992: 337) apresenta, no período 1826-1884, 47 prelados que tomaram posse, repre- sentado 10,8% do total de pares, e, no período 1826-1910, 56 prelados, sendo 7% do total.

56 Clemente (2012, 182) sintetiza: “Lisboa reconhecia na prática a legitimidade eclesiológica do episcopado de 1832 e Roma retinha fora das respetivas dioceses alguns dos prelados mais conotados com o miguelismo, substituindo-os nelas por vigários-gerais escolhidos consensualmente pelas duas cortes”.

57 Documentos para a Historia das Cortes Geraes da Nação Portugueza, 1888: 175. Pastoral emitida pelo deão e pelo cabido da Sé do Funchal, a 22 de julho de 1828. Cf. Descripção da Soleminidade, que o Clero, e todos os Emigrados Portuguezes, que formão o Depozito de Plymonth, fez na Igreja Catholica desta Cidade, no dia 12 d’Outubro de 1828, anniversario do gloriozo Nascimento de S. M. I. o Senhor D. Pedro I.º Imperador do Brazil (1828), para atestarmos a

no Funchal, relata as suas observações a partir da capital do reino: “Aqui nada de novo… o Senhor D. Miguel, que não sabe, nem quer saber governar, segue atendendo às festividades dos Santos” (Ca- rita, 2008: 355). Esses factos servem para ilustrar e afastar uma conceção, que foi um pouco genera- lizada em certa historiografia, de que o clero foi atraído, em grande parte, pelas convicções miguelis- tas, em detrimento de uma fraca adesão eclesiástica a causa liberal, o que não foi suportado por do- cumentação coeva58.

Em 1830, instalou-se nos Açores uma regência cuja representação percorreu a Europa para obter apoios à rainha e onde, a partir de 1832, D. Pedro, ignorou a conceção hierárquica da Igreja portuguesa e reunir o poder das reformas em diferentes comissões, também compostas por clérigos, que aconselhariam e influenciariam o rumo das mudanças protagonizadas pelos futuros governos.

Enquanto a movimentação açoriana adensava, Roma alinhava-se com a posição absolutista. O Papa conservador Gregório XVI acabou por conduzir a repercussões na situação político-social de Portugal. A reconhecimento da causa miguelista, dado pelo sumo pontífice através da constituição apostólica Solitudo Eclasiarum, representou uma conquista internacional e diplomática de grande importância para o absolutismo português e acentuou a animosidade entre a causa liberal e a cúria romana, o que acabaria por conduzir ao Cisma. Antes disso, na sua chegada à França, D. Pedro remete uma dura missiva ao Papa59, onde ameaça: “não reconheço, desde já, nem reconhecerei para o futuro,

como válidas, as nomeações de bispos feitas pelo usurpador da coroa (…) eu protesto diante de Deus, e de Vossa Santidade, que nenhum príncipe foi, nem é mais alheio, do que eu, do temerário desejo de excitar um cisma”60.

Em 1832 começa a guerra, no território peninsular, que “terá sido, provavelmente, a primeira de tipo ideológica em Portugal” (Oliveira, 2009: 369). Existem registos da uma grande participação dos regulares nas tropas absolutistas, inclusive relatando que, “apenas dois meses após o desembarque liberal, 1200 monges combatiam nas fileiras absolutistas” (Oliveira, 2009: 377). A exegese de todos esses indicadores pode sopesar a opinião generalizada de que a maioria dos clérigos regulares inte- grou as fileiras militares miguelistas. Um estudo estatístico de 2009 indicou que, de acordo com os dados apurados no Arquivo Histórico do Ministério das Finanças61, o comportamento dos clérigos

diversidade de clérigos e o próprio cisma interno que a guerra civil despertou e alimentou na Igreja. 58 Sobre essa temática, cf. CLEMENTE, 1991: 111-154.

59 Cf. Carta de D. Pedro ao Papa de 12 de outubro de 1832, in Collecção de Decretos e Regulamentos Publicados Du- rante o Governo da Regência do Reino Estabelecido na Ilha Terceira. Desde 15 de Junho de 1829 até 28 de Fevereiro de 1832, 1836: 135-138.

60 Collecção de Decretos e Regulamentos…,1836: 137.

61 Cf. Oliveira (2009: 377-396), que analisou os arquivos localizados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e na Biblioteca Municipal do Porto (Relação de Todos os Eccleziasticos Seculares, e Regulares da Cidade do Porto) para expor a relação de regulares e as informações sobre o seu comportamento político. O investigador apurou que “58% dos monges manifesta, à partida, sérias dúvidas nas vantagens das propostas liberais” (p. 394), pois se afastaram dos respeti- vos cenóbios com a chegada das tropas liberais, citando várias casas onde atestam-se exemplos da penetração do apoio a

regulares na região de Entre-Douro-e-Minho não obedece o estereótipo que associa os regulares à causa absolutista. A clero estava dividido, num comportamento que era análogo a outros extratos da sociedade portuguesa. Mas isso não permite a adução e confirmação da teoria que apresenta a ligação direta entre os regulares e o absolutismo, em oposição ao liberalismo.