4. PLÂTONCU ĐDEAL SĐTE DÜZENĐNĐN ÖZELLĐKLERĐ
4.3. Plâtoncu Đdeal Site Düzeninde Kanun
Só a cultura nos permite preservar a identidade, identidade que dá a dignidade, dignidade que dá o respeito pelo próximo. Não há identidade sem respeito pelo próximo – que começa no respeito por nós próprios.
Manoel de Oliveira127
Defensor de um nacionalismo literário, Horácio Bento de Gouveia faz questão de mencionar textos potencialmente matriciais de uma cultura original madeirense, citando, quer obras eruditas, tal como As Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso (C, 112), quer a literatura oral insular com os “romanceiros populares tradicionais” (C, 62 e 226) ou as liturgias da Igreja, as cantilenas de romarias e arraiais, bem como as trovas do Feiticeiro do Norte (Manuel Gonçalves), citadas em Águas Mansas (AM, 143). O recurso da “escrita da oralidade” de falantes do povo madeirense também vai reforçar esse propósito, como repara João David Pinto Correia, em “Tradição, “cultura de massa” e novos contextos culturais: desaparecimento ou persistência da Literatura Oral Tradicional?”:
A “escrita da oralidade” comporta, pois, em primeiro lugar, essa etapa fundamental que é a conservação por transcrição das composições que circulam na tradição. No entanto, outra etapa não tem sido despicienda: o aproveitamento pela Literatura Erudita ou Institucionalizada, pela paráfrase, pela reescrita ou tão-só pela citação ou mesmo alusão às composições da Literatura Oral Tradicional. (CORREIA 2004: 4)
Como jornalista, Bento de Gouveia nunca deixou, aliás, de homenagear os grandes vultos das letras madeirenses, entre eles, Elmano Vieira, Albino de Menezes ou Armando Pinto Correia. Esteve sempre atento, ao longo da vida, ao desenvolvimento e à difusão da criação literária de origem madeirense. Com efeito, dá regularmente conta, nos artigos, dos acontecimentos literários na ilha. Veja-se, a título de exemplo, os
Versos do Feiticeiro do Norte, coligidos por Alberto Figueira Gomes128, os romances Sino Rachado, de Ricardo Jardim129 e O Tempo e a Ilha, de João França130; o livro de contos As Ondas e o Vale, de Carlos Cristóvão; os livros de poesia de Baptista Santos131, Bernardete Falcão132, João Brito Câmara133, Irene Lucília134, A. J. Vieira de Freitas135 e a revista Ilha 2136.
Embora entendesse, nos últimos anos de vida, não haver obra de monta que colocasse as letras insulares da Madeira no cânone da literatura nacional, o certo é que a postura e os escritos de Horácio Bento apontam para o desejo de uma afirmação cultural, de uma autonomia literária dentro do nunca renegado sistema literário português, que tem suscitado algum debate desde então. Nos títulos da sua cronística, não é raro constituir tema do dia substantivos, como “literatura”, “bibliografia”, “poesia”, “escritor”, “casa”, que, muitas vezes, vêm apodados do adjectivo “madeirense”; noções como “regionalismo”, “História da Madeira”, os “madeirenses”, a “Madeira, passado e presente”. A confirmar tal asserção está a dedicatória manuscrita que Horácio Bento de Gouveia fez à Senhora D. Amélia, sua esposa, em Setembro de 1976, ao escrever, no exemplar de Canga que lhe ofereceu, o que se segue: “este livro, objecto de controvérsia, é fundamentalmente incontroverso. Eis por que jamais será esquecido da literatura madeirense de hoje e de sempre.”
É claro que no rol dos nomes ilustres que se lhe afiguram incontornáveis, no referido quadro literário, consta igualmente o dele: a figura do professor, que surge no
128 Ver “Versos do Feiticeiro do Norte”, Voz da Madeira, Funchal, 04-VII- 1959. 129 Ver “Crítica literária – Sino Rachado”, Voz da Madeira, Funchal, 26-IX-1953.
130 Ver “A Ilha e o Tempo – Belo romance madeirense de João França”, Diário de Notícias, do Funchal, 29-V-1972.
131 Ver, por exemplo, “Poesia de Baptista: Murmúrios da Azenha”, Diário de Notícias do Funchal, 17- XII-1961 e “Bibliografia Madeirense: Murmúrios da Azenha de Baptista Santos”, Eco do Funchal, 24- XII-1961.
132 Ver “Um livro de Bernardete Falcão”, Diário de Notícias, do Funchal, 14-XII-1963.
133 Ver “Poesias Completas de João Brito Câmara”, Diário de Notícias, do Funchal, 04-II-1968. 134 Ver “Os poemas de Irene Lucília”, Diário de Notícias, do Funchal, 14-I-1970.
135 Ver “A poesia de A. J. Vieira de Freitas”, Diário de Notícias, do Funchal, 29-VIII-1971. 136 Ver “Poesia madeirense - estreia da Ilha”, Diário de Notícias, do Funchal, 27-I-1980.
final do romance Lágrimas Correndo Mundo, com quem o protagonista João de Freitas simpatiza e que admira, tem muito do perfil do autor empírico. Em Margareta, Horácio Bento de Gouveia vai mais longe e parece assumir a condição de vulto importante na esfera cultural insular, referindo de modo explícito uma obra sua: “Estendeu-se numa preguiceira e abriu o romance Águas Mansas de um seu antigo professor” (M, 60). Esta circunstância vem reforçar a ideia de que a afirmação da identidade não é somente um estado típico de uma determinada cultura, mas sobretudo uma dramatização dos seus relacionamentos com o mundo. A título de curiosidade, vale a pena referir que Horácio Bento de Gouveia não terá sido o primeiro a recorrer a esse processo de afirmação cultural através da própria obra. O escritor Carlos Martins projecta nos romances a figura recorrente do escritor madeirense Marco Carlos, duplo e porta-voz do autor empírico. Dado o estatuto de vulto importante na micro-sociedade madeirense, é natural que o escritor originário da Ponta Delgada assuma o papel de marco na construção de uma identidade literária regional.
Em suma, Horácio Bento de Gouveia reivindica a afirmação cultural, cuja postura passa por não depender inteiramente de outras instâncias modelares/tutelares que ensinam o que pensar e como criar, por valorizar o considerável acervo literário e histórico existente, sem deixar, contudo, de se pautar por uma atitude dialogante, franca e aberta, com outras identidades culturais e com o mundo, como indica a menção “pela ilha e pelo mundo”, patente na contracapa de Alma Negra e Outras Almas. Horácio Bento tenta, sobremodo, historicizar e narrar o passado recente, regionalizar-se na focalização de tipos humanos, diferenciando-se pelos temas, pela realidade cultural e linguística. Não procura posicionar-se contra o resto do Mundo, mas estabelecer um diálogo com ele. O que recusa é a perda de identidade a que um certo cosmopolitismo desenfreado pode conduzir. À luz do que se acaba de dizer, será fácil situar o escritor no
mapa virtual que Walnice Nogueira Galvão apresenta em “algumas reflexões sobre regionalismo e nacionalismo” que passamos a enunciar:
Se o pólo localista/regionalista/nacionalista oferece um aspecto democrático de reivindicação do direito à diferença, ele também tem outra face, que é chauvinista, xenófoba, racista e intolerante. E se o pólo universalista/cosmopolita/internacionalista abre o risco do imperialismo cultural, da perda da identidade e da homogeneização, ele igualmente tem outra face, que propõe, também democraticamente, o pluralismo, os ideais ilustrados, a defesa da arte e do saber desinteressados. (GALVÃO 1997: 204)
Em todo o caso, cremos ser este raciocínio um óptimo ponto de partida para abordar a questão da afirmação cultural em contexto regional ou nacional. Se se olhar para o conjunto da obra bentiana, sem perder de vista o contexto epocal em que foi gradualmente produzida, chega-se à conclusão de que o escritor, reivindicador do direito à diferença e à afirmação da identidade, mas defensor da “arte e do saber desinteressados”, consegue equacionar uma solução de compromisso e de equilíbrio.