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B- Kürdistan Pazarı

II- Aydınlar:

Todo esse itinerário empreendido em torno dos processos de apropriação e difusão da historiografia dos Annales completa-se com as considerações que apresentaremos ao longo desse capítulo. Assim, se, nos dois momentos anteriores, prezamos por demonstrar a materialização desses processos de apropriação e difusão, nessa etapa, voltamo-nos, sobretudo, para os aspectos capazes de explicar toda essa abertura oferecida às concepções historiográficas dos Annales. Afinal de contas, por que era interessante para esse grupo que estava à frente da RH, reivindicar esse alinhamento com a historiografia dos Annales? Existe algum motivo subjacente a esse discurso historiográfico? Que práticas ele esconde? Tais formulações, sem dúvida, não deixam de nos direcionar para o conjunto de preocupações responsáveis por orientar essa pesquisa. Todas elas são centrais nesse trabalho, pois permitem-nos passar do “como?” para o “por que?”, transição comum, porém, importante nas pesquisas circunscritas no âmbito do conhecimento histórico.

Assim, para melhor refletirmos acerca dessa questão capital, devemos retroceder algumas décadas antes da fundação da revista, com o intuito de precisar, mais concretamente, as circunstâncias que caracterizaram a receptividade dos Annales no Brasil. Seguindo essa orientação, voltamos nossas atenções para a criação da USP e da sua FFCL, instituídas através do mesmo decreto n° 6.283, assinado por Armando Salles de Oliveira, em 25 de janeiro de 1934, data que marca, justamente, as comemorações da fundação da cidade de São Paulo. Até onde pudemos perceber, os processos de difusão e apropriação dessa concepção historiográfica não deixam de relacionar-se, de forma mais direta, à criação dessa instituição de saber, que recebeu, desde a sua fundação, uma grande quantidade de professores franceses. Partindo dessa constatação, buscamos não apenas situar o momento em que esse pensamento historiográfico começou a ser veiculado, mas também procuramos identificar quem foram seus principais difusores.

Para obtermos essas informações, consultamos os índices das revistas dos Annales publicadas entre 1929 e 1950, ano que marca a fundação da RH. Tais índices foram comparados, sobretudo, com a lista de professores que integraram a missão cultural francesa de 1934, responsável por lecionar na FFCL-USP. A confrontação desses dados tornou

possível observar que, até 1950, todos os professores franceses de história enviados a São Paulo já haviam publicado um artigo ou pelo menos uma resenha na revista dos Annales. O professor Émile Coornaert, primeiro dos historiadores franceses a lecionar na faculdade dos paulistas durante o ano de 1934, colaborou com a publicação de duas resenhas e um artigo, que foram impressos nesse periódico francês, ao longo de 1932189. Jean Gagé, que trabalhou nessa instituição de saber entre 1938 e 1946, também publicou um artigo, nessa mesma revista, durante o ano de 1936190. Já Émile-G. Léonard, contratado para atuar enquanto docente no intervalo de anos que vai de 1948 a 1951, imprimiu sua primeira colaboração nos

Annales em 1940191. A atenção em torno dessas datas é importante, pois demonstram que esses historiadores colaboraram com o periódico francês antes de suas respectivas passagens pelo Brasil. De acordo com o nosso ponto de vista, tal constatação não deixa de evidenciar, pelo menos, uma relativa proximidade entre esses historiadores e o grupo dos Annales.

O historiador Fernand Braudel, por sua vez, teve duas passagens pelo Brasil. Na primeira, mais longa, lecionou na FFCL-USP entre os anos de 1935 e 1937; na segunda, retornou a essa mesma instituição para trabalhar, por um período mais curto, durante o ano de 1947. Ambas essas experiências ocorreram em dois momentos distintos da trajetória intelectual desse historiador francês. O primeiro momento não deixa de marcar ainda o seu período de formação, enquanto o segundo representa uma fase mais madura de sua trajetória, na qual o autor já encontra, inclusive, mais reconhecimento no cenário intelectual francês. Examinados os índices dos Annales, pudemos constatar que a sua primeira colaboração nessa revista ocorreu em 1938, aproximadamente um ano depois do seu retorno à França192. No entanto, as afinidades que esse historiador francês mantinha com essa concepção historiográfica manifestaram-se ainda antes da data dessa publicação. O filósofo Jean Maugüé, que também integrou a missão cultural francesa, revela que o governo brasileiro convidara-o “para formar os estudantes do país nos métodos que a equipe dos Annales desenvolvera. E foi a esta tarefa que Braudel se dedicou com uma autoridade talvez ranzinza e

189

COORNAERT, Émile. Économie néerlandaise. In: Annales d’Histoire Économique et Sociale, année 4, n° 14. Paris: Armand Colin, 1932, p. 218; _________. Belgique. In: Annales d’Histoire Économique et Sociale, année 4, n° 17. Paris: Armand Colin, 1932, p. 527; _________. L’abbé Flores Prims, Geschiedenis van Antwerpen. In: Annales d’Histoire Économique et Sociale, année 4, n° 18. Paris: Armand Colin, 1932, p. 602. 190

GAGÉ, Jean. Dans l'Italie romaine : les cadres municipaux et l'occupation et l'occupation du sol. In: Annales

d’Histoire Économique et Sociale, année 8, n° 40. Paris: Armand Colin, 1936, p. 387.

191 LÉONARD, Émile-G. Les Protestants français du XVIIIe siécle. In: Annales d’histoire sociale, année 2, n° 1. Paris: Armand Colin, 1940, p. 5.

192 BRAUDEL, Fernand. Dans les Espagne d’avant La Reconquiste. In: Annales d’Histoire Économique et

Sociale, année 10, n° 52. Paris: Armand Colin, 1938, p. 333. Nesse mesmo ano ainda, Braudel publicou uma

resenha, que se trata do seu segundo trabalho na revista, sendo o primeiro, de muitos, sobre o Brasil: ________. Les Jésuites au Brésil. In: Annales d’Histoire Économique et Sociale, année 10, n° 53. Paris: Armand Colin, 1938, p. 477.

mesmo algo tirânica, mas fecunda. Os alunos de Braudel aprenderam História e aprenderam a se tornar historiadores” (MAUGÜÉ apud DAIX, 1999, p. 144).

Embora bastante válido, o depoimento apresentado pelo filósofo francês precisa ser relativizado, sobretudo, nos aspectos concernentes ao suposto desejo das autoridades brasileiras em contratar professores filiados à concepção historiográfica dos Annales. O próprio Braudel não deixa de colocar em dúvida esse ponto de vista, quando afirma que a sua vinda para o Brasil tornou-se possível somente porque o “professor que deveria ir morreu subitamente. Eles estavam procurando um professor na Sorbonne, e como não encontrassem – eu era então professor auxiliar na Sorbonne, pouco acima do nível do porteiro – desceram até mim” (BRAUDEL apud DAIX, 1999, p. 117). Tal testemunho enfraquece, ainda mais, a informação apresentada por Maugüé, pois demonstra a falta de critérios reinante para o recrutamento dos professores que compuseram a missão francesa. Além disso, se considerarmos que, durante a década de 1930, o movimento dos Annales não era hegemônico nas instituições francesas, a tendência é observarmos essa afirmação ainda com mais reserva. Diante dessa situação, como podemos explicar a aproximação que esse grupo de historiadores franceses manifestou em relação aos Annales?

Essa inquietação pode ser resolvida, quando atentamos para o fato de que muitos desses historiadores eram bastante jovens, sendo essa juventude, talvez, um dos motivos capazes de explicar as reservas em relação à historiografia tradicional e o alinhamento com os

Annales. De fato, a experiência de ensino no Brasil, em uma universidade que estava se

construindo, não parece ter atraído os historiadores franceses mais comprometidos com a historiografia tradicional, que, na época, estavam bem instalados nos postos de ensino das principais universidades francesas. Outro fator importante, ainda, nesse sentido, é que Henri Hauser participou, também, diretamente, junto com Georges Dumas, da indicação dos professores franceses responsáveis por ocuparem os cargos oferecidos na FFCL-USP (LIMA, 2004, p. 88). Se levarmos em consideração a proximidade que Hauser manteve com essa concepção historiográfica, talvez, consigamos compreender melhor a ligação que esses jovens historiadores franceses manifestaram em relação aos Annales193. Diante disso, entendemos

193

O próprio H. Hauser, responsável, também, por escolher os professores enviados ao Brasil, veio ao nosso país na década de 1930, quando lecionou no Rio de Janeiro, na antiga UDF (Universidade do Distrito Federal), fundada em 1935. Outros professores, além de Hauser (colaborador da revista dos Annales desde 1929), vieram para trabalhar na área de história e geografia, tais como Eugène Albertini, Pierre Deffontaines, Victor Tapié e Antoine Bon. É importante ressaltarmos, ainda, que, no Rio Grande do Sul, houve também uma missão francesa. Essa missão cultural foi relativamente curta e contou com a participação de Jacques Lambert e Maurice Byé, que atuaram nas cadeiras de sociologia e economia política, entre os anos de 1937 e 1938. Ao contrário da experiência paulista, essas missões acabaram não obtendo grandes êxitos e longevidade. No Rio de Janeiro, isso se deveu ao clima político tenso, que levou Vargas a intervir diretamente na Universidade. Em Porto Alegre, as

que a aproximação desses professores com esse movimento existiu, porém, parece ser um pouco exagerado interpretar esse alinhamento como resultado de um esforço consciente por parte das autoridades paulistas e brasileiras.

O próprio Braudel oferece-nos, novamente, provas de que esse contato com a historiografia dos Annales já havia se manifestado durante a sua passagem por São Paulo. Ao comentar sobre a sua formação de historiador, ele afirma que “travara contato direto com Lucien Febvre, em 1932 e 1933, uma vez em casa de Henri Berr (com que mantinha relações desde 1930), uma vez na Encyclopédie française, na Rue du Four, outra vez na casa dele, em seu espantoso escritório da Rue du Val de Grâce” (BRAUDEL, 1992, p. 10). Seu biógrafo Pierre Daix (1999, p.124) lembra, no entanto, que esses não foram os primeiros contatos entre Braudel e Febvre. Antes disso, ambos já haviam se comunicado, indiretamente, através de cartas, escritas durante o ano de 1927. Apesar de todos esses contatos já demonstrarem a aproximação de Braudel com as concepções dos Annales, podemos dizer que seu verdadeiro encontro com L. Febvre ainda estava por acontecer. De acordo com as palavras do próprio Braudel, o encontro marcante com o fundador dos Annales ocorreu em 1937, momento em que ele partia definitivamente do Brasil. Neste instante, ao embarcar em um navio, em Santos, o mesmo encontrou

Lucien Febvre, que, por sua vez, voltava de uma série de conferências em Buenos Aires. Esses vinte dias de travessia foram, para Lucien Febvre, minha mulher e eu, vinte dias de conversas e risadas. Foi então que me tornei mais que um companheiro de Lucien Febvre, um pouco seu filho: sua casa em Souget, no Jura, tornou-se minha casa, seus filhos meus filhos” (BRAUDEL, 1992, p. 10).

Através da interessante tese elaborada por Luís Corrêa Lima, podemos verificar que essa aproximação de Braudel com os Annales manifestou-se, também, em uma série de trabalhos publicados por esse historiador francês no Brasil. Em 1935, por exemplo, em conferência que foi proferida na Faculdade de Direito e publicada no jornal O Estado de São

Paulo, Braudel mostra-se bastante atento ao movimento de renovação da historiografia

responsável por aproximar o conhecimento histórico do ponto de vista das ciências sociais194. Nesse novo contexto, os estudos alicerçados apenas nos acontecimentos ou na figura dos grandes homens perdem espaço para as abordagens centradas nos aspectos econômicos e

numerosas colônias italianas e alemãs colocaram obstáculos à contratação de professores franceses, que deveriam lecionar na recém-fundada Universidade do Rio Grande do Sul (LIMA, 2004, 86-91).

194 Para ver a conferência, fruto de uma publicação, posteriormente, consultar: BRAUDEL, Fernand. Anatole France e a história. In: O Estado de São Paulo. São Paulo, 10 nov.1935 (I parte), 17 nov.1935 (II parte).

sociais. De acordo com Lima (2004, p. 120-121), esses apontamentos revelam o quanto Braudel conhecia as novas tendências historiográficas, apesar de não mencionar que esse movimento foi encabeçado na França pelo grupo dos Annales. No mesmo ano, porém, Braudel publicou, nesse mesmo jornal, um novo artigo no qual homenageava o historiador belga Henri Pirenne195, que havia falecido há pouco tempo (LIMA, 2004, p. 122). Nesse trabalho, ele menciona uma série de referências de Pirenne, que são indicadas como leitura para os seus alunos mais maduros. Dentre essas menções, destaca-se a alusão feita em torno de um artigo que esse historiador belga imprimiu, em 1929, na própria revista dos Annales (LIMA, 2004, p. 124). Tal referência, somada aos apontamentos feitos em torno da interdisciplinaridade e da história total, demonstram a proximidade de Braudel com as novas orientações teóricas expressas pelo grupo dos Annales (LIMA, 2004, p. 127).

Essas observações apresentadas acima não deixam de convergir com os apontamentos que nós expusemos sobre outra conferência de Braudel, intitulada Pedagogia da História, que foi publicada, inicialmente, em 1936, nos Archivos do Instituto de Educação e reimpressa, posteriormente, na década de 1950, nas páginas da RH. Com a análise dessa publicação, pudemos constatar que Braudel voltou a apresentar proposições bastante próximas de determinadas orientações características dos Annales. Como em outros trabalhos escritos durante esse período, Braudel fez muitas menções em torno de H. Pirenne, historiador belga que dialogou e influenciou bastante a perspectiva historiográfica elaborada por esse grupo de historiadores agrupados ao redor da revista dos Annales. Esses apontamentos, que bem expressam a aproximação entre Braudel e esse movimento historiográfico, foram feitos, também, nos trabalhos dos já mencionados Luís C. Lima (2004, p. 138-141) e Pierre Daix (1999, p. 145-146). Em seus respectivos comentários sobre essa conferência, ambos os autores não deixaram de assinalar o quanto esse historiador francês já estava próximo, mesmo em 1936, das orientações expressas pelos Annales. Da mesma forma, tanto um quanto o outro, aprofundam os seus exames sobre essa questão, quando esclarecem que esses primeiros alinhamentos com os Annales ocorreram menos por conta de Bloch e Febvre e mais pela influência de Pirenne.

A discussão acerca de todos esses aspectos é bastante importante, na medida em que permite qualificar esses historiadores franceses como difusores da historiografia dos Annales no Brasil. Tal constatação torna-se, por sua vez, ainda mais interessante, quando atentamos para o fato de que todos eles atuaram, justamente, entre os anos de 1934 e 1950, período de

195

formação tanto da instituição quanto das primeiras turmas (CAPELATO et al, 1994, p. 351). No entanto, durante esse mesmo período, a concepção historiográfica dos Annales esteve longe de ser veiculada apenas por esses difusores responsáveis por desenvolver atividades na área do conhecimento histórico. Examinando o depoimento oferecido por Aziz Ab’Sáber (1994, p. 228), podemos verificar que o geógrafo francês Pierre Monbeig, responsável por lecionar em São Paulo entre os anos de 1935 e 1946, também introduziu na FFCL-USP o conhecimento “dos grandes historiadores, dotados de boa formação geográfica como Lucien Febvre, Marc Bloch e André Sigfried”. Nesse mesmo testemunho, o geógrafo brasileiro afirma que Monbeig mantinha os alunos informados acerca dos dramas, responsáveis por assolar as famílias de geógrafos e historiadores franceses durante a II Guerra. Segundo ele, o assassinato de Marc Bloch pelos nazistas, nos arredores de Lyon, por exemplo, teria sido noticiado por esse geógrafo francês (AB’SÁBER, 1994, p. 229). Como professor de geografia, Monbeig não deixou de difundir, também, as obras e as idéias de alguns dos melhores geógrafos franceses do seu tempo, tais como Vidal de La Blache, Albert Demangeon, Max Sorre, Emmanuel de Martonne (AB’SÁBER, 1994, p. 228).

Toda essa filiação manifestada por Monbeig em relação aos Annales e à escola geográfica francesa – representada por geógrafos como Vidal de La Blache e Albert Demangeon, autores que influenciaram bastante a perspectiva historiográfica forjada por esse movimento – acabou sendo abordada, também, em trabalhos acadêmicos. Fernanda P. Massi (1991, p. 223), por exemplo, afirma que, em seus cursos básicos de geografia humana, Monbeig indicava sempre como “bibliografia obrigatória Les príncipes de géographie

humaine e os volumes da Geografia Universal, de Vidal de La Blache, além de La terre et l’évolution humaine: introduction géographique à l’histoire, de Lucien Febvre”. Consultando,

novamente, os índices com as publicações impressas pela revista dos Annales, identificamos que Monbeig imprimiu, durante o ano de 1932, um trabalho nesse periódico francês196. Tal colaboração não apenas reforça os vínculos que esse geógrafo teceu com a historiografia dos

Annales, mas também sugere que essa aproximação com essa concepção historiográfica

ocorreu mesmo antes de sua chegada ao Brasil.

Com o retorno de Monbeig à França, suas funções foram ocupadas por outros geógrafos franceses, que permaneceram pouco tempo à frente das atividades desenvolvidas na

FFCL-USP: Roger Dion, substituto imediato de Monbeig, permaneceu somente durante o ano

de 1947, enquanto Pierre Gourou e Louis Papy lecionaram, respectivamente, nos períodos

196 MONBEIG, Pierre. Vie de relations et spécialisation agricole: les Baléares au XVIIIe siècle. In: Annales

letivos de 1948-1949 e 1950-1951(ARAÚJO FILHO et al., 1989, p. 27). Todos esses geógrafos também chegaram a publicar na revista dos Annales, porém, essas colaborações não são muito freqüentes e datam todas da década de 1950. De toda forma, elas não deixam de ser sintomáticas, naquilo que se refere aos processos de difusão e recepção da historiografia dos

Annales no Brasil. Toda essa relação que a geografia uspiana teceu com esse movimento

historiográfico, pode ser comprovada, também, através das publicações impressas em revistas especializadas como o Boletim Paulista de Geografia. Nesse periódico, marcado por reservar um espaço considerável para a cultura geográfica francesa, o geógrafo uspiano Aroldo de Azevedo apresentou, em 1950, uma resenha sobre a tese de Braudel (La Mediterranée et le

Monde mediterranée à la époque de Philippe II), que havia sido publicado há pouco na

França197. Sem dúvida, todos esses aspectos relacionados ao desenvolvimento da Geografia na FFCL-USP demonstram que a difusão da historiografia dos Annales no Brasil foi feita, ainda, por agentes situados em outros campos de saber. A explicação para os geógrafos destacarem-se, também, enquanto difusores dessa concepção historiográfica, está relacionada, certamente, ao fato de que o curso de História e Geografia não era desmembrado durante todo esse período definido como de formação da instituição e das primeiras turmas.

Nessa primeira fase, distinguiram-se, ainda, como possíveis difusores, os franceses Roger Bastide e Charles Morazé, que atuaram, respectivamente, como professores da cadeira de Sociologia e Ciência Política. O primeiro deles permaneceu no Brasil por um período mais longo, pois chegou a São Paulo em 1938 e retornou ao seu país somente em 1953. Consultando os índices das revistas dos Annales, podemos identificá-lo como um interlocutor desse grupo, já que sua primeira publicação, nesse periódico, imprimiu-se durante o ano de 1948, sendo, posteriormente, seguida de várias outras colaborações198. Charles Morazé, por sua vez, permaneceu por um tempo mais curto, trabalhando entre os anos letivos de 1949 e 1950. Sua primeira publicação nos Annales data de 1943, portanto, um pouco antes da sua vinda a São Paulo199. Tanto essa sua colaboração quanto a de R. Bastide não deixam de ser significativas, pois demonstram, pelo menos, certa aproximação com esse grupo dos Annales.

O ano de 1950 demarcou não apenas a fundação da RH, mas também o fim desse período de formação da instituição e das primeiras turmas. A partir desse momento, os professores franceses são contratados, sobretudo, como visitantes e não mais como

197

AZEVEDO, Aroldo de. “La Mediterranée et le Monde mediterranée à la époque de Philippe II”. In: Boletim

Paulista de Geografia, n° 5. São Paulo: Empresa Gráfica Revista dos Tribunais Ltda, 1950, p. 68-69.

198 BASTIDE, Roger. Dans les Amériques noires: Afrique lou Europe?. In: Annales. E.S.C., année 3, n° 4. Paris: Armand Colin, 1948, p. 409.

199 MORAZÉ, Charles. La monnaie, un grand livre française. In: Mélanges d’histoire sociale, n° 3. Paris: Armand Colin, 1943, p. 29.

catedráticos. Nesse novo contexto, porém, a FFCL-USP continuou recebendo historiadores próximos aos Annales, que lecionaram por períodos bem mais curtos do que os anteriores. Frédéric Mauro esteve no Brasil entre 1953 e 1955, sendo que sua primeira publicação na revista dos Annales é de 1948; Maurice Lombard lecionou aqui em 1954 e publicou nesse periódico em 1947; Marcel Bataillon, por sua vez, trabalhou em São Paulo durante o ano de 1953 e colaborou nessa revista francesa já em 1944; já Philippe Wolff desenvolveu suas atividades na faculdade em 1952, sendo sua primeira publicação nesse suporte, de 1945200. A esses historiadores franceses, somaram-se Vitorino de M. Godinho e Joaquim B. de Carvalho, dois historiadores portugueses também bastante próximos desse grupo dos Annales. O primeiro deles lecionou no Brasil durante o ano de 1954, enquanto o segundo esteve em nosso país, com esses mesmos propósitos, no intervalo que vai de 1964 a 1970. De acordo com o levantamento empreendido, constatamos que ambos os historiadores publicaram nos Annales antes de suas respectivas vindas para São Paulo: Godinho ofereceu a sua primeira colaboração