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O mundo ocidental ao final do século XVIII assistia a mudanças profundas em suas estruturas políticas e sociais. Nos Estados Unidos, o país revirava-se em sua campanha pela independência. Na França, em 1789, a Revolução Francesa instalou o reino do terror da guilhotina que ameaçava a todos, levando o Rei Luis XVI a ser decapitado. Os franceses gritavam por Liberté, Egalité, Fraternité76, mas tiveram como
consequência a ascensão de Napoleão como imperador.
Na Inglaterra, as mudanças se davam através dos meios de produção: era a Revolução Industrial, que fazia subir aos céus ingleses torres que vomitavam fumaça constantemente. A natureza começava a perder seu espaço. O êxodo rural levava milhares de pessoas para as cidades, como Londres, que aos poucos se tornaram amontoadas de gente, porém, não havia estrutura nenhuma para receber tantos, em tão pouco tempo.
O povo tornava-se uma massa sem muita distinção. Os trabalhadores eram vistos como um corpo sem face, todos iguais, viviam amontoados em ambientes sujos que mais lembravam guetos em pleno estado de miséria. A sociedade dividia-se, em grande parte, em duas classes sociais totalmente distintas. Os burgueses, pequena parcela da população, começavam a controlar a política e a economia, o Capitalismo florescia. Por
outro lado, os pobres, assalariados, inclusive crianças, trabalhavam nas indústrias em condições precárias, por horas e horas durante o dia.
A literatura refletiu essas mudanças com o Romantismo. Na Inglaterra, a nova tendência literária começou a ganhar forma em 1798, com o lançamento de Lyrical
Ballads, de Wordsworth e Coleridge. O movimento só sairia de cena por volta de 1832,
com a morte de Sir Walter Scott. Porém, a estética Romântica não sai de fato do palco, perdurará por muito tempo influenciando o curso da literatura inglesa, e ocidental, no século XIX.
De acordo com Abrams (1979), os primeiros autores a abraçarem a estética Romântica não se auto-denominaram como “Românticos”. Essa nomenclatura só surgiria na segunda metade do século XIX. Ou seja, não existia um grupo de autores classificados como “Românticos”. Em parte, eram poetas independentes. Alguns, porém, participaram de escolas literárias, como The Lake School, que reuniu nomes como: Wordsworth e Coleridge, sendo apontada como o movimento fundador do Romantismo na Inglaterra; e a The Satanic School, que tinha como integrantes Shelley e Byron.
Segundo Carpeux (2012), o Romantismo, antes de tudo, foi um movimento revolucionário, rebelde, que se colocava contra a ordem e a calma que imperava no Neoclassicismo. Porém, não podemos nos ater a falar do Romantismo como um movimento singular. Foi plural, plástico, amplo, complexo, houve inúmeros “movimentos Românticos”. Em um só país é possível enxergar diferentes estéticas Românticas dentre os mais diversos escritores.
Além disso, o Romantismo buscava a liberdade, o afloramento do sentimento interior, o encorajamento pessoal, a vida em seus contornos subjetivos. O homem ganhou uma silhueta individual, era o alvorecer do individualismo.
Ao passar do tempo, o movimento foi fixando-se em diversos locais do mundo, em situações e épocas diferentes. De acordo com Fay (2002), os Românticos olhavam para o passado buscando inspiração para suas causas contemporâneas, queriam tratar dos problemas econômicos e sociais que eclodiam na Europa. Olhavam para o retrovisor da história tentando encontrar um caminho a seguir, ao mesmo tempo em que
buscavam entender sua contemporaneidade. O Romantismo foi um período transitório e revolucionário em que o presente, e implicitamente, o futuro poderiam ser compreendidos em uma relação de observância do passado.
Porém, não se configurava com um movimento nostálgico. Os Românticos queriam a volta das características filosóficas, artistas, espirituais, sociais e políticas que a humanidade começara a esquecer, tudo isso de maneira repensada, intentando para o novo. Boa parte dos movimentos Românticos, no mundo ocidental, como defende Carpeaux (2012), tinham em comum a busca por fazer algo novo, que fosse original, diferente de tudo que vinha sendo feito, quebrando, assim, estruturas que estivessem fixas, mas valorizando o passado.
Dessa forma, o Romantismo lutou ao lado da sociedade pela consolidação das mudanças almejadas nas revoluções sociais que explodiram na Europa, a partir da Revolução Francesa. O movimento Romântico tinha como meta alcançar o “espírito de renovação”.
Os poetas Românticos passaram a ser o que chamamos, de acordo com nosso entendimento, de Poetas- Messias, ou seja, o artista torna-se aquele que leva a nação ao renascimento intelectual, ao acordar de uma nova era. De acordo com Fay (2002), o mundo carecia, na visão dos Românticos, de uma nova fé que fosse, sobretudo, artística.
Na Inglaterra, o Romantismo foi, em parte, uma resposta ao Enlightenment (iluminismo), que buscava acabar com os medos “irracionais” dos homens, a crença era substituída pelo conhecimento. Porém, a ciência sozinha não deu conta de responder a tudo pelo raciocínio. O homem está preso, ainda hoje, aos antigos receios, principalmente os ocultos, os desconhecidos, que parecem planar em nossas cabeças. O Romantismo seria tanto uma reação ao Enlightenment, quanto uma forma de driblar o racionalismo.
De acordo com Fay (2002) e Carpeaux (2012), fazem parte da estética Romântica: a apropriação da natureza; a valorização do intelecto e do indivíduo através da exaltação do “eu”; a ascensão do herói; forte interesse pelas raízes literárias dos povos do passado, através do folclore. As questões e a língua do homem ‘comum’ ganham espaço, Wordsworth defendia no prefácio de Lyrical Ballads, por exemplo,
“adotar a mesma língua dos homens77” e retratar “incidentes e acontecimentos da vida
comum78”, pois os sentimentos mais profundos do ser humano apareceriam em uma
“vida humilde e rústica, porque nestas condições as paixões essenciais do coração encontram melhor o sol para atingir maturidade, sofrem menos restrições e falam de uma linguagem mais clara e enfática” 79. Os Românticos ainda almejavam a valorização
de elementos do sobrenatural como: o oculto, o monstruoso e o satânico. Tudo isso deveria estar presente em uma poesia que fosse resultante, como diz Coleridge, da “emoção recolhida na tranqüilidade80” com tratamento alegórico da realidade.
O Romantismo virou sinônimo de “poesia da natureza”. Simmons (2011) diz que esse tipo de poesia é, na verdade, cortina para retratar problemas emocionais ou crises pessoais. A natureza se ligava ao homem através de uma concepção metafísica que inspirava o sentimento. Isto era, em parte, resposta aos filósofos e pensadores científicos que levavam a sociedade a um caminho puramente técnico, matando os deuses.
Os poetas ingleses foram influenciados, segundo Agrawal (1990), pelos pintores italianos que retravam paisagens e cenas pastoris através de contornos sobrenaturais. Os poetas intentavam descrever uma natureza ancorada na reflexão do sublime, mostrando a sua força e a beleza. O poema My Heart Leaps Up81 (1802), de Wordsworth, é um dos muitos exemplos da valorização da natureza, do bucólico, da busca pela inocência, e da melancolia. É a lembrança da paisagem natural que começava a se esfacelar com a Revolução industrial.
Meu coração bate mais forte ao ver O arco-íris no céu surgir;
Assim foi no início de minha vida, Assim é, metade dela corrida, Assim seja quando envelhecer, Se não a morte irei preferir! O Menino é o pai do Homem; Queria que meus dias fossem, afinal,
77
to adopt the very language of men
78 incidents and situations from commom life 79 (Wordsworth, 1979, p171)
80
emotion recolleted in tranquility
81 A tradução do poema foi retirada do site: http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2007-10-
Unidos um a um pela piedade natural82.
Coleridge foi além do pensamento proposto por Wordsworth, ele buscava inspiração no período medieval, influenciado, em parte, pelo Medieval Revival, e escrevia através de símbolos, talhando a língua inglesa a seu favor, fazendo dela palco para a construção de uma rede simbólica própria. Faflak (2012) acredita que Coleridge foi um dos maiores autores simbolista da literatura inglesa até hoje e seu pendor para os símbolos influenciou gerações futuras de escritores, como o próprio Yeats.