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6. FÂRÂBÎ'DE ERDEMLĐ OLMAYAN YÖNETĐM BĐÇĐMLERĐ

Durante a Regeneração, o Estado seguiu a sua política regalista, tentando fazer valer a supre- macia secular, face ao poder eclesiástico, conjugada com o combate à supranacionalidade da Igreja de Roma. Essa atuação conduzia à contínua debilidade política e temporal do aparelho eclesiástico, submisso à vontade do governo, e o clero, sobretudo o rural, mantinha a sua inclinação para uma obediência à cúria romana. A vontade de reconciliação política era grande e também assentava na fatiga generalizada que as lutas dos últimos anos provocaram, aliada à neutralização política, de um exército unido e que só regressou como árbitro em 1870, na Saldanhada (Bonifácio, 2010: 65).

Nessa arquitetura de poderes, entre o papado e o governo, Roma foi ao auxílio da Igreja Lu- sitana quando, em 1849, Pio IX determinou a aplicação do produto das esmolas da Bula da Cruzada para o “sustento e melhoramento dos seminários e auxílio das igrejas carenciadas” (Azevedo, 2000: 276), regulado pelo decreto de 20 de setembro de 1851156, que estabeleceu a Junta Geral da Bula da

Cruzada, subordinada ao ministério do governo de Fonseca Magalhães, cujas contribuições poderiam isentar os fiéis de várias obrigações como o jejum ou a abstinência a carne. Depois de um forte de- créscimo no número de clérigos seculares157, as novas condições de financiamento dos seminários

propiciaram um aumento do número de candidatos ao sacerdócio, muitos provenientes das camadas mais humildes da sociedade, em busca de uma profissão melhor (Marques, 2014: 906).

Ainda nesse ano, o governo decreta a criação do Conselho Geral de Beneficência158, que irá

dirigir várias misericórdias, hospitais e asilos, sob a presidência de um membro do governo e a vice- presidência do cardeal patriarca de Lisboa, com designo de “reformar e melhorar os diversos institu- tos que lhe ficam sujeitos” e também distribuir a malha de atuação dessas instituições de forma mais homogénea pelo reino159, cabendo ao Estado as decisões sobre qualquer alteração na organização e

administração da beneficência pública. O conselho foi incumbido de “chamar e ligar com as diversas instituições a seu cargo a benemérita corporação das Irmãs da Caridade”160.

O enquadramento legislativo foi apoiado pelas grandes epidemias que assolaram o país nessa

156 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1852: 349-353. A portaria de 25 de fevereiro de 1857 estabeleceu a forma de consulta da Junta para distribuição dos benefícios aos seminários (Collecção Official de Legislação Portu- guesa…, 1857: 26) e o

157 Oliveira Marques (1972: 46-47) indica que, entre 1820 e 1840, o clero secular sofreu uma redução de 24 mil para dez mil religiosos.

158 Justificando-se também nos motivos de ligação entre os cuidados de saúde e as instituições de caridade de matriz religiosa, num relatório assinado pelo duque de Saldanha, por Rodrigo da Fonseca Magalhães, por Fontes Pereira de Melo e por António de Autogia. Decreto de 26 de novembro de 1851 (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1852: 440-442).

159 É referida a necessidade de descentralização para que o auxílio possa ser mais abrangente. Collecção Official de Le- gislação Portuguesa…, 1852: 443.

160 As “Vicentinas” foram novamente enquadradas no regime de exceção. Collecção Official de Legislação Portu- guesa…, 1852: 444.

década. Entre 1853 e 1856, desenvolveu-se uma grande epidemia de cólera, seguida da febre-amarela, entre 1856-1857, num reflexo das fracas condições de salubridade. Foi nesse quadro de enfermid ades que, em 1856, a Direção da Sociedade Protetora dos Órfãos Desvalidos pediu autorização para traze- rem mais irmãs da Congregação de S. Vicente de Paulo, face ao insuficiente número de religio sas dessa ordem para auxiliarem no seu hospital privado, sendo autorizado a 9 de fevereiro do ano se- guinte161. Também a Associação N. S. Consoladora dos Aflitos e a Venerável Ordem Terceira de S.

Francisco solicitaram o apoio de religiosas da congregação em França162. Os proponentes dos pedidos

estão ligados à alta aristocracia163 que, além de aumentar o espetro de atuação das obras caridosas,

também conseguia reforçar a influência da Igreja nos grupos sociais mais desfavorecidos, e na opinião pública, sem desconsiderar que poderia existir uma estratégia, não oficiosa, na própria cúria romana. Foi essa congregação feminina, a primeira a entrar em Portugal, em 1857164, numa tentativa para

romper o cisma vigente desde 1833, sendo seguida de uma reintrodução progressiva de outras ordens, focando as suas ações no ensino e nas obras de caridade (Neto, 1998: 237). Os setores que se mani- festavam contra a presença das religiosas também utilizavam como escopo anticlerical a influê nc ia estrangeira das religiosas165, na apologética que alertava para a ameaça do princípio da soberania

nacional, e o ingresso das religiosas no campo do ensino. Pouco tempo depois, a congregação seria o alvo de uma intensa campanha, que se alastrou dos jornais até ao parlamento, passando por manife s- tações populares, até a expulsão da congregação de Portugal em 1862, recolhida para França166. Du-

rante a discussão pública sobre o caso, em 1858, ocorreram dois comícios anticlericais no teatro D.

161 Cf. a portaria de 9 de fevereiro de 1857 (Collecção Official da Legislação Portuguesa… [Suplemento], 1858: 1-3). 162 Cf. alvarás de 9 de fevereiro de 1857 e de 11 de abril de 1857 (Collecção Official da Legislação Portuguesa… [Su- plemento], 1858: 2-5); decreto de 3 de setembro de 1858 que autorizou as três instituições “para mandarem vir de França […] algumas irmãs da caridade da Congregação de S. Vicente de Paulo” e a manutenção de dois religiosos estrangeiros, seus confessores, no território (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1859: 347).

163 Veja-se, por exemplo, o caso da Sociedade Protetora foi fundada pelo imperatriz do Brasil, gozando do patrocínio das infantas D. Mariana e D. Antónia. O hospício Princesa D. Maria Amélia, cuja direção foi colocada sob guarda das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo, pela imperatriz do Brasil, D. Amélia de Leuchtenberg, foi um alvo polémico. A 17 de janeiro de 1875, instalou-se na freguesia de S. Pedro a primeira conferência de S. Vicente de Paulo e, em 1880, a futura madre Mary Jane Wilson fixar-se-ia no Funchal onde estabeleceria, nessa mesma freguesia, um colégio feminino. 164 A Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, Servas dos Pobres, também conhecida como Irmãs ou Filhas da Caridade ou Vicentinas, tem a fundação de uma casa, em Portugal, autorizada por D. João VI, a 14 de abril de 1819. As primeiras religiosas, vindas do estrangeiro, chegaram a 23 de outubro de 1857 (ABREU, 2008: 542). Ao longo de 1858 vários pares do reino discutiram o caso das “Vicentinas”, cf. Diário da Câmara dos Pares do Reino de Portugal n.ºs 39, 43, 45, 52, 53, 58, 70 e 80). A 22 de março de 1861 o Ministério dos Negócios do Reino informa a recusa da congregação em cooperar nos inventários de bens, determinados pelo governo, mandando que o governador civil, em caso de reincidência do incumprimento, proceda “contra as delinquentes na conformidade das leis” (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1862: 119).

165 Cf. aviso do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça de 3 de outubro de 1860, para que “as irmãs da caridade sejam restituídas à exclusiva obediência” do patriarca de Lisboa (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1861: 642), o que foi recusado pela congregação, como atesta o ofício enviado pelas irmãs ao ministério (NETO, 1998: 305). 166 Diário da Câmara dos Pares do Reino de Portugal, n.º 75 de 26 de maio de 1862. A religiosas foram transportadas a 9 de junho de 1862, na fragata de guerra francesa L’Orenoque.

Maria II e várias manifestações e iniciativas posteriores de concentração popular de pendor anticleri- cal (Neto, 1998: 301). Acusadas de desobediência ao prelado diocesano e de estarem subordinadas a um estrangeiro, e na ausência de aplicação de vários diplomas produzidos, a pressão popular, influ- enciada e instigada por alguma imprensa, acabou ditando a dissolução da congregação e a nacionali- zação dos seus bens, encerrando as 12 casas existentes, restando apenas o Asilo, posterior hospital, de S. Luís, em Lisboa167. A província portuguesa das Irmãs seria restabelecida em 1881, só sendo

extinta com a república168.

A partir dos anos 60, a política de dessacralização da sociedade estava abalada com a reintro- dução progressiva das ordens religiosas que acabaram por contribuir para abrandar a secularização da consciência coletiva, sem desconsiderar que a luta contra os regulares foi constante, num clima de conflitualidade, que culminará na república (Neto, 1998: 297). O caso das Irmãs da Caridade, pelo mediatismo e popularidade, configurou-se como um pendão ideológico da escalada anticlerical.

Na Madeira, as cisões religiosas a partir da segunda metade do séc. XIX têm dois focos: o antijesuitismo, apesar dos jesuítas nunca terem regressado institucionalmente, e o antilazarismo169.

Estes últimos, pretendendo regressar à Madeira em função da “assistência religiosa ao hospício D. Maria Amélia e da direção espiritual das Filhas da Caridade de S. Vicente de Paulo”, mas com a entrada adiada em função da expulsão das vicentinas e da falta de recursos humanos para responder ao pedido (Abreu, 2015: 737-738).

No quadro nacional, a situação do Padroado do Oriente ganhou pujança e configurou-se como um dos pilares da batalha ideológica, pois era uma questão impactante no cenário internacional para a debilitada posição lusitana enquanto potencia colonizadora, contrastando com a intenção da Santa Sé em limitar o peso religioso português no panorama asiático e, em particular, na China (Neto, 1998: 242). Menos de dez anos170 após a celebração da concordata de 1848, D. Pedro V celebrou um novo

acordo com Pio IX, regulando o exercício do padroado do Oriente e trazendo novo fôlego nas relações entre os dois Estados, com um interregno em alguma conflitualidade ainda observada.

O envolvimento político de alguns clérigos motivou, poucos dias após a morte da rainha, um alerta que o clero não deveria ser iludido pelas “instigações de parciais políticos”, devendo manter a

167 Cf. portaria de 5 de março de 1861, que intimou a congregação a ser dissolvida e os seus bens nacionalizados (Collec- ção Official de Legislação Portuguesa…, 1862: 85) e o decreto de 22 de junho de 1861, acompanhado do relatório do Marques de Loulé, que dissolveu a corporação (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1862: 235-237). 168 Em 1930, a atual província teria início, registando-se, em 2005, 24 comunidades locais, sendo três delas no Funchal (Abreu, 2008: 543).

169 A Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo, também conhecida como Padres Vicentinos ou Padres Lazaristas (designação que remete para a primeira residência do instituto, o edifício do Priorado de S. Lázaro), foi fundada em Paris, a 17 de abril de 1625 (ABREU, 2008: 299).

170 A concordata foi alvo de clarificações, existindo um compromisso final em 1859 e a ratificação, em 1860, pelo governo português.

sua “subordinação e respeito às autoridades civis” e aos seus superiores eclesiásticos171. Após a apo-

geu persecutório dos religiosos afetos ao miguelismo, o governo continuava atento ao comportamento dos sacerdotes. Registam-se situações pontuais, como o de um pároco que foi alertado sobre o seu dever de imparcialidade durante o processo eleitoral em curso, pois usou da parenética para recomen- dar um dos candidatos, aconselhando “que evitassem votar noutros”172. Numa tentativa de sanar a

parcialidade nos sermões, no “incitamento às paixões políticas”173, o governo alertou os magistrados

para as punições aos religiosos que convertessem “a cadeira do evangelho em tribuna política”174,

enviando comunicação a todos os prelados diocesanos. Muitos clérigos, em períodos eleitorais, ten- tavam dissuadir as assembleias para o voto nos candidatos próximos do absolutismo ou liberais que se enquadravam nas suas preferências, situação que também se registará na Madeira, com destaque para as zonas rurais175.

Podemos afirmar que, em Portugal, entre 1848 e 1870 ocorreu uma evolução na questão do poder papal entre protestos e uma aceitação otimista (Rodrigues, 1980: 418). Em dezembro de 1854, o Papa proclamou o dogma da Imaculada Conceição, que seria alvo do beneplácito régio, em março de 1855176, após a aprovação das cortes, servindo para reforçar a devoção mariana, que vinha desde

a Idade Média, mas que ganhou fôlego no séc. XIX, além do seu ápice no século seguinte, num período posterior às aparições de Fátima. O hiato de três meses até à concessão da aprovação real foi acompanhado pelo o silêncio do episcopado, face ao júbilo popular que, por todo o reino, celebrava o dogma (Seabra, 2009: 44), correspondendo às intenções da Igreja em fomentar o fervor religioso para combater o avanço secular. Logo em julho de 1855, o governo revogou a interdição dos religio- sos beneficiados e dos egressos de “alhear bens de raiz em sua vida, ou de dispor deles por sua morte, em favor de pessoas que não sejam leigas”177, permitindo aos egressos fazerem uso livre dos seus

bens, ainda em vida dos seus progenitores, o que estava proibido desde 1835. A encíclica Quanta

Cura e o Syllabus Errorum, “catálogo de erros do nosso tempo”, acabaram por não receber o bene-

plácito régio, novamente com a concordância do episcopado, salvo as exceções do Porto e de Angra. Entre as oitenta proposições enumeradas como erros do nosso tempo, destacava-se “a laicidade do Estado, a liberdade de consciência e de cultos, a liberdade de imprensa, a soberania do povo, o direito de a sociedade civil se intrometer em assuntos religiosos e a supressão do poder temporal do Papa”

171 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1854: 723-724. Diploma de 28 de novembro de 1853.

172 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1858: 44. Da mesma forma que o governo apela a influência dos párocos na adoção do sistema métrico-decimal, em 11 de fevereiro de 1860 (Collecção Official de Legislação Portu- guesa…, 1861: 72-73), como convida os párocos a lerem, nas missas, os nomes dos emigrantes falecidos no Brasil, convidando-os a prestar esse serviço (Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1861: 492-493).

173 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1865: 213. 174 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1865: 214. 175 Cf. Martins, 2004: 38-39; 85-87.

176 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1855: 54-57. 177 Collecção Official de Legislação Portuguesa…, 1855: 175-176.

(Neto, 1998: 383).