PLATON VE FÂRÂBÎ’NĐN ĐDEAL YÖNETĐMLERĐNĐN KARŞILAŞTIRILMASI
6. ĐDEAL YÖNETĐMLERDE KANUN
Após o fulgor do movimento republicano na década de 80 do séc. XIX11, os apoiantes do
Partido Republicano da Madeira (PRM12) acumularam derrotas no decénio seguinte. A acompanhar
a tentativa de reorganização do partido, surge O Democrata. Semanário Dedicado ao Povo Liberal13,
11 Manuel de Arriaga acumulou vitórias no Funchal durante as eleições de 1882 (intercalares da 24.ª legislatura), 1884 (25.ª legislatura), 1887 (26.ª legislatura) e 1889 (27.ª legislatura).
12 Abreviatura utilizada apesar dos registos encontrados: Partido Republicano Madeirense ou Partido Republicano na Madeira.
13 Um breve apontamento sobre o registo lexicográfico coevo do termo “democrata”. Em 1913, Cândido Figueiredo apre- senta democrata como sendo um “sectário do governo democrático. Aquele que pertence à classe popular ou que não gosta da aristocracia” (p. 580).
um hebdomadário madeirense, publicado entre 7 de abril de 1901 e março de 190314, totalizando 98
números. Existiu uma segunda série, publicada entre 8 de março e 10 de maio de 1903, perfazendo dez números. Nesse último período, o título do semanário passou a ser O Democrata. Semanário
Republicano, refletindo o seu carácter abertamente republicano. Após o fim do semanário A Luta, o órgão do PRM que publicou o seu último número a 28 de junho de 1896, existiu um hiato de perió- dicos afetos ao movimento republicano na Madeira, acompanhando a perda de força dos seus apoi- antes na população. O seu diretor e proprietário era Sabino Joaquim Rodrigues15, a quem o periódico
deveu a “primeira iniciativa de fundação”16. A sua redação, administração e tipografia situavam-se
na rua da Mouraria, n.º 2417. Com o término da primeira série, o antigo proprietário transmitiu os
direitos ao PRM, também justificado pelo “deficit que a surda perseguição movida contra este jornal lhe acarretou”18. Teve como editores António M. Anjo Júnior (n.º 1-18) e João Pedro Câmara (n.º 19-
98; n.º 1-10), possuindo um preço avulso de 60 réis e uma assinatura mensal no valor de 200 réis19, e
era entregue nas residências, ao domingo, até às 10 horas20. O jornal estava à venda no Café Mónaco
e na Tabacaria Académica21. Manuel Augusto Martins22, que também esteve envolvido n’O Povo,
era apontado como “um dos colaboradores mais assíduos” d’O Democrata23, além de Manuel da
14 O último número consultado dessa série, depositado no Arquivo e Biblioteca Regional da Madeira, não possui dia impresso, estando manuscrito o dia 9.
15 Sabino Joaquim Rodrigues tinha a profissão de comerciante de vinhos, com loja na rua da Queimada de Cima, e era um militante republicano que, “quando no continente se levantou a corrente para reorganização do partido, encetou na ilha propaganda para eleição de uma comissão com esse objetivo” (MARTINS, 2004: 56). Foi presidente do Conselho Fiscal do Instituto Comercial do Funchal, junto com outros elementos republicanos (O Democrata, n.º 14, 7-VII-1 90 1 : 2), além de presidente da Assembleia geral do Ateneu Comercial do Funchal (O Democrata, 2.ª série, n.º 9, 3-V-190 3 : 2). Na segunda série, Sabino Rodrigues deixa a redação e administração, doando o jornal ao partido. Também assinou artigos n’O Povo.
16 O Democrata, 2.ª série, n.º 7, 19-IV-1903: 1. Nessa edição foi incluída uma ilustração de Sabino Rodrigues. 17 Na edição n.º 75 é anunciada a mudança de redação, administração e tipografia para a rua João Tavira, n.º 26. 18 O Democrata, 2.ª série, n.º 1, 8-III-1903: 3.
19 Nos dois primeiros números o preço avulso foi omitido. Na segunda série, o preço do número avulso deixa de ser impresso.
20 O Democrata, n.º 6, 12-V-1901: 3. A edição n.º 2, da 2.ª série, refere problemas na entrega das assinaturas. 21 O Democrata, n.º 5, 5-V-1901: 1. Durante o ano de 1901, deixou de ser vendido no Café Mónaco.
22 Manuel Augusto Martins (1867-1936) foi, entre 1880 e 1892, ajudante no colégio Lisbonense. Em 1892 seguiu para Coimbra, formou-se em direito pela universidade e ingressou, em 1898, para o escritório de advocacia de Afonso Costa e de António José Teixeira de Abreu (bisavô do sócio fundador do conhecido escritório de advogados Abreu & Associa- dos). Regressou ao Funchal no início do século. Colaborou no semanário O Democrata e, em 1906, foi o primeiro presi- dente do Centro Republicano Manuel de Arriaga (CRMA), criado a 25 de maio desse ano. O Partido Republicano da Madeira e o CRMA “eram uma só e a mesma coisa”, até à Implantação (O Povo, n.º 626, 6-VII-1912: 1). Com Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Bernardino Machado, apresentou-se como candidato à Câmara dos Deputados, pelo distrito do Funchal, nas eleições realizadas a 29 de abril de 1906. No segundo ato eleitoral, a 19 de agosto de 1906, integrou a lista dos republicanos com Manuel de Arriaga e António José de Almeida. Em 1907, assumiu o cargo de redator do jornal O Povo, acumulando a função com o de presidente da comissão municipal republicana (O Povo, n.º 3, 17-II-1907: 1). O governo provisório da república nomeou-o como o primeiro governador civil do Funchal após a Implantação da Repú- blica, tendo-se demitindo em 1912. A sua carreira política continuou com a eleição para o Senado da República (1921), pela Madeira, e para a Câmara dos Deputados da 1.ª república, pelo círculo de Évora (1919). Em 1919, por um curto período, desempenhou, novamente, as funções de governador civil.
Costa Dias24, um “talentoso colaborador”25. Na alvorada da segunda série, o editor não desconsidera
a necessidade de luta contra o “perigo negro dos jesuítas e a praga do clericalismo”, acrescentado o combate ao regime monárquico “ao seu programa primitivo de combater especialmente a reação re- ligiosa, junta (…) a reação política e abusos das autoridades” até ao culminar com a Implantação da República Portuguesa26.
Para os fundadores, O Democrata era um combatente do despotismo, uma ressurreição pois “o cristianismo puro é a mais solene das afirmações da democracia. Ser cristão é ser democrata”27,
numa alusão aos valores primitivos do catolicismo, entretanto corrompidos e dissimulados, na opinião dos seus redatores. Era um jornal que se assumiu apartidário28, não estando comprometido com ne-
nhuma força, o que se mostrou falso pelo forte combate partidário que travou. A sua crescente afir- mação política foi notória. Trata-se de um jornal republicano: “para salvação da pátria é necessário que Portugal adormeça monárquico [e] (sic) acorde republicano”29. Quando receberam um convite
para o Te Deum na Sé, para assinalar o aniversário dos reis de Portugal, declinam: “não aceitamos por no-lo impedir o nosso modo de pensar”30. As efemérides republicanas, como a revolta do Porto,
eram assinaladas com destaque e sopesadas com críticas ao governo e à família real, sustentada pela população. A narrativa republicana regional era ilustrada com dois temas recorrentes: a eleição de Manuel de Arriaga ou com as mortes derivadas do incidente nas eleições de 1884, na Ribeira Brava, que foram citadas em várias edições, como epitáfio republicano aos que pereceram31.
Nos últimos meses da primeira série havia um crescente destaque para a temática envolve ndo o movimento republicano, a sua reestruturação e o restabelecimento na Madeira. A partir do número 93, foi evidente o grande peso que os artigos republicanos ganharam, dominando um universo de notícias em que a temática anticlerical era secundarizada, apesar de continuar presente. A edição de 8 de janeiro de 1903 reeditava o programa do Partido Republicano32, com o laicismo e a secularização
integrados: liberdade de consciência; registo civil obrigatório; liberdade de ensino obrigatório, secular
24 Manuel da Costa Dias (1883-1930), natural da Ponta do Pargo, foi antigo aluno do Seminário do Funchal, seguindo para o Liceu do Funchal e depois matriculando-se, no Porto, no Instituto Industrial e Comercial. Fez carreira militar, assentando praça, em 1903, até chegar a major, em 1923. Foi eleito deputado pela Madeira em 1915 e 1925. A sua colaboração n’O Democrata ocorre enquanto aluno do Liceu. (CLODE, 1983: 140-141).
25 O Democrata, n.º 71, 17-VIII-1902: 1. É ainda referido que João Rodrigues Júnior é compositor do periódico (O De- mocrata, n.º 78, 5-X-1902: 2). Neste trabalho aplicamos a regra de que quando existe mais do que uma citação numa frase, a referência da nota de rodapé da última citação dessa frase aplica-se às restantes.
26 O Democrata, 2.ª série, n.º 1, 8-III-1903: 1. 27 O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 1.
28 O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 1. 29 O Democrata, n.º 35, 1-XII-1901: 1. 30 O Democrata, n.º 77, 28-IX-1902: 1.
31 A edição de 29 de junho de 1902 começa com um artigo sobre os “mártires da Ribeira Brava”. Cf. O Democrata, n.º 64, 29-VI-1902: 1.
e gratuito e secularização dos cemitérios33. Nos últimos números dessa série, era criticada a falta de
empenho dos republicanos da Madeira, que “têm deixado perder muitas ocasiões de fazer propaganda a sério”34. Os apelos publicados eram para que o PRM se reorganizasse35, respondendo a muitos
monárquicos que afirmavam que essa força estava definitivamente morta36 e não excluindo os ma-
deirenses da reorganização nacional que estava em curso37. Aconselhava que, enquanto a propaganda
republicana pode derrubar o trono, a campanha jesuíta poderia fazer desaparecer a monarquia e des- truir a liberdade, que seria preservada pelos republicanos38.
As primeiras edições indicavam um periódico mais anticlerical que republicano, elogiando a rainha que, na visita régia, “soube fugir a tempo e com muita diplomacia” às manifestações que as Vicentinas queriam proporcionar na visita ao Hospício, nem visitando o mosteiro de Santa Clara e das Mercês39. Mesmo sem nutrir apoio à causa monárquica, faz “viva!” à rainha D. Maria Pia quando
ela, segundo o correspondente do Morning Post, recusa uma audiência em Roma com o Papa, não se submetendo a qualquer exigência do pontífice e afirmando que não deveria intrometer-se em negócios de Estado40. Quando o propósito era atacar o clericalismo, eram ultrapassados os dissídios na política.
Noutra edição, assinalam a vitória liberal da Madeira, reconhecendo que o regime monárquico repre- sentativo “não é o mais perfeito de todos os regimes políticos”41, mas era assinalável a sua vitória
perante o absolutismo monárquico liderado por D. Miguel, o apoiante da Companhia de Jesus. Sobre a disseminação da religião, referia que os católicos madeirenses eram “a quase totali- dade da ilha”42, não deixando de alertar o fenómeno apostático: “raro hoje é o português que tem a
coragem de sustentar as suas opiniões (…) e mais raro ainda aquele que procede em todos os atos da sua vida”43, justificando assim que muitos portugueses nutriam sentimentos antagónicos em relação
à esfera eclesiástica, não os impedindo de se identificarem como católicos. A crítica ao despesismo do rei e do governo, era inicialmente centrada nas críticas ao governo nacional, ao civil e à câmara municipal. A monarquia era retratada como despertadora de frivolidade, gastadora e ineficaz à causa pública. Na visita régia à Madeira, registam-se as críticas às comissões que se ocupam dos “vários e
33 O Democrata, n.º 95, 8-II-1903: 1 (impresso com data errada de 8-I-1903). 34 O Democrata, 2.ª série, n.º 8, 26-IV-1903: 2.
35 O Democrata, n.º 87, 7-XII-1902: 1.
36 O Democrata, Suplemento ao n.º 89, 22-XII-1902: 1. O redator pede desculpa aos leitores por o jornal não ir completo “devido aos muitos dias santos que tem esta semana” (itálico nosso).
37 O Democrata, n.º 91, 11-I-1903: 1. 38 O Democrata, n.º 26, 29-IX-1901: 1. 39 O Democrata, n.º 14, 7-VII-1901: 3.
40 O Democrata, n.º 27, 6-X-1901: 3. Segundo Neto (2009), em 1883, o Papa tinha recusado receber o rei D. Luís e a rainha D. Maria Pia (p. 128).
41 O Democrata, n.º 63, 22-VI-1902: 1.
42 O Democrata, n.º 45, 9-II-1902: 1. “Que queria mostrar (…)? Que os madeirenses são católicos na sua imensa maioria? Não era preciso, porque ninguém duvida disso” (O Democrata, n.º 45, 9-II-1902: 1).
diversos brincos a suas majestades”44, com os gastos desnecessários.
Existiam algumas referências à maçonaria, que era totalmente diferenciada das congregações religiosas, consideradas camufladas ilegalmente de associações, existindo vários artigos sobre cola- boradores mações do periódico. Nem o episcopado escapava quando a maçonaria e a fé eram referidas na comparação e na relação do governador civil e do bispo: “bispo de mitra e bispo de avental são sempre bispos”45. Ao contrário do que o rival Correio da Tarde pregava, referindo que os mações
falavam “com o diabo à meia noite”46. O alegado mação, Manuel José Vieira, “colega de facha e
avental”47 do bispo do Funchal, era elogiado na Quinzena, causando repúdio dos republicanos pela
alegada relação entre o bispo e a maçonaria.
O paradigma de rivalidade entre os jornais antípodas era simbolizado por Santo Agostinho, representando a Igreja primitiva, que lia avidamente O Democrata enquanto o Padre Eterno atiraria “para o cesto do lixo o Correio da Tarde e a Quinzena Religiosa”48. A Quinzena Religiosa era “o
protótipo oficial da decúria eclesiástica”49, o “órgão oficial” do bispo do Funchal50 ou “a folha oficial
do bispado”, que ilustra o estado da nação como um triste quadro. Essa Quinzena Episcopo-burro-
religiosa traz a temática de ataque aos periódicos católicos de novo para a primeira página do jornal, no seu derradeiro número da última série 51. De nada valeriam os apelos do padre Schmitz52 para que
os católicos sejam assinantes da Quinzena burro episcopal53. Já o “Correio Burrical é o órgão oficial
do patriarca-frade e tem por diretor um tal jesuíta – Quirino Cretino de Jesus – criatura alugada à infame seita-negra”, um jornal que esteve muito meses a incitar o povo “contra os poderes constitu- cionais, insultado o governo e os seus representantes”54. O jornal também marcou o seu início com
44 O Democrata, n.º 3, 21-IV-1901: 1. 45 O Democrata, n.º 34, 24-XI-1901: 1. 46 O Democrata, n.º 79, 12-X-1902: 3 . 47 O Democrata, n.º 45, 9-II-1902: 2.
48 O Democrata, 2.ª série, n.º 5, 5-IV-1903: 3. 49 O Democrata, n.º 45, 9-II-1902: 1.
50 O Democrata, n.º 66, 13-VII-1902: 2.
51 O Democrata, n.º 98, 9-III-1903: 1. O dia nove está manuscrito na cópia consultada não existindo referência que foi publicado nesse dia ou que se trata do último número dessa série.
52 Ernst Johann Schmitz (1845-1922) foi um religioso da Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo que era natural de Rheydt, no sul da Alemanha. Esteve na Madeira desde 1878 até 1908, tendo exercido o cargo de capelão do Hospício Princesa D. Maria Amélia antes disso, após fugir da Alemanha no contexto do Kulturkampf (FRANCO, 2015: 739). No seminário diocesano, onde lecionou cadeiras de ciências naturais e física, também exerceu as funções de diretor e de vice- reitor. Distinto naturalista, foi fundador do Museu de História Natural do Seminário.
53 O Democrata, 2.ª série, n.º 3, 24-III-1903: 1. 54 O Democrata, n.º 31, 3-XI-1901: 1.
uma crítica a Quirino Avelino de Jesus55 e a Thomaz de Vilhena por participarem numa reunião je-
suítico-miguelista no Paço Episcopal de S. Vicente de Fora56: em os quirinácios-miguelistas57. O
Cónego António Homem de Gouveia foi outra das figuras regionais criticadas, bem como o deputado Quirino de Jesus. Esse Correio dos Padres, enquanto órgão oficial do jesuitismo58, servia também
de jornal oficial do Centro Nacional59 que, na Madeira, aliou-se ao Partido Progressista60. Alguns dos
autores que “rabiscam num pasquim”61 católico como esse acabam condenados a 20 dias de cadeia,
e a dez de multa, como o proprietário e o editor do Correio da Tarde, por injúrias aos empregados do comércio, num processo movido pelo Ateneu Comercial do Funchal62. Um jornal “virtuoso e genui-
namente cristão, onde a rapaziada do seminário faz os seus exercícios espirituais para purificação das almas”63.
Dentro do cosmo anticlerical, destacamos uma tríade que se assume como pilar dos elementos identitários desse noticioso: doutrina antijesuítica, combate anticongregacional e ensino e educação livres. Denunciou, em vários momentos, os locais onde estavam instaladas congregações religiosas64
e indagou, insistentemente durante dezenas de edições, se os governantes não tinham conhecime nto do que todos sabiam: o relatório do inquérito, mandado executar a 10 de março de 1901, não eram enviados ao governo?65 Sobressaía um sentimento de apostasia em relação ao poder local e central,
também fruto da sua matriz republicana, antagónica da solução monárquica. O seminário do Funchal
55 Quirino Avelino de Jesus (1865-1935), natural do Funchal, foi aluno do seminário dessa cidade, antes de se matricular em Direito, na Universidade de Coimbra, tendo concluído o seu curso em 1892. Foi deputado independente pelos Rege- neradores de Hintze, eleito pelo círculo de Braga, antes de representar o Funchal no Parlamento – em 1900, na curta 35.º Legislatura. Católico, era um defensor das congregações, estando ligado a vários órgãos noticiosos, também como diretor do Correio Nacional, do Portugal em África e do Economista Português. Silva e Menezes (1998, vol. 3: 188) referem que, após militar pelo Partido Regenerador, esteve filiado nos Nacionalistas, acabando por se afastar dessa força. Carita (2010: 123) refere que foi um dos “ideólogos da formação do Estado Novo”.
56 O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 1. 57 O Democrata, n.º 2, 14-IV-1901: 1.
58 A referência ao Correio da Tarde. O Democrata, n.º 63, 22-VI-1902: 1. 59 O Democrata, n.º 65, 6-VII-1902: 1.
60 O Democrata, n.º 65, 6-VII-1902: 1. 61 O Democrata, n.º 69, 3-VIII-1902: 2. 62 O Democrata, n.º 41, 12-I-1902: 1. 63 O Democrata, n.º 45, 9-II-1902: 1.
64 Hospício Princesa D. Amélia, seus internatos, escolas anexas, casas de costura e lavandeiras desse instituto; Convento de Santa Clara (I. Franciscanas); Concento das Mercês; Asilo de Mendicidade; Hospital de Santa Isabel; Irmãzinhas dos Pobres; Hospital de Santa Cruz e Seminário do Bom Despacho (O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 2). Também eram acu- sados de transformar os votos num negócio (O Democrata, n.º 20, 18-VIII-1901: 2). Em carta ao governador José Ribeiro da Cunha, denunciava os conventos das Mercês (clausura e voto perpétuo, de Santa Clara (noviciado, voto e clausura disfarçada)), de Jesus (clausura e voto), de S. Francisco de Paula (práticas de noviciado, voto e clausura); o Hospício Princesa D. Maria Amélia (noviciado e voto) e o orfanato anexo (práticas de noviciado, voto e clausura disfarçada), (O Democrata, n.º 17, 28-VII-1901: 1).
65 O Democrata, n.º 5, 5-V-1901: 1. Leis patrióticas e liberais: 9 de agosto de 1833 [O redator deveria querer referir-se ao decreto de 5 de agosto de 1833.]; 28 de maio de 1834 e 22 de julho de 1834 [nesse dia foi publicado o decreto de extinção da casa dos religiosos da congregação do oratório de S. Filipe de Néri (Collecção de Decretos e Regulamentos… 1836: 237). Essa referência parece não fazer muito sentido, entre tantos outros decretos anticongreganistas]. Insistia que o governador civil, o administrador do concelho e demais autoridades não cumprem e não mandam cumprir com suces- sivos ataques. Foram publicadas dezenas de cartas abertas no jornal.
congregava o ataque do jornal ao jesuitismo e às congregações, numa cruzada pelo ensino livre e por uma educação eficaz.
O antijesuitismo66 era o tema central, e o jesuitismo assumia-se como “o nome de uma vasta
agremiação política e religiosa, que intenta açambarcar (…) todas as forças vivas das nações onde se estabelecem”67. Quando alguém não alinhava com os jesuítas era “um ser bondoso e paternal”68. Uma
doutrina, filha adotiva do clericalismo e ao exemplo deste, constituindo-se como “uma grande força e um grande mal para o bom nome das sociedades e um elemento fanatizador de primeira grandeza”69.
O Democrata arranca com uma entrada contra a “asa negra do jesuitismo”70 e dos seus seguidores,
visto que “quem segue os jesuítas não segue Jesus”71. Os padres da Companhia de Jesus foram acu-
sados de se apoiarem “da ignorância dos povos e no escandaloso favoritismo dos governos”72, sendo
“piores do que a fome e a peste”73, verdadeiras bestas que saíram do inferno, na visão do noticioso.
Mesmo criticando os inacianos, o redator presta esclarecimentos históricos, indicando vários factos e datas importantes, sempre tendencialmente inclinados para a anatematização da congregação que era “antítese do bem pregado por Cristo”74. Eram vastos os vocábulos utilizados para se referir aos padres
da Companhia ou aos que foram acusados de serem integrantes da ordem: associação negra; jesuitada; façanhudos; hipócritas; sectários de Loyola; seita negra; polvo; negrada seita; usurpadores do nome de Jesus; fera usurpadora; nefanda seita; bando de corujas; hidra jesuítica; saia negra e fradalhão eram alguns deles, acompanhados de adjetivos como hipócritas, ambiciosos, gananciosos, fanáticos e pe- çonhentos. A guerra que se travava na sociedade era “entre liberais e jesuítas” e não por objeto “a igreja e os seus dogmas”75. Foram vários os coios jesuítas apontados na ilha. O pároco do Monte era
um dos vários acusados de criar jesuítas, à semelhança dos seus mestres, “importados pelo bispo do Funchal (…) igualmente jesuíta”76. A designação “jesuíta” também se aplicava aos clérigos que apre-
sentassem um comportamento reprovável à luz da crítica do noticiário. Quando o cardeal arcebispo do Paris interditou a pregação jesuíta na Quaresma, o jornal apontou como solução a excomunhão do religioso enquanto herege ou, ironizando, a migração dos jesuítas para o Funchal, “onde não lhe fal- tará um bispo condescendente que lhes conceda lugares de reitores e professores dum seminário ou
66 Cf. Araújo (2014: 51) para as diferentes aceções do epíteto. 67 O Democrata, n.º 56, 27-IV-1902: 1. 68 O Democrata, n.º 4, 28-IV-1901: 1. 69 O Democrata, n.º 76, 21-IX-1902: 1. 70 O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 1. 71 O Democrata, n.º 1, 7-IV-1901: 2. 72 O Democrata, n.º 14, 14-IV-1901: 1. 73 O Democrata, n.º 26, 29-IX-1901: 1. 74 O Democrata, n.º 3, 21-IV-1901: 2. 75 O Democrata, n.º 4, 28-IV-1901: 1. 76 O Democrata, n.º 24, 15-IX-1901: 1.
lhes dê algum rebanho de beatas para… pastorear”77. O governo contribuía para compaginar os ódios,
recordando que “Hintze Ribeiro foi a alma danada que secularizou as ordens e congregações religi-
osas no país, favorecendo a causa do jesuitismo”78. O abrigo por excelência da Sociedade de Jesus
era o Seminário do Funchal. Nesse refúgio, os padres Schmitz e Prévot eram os protagonistas da narrativa jornalística. Muitas vezes referido como jesuíta79, Prévot80 era quem dirigia o “seminário
do Bom Despacho”81, um local onde os alunos “são brutalmente espancados” num dia e “luxuriosa-
mente beijados” no outro, com várias cartas a denunciar os problemas no instituto, inclusive uma missiva de um pai que retirou o seu filho e fez várias denúncias, acusando aquela casa de “ser imo-