2.1 Dünya Enerji Kaynaklarının Genel Durumu
2.1.2 Petrol Rezerv ve Tüketim Değerleri
“Já se disse que a tarefa da literatura é a de manter eficiente a linguagem. Se por ‘manter eficiente a linguagem’ se entende ‘renovar continuamente as modalidades de uso do código lingüístico comum’, esse é exatamente o objetivo da vanguarda. Com uma particularidade: desde que um modo de falar reflete um modo de ver a realidade e de afrontar o mundo, renovar a linguagem significa renovar a nossa relação com o mundo.”
Umberto Eco92
A palavra “dependência”93 - addiction - tem sido usada à revelia em nosso linguajar cotidiano, acabando por ter seu restrito sentido, não raras vezes, banalizado. No Apêndice a Naked Lunch94, Burroughs comenta a acepção do termo, e o modo como emprega, para designar “dependência de drogas”:
(The term is loosely used to indicate anything one is used to or wants. We speak of addiction to candy, coffee, tobacco, warm weather, television, detective stories, crossword puzzles). So misapplied the term loses any useful precision of meaning.95 (BURROUGHS, 1993, p. 187).
E discute que a necessidade biológica deve ser vital para compreendermos um determinado fenômeno enquanto “dependência”. Diferente, entretanto, do que representa a insulina para um diabético, conforme ele aponta:
The diabetic will die without insulin, but he is not addicted to insulin. His need for insulin was not brought about by the use of insulin. He needs insulin to maintain a normal metabolism. The addict needs morphine to maintain a morphine metabolism, and so avoid the excruciatingly painful return to a normal metabolism.96(BURROUGHS, 1993, p. 187-188).
92 ECO, Umberto. Obra Aberta. Tradução de Giovanni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, 1997. p. 283.
93 A palavra addiction também poderia ser traduzida por “vício”, como ocorre em alguns momentos na tradução
de Naked Lunch para o português; quando assim estiver e for necessário transcrever a tradução, essa será respeitada, o que acontecerá também com trechos de entrevistas. Já no meu caso, optei por usar apenas a vertente “dependência”, seguindo inclusive a classificação da OMS (Organização Mundial de Saúde), que, a partir de 1964, acabou por adotar essa denominação por subjazer conotação menos pejorativa.
94 Trata-se de um dossiê, em linguagem formal, contendo verbetes que se referem às drogas e métodos de
tratamento experimentados pelo autor. Intitulado “Letter from a master addict to dangerous drugs” - na tradução: “Carta de um empedernido viciado em drogas pesadas” -, esse apêndice surgiu enquanto epístola para o The British Journal of Addiction, datada de 03/08/1956.
95 “(O termo é usado vagamente para indicar qualquer coisa a que uma pessoa está acostumada ou necessita.
Fala-se de vício de doces, cafés, tabaco, clima quente, televisão, romances policiais e palavras cruzadas.) Utilizado erroneamente, o termo perde precisão e utilidade.” (BURROUGHS, 1984, p. 213).
96 “O diabético morrerá se não tomar insulina, mas ele não é viciado em insulina. Sua necessidade de insulina não foi provocada pelo uso do produto. Ele precisa de insulina para manter um metabolismo normal. O viciado necessita de morfina para manter um metabolismo de morfina, e assim evitar a volta terrivelmente dolorosa para um metabolismo normal.” (BURROUGHS, 1984, p. 214).
102
Burroughs também expande o sentido referente ao processo entendido enquanto “dependência”, para sustentar teorias que, não sendo inéditas nas conclusões, são bastante pessoais na abordagem. Notem um simples exemplo, com as palavras do próprio escritor, na entrevista de 1965 para a Paris Review :
Existem também todas as formas de vício espiritual. Qualquer coisa que não puder ser feita quimicamente poderá sê-lo de outras maneiras – isto é, se tivermos conhecimento suficiente dos processos envolvidos. Muitos policiais e agentes de narcóticos são viciados justamente no poder, em exercer uma espécie suja de poder sobre pessoas indefesas. O tipo sujo de poder: chamo isso de droga limpa – a legalidade; eles são a lei, a lei, a lei... e se perdessem esse poder, sofreriam sintomas excruciantes de privação.97
“O poder vicia”, já falava o filósofo anarquista russo Mikhail Bakunin. Burroughs ampliou exponencialmente as implicações dessa proposição, inclusive para ilustrar nossa condição de bons cidadãos em convívio social, como em Freeland. Dessa forma, só nos mantemos nessa posição de “civilizados” porque somos “dopados” com doses cavalares de ilusões - especialidade de Doutor Benway, que é um “manipulador e coordenador de sistemas simbólicos.”98
Podemos vislumbrar isso empiricamente, se observarmos, por exemplo, que a bem conhecida frase de Max Weber, em que parodia Descartes, “consumo logo existo”, trata-se de uma constatação dos valores de nossa época, algo que se tornou uma coordenada de vida para uma grande parte da população mundial. Então, nessa linha de raciocínio, resta ao indivíduo social, devidamente “dependente”, sanar essa e outras “fissuras”.
97 As famosas entrevistas da Paris Review. 1988, p. 137.
98 De acordo com Bordieu: “Os ‘sistemas simbólicos’, como instrumentos de conhecimento e de comunicação,
só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados. O poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe aquilo a que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer, ‘uma concepção homogênea do tempo, do espaço, do número, da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências’. [...] Os símbolos são os instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração ‘lógica’ é a condição da integração ‘moral’.” In: BORDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Tradução de Fernado Tomaz. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. p.10-11.
103
Esses desejos obsedantes são construídos socialmente, difundidos por meio de nosso sistema lingüístico - através de palavras, frases, expressões e entonações que constituem os topoi, ou “lugares-comuns” - , que terminam por moldar nossa maneira de pensar e, conseqüentemente, se refletem em nossos atos.
Antes de prosseguir nas considerações sobre a linguagem enquanto passível de ser usada como instrumento ideológico, convém prestar atenção neste trecho de Alfred Korzybski, presente no célebre livro Science and Sanity: An introduction to Non-Aristotelian Systems and General Semantics, de 1933:
Um objeto ou uma sensação [...] não são verbais, não são palavras. [...] Quem quer que deixe de o compreender – e infelizmente isso acontece com facilidade – não compreenderá um dos fatores psicológicos mais importantes em todas as reações semânticas fundamentais para a sanidade. Tal omissão é em grande parte facilitada pelos sistemas mais antigos, pelos hábitos de pensamento, pelas reações semânticas mais antigas e, acima de tudo, pela
estrutura primitiva de nossa linguagem aristotélica e pelo ‘é’ de identidade.
Assim, por exemplo, nós seguramos aquilo a que chamamos um lápis. O que quer que estejamos segurando é in-dizível; dizemos, entretanto, ‘isto é um
lápis’, afirmação que incondicionalmente falseia os fatos, porque o objeto
surge como um indivíduo absoluto e não é uma palavra. De modo que nossas reações semânticas são desde logo adestradas em valores ilusórios, o que deve ser patológico.99
Desde os pré-socráticos já havia indagações, ainda que de maneira bastante embrionária, em relação à linguagem enquanto construtora de entendimentos de mundo. No decorrer dos séculos o debate foi sendo desenvolvido por pensadores de variados referenciais teórico-metodológicos - expressão dos diferentes posicionamentos em relação ao assunto.
Entre esses, sem adentrar em pormenores, eu destacaria Whilhelm von Humboldt, por ter lidado diretamente com o tema, por volta de 1820, chegando a postular uma conexão entre língua e cultura e, por extensão, língua e mentalidade. Tais idéias estão presentes na obra cujo título resume o trabalho: Über die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues und ihren Einfluss auf die geistige Entwicklung des Menschengeschlechts - Sobre a diversidade
99 Apud HAYAKAWA, S. I. O que Significa Estrutura Aristotélica da Linguagem? In: CAMPOS, Haroldo de
(Org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. Tradução de Heloisa de Lima Dantas. 4. ed. São Paulo: EDUSP, 2000. p. 233.
104
estrutural das línguas humanas e sobre a influência delas na evolução espiritual da humanidade.
Entretanto, é apenas nos primeiros decênios do século XX que a discussão é retomada sistematicamente por filósofos e lingüistas.
Assim, merecem destacada menção as teses de Wittgenstein, principalmente seus revolucionários apontamentos, acerca da linguagem, presentes em Investigações filosóficas. Trata-se de marco fundamental para o que hoje comumente se denomina o “segundo Wittgenstein”, exatamente pela novidade da discussão e distanciamento da abordagem em relação a seu primeiro livro Tractatus Logico-Philosophicus.
Também mencionaria a tese dos lingüistas americanos Edward Sapir e Benjamim Lee Whorf, que partiram do estudo de línguas de comunidades indígenas, nos E.U.A, para chegarem à conclusão de que o “mundo real” se fundamenta nos hábitos lingüísticos do grupo ao qual o indivíduo pertence. Essa é a conhecida Hipótese Sapir-Whorf, sistematizada em suas principais obras, a saber: Language. An Introduction to the Study of Speech de Sapir; e Language, Thought and Reality de Whorf.
Ainda, caberia citar importantes pesquisadores e pensadores como Carnap e Frege - que exerceram influência direta em Wittgenstein - , Mikhail Bakhtin e, mais recentemente, Ernst Cassirer.
Contudo, é a discussão desenvolvida pelo já mencionado Alfred Korzybski que diretamente interessa para prosseguir nas considerações referentes ao cut-up. Especialmente pelo fato de que suas teorias lingüísticas foram elaboradas refutando o padrão aristotélico ainda em pleno vigor em nosso comportamento lingüístico. No entanto, deve-se ressaltar que o lingüista russo não combate as teorias do filósofo grego em si, mas a permanência, até os dias, de seu sistema em nossa linguagem.
105
Korzybski conceituou de “Semântica Geral” a teoria que ele chamava de “sistema não- aristotélico”, desenvolvendo sua hipótese da “linguagem enquanto mapas”. Ora, a linguagem não nos serve unicamente para entender a “realidade”, mas, desde a mais tenra idade, herdamos mapas de orientação social, exatamente, por intermédio de nosso vernáculo. Isso acaba por (re)produzir inferências em nós, de maneira que passamos a conduzir nosso comportamento e coordenar nossas ações a partir dos valores subjacentes em nosso código lingüístico. É justamente nesse ponto que Korzybski contesta a sistematização da linguagem nos padrões aristotélicos100, que culmina em encararmos a “realidade” de modo dicotômico, maniqueísta e excludente:
A estrutura tradicional da linguagem (e as concomitantes reações semânticas) divide o indivisível em ‘entidades’ distintas (discretas) – muitas vezes obscurecendo ou ocultando por completo os relacionamentos funcionais. Korzybski dá o nome de ‘elementarismo’ [elementarism] às divisões de ‘substância’ e ‘forma’, de ‘corpo’ e ‘espírito’, de ‘causa’ e ‘efeito’, de ‘ator’ e ‘ato’, de ‘razão’ e ‘emoção’, de ‘espaço’ e ‘tempo’ etc.
(HAYAKAWA, 2000, p. 234).
No esteio das idéias referentes a esse ponto, cabe mencionar um trecho da entrevista à Paris Review, em que Burroughs é abordado da seguinte forma pelo entrevistador: “[...] o problema central na discussão do cut-up parece estar na base lingüística em que operamos, a sentença declarativa afirmativa.” E assim o escritor complementa:
Sim, é um dos grandes erros do pensamento ocidental, toda essa proposição do isso-ou-aquilo. Você se lembra de Korzybski e de sua idéia da lógica não- aristotélica? O pensar isso-ou-aquilo simplesmente não é um pensar acurado. Esse não é o modo como as coisas ocorrem, e sinto que a construção aristotélica é uma das grandes algemas da civilização ocidental. Os cut-ups são um movimento em direção a derrubada disso. Posso imaginar que seria muito mais fácil obter uma aceitação dos cut-up por parte, possivelmente, dos chineses, porque, você vê, eles têm várias maneiras de ler um ideograma dado. Já é um cut-up. (1988, p. 144-145).
100 Conforme Hayakawa: “O termo ‘aristotélico’, na acepção adotada por Korzybski, pode ser traduzido por
‘indo-europeu’ na maioria dos casos. O nome de Aristóteles é usado pelo motivo preponderante de que ele foi e continua a ser, a figura mais notável no que se refere a tornar explícitas as implicações estruturais subjacentes em nossa herança lingüística ocidental comum, tendo sido, por conseguinte, igualmente notável ao introduzir a ordem no pensamento ocidental. Tal ordem foi, indiscutivelmente, de incalculável valor para o desenvolvimento das civilizações ocidentais, mas como afirma o consenso dos cientistas modernos, de há muito foram atingidos seus limites de utilidade”. (HAYAKAWA, op. cit. p. 237).
106
Ao levar essa idéia para a composição dos escritos em Naked Lunch, as características
que mais saltam aos olhos são as amálgamas realizadas entre enunciação e enunciado, o dito e o escrito, o figurativo e o abstrato, e, claro, a poesia e a prosa. Finalidades obtidas pela quebra de fronteiras entre gêneros, a sobreposição de fragmentos, e o emprego da desrealização na elaboração de sentenças e parágrafos.
E já que esta dissertação estreita a relação entre o cut-up em Naked Lunch e a escrita automática dos surrealistas, convém transcrever uma passagem presente no Segundo manifesto do Surrealismo, assinado por André Breton em 1930:
Tudo leva a crer que existe um certo ponto do espírito de onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo cessam de ser vistos contraditoriamente.101
Pelo fato do escritor assim agir sobre a forma, pode-se constatar que ele evita ao máximo a automatização da leitura, provocando um estado de estranhamento no leitor, exatamente porque rompe com nosso “adestramento” em seqüências analógicas de causa e efeito. Nessa atitude ainda está subjacente a revogação da Mimese e Práxis formuladas por Aristóteles.
No parágrafo anterior, foi usado o termo estranhamento, cunhado pelo formalista russo Victor Chklóvski, cuja definição será de interesse citar a fim de legitimar seu emprego em relação à obra de Burroughs:
A arte é feita para dar a sensação de coisa enquanto vista e não enquanto reconhecida; o procedimento da arte é o procedimento da representação insólita das coisas, é o procedimento da forma confusa que aumenta a dificuldade e a duração da percepção, porque em arte o processo de percepção é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é o processo de viver a coisa no processo de sua consecução, em arte aquilo que está feito não tem importância.102
101 In: COELHO, Plínio Augusto (Org. e trad.). Surrealismo e anarquismo: “bilhetes surrealistas” de Le
Libertaire. São Paulo: Imaginário, 1990. p. 147.
102 Apud. D’ALÉSSIO FERRARA, Lucrécia. “A obra de arte difícil”. In: ______. A estratégia dos signos. São
107
No capítulo “O paradoxo da paródia”, em Uma teoria da paródia, Linda Hutcheon estabelece um apontamento fundamental para valorizarmos teorias críticas remotas. Pois, desde que Hutcheon iniciou o projeto de escrever determinado livro, ela nutria intenção de empregar algumas sistematizações elaboradas por Bakhtin a fim de sondar o processo de criação em obras literárias contemporâneas, porém, se deparou com certo “obstáculo”: “a paródia em geral e grande parte da ficção moderna foram vítimas das mais severas censuras por parte de Bakhtin.”(1989, p. 90). No entanto, ela chega à lúcida conclusão de que as sistematizações elaboradas pelo autor russo estão aptas a serem adaptadas e não adotadas.
É em concordância com a reflexão de Hutcheon que menciono a teoria do estranhamento formulada por Chklóvski enquanto instância básica para diferenciarmos o objeto artístico de outras produções humanas. Entretanto, sua teoria deve ser adaptada no sentido de que há discordância quando o formalista aponta que “em arte o processo de percepção é um fim em si mesmo”. Ora, como venho observando até o momento, e não apenas em relação a Naked Lunch, mas na arte em geral, o fenômeno do estranhamento não se restringe à evocação estética pela evocação estética, mas, para além disso, nos possibilita encarar o conjunto de nossas experiências sob ângulos diversos em relação ao qual fomos socialmente adestrados via herança cultural.
Tendo isso em mente, convém citar o seguinte comentário de D’Aléssio Ferrara (1986, p.35) que complementa a teoria desenvolvida por Chklóvski:
Esta teoria terá, pois, uma base sintática, estranhar consiste em construir, através da linguagem, circunstâncias singulares de percepção.
Nessa tarefa, a arte estranha constrói um significado sem significado no sentido de não ser identificável no referente, mas que se consubstancializa como parte integrante do próprio fato artístico. Produz-se um significado que, na medida mesma em que se torna autônomo em relação ao universo referencial, cria um significado vincado nas suas próprias estruturas de organização.
Burroughs ainda estabelece rupturas em relação aos valores morais, como nesta cópula, envolvendo o ser fantástico Mugwump e um garoto, em que imbrica êxtase e morte:
108
Suddenly the Mugwump pushes the boy forward into space, free of his cock. He steadies the boy with hands on the hip bones, reaches up with his stylized hieroglyph hands and snaps the boy’s neck. A shudder passes through the boy’s body. His penis rises in three great surges pulling his pelvis up, ejaculates immediately. […] The Mugwump pulls the boy back onto his cock. The boy squirms, impaled like a speared fish. The Mugwump swings on the boy’s back, his body contracting in fluid waves. Blood flows down the boy’s chin from his mouth, half-open, sweet, and skulky in death. The Mugwump falls with a fluid, sated plop.103(BURROUGHS, 1993, p.70).
Esse teor é concedido, praticamente, a todas as relações sexuais em Naked Lunch, que em sua avassaladora maioria são promiscuamente homossexuais. Quando há mulheres, nas relações sexuais em Naked Lunch, elas acabam por sodomizar o parceiro com o uso dos vibradores Steely Dan, que, dependendo da classificação - I, II, III - , podem ser de borracha, aço etc.104
Em relação à entidade Mugwump, Burroughs funde duas obsessões na construção desse personagem: o sexo homossexual e as drogas. E é assim que o narrador descreve essa espécie de criatura que habita Interzone:
On stools covered in White satin sit naked Mugwumps sucking translucent, colored syrups through alabaster straws. Mugwumps have no liver and nourish themselves exclusively on sweets. Thin, purple-blue lips cover a razor-sharp beak of black bone with which they frequently tear each other to shreds in fights over clients. These creatures secrete an addicting fluid from their erect penises which prolongs life by slowing metabolism.105
(BURROUGHS, 1993, p. 54).
Voltando a consideração da linguagem enquanto portadora de ideologia e formadora de sistemas simbólicos, Bordieu em O poder simbólico (2000, p.11) aponta o seguinte:
103 “De repente o Mugwump empurra o garoto para a frente no espaço, livre de seu caralho. Estabiliza seu corpo
com as mãos nos ossos dos quadris, estende as mãos hieroglíficas estilizadas e estrala o pescoço do garoto. Um estremecimento lhe percorre o corpo. Seu pênis levanta-se em três grandes impulsos puxando a pélvis para cima e ejacula rapidamente. [...] O Mugwump puxa o garoto de volta contra seu pênis. O garoto estremece, empalado como peixe arpoado. O Mugwump balança-se nas costas do garoto e seu corpo se contrai em ondas fluídicas. O sangue flui pelo queixo do rapaz, brota da boca entreaberta, doce e austera da hora da morte. O Mugwump cai com um ruído fluídico e saciado.” (BURROUGHS, 1984, p. 78).
104 Numa das entrevistas concedidas a Gay Sunshine, quando o entrevistador, John Giorno, pergunta a Burroughs
se ele se considera um escritor gay, a resposta é a seguinte: “Não. Nem sei o que isso significa. Sou, obviamente um escritor homossexual em cujos livros raramente aparece mulher.” (In: Sexualidade & criação literária, 1980, p. 52).
105 “Em bancos cobertos de branco cetim sentam-se, nus, os Mugwumps que bebem translúcidos xaropes
coloridos em canudos de alabastro. Os Mugwumps não têm fígado e se alimentam exclusivamente de doces. Os lábios finos, azul-púrpura, cobrem um bico de osso negro afiado como uma navalha com o qual às vezes se fazem em pedaços nas lutas por clientes. Essas criaturas secretam de seus pênis eretos um fluido que vicia e prolonga a vida desacelerando o metabolismo.” (BURROUGHS, 1984, p. 58-59).
109
É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os ‘sistemas simbólicos’ cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber, para a ‘domesticação dos dominados’.
Seguindo essa linha de raciocínio, como já afirmado, Burroughs costumava repetir que “Linguagem é vírus”, e qualquer vírus necessita de organismos vivos para proliferar. Uma maneira alegórica para observar o mesmo fenômeno que Barthes descreve em Aula:
Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista: pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigado a dizer.
Assim que ela é proferida, mesmo que na intimidade mais profunda do