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1.6 Enerji Kaynakları ve Nükleer Enerji

1.6.3 Nükleer Enerji

O romance de utopia é bastante comum aos escritores de ficção científica. Desde Júlio Verne e H. G. Wells, passando por Phillip K. Dick e Ray Bradbury, até os mais contemporâneos, como J. G. Ballard e Tim Powers, já trabalharam com o tema. Aliás, os autores vinculados à ficção científica retomaram essa temática de origem remota, pois, como assinala Carpeaux: “[...] historicamente o gênero descende dos utópicos ‘romances políticos’ do século XVII e XVIII.”72

André Carneiro, escritor brasileiro de ficção científica, num estudo pioneiro referente ao gênero no Brasil: Introdução ao estudo da “Science-Fiction”, adequadamente aponta que:

O romance de Utopia do século dezoito ao começo do século dezenove, evocava, quase sempre, uma sociedade futura ideal e perfeita. Agora o significado de Utopia pode ser oposto, descrevendo um mundo destruído, estéril ou governado de maneira ditatorial e violenta.73

Como se pode ver, desde o surgimento dessa categoria de narrativa, até os dias atuais, houve complexas mudanças no tema, de maneira que a palavra-conceito “utopia” também passou a ter acepção contrária à de origem, que muitos quiseram resguardar sob o termo “distopia”, ou “antiutopia” como usa Carpeaux. No entanto, conforme Anthony Burguess observa:

A palavra utopia, criada por Morus, sempre teve uma conotação de facilidade, conforto, a Terra do Lótus, quando, na verdade, designa apenas qualquer sociedade imaginária, seja ela boa ou má. Os elementos gregos que compõem a palavra são: ou, que quer dizer não, sem; e topos, lugar. [...] Distopia sempre aparece como um antônimo de utopia, mas na verdade os dois termos se assemelham.74

Assim sendo, o autor de Clockwork Orange propõe uma nova designação com o intuito de classificar sociedades imaginárias inóspitas e insalubres: “cacotopia” (do grego kakos = mau + topos = lugar).

72 CARPEAUX, op. cit., p. 318.

73 CARNEIRO, André. Introdução ao universo da “Science-Fiction”. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura,

1967. p. 31.

74 BURGUESS, Anthony. 1985. Tradução João Maia Neto e Júlia Tettamanzy. Porto Alegre: L&PM, 1989. p.

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Nesse sentido, as sociedades imaginárias Freeland, Annexia e Interzone, presentes em Naked Lunch, podem ser chamadas “cacotópicas”. Nessas terras - como está no trecho em que William Lee atravessa a fenda para fora do espaço-tempo - pode-se vislumbrar: Telepathic Burecracies, Time Monopolies, Control Drugs, Heavy Fluid Addicts.

É inquestionável que, no século XX, as obras mais difundidas referentes a cacotopias são Admirável mundo novo de Aldous Huxley (1932) e 1984 de George Orwell (1948); ambas inspiradas em Nós, do russo Eugene Zamiatin, escrita em 1923.

Considerando-se o exposto, em Naked Lunch parece haver um estreito diálogo paródico com as sociedades alegóricas de Huxley e Orwell, como será agora demonstrado.

É sabido que Admirável mundo novo tem como fundamento inspirador a moderna sociedade norte-americana, no bojo da qual se constituíram as “linhas de montagem” automobilísticas de Henry Ford. Esse fenômeno acabou sendo uma revolução tanto para a indústria quanto para a sociedade, a ponto de Ford, em Admirável mundo novo, ser considerado, literalmente, “Deus”; e daí os processos históricos serem sistematizados sob a forma de “a.F.” e “d.F.”: “antes de Ford” e “depois de Ford”.

Na sociedade fictícia de Huxley não há coerção direta. O comportamento social é controlado por meio de processos genéticos e administração de drogas (“Soma”). Não há guerras, o sexo é totalmente permitido, e todos vivem felizes de um modo bastante vazio. Tal processo é semelhante ao que se estabelece em Freeland:

Freeland was a welfare state. If a citizen wanted anything from a load of bone meal to sexual partner some department was ready to offer effective aid. The threat implicit in this enveloping benevolence stifled the concept of rebellion…75(BURROUGHS, 1993, p.149).

Burroughs, ao explorar esse modelo de controle civil - que sempre se mostrou muito eficaz - , insere teorias pessoais nas falas de alguns personagens, como é o caso do Dr.

75 “Liberterra é um Estado de Bem-Estar. Se um cidadão deseja qualquer coisa, de meio quilo de carne a um

parceiro sexual, algum departamento está sempre pronto a fornecer sua ajuda eficiente. A ameaça implícita nesta benevolência envolvente abafa qualquer ato de rebeldia...” (BURROUGHS, 1984, p.167).

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Benway, que é tão protagonista quanto William Lee. Aliás, o encontro entre eles, na obra, foi promovido da forma como nos relata o “agente”:

So I am assigned to engage the services of Doctor Benway for Islam Inc. Dr. Benway had been called in as advisor to the Freeland Republic, a place given over to free love and continual bathing. The citizens are well adjusted, co-operative, honest, tolerant and above all clean. But the invoking of Benway indicates all is not well behind that hygienic façade: Benway is a manipulator and co-ordinator of symbol system, an expert on all phases of interrogation, brainwashing and control. I have not seen Benway since his precipitate departure from Annexia, where his assignment had been T.D. – Total Demoralization. Benway’s first act was to abolish concentration camps, mass arrest and, except under certain limited and special circumstances, the use of torture.

‘I deplore brutality’, he said. ‘It’s not efficient. On the other hand, prolonged mistreatment, short of physical violence, gives rise, when skillfully applied, to anxiety and a feeling of special guilt. A few rules or rather guiding principles are to be borne in mind. The subject must not realize that the mistreatment is a deliberate attack of anti-human enemy on his personal identity. He must be made to feel that he deserves any treatment he receives because there is something (never specified) horribly wrong with him. The naked need of the control addicts must be decently covered by an arbitrary and intricate bureaucracy so that the subject cannot contact his enemy direct.’76 (BURROUGHS, 1993, p.31).

Huxley em Regresso ao admirável mundo novo, livro de 1959, em que amplamente comenta as implicações de Admirável mundo novo, ressalta que:

A sociedade descrita no 1984 é uma sociedade controlada quase exclusivamente pelo castigo e pelo receio do castigo. No mundo fictício da minha própria imaginação, o castigo não é freqüente e é, de modo geral, brando. O controle quase perfeito exercido pelo governo é executado pelo reforço metódico de comportamento desejável, por inúmeras variações de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica, e pela estandartização genética. 77

76 “Fui então encarregado de contratar os serviços do doutor Benway para Islam S.A.

Dr. Benway havia sido chamado como conselheiro da República de Liberterra, um lugar consagrado ao amor livre e banhos constantes. Os cidadãos são bem ajustados, com espírito de cooperação, honestos, tolerantes e acima de tudo limpos. Mas a contratação de Benway indica que nem tudo vai bem por trás dessa higiênica facada: Benway é um manipulador e coordenador de sistemas simbólicos, um especialista em todo tipo de interrogatório, lavagem cerebral e controle. Eu não via Benway desde sua partida de Anexia onde seu contrato fora para T.D. – Total Desmoralização. O primeiro ato de Benway foi abolir os campos de concentração, as prisões em massa e – a não ser em circunstâncias especiais e limitadas – o uso da tortura.

‘Deploro a brutalidade’, disse ele. ‘Não é eficiente. Por outro lado o mau trato prolongado, sem chegar à violência física, dá lugar, quando utilizado inteligentemente, à ansiedade e a um sentimento de culpa bastante especial. Deve-se ter em mente umas poucas regras, ou melhor, alguns princípios orientadores. O sujeito não deve tomar consciência que o mau trato é um ataque deliberado de um inimigo anti-humano contra sua identidade pessoal. Deve-se fazer com que ele sinta que merece qualquer tratamento que receba porque existe alguma coisa (nunca definida) de terrivelmente errada com ele. A necessidade viva dos viciados sob controle deve ser decentemente escondida sob uma intricada e arbitrária burocracia para que o indivíduo não possa contactar o inimigo de frente’.” (BURROUGHS, 1984, p.32).

77 HUXLEY, Aldous. Regresso ao admirável mundo novo. Tradução Eduardo Nunes Fonseca. São Paulo:

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As concepções de Burroughs, a respeito de que a linguagem é empregada para manipulação social, eram bastante próximas aos apontamentos feitos por Huxley. “Linguagem é vírus”78, era uma de suas frases mais repetidas. Por isso, foi apontado que a fala de Dr. Benway serviu de “porta-voz” às avessas para as teorias de Burroughs, pois, enquanto Burroughs fazia o “diagnóstico” e alertava para o uso mal intencionado da linguagem pelas autoridades institucionalizadas - à maneira que Huxley também aponta - , o escroque Dr. Benway faz fórmula de aplicação da mesma proposição.

E Benway bem que tentou empregar a mesma diretriz em Annexia, mas esse território funciona de forma diferente de Freeland, pois:

All benches were removed from the city, all fountains turned off, all flowers and trees destroyed. Huge electric buzzers on the top of every apartment house (everyone lived in apartments) rang the quarter hour. Often the vibrations would throw people out of bed. Searchlights played over the town all night (no one was permitted to use shades, curtains, shutters or blinds).79

(BURROUGHS, 1993, p.32).

Annexia é a representação de uma sociedade bastante próxima a “Lestásia” de 1984, onde a burocracia explicitamente oprime, ao invés de se fazer tornar necessária. E, bem à maneira burroughsiana, assim é descrita a vida nessa localidade:

Every citzen of Annexia was required to apply for and carry on his person at all times a whole portfolio of documents. Citizens were subject to be stopped in the street at any time; and the Examiner, who might be in plain clothes, in various uniforms, often in a bathing suit or pyjamas, sometimes stark naked except for a badge pinned to his left nipple, after checking each paper, would stamp it. […] Documents issued in vanishing ink faded into old pawn tickets. New documents were constantly required. The citizens rushed from one bureau to another in a frenzied attempt to meet impossible deadlines.80

(BURROUGHS, 1993, p.31-32).

78 Ver LOPES, Rodrigo Garcia. Folha de S. Paulo, p. 8, 26 abr. 1992.

79 “Todos os bancos foram removidos da cidade, todas as fontes das praças fechadas, todas as árvores destruídas.

Enormes cigarras elétricas no teto de todos os edifícios (todos moravam em apartamentos) tocavam a cada quarto de hora. Freqüentemente as vibrações arrancavam as pessoas da cama. Holofotes brincavam sobre a cidade a noite inteira (a ninguém era permitido ter persianas, cortinas ou postigos.).” (BURROUGHS, 1984, p. 32).

80 “Exigia-se de todo cidadão de Annexia que requeresse e carregasse consigo o tempo todo uma pasta cheia de

documentos. Eles estavam sujeitos a serem na rua a qualquer momento; e o Examinador, que podia estar à paisana, em diversos uniformes, freqüentemente de calção de banho ou pijama e às vezes completamente nu, só com um distintivo alfinetado no mamilo esquerdo, depois checar cada papel, os selaria. [...] Documentos impressos em tinta que desaparecia se convertiam em velhos cartões de prego. Novos documentos eram requeridos constantemente. Os cidadãos corriam de escritório em escritório numa tentativa desesperada de cumprir prazos impossíveis.” (BURROUGHS, 1984, p. 32).

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O discurso paródico em Naked Lunch envolve mais nuances que a mera comparação textual com finalidade de referenciar, pois o seu emprego também implica na realização de ironias. Nesse sentido, Hutcheon afirma que:

A paródia é, pois, na sua irônica ‘transcontextualização’ e inversão, repetição com diferença. Está implícita uma distanciação crítica entre o texto em fundo a ser parodiado e a nova obra que incorpora, distância geralmente assinalada pela ironia. Mas essa ironia tanto pode ser bem humorada, como pode ser depreciativa; tanto pode ser criticamente construtiva, como pode ser destrutiva.81

Burroughs utiliza as várias tonalidades irônicas acompanhadas de seu discurso paródico, que, mediante os excertos selecionados, basicamente tem se restringido ao tom bem humorado. A devida “distância” na incorporação de gêneros e elementos parodiados de outras obras, cuja percepção de grande parte não requer erudição aprofundada do leitor, faz-se notar na medida em que o autor usa do expediente mais comum em suas obras: a hiperbolização de situações, ou seja, o uso do exagero em contraste com a sutileza.

Nesse sentido, torna-se essencial uma outra observação de Linda Hutcheon a respeito da paródia, que bem denota a estratégia de Burroughs em empregar idiossincrasias das detective stories, do romance de espionagem, do fantástico, da ficção científica, entre outros. Conforme Hutcheon (1989, p.52): “[...] a paródia é, pois, tanto um ato pessoal de suplantação, como uma inscrição de continuidade histórico-literária.”

Antes de adentrar nas considerações sobre um terceiro mundo cacotópico em Naked Lunch - Interzone - , será de fundamental importância citar determinado trecho de uma entrevista com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, concedida à revista Science-Fiction 5, cuja opinião, ainda que apresente desatinos ao tratar da ficção científica – gênero sobre o qual ele assume ter pouco conhecimento –, acaba por tocar num ponto nevrálgico na concepção de escrita em Burroughs, como se a consideração emitida tivesse sido elaborada especialmente para o escritor beat:

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É conhecido o jogo intelectual da transgressão: passar a fronteira sagrada comporta um risco – o da vulgaridade – , mas pode ser também o acúmulo do chique. As histórias em quadrinhos, a ficção científica ou, anteriormente, o cinema beneficiaram-se ou beneficiar-se-ão dessa arte de ‘brincar com o fogo’: assume-se um ar canalha, mostrando-se e exibindo-se como alguém capaz de situar-se além dessas fronteiras primárias, boas para os pedantes. É um exemplo típico da estratégia de condescendência, com a qual se obtêm as vantagens da hierarquia e as vantagens de sua transgressão. Essas estratégias são muitas vezes coisa de pessoas que estão numa posição marginal ou inferior no campo intelectual e que conseguem uma espécie de desforra ao tentar reabilitar as artes menores. Nesses jogos internos ao campo intelectual, as artes menores são objetivos de jogo. O destino dos gêneros menores é estarem sempre enfrentando a questão de sua legitimidade.82

Isso também implica na questão de quebras de barreiras entre o erudito e o popular, pois, como bem disse Burroughs (1996, p.81): “[...] eu geralmente trabalho mais com idéias do que com estilos.” É exatamente o que ocorre nestes trechos de Naked Lunch, em que o escritor alegoriza o dependente de drogas pesadas a partir de estratagemas dignos de Filmes B e Histórias em Quadrinhos - considerados por muitos como artes (mais que) menores - , culminando numa atitude conforme teorizada por Bourdieu:

Willy has a round, disk mouth lined with sensitive, erectile black hairs. He is blind from shooting in the eyeball, his nose and palate eaten away sniffing H, his body a mass of scar tissue hard and dry as wood. He can only eat the shit now with that mouth, sometimes sways out on a long tube of ectoplasm, feeling for the silent frequency of junk.83 (BURROUGHS, 1993, p. 21).

No excerto que segue, um policial, cuja função era se envolver no mundo dos narcóticos para a detenção dos indivíduos relacionados a esse meio, acaba por se tornar um dependente em estado crítico, perdendo sua humanidade a ponto de se metamorfosear numa criatura hedionda que digeria suas vítimas, até ser morto com um lança-chamas:

The Buyer had lost his human citzenship and was, in consequence, a creature without species […]. Like a vampire bat he gives off a narcotic effluvium, a dank green mist that anesthetizes his victims and renders them helpless in his

82 BOURDIEU, Pierre. A Ficção Científica. In: ______. O campo econômico: A dimensão simbólica da

dominação. Tradução Roberto Leal Ferreira; revisão técnica Daniel Lins. Campinas: Papirus, 2000. p.89.

83 “Willy tem uma boca redonda em forma de disco, rodeada de pêlos sensíveis e eretos. Ele é cego de se

aplicar no olho, seu nariz e palato comidos de tanto cheirar heroína; seu corpo, uma massa de tecido cicatrizado, duro e seco como madeira. Ele só consegue agora comer a merda com essa boca, e às vezes emite um longo tubo de ectoplasma, tateando pela freqüência silenciosa da droga.” (BURROUGHS, 1984, p. 20).

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enveloping presence […], and, Shlup… shlup, shlup, [and was] destroyed with a flame thrower.84 (BURROUGHS, 1993, p.29).

A paródia, com suas modalidades, ainda será enfocada mais adiante. No momento, convém voltar às cacotopias em Naked Lunch.

Assim, bem à maneira da novela picaresca, os personagens de Naked Lunch transitam pelos mundos cacotópicos até agora demonstrados. E ainda falta, no macrocosmo burroughsiano, abordar a sociedade de Interzone: “[...] um lugar em que o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num vibrante zumbido inaudível... Entidades larvais esperando pelo que está vivo...” (BURROUGHS, 1984, p. 105).

Pode-se dizer que o território de Interzone é uma representação, à la Burroughs, de Tanger, que é sugestionado quando da menção à religião muçulmana, dos costumes, e das tradições típicas desse local. Some-se a isso o fato de que Tanger era uma Zona Internacional no Norte da África, uma zona para aonde artistas, exilados e trapaceiros em geral acabavam indo; um conhecido ponto turístico dada sua localização geográfica.

Em Interzone, terra de ninguém, a corrupção é exercida de maneira desenfreada, tanto por insólitos partidos políticos, na maioria conservadores e extremamente rivais entre si, como por sádicos magnatas que enriqueceram com atividades de tráfico de teor “surreal”. “Placenta Juan, the Afterbirth Tycoon”, por exemplo, o “Magnata Pós-parto” que contava com a ajuda do Dr. Benway para suas falcatruas, como o próprio doutor comenta:

Then I met a great guy, Placenta Juan, the Afterbirth Tycoon. Made his in slunks during the war. (Slunks are underage calves trailing afterbirths and bacteria, generally in an unsanitary and unfit condition. A calf may not be sold as food until it reaches a minimum age of six weeks. Prior to that time it is classified as a slunk. Slunk trafficking is subject to heavy penalty.).85

(BURROUGHS, 1993, p. 38).

84 “O Comprador perdeu sua cidadania humana, transformando-se conseqüentemente numa criatura sem

espécie, [...]. Semelhante a um vampiro, ele soltava um eflúvio narcótico, uma neblina negra que anestesiava as vítimas e tornava-as indefesas em sua presença [...], e, Shlup... shlup, shlup, [...], [e foi] destruído com um lança-chamas”. (BURROUGHS, 1984, p. 28).

85 “Conheci então um grande sujeito, Placenta Juan, o Magnata Pós-Parto. Ele faturou alto durante a guerra

comercializando prematuros. (Os prematuros são terneiros recém-nascidos que ainda arrastam restos de placenta e têm muitas bactérias, geralmente em condições anti-higiênicas e impróprias. O terneiro não pode ser vendido como alimento antes da idade mínima de seis semanas. Antes disso, é classificado como prematuro. O tráfico de

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E ainda nesta passagem, em que se evidencia outro empreendimento de sentido semelhante, a tradução comete a gafe de traduzir o ofício do indivíduo - coroner - como “juiz”, quando o adequado seria “médico-legista” de Interzone:

In Egypt is a worm gets into your kidneys and growns to an enormeous size. Ultimately the kidney is just a thin shell around the worm. Intrepid gourmets esteem the flesh of The Worm above all other delicacies. It is said to be unspeakably toothsome…. An Interzone coroner known as Autopsy Ahmed made a fortune trafficking The Worm.86(BURROUGHS,1993, p. 58).

Assim, o tráfico de coisas inusitadas faz a fortuna desses contrabandistas, que contam com o auxílio das autoridades de Interzone, ou com a ignorância das mesmas. Isso é algo bem típico de países subdesenvolvidos, em que ocorre a realização de quaisquer tipos de negócios indecorosos, mediante acordo político ou mesmo sem esse.

Em minha perspectiva, essas localidades imaginárias presentes em Naked Lunch também foram elaboradas enquanto representações para os territórios percorridos por Burroughs, em suas experiências de viajante explorador, e que a posteriori auxiliaram sua ficção, como ele próprio declarou na entrevista para Paris Review (1988, p.153): “Bem se eu não tivesse coberto tanto chão, não teria encontrado as dimensões extras de personagem e extremidade que fazem a diferença.”

Dessa maneira, creio que Tanger tenha servido de base para Interzone. No entanto, as características dessa localidade imaginária não estão restritas à cidade africana, pois, no excerto em que o narrador assume, entre parênteses, o uso do yage para descrever alguns pontos geográficos em Interzone87, esse trecho, quase por completo, foi escrito em 1953, e originalmente publicado em Cartas do Yage, ocasião em que o autor estava no Peru. Aliás,

prematuros está sujeito a severas punições.).” (BURROUGHS, 1984, p. 39).

86 “No Egito tem um verme que entra nos rins e cresce até alcançar um tamanho enorme. E no final o rim não