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Plâtoncu Đdeal Site Düzeninde Akıl ve Filozof-Kral

4. PLÂTONCU ĐDEAL SĐTE DÜZENĐNĐN ÖZELLĐKLERĐ

4.2. Plâtoncu Đdeal Site Düzeninde Akıl ve Filozof-Kral

Toutes les vies sont fausses. C’est la narration qui est vive, ou vitale, ou vitalisante, ou revivifiante.

Pascal Quignard120

Ao penetrar na ficção bentiana, o leitor, quer seja madeirense, quer residente na Madeira, identifica-se facilmente com os lugares, os tipos de personagem e as situações que a memória regista. Os cenários descritivos ou situacionais fazem passar diante do leitor que experimentou viver (n)a Madeira imagens reconhecíveis ainda hoje: é a moldura natural da Ponta Delgada, com o mar à frente e o paredão da Muranha atrás; são as Lombadas, de um lado, e os Enxurros, do outro; eis, ainda, as ruas do Funchal, como a do Conde de Carvalhal, da Carreira ou de João Tavira e a Avenida do Mar. A suave orografia do Porto Santo não é esquecida, em Luísa Marta. Outros pormenores da paisagem são também focados ou evocados, como a espuma do mar nos calhaus, os “corredores” dos vinhedos, o serpentear das veredas, as nuvens a galgar as arestas da serrania, a fragrância das matas da encosta. A etnografia ocupa um lugar assinalável através das comidas locais121, da vida no campo, dos arraiais, das crenças e lengalengas. Há imagens de marca ou ícones que identificam a ilha, tais como o mais que centenário Diário de Notícias (passim), do Funchal, o Hotel Reid’s122 (TV, 236), o café Golden Gate (LCM, 54), o Major Reis Gomes123 (LM, 172), a empresa de navegação

120 Pascal QUIGNARD, Les ombres errantes, Paris, Grasset, 2002, p. 170.

121 Remetemos o leitor interessado nesta temática para a nossa monografia, intitulada Comeres e Beberes Madeirenses em Horácio Bento de Gouveia, Porto, Campo das Letras, 2005 (Col. “Autores da Madeira”). 122 Hotel de referência, na cidade do Funchal, em que estanciaram personalidades de renome internacional, que abriu as portas em Novembro de 1891, sendo-lhe concedida a licença a partir de 22 de Janeiro de 1892.

123 João dos Reis GOMES (n. Funchal, 5 de Janeiro de 1869; f. Funchal, 21 de Janeiro de 1950), além de Oficial do Exército, engenheiro, industrial, foi escritor e crítico literário. Em 1887, inscreveu-se na Escola Politécnica de Lisboa, no curso de Oficial de Artilharia, onde obteve as mais altas classificações. Foi professor de Ciências do Liceu do Funchal, entre 1900 e 1928, e director (além de professor) da Escola

Cabrestante (LM, 163, 164), o Bazar do Povo (LCM, 79; LM, 164), o Sport Club Marítimo (LCM, 153-154; M, 355), “o maço de cigarro Mascotes” (AM, 140). Estas marcas da cor local funcionam não como mera inventariação, mas como mola capaz de accionar a poesia do lugar, ou seja, a memória afectiva que o leitor madeirense possa ter desses mesmos lugares, valorizando antes o que a Madeira tem de duradouro, de original e de autêntico em vez de projectar um folclore “para inglês ver”.

Na verdade, a superação do regionalismo banal, misto de pitoresco e de exotismo de fachada, dá-se, para Horácio Bento de Gouveia, não só na esfera da contemplação e da descida às matrizes naturais da comunidade madeirense, como também na esfera da focalização das tensões entre o homem e o social, o homem e a natureza, o homem e o seu semelhante, quer de outras esferas, quer de outros hemisférios. Não raro, os percursos descritos chegam a constituir verdadeiros roteiros de viagem dentro do arquipélago e convidam o leitor, tanto a visitar os pontos obrigatórios, como a conhecer os lugares mais recônditos, ora para respirar o ar puro dos cumes da serra e lavar os olhos com vista panorâmica de cenários telúricos deslumbrantes, ora para apreciar a hercúlea empresa de humanização da ilha.

A entrega amorosa à paisagem e à experiência de vidas humanas reflecte-se na materialidade da linguagem, como observa Fernando Figueiredo, a respeito de Luísa Marta:

Horácio Bento de Gouveia impõe-se por esta pulsão interior que perpassa a sua leitura daquilo que descreve [ou seja, “compreender in loco e o melhor possível a densidade semântica e simbólica das paisagens e dos ambientes descritos”]. Há uma espécie de vivência íntima de cada referência espacial e cronológica, que supera, porventura, a construção literária e que atinge tanto mais o leitor, quanto mais próximo este estiver do

Industrial e Comercial do Funchal, entre 1929 e 1939. Publicou uma vasta obra sobre a ilha da Madeira, com várias edições esgotadas. É o caso das obras de carácter histórico A Filha de Tristão das Damas (1ªed. de 1909; 2.ª ed. 1940) e Guiomar Teixeira (1ª ed. de 1912; 2ª ed. de 1914), vertida para o italiano e representada no Teatro Municipal do Funchal, em 1914, sob o título La Figlia del Vice Ré. O ensaio, intitulado O Teatro e o Actor (2.ª ed., Lisboa, 1906), foi considerado manual obrigatório nos palcos portugueses e brasileiros. Dirigiu os jornais Heraldo da Madeira, entre 1904 e 1915, e Diário da Madeira, entre 1916 e 1940. Foi também o “mentor” da tertúlia literária “O Cenáculo”.

tempo e do espaço presentes em cada parágrafo do romance. (FIGUEIREDO 2002: 125- 126)

Tal constatação é, do nosso ponto de vista, extensível a toda a narrativa bentiana, quando esta tem por cenário zonas da ilha.

Relativamente às personagens retratadas, a galeria é extensa. O escritor tanto apresenta figuras tradicionais, como tipos genuinamente madeirenses: o herói é, regra geral, protagonizado por um adolescente submetido a um processo de maturação (Manuel Esmeraldo, João de Freitas, Pedro Guimarães, Nuno de Meneses e Albuquerque e, de certa maneira, Luísa Marta). Essa figura remete igualmente para o tipo “estudante madeirense” do campo que descobre, num primeiro momento, a cidade, a boémia e a vida liceal no Funchal e, num segundo tempo, a vida universitária, no continente, em Lisboa ou em Coimbra (veja-se, neste caso, a personagem de Vasco, em Margareta). Tal assunto já inspirara o conto “Nostalgia do milho”, no livro Redemoinho de Folhas (1943: 70-75), de Alberto Artur Sarmento, e o despretensioso livro de episódios farsantes, da autoria do madeirense Albino Rodrigues de Sousa, Estudante Bargante (1945), onde se relatam cenas da vida do estudante madeirense em Coimbra. Numa carta dirigida a Horácio Bento, datada a 26 de Julho de 1965124, o ensaísta brasileiro Agrippino Grieco descreve a avó de Pedro, em Águas Mansas, nos seguintes termos:

Sem cópia, sem mimetismo servil, inclui-se na galeria literária daquela tia Doroteia do Minho, imortalmente esculpida no romance de Júlio Dinis e mencionada nos versos nostálgicos e pungentes de António Nobre. (GRIECO, in LM, 286)

124 Esse documento, pertencente ao espólio que está na posse da viúva, D. Amélia Miranda Bento de Gouveia, esteve patente ao público na Exposição organizada pela DRAC em Novembro de 2001, no salão nobre do Teatro Municipal Baltazar Dias, aquando da comemoração do centenário do nascimento do escritor madeirense. Em todo o caso, vem também – e parcialmente – transcrito no corpo do texto em Luísa Marta, na vertente autobiográfica do romance.

Em Ilhéus/Canga, o leitor trava conhecimento com o “vilhão” digno como o João Miséria, com o bonacheirão padre Casimiro, com os gananciosos e desumanos senhorios nas pessoas de Luís da Feiteira e Custódio Filipe, com o desprezível “feitor” Pedro que zela pelos interesses do patrão, humilhando os colonos.

A personagem do emigrante é transversal a toda a obra e declina-se em vários tipos desde o Manulinho, de Lágrimas Correndo Mundo, que foi para a África do Sul, ao pai da protagonista do conto “Ana Maria”, emigrante na Venezuela, passando pelas personagens de Torna-viagem, ora vigarista ou sensual, ora sério ou bem sucedido. Em Águas Mansas, são de referir as três simpáticas figuras de comentadores da vida aldeã da freguesia, todos eles emigrantes que tiveram sucesso no estrangeiro e que voltaram à terra natal: o americano, da Eduardinha, o Anjo de Demerara e o Faustino brasileiro. Como observa Helena Rebelo, o “torna-viagem” será, para o escritor madeirense, quase sempre “uma figura de respeito porque ousou desafiar o próprio destino, indo contra a corrente, como [o próprio] sugere […] quando faz referência à água da ribeira que corre, inevitavelmente, em direcção ao mar” (REBELO 2000: 62).

O leitor reconhece, ainda, a “bilhardeira” (coscuvilheira) na prima Teodora, em Águas Mansas (AM, 91), e a imprudente e despreocupada “bordadeira” Maria da Luz, em Lágrimas Correndo Mundo. Convém não esquecer a rapariga prendada, dedicada e virtuosa125 que sabe esperar para casar com o rapaz merecedor da sua afeição, qual

125 O tópico da jovem mulher madeirense, discreta e virtuosa, tem longa tradição nas Letras afectas à Madeira. Terá origem no famoso relato que ficou conhecido pela designação de «o rapto de Isabel de Abreu» contada pela primeira vez, em letra de forma, pelo jesuíta e historiador de origem açoriana, Gaspar Frutuoso, em Saudades da Terra, no século XVI: “[na boda de D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara] onde se gastaram ricos e esquisitos manjares de toda a sorte, como os sabem fazer as delicadas mulheres da ilha da Madeira que, além de serem muito bem assombradas, mui fermosas e discretas e virtuosas, são extremadas na perfeição deles e em todas as invenções de ricas cousas que fazem, não tão-somente em pano com polidos lavores, mas também em açúcar com delicadas frutas» (citado no Elucidário Madeirense, s.v. “Abreu,. D. Isabel de”; modernizámos a ortografia do excerto). Para conhecer melhor os contornos desta curiosa história de amor, de raiz madeirense, remetemos o leitor para Ferreira de Castro que a ela se refere, resumindo-a em traços largos, no capítulo VI de Eternidade (1989: 94-96; 1ª ed. 1933), para Horácio Bento de Gouveia que dela faz uma bela síntese na crónica intitulada “Da História da Madeira: Amor desvairado” (Cf. Canhenhos da Ilha, 1966: 113-118) e para

Ângela de Lágrimas Correndo Mundo ou Maria Germana do romance Margareta. Estas raparigas ajuizadas anunciam outro tipo feminino muito presente nos últimos romances, ou seja, “a mulher, mãe de seus filhos, honesta, virtuosa, sem outras preocupações de vida social do que viver para o marido, só para ele, numa renúncia a tudo que fosse festa mundana” (LM, 187). São elas a Inês Freitas de Torna-viagem e a D. Leonor de Meneses e Albuquerque, “senhora virtuosa da sociedade funchalense” (M, 63), em Margareta, e, em certa medida, a Dona Clotilde, a madrinha de Luísa Marta, se bem que no dia em que descobre a relação extraconjugal do marido, profundamente magoada, decide abandonar o lar e voltar à casa dos antepassados no Porto Santo. Há, por sua vez, um grau de parentesco entre a Cármen, do romance Margareta, e a Dona Clotilde, por ambas desempenharem papéis muito semelhantes e por se despedirem do respectivo marido através de uma carta reproduzida em extenso.

Existe, também, o renque das personagens femininas que são vítimas de um código social rígido em vigor na ilha: Emília e Clara, do conto “Alma Negra”, Ana Maria, que dá o nome à breve narrativa que anima, Constança, do romance Águas Mansas e Luísa Marta, do livro epónimo, são todas elas raparigas, de elevado esteio moral, marcadas por um namoro que não deu certo e, consequentemente, as votou ao celibato. Todas elas remetem para a figura da velha menina126 sem idade, solteirona, que João França (1909-1996) que pretendeu dar a este episódio histórico uma dimensão literária de fôlego no romance António e Isabel do Arco da Calheta (1985), de sabor naturalista, ao reduzir o enfoque sobre a historicidade em proveito da vida privada das personagens.

126 Edmundo de Bettencourt evoca essa condição de mulher num poema, mas é no romance O Último Cais, de Helena Marques, que se apresenta a melhor definição: “As velhas meninas fazem parte de todas as famílias, são tão inevitáveis, indispensáveis e estimadas como as velhas criadas. Têm mãos hábeis ou congénita preguiça, mentes atentas e vivas ou uma irremediável indiferença pela vida que decorre à sua volta mas de que quase não fazem parte. Partirão antes do jantar, recusando delicadamente o delicado convite, sairão com a sua única criada, tão velha ou sem idade como elas próprias e, no dia seguinte ou dois dias depois, baterão à porta de outros parentes próximos ou distantes, acompanharão uma prima ao médico, à modista ou às compras e, silenciando a educação cristã e os ensinamentos de caridade ouvidos na infância, comentarão os últimos boatos da cidade, desfazendo reputações ou erigindo novos modelos de virtude, de beleza ou de espírito. / As velhas meninas, como as velhas criadas, ocupam nas famílias o papel que os coros representavam nas tragédias gregas: não fazem parte da história mas, sem elas, a

ficou para tia, algumas prontas a dizer uma sabedoria acumulada ao longo dos anos, as outras entregues ao silêncio e à solidão que aceitam, às claras, mas que as remói por dentro.

Relativamente aos tipos modernos, destaca-se o self made man que à força de trabalho honesto, determinação e sentido apurado para o negócio consegue tornar-se um empresário bem sucedido, tais como o João, de Lágrimas Correndo Mundo, e o Francisco, em Torna-viagem, curiosamente ambos de apelido homónimo – Freitas. O sucesso económico deve-se muito à sorte que os fez encontrar o funcionário ou o empregado trabalhador, sério e construtor da fortuna do patrão, como o Leonel, o negro de olhos achinesados (TV, 107), e o Ratazana, em Torna-viagem, ou o bomboteiro Elias, em Lágrimas Correndo Mundo.

Sinais dos tempos mais recentes, no desfile, surge a “estrangeira” nórdica (também muito presente nos romances do escritor madeirense Carlos Martins), bonita, culta, mas desligada dos valores familiares característicos dos costumes das gentes do sul, que se apaixona por um Madeirense e pela Madeira, como em Margareta; entra, também, em cena a jovem camponesa que não aceita a sua condição e que vai para a cidade com o intuito de tirar um curso de professora, paradigma da emancipação feminina. É o caso de Ana Maria, a do conto epónimo, e o da Luísa Marta, a que deu o título ao romance póstumo bentiano. Se é o mesmo ímpeto que as lança para a cidade, os percursos são bastantes distintos devido ao estilo de vida por que aspiram. Contudo, ambas conhecerão o mesmo fim: o celibato. Deixar o mundo a que se pertence por outro

história não teria eco, nem fundo, nem força. E ninguém ignora, nem esquecem, que assim é. Por isso, e independemente de serem ricas ou pobres, simpáticas ou desagradáveis, as velhas meninas são recebidas com gentileza, o seu lugar está sempre pronto à mesa, os criados servem-nas com solicitude, as crianças tratam-nas com respeito, as velhas meninas nunca estão a mais. E se o seu coração e o seu corpo sofrem, por vezes cruelmente, a privação de um marido, de filhos, de uma família bem próxima e bem sua, a resignação acaba por prevalecer e um sorriso corajoso, que passa de suave a azedo consoante a disposição ou a companhia, consegue esconder a penosa solidão da sua existência vazia.” (MARQUES 1993: 62-63)

que se conquista tem o seu preço. Para a mulher, o preço é ainda mais elevado no contexto de uma sociedade em que predomina a vontade masculina.

Neste aspecto, falta ainda referir o tipo do jovem de boas famílias, qual Vasco, em Margareta (1980), boémio, estroina e irresponsável, que “faz tempo” nos cafés e gosta de passear de automóvel, por vezes ébrio, a alta velocidade, à imagem e semelhança do Élvio Montenobre, protagonista do romance O Grande Amor da Irmã Elsa (1980), de Carlos Martins, a quem também sucede um grave acidente de viação.

Algumas personagens saem da costela de figuras que a Literatura Universal consagrou: o par Luísa Marta e Domingalhos faz lembrar o mítico casal Quasimodo e Esmeralda de Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo. O desvairo trágico provocado por uma crise de ciúmes de que é vítima o pescador João Parreira, em “Não foi o mar que o matou!”, evoca, em traços largos, o argumento da tragédia Otelo de Shakespeare. A odisseia de Artur, do romance Torna-viagem, e o regresso a casa para junto da mulher envelhecida remete para o exemplo de Ulisses, de Homero, embora numa versão cujo protagonista se veste de anti-herói, como o de James Joyce.

Em suma, a dialéctica do enredo não se processa apenas mediante a análise das fracturas psíquicas, nem dos conflitos de interesse, nem tão-só pela mimese de grupos e tipos locais: faz-se pela interacção assídua da personagem com um todo natural-cultural omnipresente: a Madeira. Não há dúvida de que, como frisa Alberto Figueira Gomes, “a obra de Horácio Bento aparece como a que mais legitimamente afirma a existência do romance madeirense com figuras retintamente nascidas do conflito e clima locais” (GOMES 1980).